sexta-feira, 9 de agosto de 2013

1 757 - UNITA e FNLA para fora de Luanda


Capa do Diário de Lisboa de 9 de Agosto de 1975

Luanda, a 9 de Agosto de 1975, acordou com «violento tiroteio de armas ligeiras e pesadas, à medida que se generalizava uma ofensiva desencadeada pelo MPLA, com intenção de desalojar os últimos militares e políticos da FNLA, que se encontravam instalados no luxuoso Bairro do Saneamento, por detrás do Palácio do Governo».
O bairro era, recordo da leitura do Diário de Lisboa desse dia, que cito, «o último reduto da FNLA na cidade», com o Forte de S. Pedro da Barra. Na véspera, para Lisboa, partira Paulo Jorge, do MPLA, para «manifestar desagrado pela presença da FNLA no Governo de Transição» - aliás, «um Governo inoperante», como era reconhecido pelo Alto-Comissário Interino, general Ferreira de Macedo - a substituir Silva Cardoso, chamado a Lisboa.
O mesmo dia 9 de Agosto, há precisamente 38 anos, era tempo para «a retirada total das forças da UNITA, que se dirigiram para o Lobito e Nova Lisboa». Em Luanda, ficaram apenas os seus dirigentes políticos. 
Ao tempo, e leio agora no Livro da Unidade, os Cavaleiros do Norte, estacionados no Grafanil, estavam como «unidade de reserva da RMA», depois de «um curto período de repouso, o arranjo de viaturas e ocupar de novas instalações».
Um das suas raras intervenções terá sido no Bairro do Saneamento, onde «acudiu» a uma companhia portuguesa, recém-chegada de Lisboa e entalada entre fogos do MPLA e da FNLA. Uma estreia marcante para estes homens. De tal forma, que completo o batalhão, quiseram de imediato regressar a Portugal. Mas por lá ficaram, julgo que até à independência.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

1 756 - Os dias de Agosto dos Cavaleiros do Norte...

Luanda à noite, em foto de Jorge Oliveira (1974). Notícia do Diário de Lisboa, sobre a Luanda de 8 de Agosto de 1975



A 7 de Agosto de 1975, forças do MPLA expulsaram 300 militantes da FNLA de Luanda. «Foram neutralizados e evacuados», noticiava a Reuter, citando Iko Carreira, membro da Junta Política do movimento liderado por Agostinho Neto.
Os «fnla´s», segundo Iko Careira, que falava em Brazaville, «tinham sido introduzidos na capital angolana com o objectivo de ocuparem o poder, pela força, iniciando essa operação com o domínio de pontos estratégicos». Mas, sublinhava o dirigente do MPLA, «a tomada eventual da capital, por soldados da FNLA, como anuncia determinada imprensa, não se registará, porque nós vamos opor ao invasor a resistência popular generalizada».
Era nesta Luanda que os Cavaleiros do Norte faziam o seu dia-a-dia, restringidos ao espaço que fora do Batalhão de Intendência, no Grafanil, vindos do ferro e fogo de Carmona e do Uíge. Uíge e Zaire, províncias do norte de Angola, que, disse Iko Carreira na mesma conferência de imprensa em Brazaville, «foram invadidas por forças da FNLA».  
Por mim, nos tempos livres das obrigações militares, folgava e procurava familiares e amigos na imensa capital angolana. Ora nas suas residências, ora no aeroporto - quando nelas não os encontrava. Desses (não) achamentos ia dando conta, por aerograma, a minha mãe - que fazia de intermediária dos familiares que, em Portugal, deles queriam notícias. Não eram fáceis as comunicações daquele tempo. Nada que tenha a ver com o que hoje é instantâneo, desde que tenhamos um telemóvel na mão.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

1 755 - A horta biológica dos Cavaleiros do Norte

Emblema do Batalhão de Intendência, no Grafanil (em cima), e monumento ao Soldado Português, no mesmo campo militar dos arredores de Luanda (em baixo). Fotos de Jorge Oliveira



Luanda, 7 de Agosto de 1975. É uma 5ª.-feira e, chegados na véspera, os Cavaleiros do Norte tinham já dormido sobre o cansaço e «assentado» no Batalhão de Intendência que, como melhor se pôde, foi higienizado por quem lá chegou a 3, domingo anterior.
«O sítio onde era o refeitório, com restos da última refeição de quem de lá tinha partido. Cozinharam, comeram e depois f..., nós vamos para o puto, quem vier que lave a loiça. Tinha de ser limpo e foi o que fizemos, pois iria continuar a ser o refeitório», relata o Rodrigues, lembrando a nossa chegada ao Grafanil - no dia 3 de Agosto. Para dar ideia de como estavam as instalações, limpas entre os dias 4 e 5.
«Atrelados de unimogs foram carregados à pá, com o lixo todo que lá ficou, até cogumelos já tinham nascido nos restos da comida», evoca o Rodrigues, considerando que tal «hoje, seria considerada uma horta biológica», mas que «limpar aquilo tudo, lavar tachos e panelas, pratos e companhia limitada, foi trabalho que não podíamos deixar de fazer»
Os Cavaleiros do Norte da coluna de Carmona chegaram a 6 de Agosto e «aquilo já estava em condições de o pessoal comer, embora a comida fosse pouca, limitada ao que tínhamos», como lembra o Rodrigues e eu confirmo. 
Ninguém comeu ração de combate - a pior coisa que lhes poderia acontecer, depois dos quase três dias de coluna. «Penso que, mesmo no centro de Luanda, a comida era restrita», relata o Rodrigues. Era mesmo.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

1 754 - A chegada dos Cavaleiros do Norte ao Grafanil


Militares do BCAV. 8423 na coluna de Carmona para Luanda

Os Cavaleiros do Norte chegaram ao Grafanil pelas 12 horas de 6 de Agosto de 1975, após 570 quilómetros de problemas e 58,45 horas depois da saída de Carmona, «trazendo entre 700 e 800 viaturas», que demoraram 45 minutos a escoar. A coluna fora sobrevoada por dois aviões FIAT e um heli (com uma reportagem da BBC), antes de passar em Catete - a poucos quilómetros do Grafanil.
«Terminou, assim, a odisseia de milhares de civis que, à chegada a Luanda, choraram por se sentirem salvos», relata o Livro da Unidade.
O Diário Lisboa, na edição de 7 de Agosto e referindo-se à véspera, noticia, em despacho de Luanda e citando a 5ª. Divisão do EMGFA, que «chegou a esta cidade a coluna vinda de Carmona e Negage (...), constituída por 650 viaturas civis, que transportavam cerca de 3000 pessoas». Viaturas militares eram150, refere a nota, que «transportavam a escolta ida de Luanda, para proteger a coluna no regresso a esta cidade, e também as as forças do batalhão que não tinham sido evacuadas por via aérea».
Luanda, a 6 de Agosto de 1975, acordou com «alguns rebentamentos esporádicos na zona da Petrangol»
A FNLA, no mesmo dia e em Benguela, acordou em retirar da cidade - após o cessar-fogo com o MPLA. Já tinham sido acordados dois, ambos quebrados. O mesmo (cessar-fogo) acontecera  em Malanje e Lobito, na véspera. Menos pacíficas estavam as coisas no Caxito, a apenas 60 quilómetros de Luanda, onde se registaram recontros entre os dois movimentos - que «utilizaram blindados e morteiros, numa guerra tradicional de posição».

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

1 753 - A 5ª. Divisão fala dos Cavaleiros do Norte

Militares portugueses com civis, na coluna de Carmona para Luanda: NN, 
1º. cabo Mendes, M. Deus (3ª.), soldado Santos e furriel Guedes, todos da 2ª. CCAV. 8423


A 5 de Agosto de 1975, a coluna militar saída de Carmona, «agora com  cerca de 700 viaturas», dirigiu-se de Samba Caju (onde pernoitou e de onde saiu às 6,30 horas) para Vila Flor, onde chegou por volta das 11 e onde se juntaram mais viaturas de civis. Estava-se a entrar em «terra de ninguém» - passagem da zona de influência da FNLA (as províncias do Uíge, de onde vinham os Cavaleiros do Norte, e do Zaire) para a do MPLA.
Em Luanda, a 5ª. Divisão do Estado Maior General das Forças Armadas, em comunicado das 19 horas, dá conta que na capital e na zona do Caxito «a situação não se alterou». E finalmente fala do BCAV. 8423, referindo que «em cumprimento do plano de retracção do dispositivo das Forças Armadas Portuguesas, foram retiradas as nossas tropas» de Carmona e do Negage.
O comunicado frisa que «como é habitual, grande parte da população civil acompanha a tropa portuguesa».
«A coluna, constituída por centenas de viaturas e que se estende por vários quilómetros, saiu ontem de Carmona e do Negage. Aguarda-se a sua chegada amanhã, a Luanda. Serão fornecidos, oportunamente, os elementos concretos sobre esta coluna», referia o comunicado.
Um despacho da Reuter dá conta de combates em Cabinda, entre o MPLA e a FNLA, com morteiros e armas automáticas.

domingo, 4 de agosto de 2013

1 752 - Adeus a Carmona, manifestações e tiros em Luanda

Fila para comprar bilhetes na TAP em Luanda (Foto 
de  «A Vertigem da Descolonização», do general Gonçalves Ribeiro

A 4 de Agosto, pelas duas horas da madrugada, toda a máquina do BCAV. 8423 se pôs em movimento, para o arranque, às cinco da manhã - de Carmona para Luanda. Mas «a incomprensão dos civis gerou o primeiro problema com a FNLA», que não os quis deixar sair da cidade, bloqueando-os na saída para o Negage. 
Foi o primeiro dos muitos problemas que a coluna militar dos Cavaleiros do Norte viria a ter, até às 12,45 horas de 6 de Agosto, quando chegou ao Grafanil - felizmente sem baixas. Já por aqui, em postagens destas datas de anos anteriores, reportámos essa epopeia. 
A CCS e a 1ª. CCAV., no Grafanil, faziam a limpeza dos espaço reservado ao BCAV. 8423 - o do Batalhão de Intendência. Passando na cidade, eram notóriaS as bichas, de centenas de metros e à porta das agências de viagem, à procura de bilhetes para Lisboa. 
«Milhares de colonos portugueses manifestaram-se hoje na capital angolana, pedindo o aceleramento da ponte aérea, que deve a evacuar para Lisboa até 300 000 brancos, antes da independência», noticiava o Diário de Lisboa de 5 de Agosto, reportando-se à véspera. 
Nesta, ainda segundo o DL, «3000 a 4000 colonos concentraram-se num bairro residencial, empunhando cartazes em que se lia «povo americano, povo inglês, queremos ir embora». Depois, acrescenta o jornal, «a maior parte deles desfilou até ao consulado dos Estados Unidos, onde uma delegação solicitou auxílio para o seu repatriamento»
A France Press, por seu lado, dá conta (no mesmo dia) que «segundo números oficiais, será preciso evacuar mais de 500 000 pessoas» e assinala contactos dos populares também com os consulados de França, Itália, Bélgica e Brasil.
O recolher obrigatório mantinha-se na cidade, a partir das 21 horas e, segundo a Comissão Coordenadora do MFA, em Luanda, as patrulhas portuguesas dispararam sobre viaturas que não pararam nas barreiras de controle. Uma patrulha portuguesa foi alvejada.
Silva Cardoso, chamado Lisboa, afirmou que «já não acredito nos homens, principalmente nos políticos».
"Estou cansado da mentira, das falsas promessas, das atitudes de fachada. Venho cansado da miséria, de ver a miséria, de ver o ódio. Cansado de ver o desespero. Venho cansado do egoísmo, da crueldade e da ambição desmedida», disse o alto-comissário.
Otelo Saraiva de Carvalho, também de regresso a Lisboa, apontava o capitalismo como o grande inimigo de Angola e da revolução portuguesa. «Portugal ainda pode vir a sofrer o ataque cerrado à revolução e ao MFA, que o capitalismo internacional está a desencadear em Angola, que está já a sofrer e a sofrer com amargura», disse Otelo Saraiva de Carvalho, há precisamente 38 anos. Ele, a a falar em Lisboa e os Cavaleiros do Norte na epopeica marcha para Luanda.
Ver AQUI e postagens seguintes

sábado, 3 de agosto de 2013

1 751 - A chegada ao Grafanil, 3 de Agosto de 1975...


Monumento ao Soldado Português, no Grafanil (em cima) e entrada do Campo Militar


Agosto de 1975, dia 3. Um domingo! Duas levas de um DC6 e dois Nordatlas, transportaram a CCS e a 1ª. CCAV. 8423, de Carmona para Luanda, de aeroporto para aeroporto. Depois, em berliets, para o Campo Militar do Grafanil, onde ocupam o Batalhão de Intendência. Abandonado e sujo! Sem comida para os (mais ou menos) 300 homens que chegam. É a primeira etapa da saída definitiva das NT de Carmona e do Uíge.
Manda a tropa desenrascar e cada qual desenrascou-se como pôde. Parte dos furriéis foi parar à messe de sargentos de Luanda, na avenida dos Combatentes -onde fomos recebidos como extra-terrestres, entre exclamações e perguntas: «São vocês o batalhão de Carmona?». O do «cavaleiro branco», assim era conhecido o comandante Almeida e Brito. Éramos já o último batalhão, em Angola, com formação militar pré-25 de Abril. Disciplinado, sem baldas!!! Não entendíamos a forma como se «vestiam» os militares que achámos por Luanda, mal uniformizados, desabotoados, misturando roupa civil, de chinelos, mal aparentados!
O comunicado da 5ª. Divisão  do Estado Maior General das Forças Armadas, em Lisboa, dava conta que «a situação em Luanda está absolutamente estacionária».Mas falava do conflito estendido a Benguela e Lobito, onde «é a primeira vez que alastra àquela zona». Do BCAV. 8423, nem uma linha. E estava em plena operação de retirada de Carmona.
Fala, isso sim, do «estado psicológico das populações branca e negra», nomeadamente em Luanda, que considera «francamente mau», e regista que «neste momento é tremendamente difícil, senão impossível, conseguir que as pessoas tenham estabilidade para se manterem em Angola».
A onda de violência que se espalhava por Angola, levou a 5ª. Divisão a, no seu comunicado de 3 de Agosto de 1975, falar em «saques, roubo, violações, toda uma onda de violência que temos tentado controlar o mais possível, tendo-o efectivamente conseguido em determinados locais, nomeadamente em Luanda».  Mas, acrescenta o comunicado das 19 horas de 3 de Agosto, «há outros locais onde a nossa tropa já não está e,  portanto, quando lá chega, já essas acções de verificaram, condicionando, assim, uma instablidade muito grande».
«As populações estão tremendamente traumatizadas, pelo que se afigura extremamente difícil que continuem aqui», frisava a 5ª. Divisão, admitindo que «neste momento, poderemos encarar a hipótese de haver pelos menos 250 000 pessoas que regressam a Portugal» - através de uma ponte aérea.
A noite de Luanda, soubemos depois, foi tempo para «intenso tiroteio, em pleno centro, pouco depois das 22 horas» - uma situação imediatamente controlada pela Polícia e Exército portugueses. Foi neste quadro e neste dia que, há precisamente 38 anos, chegámos a Luanda.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

1 750 - Dia de véspera do adeus a Carmona...

O PELREC, no Quitexe, 1974. Foi e regressou sem baixas. Felizmente!

A 2 de Agosto de 1975, hoje se passam 38 anos, véspera do nosso adeus definitivo a Carmona, cirandei pela cidade, com o Neto e outros, no tempo que sobrou das nossas obrigações militares. A guarnição, principalmente concentrada no BC12, estava tranquila, serena, ansiosa. 
Fiz a minha revisão dos 14 meses que, até aí, me tinham transportado ao chão uíjano, por terras de Quitexe e Carmona, com saltos a outras localidades - aonde nos mandou a jornada angolana. Senti uma enorme tranquilidade, uma imensa paz - emoções que foram partilhadas com os companheiros mais próximos, os furriéis milicianos e os bravos e sempre solidários companheiros do PELREC (foto).
Ao outro dia, 3 de Agosto de 1975, vamos para uma Luanda onde, nessa mesma tarde (soube-se depois), tinham sido feitos disparos contra os emissores da Base Aérea nº. 9. Descolaram dois helicópteros, para o que desse e viesse, mas não chegaram a actuar. 
A comissão coordenadora do MFA esteve reunida todo o dia. Carlos Fabião e Otelo Saraiva de Carvalho estavam na capital angolana desde finais de Julho e lá chegou o brigadeiro Sacramento Marques, com mandato do Conselho da Revolução. E falava-se na saída do alto-comissário, o general Silva Cardoso.
A 5ª. Divisão, em Lisboa, dá conta, na véspera (dia 1 de Agosto), que «as acções de fogo parece não terem atingido as proporções dos dois últimos dias», com Luanda e Caxito sem «modificações visíveis». Mas assinala «acções de fogo na Quibala e Gabela, onde a situação se agravou esta manhã». Na Gabela, estavam os meus familiares Cecília e Mário (irmãos) e os conterrâneos Clemente e Anacleto, com as respectivas famílias.
Malanje continua a ser palco de acções de fogo, «embora sem o volume dos últimos dias», mas «a situação da cidade é muito crítica, face à falta de água e as riscos de epidemia», devido à existência de muitos cadáveres não sepultados. Também há notícias de cadáveres abandonados nas ruas de Luanda.
Carlos Fabião, na capital, a 31 de Agosto, diz que «não seria permitida à FNLA a ocupação de Luanda», o que, em Carmona, irrita os dirigentes deste movimento, que despejam ódios sobre as NT. O estranho da consulta agora feita às notícias então publicadas pelo Diário de Lisboa (de que nos socorremos) é que raríssimamente há referências a Carmona - confirmando o que então se pensava e o comandante Almeida e Brito nos confirmou anos depois, em Coimbra: o BCAV. 8423 estava esquecido no norte de Angola. Esquecido pela RMA, pelo COPLAD, por todos, e «perigosamente alvo das queixas e ataques da FNLA, nomeadamente reivindicando os desequilíbrios de outros locais».
- RMA. Região Militar de Angola.
- COPLAD. Comando Operacional de Luanda.
- NT. Nossas Tropas.
Ver TEXTO sobre 2 de Agosto de 1975


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

1 749 - Carmona, Angola, 1 de Agosto de 1975


Fachada principal do BC12, vista do lado de Carmona (em cima) 

1 de Agosto de 1975, sexta-feira: a parada do BC12 está cheia de viaturas e tropas «comandos», vindos de Luanda, na véspera e no dia. Descubro, entre eles,  alferes Infante, meu conhecido de Lamego - onde ele um ano antes era instrutor do curso de Comandos. É gago, o Infante, e gagueja quando o reconheço: «Ééééés... tuuuuuu?».
Era eu, claro, e rapidamente trocámos impressões sobre o que se passava em Luanda, para onde partiríamos daí a dois dias! «Es-es-es-estááááá´... uma mer...mer...mer...», disse ele, já caminho do bar.
Não sabíamos então, mas sabemos agora: na véspera, tinham eclodido violentas confrontações entre o MPLA e a FNLA, em Porto Amboim, no Quanza Sul, porto de pesca a 400 quilómetros de Luanda, com armamento pesado e população em pânico - parte dela evacuada para o Lobito, no navio «Sofala». A 30, fôra em Novo Redondo - por onde eu passara em Setembro de 1974. Em Malanje, as 6 mil pessoas que se tinham refugiado nos quartéis portugueses, eram evacuadas para o sul de Angola, em comboios de 50 viaturas, escoltados pelas NT, durante 10 quilómetros. Por Luanda e Caxito, de que ontem falámos, «a situação era estacionária».
Na capital, continuava, porém, o exôdo dos civis: 4 aviões da TAP e um americano levaram mais de 2000 pessoas para Lisboa. A Luanda, chegavam milhares de cidadãos, idos das cidades e vilas do interior. Os consulados francês, italiano, belga e alemão aconselhavam os seus compatriotas a irem embora e reduziram o seu pessoal, embora continuando abertos. Saurimo, na Lunda, foi palco de graves confrontações entre o MPLA e a UNITA.
As NT, em Carmona, resistiam às provocações e exigências da FNLA e ouviam lancinantes e dramáticos apelos da população civil. Que se sentia «insegura, descrente e receosa de quaisquer represálias», como se lê no Livro da Unidade. E queriam integrar a coluna que se preparava.
A dois dias, isto, do início da retirada dos Cavaleiros do Norte, a última unidade militar portuguesa no chão angolano do Uíge. O dia 1 de Agosto era também o de aniversário de minha irmã mais velha, a Ana Maria - que daí a dias seria mãe do seu segundo filho (a Marta), meu terceiro sobrinho.
Dados recolhidos do Diário de Lisboa

quarta-feira, 31 de julho de 2013

1 748 - Julho, aos 31 dias de 1975, em Carmona...


Parada do BC12, vista do edifício do comando, em meados de 1975


A 31 de Julho de 1975, a operação Luanda começou a materializar-se em Carmona com «a chegada de viaturas de de tropas de reforço» - uma Companhia de Comandos, que se aquartelou no BC12, e uma de Paraquedistas, que ficou na base aérea do Negage.
O percurso, já se sabia, seria pelo Negage e Salazar, pelo Dondo, a mais longa - em detrimento da conhecida estrada do café. O Caxito,a  53 kms. de Luanda, estava ocupado pela FNLA, também acantonado no Ambriz, onde o presidente Holden Roberto, segundo o Diário de Lisboa da época, declarava que «o assalto contra a capital angolana deveria verificar-se nos próximos dias».
A mesma fonte referia que as forças da FNLA, calculadas em aproximadamente 8000 homens, «faziam uma pausa e reagrupamento das suas bases (em rectaguarda), para o ataque à capital», embora enfrentasse «problemas de abastecimento das suas tropas, em munições e carburante (para os blindados) e alimentos».
Iria tentar entrar «numa região quase totalmente fiel ao MPLA», onde enfrentaria não só as FAPLA «mas igualmente uma população armada que, segundo certos meios, deverá opor uma grande resistência e onde Quifangongo e Cacuaco seriam os pontos fortes».
O Diário de Lisboa de 30 de Julho de 1975 dá também conta que «as foras da FNLA parecem utilizar o método chinês, nos combates ofensivos, com provas dadas na Coreia e no Vietname e que consiste em procederem, antes, a um «amolecimento» da região, pelo emprego maciço de morteiros pesados», prevendo por isso, que «as destruições seriam importantes ao longo da estrada que vai do Caxito a Luanda» - a do café.
As FAPLA, essas e ainda segundo o Diário de Lisboa, «beneficiarão de um conhecimento perfeito do terreno, graças ao «poder popular» - populações armadas em grupos de auto-defesa, que as apoiará, e à guerra convencional poderiam opor igualmente um género de guerrilha urbana que, em geral, diz-se, sai caro em homens contra quem é aplicado».
Os observadores «estão reduzidos a simples suposições e apenas o futuro dirá se a batalha de Luanda terá efectivamente lugar e em que condições», reportava o DL. 
Luanda que, citamos o jornal, continuava com «atmosfera pesada» e que «os portugueses estão agora a abandonar ao ritmo de 3 000 pessoas por dia».
Era para essa capital que os Cavaleiros do Norte iriam fazer a sua rotação final, desde Carmona.

terça-feira, 30 de julho de 2013

1 747 - Os nossos louvados homens do parque-auto!...

Militares do Pelotão-Auto da CCS do BCAV. 8423, Atrás, NN, Canhoto, Miguel, NN (mecânico), Gaiteiro e NN. A seguir, Picote (mãos nas ancas, a rir), Teixeira (pintor),  NN (atrás), Serra (mãos no cinto), Pereira (mecânico), 1º. sargento Aires (de óculos), alferes miliciano Cruz (de branco), Frangãos (Cuba), furriel miliciano Morais (de óculos), Joaquim Celestino (condutor), NN (condutor), NN (condutor) e Vicente. Em baixo, Domingos Teixeira (estofador), Marques (Carpinteiro), Madaleno (atirador) e Esgueira.
Quem ajuda a identificar os NN?


A 30 de Julho de 1975, o comando militar o português informou a FNLA da nossa saída de Carmona, que começaria a processar-se a 3 de Agosto seguinte - um domingo. A comunicação foi feita em reunião do Estado Maior Unificado - seguramente a última.
Numa fona, por esse tempo, andava o pelotão-auto, que tinha em mãos a operacionalidade de toda a frota militar, que iria partir para Luanda, como, depois, integrando a caravana, a missão de dar assistência aos quilómetros de viaturas que, desde Carmona, foram engrossando a coluna.
Os briosos e competentes homens do parque-auto estiveram ao nível - comandados pelo alferes miliciano Cruz, por sua vez assessorado pelo 1º. sargento Aires e pelo furriel miliciano Morais. A tal competência e disponibilidade estiveram que receberam louvor colectivo, publicado na ordem de Serviço 181, por proposta do capitão Oliveira, o comandante da CCS, citando «a equipa de mecânicos auto-rodas do pelotão de manutenção auto deste batalhão».
O seguinte:
«O decurso da comissão deu ocasião a verificar que, de um modo geral, o conjunto de mecânicos auto-rodas da CCS/C»BCAV constituiu equipa de trabalho com espírito de entreajuda e sacrifício, procurando tirar o máximo de rendimento do seu labor, ao mesmo tempo que, torneando dificuldades inerentes ao muito uso das viaturas e às faltas constantes de sobressalentes, conseguiu que das mesmas se obtivessem condições de utilização em tempo oportuno e muito aceitáveis. 
Não se pretendendo distinguir uns, esquecendo outros, aqui fica o público agradecimento do seu trabalho».
Individualmente e na mesma Ordem de Servço 181, foram louvados o 1º. cabo pintor Teixeira e os soldados condutores auto-rodas Miguel Ferreira, Joaquim Celestino da Silva e José António Gomes.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

1 746 - O Domingos que pintava e o Gaiteiro convalescente...

Teixeira (pintor), Sousa Cruz (alferes) e Gaiteiro (condutor), 38 anos depois do Uíge

A 29 de Julho de 1975, lá por Carmona, os comandos militares portugueses reuniam para ultimar a operação de saída para Luanda. Agora, 38 anos depois, encontraram-se três homens da «ferrugem», os do parque-auto: o (então) alferes miliciano Cruz, o 1º. cabo Teixeira e o soldado condutor Gaiteiro. Aí estão eles, fresquinhos que nem alface, na imagem que se pode ver em cima.
A coisa foi assim: andava o alferes Cruz para entregar ao Gaiteiro as garrafas de vinho e a caneca do encontro de Santo Tirso e pôs-se a caminho - na última 5ª.-feira, dia 25 de Julho. O inimitável Gaiteiro, por motivos de saúde, não tinha podido lá estar connosco e, conta o «nosso alferes» Cruz que «foi com muita satisfação que o encontrei bem disposto,  como sempre».
«Ou melhor... - acrescentou o (nosso) antigo oficial miliciano - todo gaiteiro e já com os problemas de saúde praticamente ultrapassados».
O Gaiteiro apareceu com a sua senhora e tem dois filhos casados e 4 netos, de quem está «tão orgulhoso e vaidoso», tanto, tanto, tanto... que, deles, teve de mostrar as fotografias por três vezes.Três vezes!!!!, tal e qual, não foi ó Gaiteiro?  
A surpresa do «nosso alferes» estava, porém, para aparecer: de nome Teixeira e pintor que foi da CCS.
O Teixeira mora por aqueles lados e a dupla quitexana pôs-se a caminho para ver se o encontrava em casa. E encontrou.
«Reconheço que não o reconheceria, se o encontrasse na rua, embora alguns dos traços de há 40 anos... lá estivessem. É que está com uns bons quilos a mais, embora, como me disse, já esteja a ir ao sítio...», contou Sousa Cruz, dando conta, igualmente, que «foi um gosto vê-lo ao fim de tantos anos e ver, também, que está bem e que, como todos nós, está na luta e só aguarda melhores dias». 
«O neto é um vivaço e se tivesse que ir para a tropa, como nós, iria dar um grande tropa como o avô», concluiu o «nosso alferes».
 As respectivas senhoras, a do Teixeira e a do Gaiteiro (que conhecemos), «com muita simpatia», contou Sousa Cruz que «prometeram aparecer no próximo encontro».
- CRUZ. António Albano de Araújo Sousa Cruz, alferes miliciano mecânico da CCS. Engenheiro aposentado, residente em Santo Tirso.
- TEIXEIRA. Agostinho Pinto Teixeira, 1º. cabo pintor da CCS. Aposentado, morador no Freixieiro, em Perafita (Matosinhos).
- GAITEIRO. Américo Manuel da Costa Nunes Gaiteiro, soldado condutor. Aposentado, residente em Rio Tinto. Ver AQUI notícias do seu estado de saúde.
 

domingo, 28 de julho de 2013

1 745 - A preparação da operação de saída de Carmona

Parada do BC12, nos últimos dias das NT em Carmona

A 28 de Julho de 1975, uma segunda-feira, elementos do QG/RMA reuniram-se em Carmona com o comando do BCAV. 8423, com o objectivo de preparar a operação de regresso a Luanda. Por outras palavras, a saída de Carmona da última guarnição portuguesa - que por lá era menos bem tratada e muito menos reconhecida, sistematicamente alvo de críticas e ofensas.
A 23, dias antes e já com o mesmo objectivo, já se realizar idêntica reunião - que se repetiu a 29 - a terça-feira seguinte.
O ambiente geral escaldava pela cidade e o facto de ser conhecida a saída das NT, mais ousou o «afiar de navalhas» da população europeia. Se bem que, e é justo tal sublinhar, houve excepções.
Os Cavaleiros do Norte desde a sua chegada a Carmona que tinham rigorosas instruções no sentido de ignorar as provocações, mas nem sempre tal acontecia.
Em Luanda, depois de várias semanas de combates, o MPLA controlava a situação e era no Uíge, sua zona natural, que a FNLA queria impor as suas regras. «Construir uma Angola nova, em ambiente de paz e fraternidade», como um ano antes (a 27 de Julho de 1974) proclamara o Presidente Spínola e a Junta Militar de Angola, parecia não passar de um projecto de intenções. A linguagem entre os movimentos era a das armas.




sábado, 27 de julho de 2013

1 744 - Os dias de Luanda, nas vésperas da nossa chegada...

Primeira e última páginas do Diário de Lisboa de 26 de Julho de 1975. Falam de Angola  

A imprensa portuguesa de Lisboa dava conta, na edição da 26 de Julho de 1975, da situação em Angola: o MPLA «proclama resistência popular», como se lê na primeira página do Diário de Lisboa. A FNLA de Holden Roberto «declarou guerra total», como se lê na última página. Em Cabinda, a FLEC anunciou «um governo revolucionário» . ainda nesta última página. No Uíge, em Carmona e agora dizemos nós, os Cavaleiros do Norte preparavam-se para a operação de saída. 
A guarnição mantinha-se expectante e emocionalmente controlada, reagindo serenamente ao mar de provocações e insultos civis, que repetidamente se ouviam nas ruas, cafés, bares e restaurantes da cidade. Até nos cinemas. E às irresponsáveis ameaça da FNLA, «senhora e dona do Uíge», depois dos incidentes dos primeiros dias de Junho, que levaram à saída do MPLA.
De Luanda, via aerograma, chegavam-me notícias do Alberto Ferreira, 1º. cabo especialista da Força Aérea, em, serviço na base aérea: «Isto está uma m..., uma m... que eles querem». E falava-ne na sua próxima partida para Lisboa, em fim de comissão.
  

sexta-feira, 26 de julho de 2013

1 743 - O louvor ao Batalhão de Cavalaria 8423

A 25 de Julho de 1975, Dia da Cavalaria, soube-se em Carmona que fora proposto à RMA «público louvor para o BCAV. 8423», lendo-se no Livro da Unidade que tal facto  foi «para orgulho de todos nós, pois que tal se deve aos oficiais, sargentos e praças».
O louvor foi publicado na Ordem de Serviço nº. 68, da RMA, a 26 de Agosto de 1975 e é do seguinte teor: 

Louvor

Louvo o BCav 8423 porque durante o tempo em que prestou serviço no Norte de ANGOLA, nas áreas do QUITEXE e de CARMONÁ, manifestou sempre uma grande determinação, uma constante vontade de bem cumprir, um elevado espírito de disciplina e uma noção perfeita de como uma Unidade se deve adaptar às tarefas que haja que executar de perfeita harmonia com as determinações dos seus superiores hierárquicos.
Da sua acção muito beneficiaram as populações locais de todas as etnias pois pelo justo e equilibrado tratamento das missões que o BCav 8423 cumpriu ressaltaram, além das características já referidas, a aplicação de um espírito humanitário que o guindou a posição de grande admiração e respeito pela forma como conseguiu, em atitude de perfeita isenção, proteger todos os que às suas instalações se acolheram e posteriarmente manter a mesma atitude, para, finalmente, cumprir com brilhantismo uma das que certamente foi a sua mais delicada e difícil tarefa.
Da acção de todas as suas Praças, Sargentos e Oficiais se fica a dever, tanto na área do QUITEXE como na de CARMONA, o estabelecimento de um clima de segurança efectiva pelo que é com a maior justiça que em simples louvor se leva ao conhecimento de todos a forma como o BCav cumpriu a sua missão, dentro do maior espírito de disciplina, evidenciando qualidades hoje já muito raras, constituindo assim uma Unidade que mercê da acção do Comando e seus graduados nunca conheceu a chamada crise de disciplina, cumprindo exemplarmente todas as tarefas de que foi incumbido, grande parte delas em período muito sensível do 

processo de descolonização de ANGOLA.

RMA. Região Militarde Angola.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

1 742 - O Dia da Cavalaria e os últimos dias de Carmona...


Parada do BC12, nos nossos últimos dias de Carmona  - com chegada de muitos 
refugiados, em Julho de 1975. Em baixo, vista aérea do quartel, com a estrada para o Songo

A 25 de Julho de 1974, com «o ambiente ligeiramente desanuviado, conseguiu-realizar-se a desejada coluna a Salazar, em terceira tentativa» e, leio no Livro da Unidade, «fez-se o seu regresso e o do pessoal que tínhamos em Luanda» no dia seguinte. A 26.
A coluna, recordemos, tinha sido impedida de sair nos dias 13 e 21 de Julho, obrigando a posição de força das NT, ante a FNLA - movimento armado do qual éramos «perigosamente alvo das queixas e ataques», que já nos tinha exigido armas e que «ressascava» dos «desaires militares em Luanda, Salazar e Malange».
A Carmona continuavam a chegar muitos refugiados da FNLA, desde o dia 14 de Julho. A 25, as NT celebraram o Dia da Cavalaria, «com a maior singeleza», rezando-se missa na capela da unidade, na presença do Brigadeiro e Chefe do EM do CTC», ao mesmo tempo que a Ordem de Serviço do dia «publicou uma simples mensagem», que transcrevemos, naq íntegra:
« Hoje e o Dia da Cavalaria.
De tradição, era uma data comemorada em todas as unidades, contudo o momento presente não permite pensar em festas.
Ao longo do tempo em que formámos a nossa unidade, sempre foi afirmado que era a "QUERER E SABER VENCER» que teríamos de traçar a nossa conduta.
Assim sucedeu, espera-se que assim continue a suceder no pouco tempo restante da nossa vivência como unidade independente da Cavalaria Portuguesa, sendo esta a lembrança e o desejo da data que hoje se comemora, com a plena convicção de que assim irá verificar-se».
Faltavam nove dias para abandonarmos Carmona!

quarta-feira, 24 de julho de 2013

1 741 - A chegada a Luanda do Almirante Vermelho...

Capa do jornal A Província de Angola de 24 de Julho de 1974 (em cima) e a Junta Governativa, com Rosa Coutinho (ao centro), ladeado pelo capitão de mar e guerra Leonel Cardoso e brigadeiro Altino de Magalhães (à esquerda), coronel Silva Cardoso e major Emílio Silva 

As notícias nem sempre chegavam ao Quitexe em tempo útil, mas, a 24 de Julho de 1974, soube-se que o almirante Rosa Coutinho chegaria ao outro dia a Luanda, para exercer o cargo de presidente da Junta Governativa de Angola. O assunto (ver imagem) era, de resto, tema de caixa alta do jornal «A Província de Angola» desse dia.
O Almirante Vermelho, como veio a ser conhecido, revelou-se ideologicamente próximo do PCP e tomou decisões controversas no seu consulado angolano. Era membro da Junta de Salvação Nacional e, em Luanda, foi aguardado por angolanos e portugueses, na sua esmagadora maioria brancos e anti-comunistas. Ainda no aeroporto, em declarações aos jornalistas, anunciou que se encontrava em Luanda para tratar da independência.
«Tenho o prazer de informar, em nome do senhor primeiro-ministro, que, em breve, a província gozará de um estatuto administrativo que lhe permitirá governar-se sem ser a partir do Terreiro do Paço ou do Restelo e, portanto, satisfazendo uma ambição que Angola há muito manifesta», disse Rosa Coutinho, que também prometeu  criar um banco em Angola que guardasse as reservas do país. Já no carro, o almirante iria justificar, aos militares que o acompanhavam, as suas promessas:
«Tinha de trazer um rebuçado para esta malta para ver se acalmam. Sei que a situação está um pouco quente e estas medidas podem constituir um tónico para a incerteza que naturalmente sentem. Sabem que vão perder privilégios, mas ganham noutros campos».
Nas proximidades do aeroporto, na estrada que liga ao centro da cidade, Rosa Coutinho lia uma frase, escrita em letras garrafais a tinta encarnada, e exibida numa enorme parede:
«Fora Coutinho! Não queremos cá comunistas!»
Minutos mais tarde, uma outra manifestação, gritando as mesmas palavras de ordem, esperava-o às portas do palácio, em Luanda. Nessa mesma manhã, o jornal «A Província de Angola» saía à rua com o título: «Vem aí o "Almirante Vermelho». 
Os tempos não iam ser os mais fáceis, como depois se soube.

terça-feira, 23 de julho de 2013

1 740 - A operação de retirada de Carmona...

Edifício do comando da Zona Militar Norte, no centro da cidade de Carmona - a ZMN. Em baixo, o furriel Rodrigues, da 3ª. CCAV. 8423, no parque-auto situado nas traseiras, nos últimos dias de Carmona e preparado para o que desse e viesse

A 23 de Julho de 1975,  aconteceram várias coisas menos boas em Carmona, por onde os Cavaleiros do Norte faziam os seus últimos dias da jornada uíjana. Uma delas, foi a reunião dos comandos militares portugueses com os responsáveis da FNLA - movimento que, a 13 e 21, tinham «impedido» a saída dos MVL para Luanda - o que gerou forte sentimento de revolta entre a guarnição. Guarnição não autorizada a reagir pela força das armas. A coluna viria a materializar-se no dia 25, já em terceira tentativa. A FNLA, nessa reunião de faz hoje 38 anos, anunciou imposições (querendo armas, por exemplo) que o comando português não aceitou.
Também a 23 de Julho, e já com uma data de saída marcada para Luanda (com início a 3 de Agosto), «esquematizava-se e montava-se uma operação para essa saída, que não se adivinhava fácil» e, por isso mesmo, motivou a «realização de reuniões de trabalho com elementos do QG/RMA, de modo a obter os meios necessários à execução de tal operação».
A tropa, que até aí já era «permanente alvo de crítica das populações brancas», mais de soslaio e de desconfiança passou a era olhada. Era vulgar, ao tempo e na cidade, sermos verbalmente agredidos e pouco simpaticamente olhados e comentados. Cobardes e traidores, era o mínimo que nos era chamado! Tempos amargos e perigosos, esses!
O Rodrigues, da 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala (companhia que por esse tempo aquartelava na ZMN, vinda do Songo), lembra-se bem desses amargos dias: «Foi daqui a nossa partida para Luanda e aqui passámos muitos maus momentos, com muitas noites sem dormir e sempre à espera de ataques e preparados para a defesa da guarnição. Naqueles tempos, o ambiente era de cortar à faca, em Carmona, com o conflito entre os movimentos e a nossa tropa, como tu bem conheceste», recorda ele, agora a viver a reforma na sua Vila Nova de Famalicão.
Ai se conheci!!! Eu e todos os Cavaleiros do Norte!!!
- FNLA. Frente Nacional de Libertação de Angola presidida por Holden Roberto.
- QG/RMA. Quartel General/Região Militar de Angola
- ZMN. Zona Militar Norte.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

1 739 - O arranjo da picada para Zalala...

Portas de Zalala, na picada da dita, em cima. Os furriéis Dias (mecânico) e Queirós com uma avaria na mesma picada, na imagem do meio. Na de baixo, a mesma via em Dezembro de 2012 (de Carlos Ferreir).  Clicar para a ampliar


Por estes dias de Julho de 1974, no chão uíjano, os Cavaleiros do Norte apoiavam (e protegiam) a JAEA nos trabalhos de reparação do troço Vista Alegre-Ponte do Dange, na estrada do café. 
A 18, por exemplo e como refere o Livro da Unidade, «iniciaram-se os trabalhos de reparação do itinerário para Zalala», a partir do Quitexe.
A estrada do café era (é) vital para a economia da província do Uíge. Escoava produtos (para Luanda e o seu porto, via exportação) e era a via utilizada para os abastecimentos - num vaivém de viaturas pesadas que dificilmente seria contabilizado ao dia e muito menos ao mês, ou ao ano! 
A rede estradal era importamtíssima, daí se entendendo a permanente preocupação da JAEA em permanentemente a melhorar, nomeadamente as que ligavam os principais aglomerados urbanos - fossem em asfalto, fossem em terra batida, por onde «cavalgámos» muitos e muitos milhares de quilómetros, em patrulhas, escoltas, reabastecimentos e serviços de toda a natureza.
Os trabalhos de arranjo da picada para Zalala ficaram concluídos a 23 de Agosto. 
- JAEA. Junta Autónoma 
de Estradas de Angola.

domingo, 21 de julho de 2013

1 738 - O Dia da Cavalaria comemorado no Quitexe

A 21 de Julho de 1974, o BCAV. 8423 comemorou o Dia da Cavalaria, no Quitexe, com cerimónia simples - da qual, aliás, nem tenho grande memória.
O comandante Almeida e Brito fez chegar uma mensagem às subunidades, nela sublinhando a figura do patrono Mouzinho de Albuquerque, que «tantos e tão bons exemplos deu à Pátria». Lembrava, também, que «a época é difícil, as solicitações são várias, o desentendimento entre os homens uma constante». Mas também referia que «estes factores não podem arrastar-se ao Exército».
Por isso mesmo, nesse Dia da Cavalaria de 1974, o comandante apelou para «o conceito de disciplina, o sentido de responsabilidade, lealdade e firmeza de atitudes, o desejo de cumprir, a agressividade do combatente, de modo a que possam os militares do BCAV. 8423 ser um desses muitos bravos que foram já imortalizados na afirmação do patrono de que «essas poucas páginas brilhantes e consoladoras que existem na história de Portugal contemporâneo, escrevemo-las nós, os soldados de África»
O Dia da Cavalaria foi instituído por despacho de 22 de Maio de 1961, sendo Ministro do Exército o brigadeiro Mário José Pereira da Silva - que achou por bem aprovar a proposta formulada pela Direcção da Arma de Cavalaria, mandando considerar como Patrono da Arma Joaquim Augusto Mousinho de Albuquerque, herói de Chaimite, e consagrar como dia da Arma de Cavalaria a data gloriosa de 21 de Julho, aniversário do combate de Macontene."
Ordem do Exército nº. 6, Iª série, de 31 de Maio de 1961

sábado, 20 de julho de 2013

1 737 - Contactos com a comunidade civil e guarnições militares

Aquartelamento de Sanza Pombo, onde, em 1974, estava a CCS do BCAV. 8324

A 20 de Julho de 1974, o comandante Almeida e Brito visitou a CCS do Batalhão de Cavalaria 8324, aquartelado em Sanza Pombo. Ao tempo, e pouco tempo depois da nossa chagada ao Quitexe (6 de Junho), o comando militar procurava estreitar relações com as autoridades e população civis e, muito naturalmente, com a comunidade militar da nossa zona de acção.
Nesse quadro se entendem as visitas aos povos de Aldeia e Luege (dia 6 de Julho), Quitoque e Quimassabi (a 10), com «as autoridades tradicionais e elevado número de fazendeiros, no Clube do Quitexe" (a 13), com populações e autoridades tradicionais de Aldeia Viçosa (1 26), ao Destacamento da Fazenda Negrão (a 7), à 3ª. CCAV. 8423 (a 15), à 2ª. CCAV. 8423 (a 26), à CCAÇ. 4145, em Vista Alegre (a 28) e Comando do Sector do Uíge (a 14, a 17 e a 31). Ou ao comando da PSPA/GR do Quitexe (a 3).
Ao dia, não sabíamos mas, em Luanda, novos incidentes e confrontos causaram 3 motos e o  Governador  Geral, general Silvino Silvério Marques, foi chamado a Lisboa, devido aos graves confrontos desses dias e a ser fortemente contestado pelas estruturas locais do MFA.
Os colonos brancos formaram a Frente de Resistência Angolana (FRA), como nomes como (o agora jornalista, professor e historiador) Jaime Nogueira Pinto, o coronel Santos e Castro, Vasco Silvério Marques e Pompílio Cruz, entre outros.




sexta-feira, 19 de julho de 2013

1 736 - Acabou a prevenção simples...

O BC12, em Carmona, e o bloco residencial onde se fixaram os furriéis da CCS dos Cavaleiros do Norte, nos últimos dias de Carmona. Em baixo, Mosteias, Viegas,  Bento, Cruz e Pires (de Bragança) na varanda desse edifício


A 18 de Julho de 1975, terminou o período de prevenção simples que, desde 12 anterior, se viveu no BC12, em Carmona. 
As razões tinham a ver com «as preocupações vividas do antecedente» e que, como  sublinha o Livro da Unidade, «continuaram a ser factores dominantes em Carmona, onde diariamente se verificaram factos que contrariavam a  chamada neutralidade activa» e que «retiravam toda e qualquer espécie de neutralidade às NT». Pior, um bocadinho: «Davam ainda ocasião a que se fosse permanente alvo da crítica das populações brancas, as quais se sentem marginalizadas e sem receberam quaisquer apoios ou segurança daqueles que ainda são, como afirmam, os lídimos representantes da autoridade portuguesa». Foi nesse quadro que se pôs o «fica não fica» do batalhão e a tensão entre as comunidades civil e militar - sem esta, alguma vez, recuar no seu estatuto de garante da segurança pública. 
Não era fácil, por tudo isso, o papel das NT, bem pelo contrário, permanentemente acusadas por todos - população civil branca e movimentos (nomeadamente o implantada FNLA) - de estarem ao serviço da outra parte.
Foi por estes dias que furriéis e sargentos da CCS abandonaram a messe do Bairro Montanha Pinto e se instalaram no bloco habitacional que se vê na foto (assinalado a amarelo), que ficava imediatamente antes do BC12 (a vermelho), à saída de Carmona, na estrada para o Songo.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

1 735 - Sair ou não sair de Carmona...

Furriéis da CCS e da 3ª. CCAV. 8423: Bento (atrás), Viegas, Carvalho, Flora, Capitão 
e Rocha (de pé), Ribeiro, Reino e Grenha Lopes, com o soldado Lages, do bar. O Guedes, em baixo




A 8 de Julho de 1975, completou-se a rotação da 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel, do Quitexe para Carmona, onde se instalou no BC12. Isto, «dada a necessidade de preparar uma maior presença na cidade»
O primeiro grupo de combate da guarnição comandada pelo capitão miliciano José Paulo Fernandes saíra a 1 de Julho, «abandonando-se, assim, mais uma povoação», como sublinha o Livro da Unidade. 
A 24 de Abril, desactivaram-se os aquartelamentos de Vista Alegre e Ponte do Dange - de onde saiu a 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala e do capitão Castro Dias. Que de Zalala, a mítica «mais dura escola de guerra», saíra definitivamente a 25 de Novembro de 1974 - quando de lá disseram adeus os últimos pelotões. 
As opções dos Cavaleiros do Norte, ao tempo e depois dos incidentes dos primeiros dias de Junho, não eram muitas. Ou ficar em Carmona até não se sabia quando, ou antecipar o regresso a Luanda. Questão que o Quartel General da Região Militar de Angola demorava a resolver. 
- CAPITÃO. Luís Ribeiro Capitão, furriel miliciano atirador de cavalaria, da 3ª. CCAV. 8423. É o único da foto que já faleceu, a 5 de Janeiro de 2010, vítima de doença. Era funcionário da REFER e residia em Vila Nova de Ourém.
- GUEDES. Victor Mateus Ribeiro Guedes, furriel miliciano de armamento pesado. Faleceu a 16 de Abril de 1998.
- OUTROS. Furriéis da CCS eram o Bento (que mora em França), o Viegas (em Águeda) e o Rocha (em Valadares, VN de Gaia) - os três no activo profissional. Da 3ª. CCAV. 8423: Carvalho, aposentado da PSP (no Entroncamento), Flora, aposentado da Caixa Geral de Depósitos (em Odivelas), Ribeiro, aposentado da EDP (em Vila Real), Reino, aposentado da GNR (no Sabugal) e Grenha Lopes, empresário (em Lisboa).

quarta-feira, 17 de julho de 2013

1 734 - O pelotão do alferes Carvalho em Carmona

O Matos, o Guedes (a beber) e o o Melo (em cima), o Letras, o Gomes e o Cruz, furriéis milicianos da 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa. O alferes Carvalho (em baixo)


A 17 de Julho de 1974 - hoje se passam 39 anos!!! -, a 2ª. CCAV. do Batalhão de cavalaria 8423 «cedeu» um grupo de combate ao Comando de Sector de Uíge (CSU), para, «em situação de diligência», efectuar «patrulhamentos na área suburbana da cidade de Carmona» - a actual Uíge, capital da província do mesmo nome.
A tal levou a situação que decorria, e cito do Livro da Unidade, «na sequência dos acontecimentos de Luanda». E o que é que se passava em Luanda? Passavam-se graves tumultos que, a esta data, se contabilizavam já em 16 mortos e 63 feridos. 
O pelotão que rodou para Carmona era comandado pelo alferes Domingos Carvalho e por lá tiveram problemas, que ele mesmo recorda, dando um exemplo: «Estávamos em intervenção e pôs-se uma situação delicada, por causa de um soldado de comandos que, na cidade, se exibiu com armamento e que tivemos de neutralizar. Era quente, esse tempo!!!...».
O grupo de combate do alferes Carvalho incluía os furriéis António Chitas, João Brejo e José Manuel Costa e esteve instalado no BC12, à saída da cidade, na estrada do Songo.
A 17 de Julho de 1974 recorde-se ainda, e ainda segundo o Livro à Unidade, foi «importante, ainda, o retorno à responsabilidade operacional do BCAV. 8423 de Luiza Maria e Vista Alegre»
E terminou a Operação Turbilhão.
- CARVALHO. Domingos Carvalho de Sousa, alferes miliciano atirador de Cavalaria, da 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa. Promotor comercial, reside em Marrazes (Leiria).
- CHITAS. António Milheiros Courinha Chitas, furriel miliciano atirador de Cavalaria, da 2ª. CCAV. 8423. Trabalha em Angola.
- COSTA. José Manuel Cerqueira da Costa, furriel miliciano atirador de Cavalaria, da 2ª. CCAV. 8423. Promotor comercial, residente em Santa Cruz do Bispo (Matosinhos).
- Brejo. João António Piteira Brejo,  furriel miliciano atirador de Cavalaria, da 2ª. CCAV. 8423. Aposentado, residente em Foros de Amora (Amora).

terça-feira, 16 de julho de 2013

1 733 - Novidades do Gaiteiro...

Monteiro, Lopes, Neto, Gaiteiro, Gomes e Capitão Luz (atrás), na foto de 
cima. Futebolistas do Quitexe, com o Gaiteiro assinalado


Aos 11 dias de Setembro de 2012, o Gaiteiro «foi à faca», para dar cabo de um problema que o andava a prostatar. A este, o problema da próstata, juntou-se uma complicação da bexiga, que os cirurgiões entenderam «limpar». E limparam, aproveitando o momento! 
Ficou o Gaiteiro limpo, mas sujeito a «revisões» médicas. Foi o que ontem fez, indo «tacar-se» ao hospital!
«Está tudo sem problemas!!!...», disse-nos há momentos, tranquilo da silva e respirando boa disposição e confiança.
O Gaiteiro era condutor e dos mais vivaços e irrequietos companheiros da CCS. É estilo que mantém e, quase 40 anos depois, é um consolo ouvi-lo, falando de si mesmo e da vida, sem a dramatizar, sem dela se queixar, e cultivando o espírito irreverente e «fala-tudo» que tanto o torna(va) original e homem de mil simpatias.
Ontem, quis o destino que o levou a fazer o TAC de prevenção, encontrou o Gomes, outro condutor da CCS - que lá pela Maia  anda em mudanças de casa - e o tema, inevitavelmente, foi os Cavaleiros do Norte. A família «militar» não se despega.
- GAITEIRO. Américo Manuel da Costa Nunes 
Gaiteiro, soldado condutor da CCS. Aposentado da 
Petrogal, residente em Rio Tinto (Porto).

segunda-feira, 15 de julho de 2013

1 732 - O nosso alferes Jaime Ribeiro...



Capitão Oliveira e alferes Cruz, Ribeiro e Garcia, na Aldeia 
do Canzenza. Atrás, vê-se a igreja do Quitexe

O (nosso) alferes Ribeiro faz hoje 63 anos!! Nascido no ano da graça de 1950, é licenciado em engenharia e agora aposentado e formador profissional, lá pelos lados do Tramagal - onde vive.
Oficial miliciano sapador, comandou o respectivo pelotão da CCS do BCAV. 8423 e, nos amargos e trágicos primeiros dias de Junho de 1975, teve papel determinante no acolhimento ao pessoal civil que acorreu ao BC12, para se proteger dos incidentes que  enlutavam a cidade. 
O facto, frisa o louvor que lhe foi atribuído, «foi notório». Louvado foi, por mais. Por, por exemplo, «demonstrando ser bom condutor de homens, o que o  credita merecedor de consideração dos seus superiores, da admiração do seus iguais  e estime dos inferiores». E, no serviço da sua especialidade, «juntando à sua competência, à melhor boa vontade, conseguiu obter sempre os melhores resultados na construções que se fizeram, a maioria delas para melhoria do bem estar dos soldados». Nem mais.
O engº. Jaime Ribeiro vive no Tramagal e está de boa saúde. Falei há momentos com ele, que confirmou a boa disposição e o momento feliz que hoje vive, por completar 63 anos.
«As coisas já não são como quando tínhamos 20 ou 30 anos, mas ganhámos em sabedoria e em muitas outras coisas», disse-nos, por entre fartas e sonoras gargalhadas de prazer. 

domingo, 14 de julho de 2013

1 731 - O pedido de armas feito pela FNLA...

O BC12, em Carmona, visto do lado do Songo


Há 38 anos, dia 15 de Julho de 1975, a tensão que levedava há vários dias, «estourou» quando se soube que a FNLA queria armas. Armas!!

Um grupo de furriéis -  o Machado, o Neto, o Mosteias, o Viegas, pelo menos...) decidiu pedir explicações a Almeida e Brito e foi recebido no gabinete do 1º. piso.
Que «não era bem assim...», foi o que nos disse o comandante, querendo descansar-nos. Que realmente tinham sido pedidas armas, «as armas arrecadadas pela DGS» e que estavam no BC12, para aí umas duas ou três centenas. Mas que se eram essas, «não havia problemas...», pois, ele assim nos disse e nos descansou, «ou estão avariadas ou não têm munições». Foi um consolo, o que ouvimos!
A véspera, dia 14 de Julho, como ontem aqui falámos, fora de tensão bem sofrida e alimentadora de muitas dúvidas: a FNLA, fazendo-se soberana do terreno uígense, impedira a saída de um MVL, de Carmona para Luanda. Ninguém gostou, entre a guarnição militar, e aquela de lhes dar armas mais incendiou os ânimos.
Dar-lhes armas, para nos atacarem?! Nããããã, nem pensar!
A data faz-me refrescar ideias sobre um incidente desse dia, na rotunda da entrada de Carmona,, de quem vinha do Quitexe e do Negage: um grupo de civis, europeus, já noite adentro, provocou a patrulha militar mista e um dos elementos africanos quis reagir, a... tiro!! Por momentos, poder-se-ia ter despoletado uma situação de muito sangue e de mortes, quem sabe?!Felizmente, o africano obedeceu à ordem do furriel europeu que comandava a patrulha e não se passou do susto! Os militares indígenas, eram combatentes dos movimentos e filhos de todas as mães. E a tropa, para os brancos europeus, uma cambada de cobardes e de traidores. O império, nos seus cabeceiros, teve destas malhas mal tecidas.