sábado, 14 de setembro de 2013

1 793 - O quarteleiro e sapador Fernando Grácio...

Fernando Grácio e Viegas, em Amor, Leiria, em 2013. 
O Grácio, guarda-redes da equipa da CCS, no Quitexe, em 1974
«Ó sr. Fernando, viu por aí o sr. Grácio?!...».
Vinha eu de Monte Real, da base aérea e de ver Cannadair´s a levantar voo para combater os fogos deste verão trágico, virado a Leiria, quando vi a placa: Amor. 
Achei piada a este nome de freguesia, que já conhecia de outras andanças, mas sem nunca por lá ter passado. Que me lembre.
O fim de tarde corria e as memórias desfiaram-se-me: Amor?! Espera lá, d´Amor é o Grácio!!! Exacto, o Grácio! E mora onde, em que rua? Puxa da memória,  Viegas! 
Mais adiante, estavam quatro pessoas em pé de conversa, parei e perguntei: «Onde é a Rua do Barro?»
Respondeu um cavalheiro, que me deve ter achado com cara de agente judicial, a perguntar-me: «Procura quem?». Lá disse e percebi logo, era o vizinho. 
«Você volta atrás e corta à esquerda, e outra vez à esquerda, a casa dele é antes da casa que está pintada da cor mais feia que você conhece!»
E lá fui eu. Ali mesmo, onde nos vêem na foto, é a casa do Grácio. Entrei na rua e logo o vi, andava ele a horticultar, com a mulher.
«Ó sr. Fernando, viu por aí o sr. Grácio?», perguntei-lhe eu, de dento do carro, daquela porta que ali vêem aberta.
O Grácio, era ele, viu-me e rapidamente  largou a enxada e veio a correr, com a velocidade que lhe deixaram as botas de borracha. Atrás dele, desembaraçada e à gargalhada, a «mais que tudo dele». E ali ficámos, no «pergunta tu, pergunto eu» destas coisas e que nos emocionou e fez mais felizes, recordando dias e momentos da nossa jornada angolana de 15 meses.
O Grácio está fixe, como se vê. Trabalha na área da construção, tem dois filhos (um casal) e faz da horticultura uma forma de ajudar a economia familiar. Diga-se, já agora, e eu pus olho no pormenor, tem uma horta mimosinha e o Grácio vive feliz!
- GRÁCIO. Fernando Martinho Grácio, 1º. cabo sapador de 
infantaria, voluntário, dois anos mais novo (nascido em 1954). 
Foi quarteleiro do depósito de géneros, mesmo encostado à messe 
bar de sargentos do Quitexe. Vive em Amor (Leiria).  

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

1 792 - O Vieira, o Sacristão dos Cavaleiros do Norte...

Breda e Vieira, duo «musical» do Quitexe, no ano da graça de 1974

Andava com esta atravessada na memória: o Sacristão, o Vieira, que será feito dele?! Por assim dizer, valha a verdade, já nem me lembrava bem da cara!! Dele ouvi falar aí por Maio deste ano, à conversa com uma vizinha - dele me dizendo ela que está reformado, com uma filha e trabalhando a mulher numa escola da Vidigueira - vila onde ele explorou um bar. E com ele esteve o alferes Cruz, há 4 anos - quando por aquelas bandas foi à caça. Ver AQUI.
Não me lembrava da cara dele? Pois não! mas aí está ela, achada na casa do Breda - na Barosa de Leiria.
O Sacristão era, afinal, o Vieira, o Vidigueira, alentejano assim se popularizando no Quitexe por exercer essas funções, para além das de «quarteleiro do material de aquartelamento», é mesmo assim que se diz. Quarteleiro, pois, e daqueles companheiros que espalham simpatia, sempre de sorriso aberto, bonomónico - até eleito foi para membro da Comissão do MFA.
O capitão Oliveira, em louvor publicado na Ordem de Serviço nº. 168, assegura que desempenhou este serviço (o de quarteleiro) com «a maior boa vontade, dedicação e honestidade». Chama-lhe «voluntarioso» e dele escreveu que «soube simultâneamente ser um bom camarada, apresentando ao seu comandante de Companhia tudo o que lhe pareceu merecer correcção (...) destacando-se o auxílio prestado ao comando que serviu na sua comissão militar».
Pronto, era esta o nosso Sacristão!!! E ali está ele, é mesmo ele. Ele, na foto do Quitexe, tirada com o nosso grande companheiro Breda. Grande abraço!
- VIEIRA. Victor Manuel da Cunha Vieira, o Sacristão, 1º. cabo 
auxiliar de serviços religiosos. Aposentado, mora na Vidigueira (Alentejo).
- BREDA. Joaquim rama Breda, 1º. cano condutor. 
Aposentado, mora na Barosa (Leira).

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

1 791 - O Cordeiro da Bezerra de Porto de Mós...

O Cordeiro e o Viegas numa tarde de Agosto de 2013. 
O Cordeiro em 1974 (em baixo), como membro do PELREC, no Quitexe



Há 38 anos, neste dia 12 de Setembro de 1975, já os Cavaleiros do Norte já estavam (quase) todos nas suas casas, embalados em abraços familiares e de amigos, chegados da sua nobre missão em terras de Angola. Do que sei (e não sei tudo) apenas um, dos cerca de 600 militares das quatro companhias, não gosta de falar dessa jornada que, por 15 meses, nos teve por terras do Uíge africano.
Há dias, numa tarde quente do verão de 2013, a um domingo (25 de Agosto), passando eu pelos lados de Porto de Mós, ocorreu-me um nome, que é o Cordeiro. E uma terra, que é Bezerra!   
Então, é muito longe, é muito perto?! «Olhe, vá por ali, vá por acolá!!!...», disseram-me. E lá fui eu, serra dos Candeeiros acima, passando por Serro Ventoso e até ao adro de Bezerra, de igreja nova a mostrar-se aos olhos, bonita, em espaço arejado e com um mini-coreto na frente, a servir de miradouro.
«Conhece fulano de tal?...», perguntei eu, a quem primeiro achei. E logo era um sobrinho do Cordeiro: «Olhe está ali, na associação. Está ali a mota dele, está a ver?!...», respondeu-me um jovem trintão, alto e amorenado, que m´apareceu do lado do pequeno coreto, olhando-me grávido de curiosidade, talvez meio desconfiado.
Lá fui eu e lá estava ele, o Cordeiro, a jogar as cartas, a bater o punho na mesa, exibindo ases e trunfos. Até que me viu: «Ó meu amigo Viegas!!!... Ó meu amigo Viegas!!!!...», foi comentando ele, espreitando-me de frente e repetindo-se: «Ó meu amigo Viegas!!!...».
O Cordeiro foi 1º. cabo atirador de cavalaria, do PELREC, da CCS. Algo tímido, pouco palavroso, mas sempre sem uma falha, sempre disponível, sempre presente. Fizemos muitos serviços juntos, em operações, em escoltas, em rondas e sentinelas, em PM na cidade de Carmona. Tudo isso rememorámos, a 25 de Agosto, e pela nossa saudade passaram muitos nomes - principalmente os dos que, de nós, já partiram e vivem na nossa memória: o alferes Garcia, os 1ºs. cabos Almeida e Vicente, o Leal, rapazes do PELREC.
Trabalha, o Cordeiro, numa fábrica de mármores. «Trabalho duro...», disse-me ele. Mas trabalho que não regateia, pois tem sido a vida dele, a arrancá-lo do chão dos Candeeiros, uma vida inteira, a «mandar todos os dias três, quatro camiões para os chineses».
- CORDEIRO. José Manuel de Jesus Cordeiro, 1º. cabo 
atirador de cavalaria. Trabalha numa empresa de mármores e 
reside em Bezerra, Porto de Mós, de onde é natural.
  

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

1 790 - Cavaleiros de Santa Isabel regressaram a Portugal

Cavaleiros do Norte da 3ª. CCAV. 8423, de Santa isabel reunidos em Arganil, 
a 8 de Junho de 2013 (em cima), o capitão Fernandes e o 1º. sargento Marchã (em baixo).

A 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel, regressou a Portugal a 11 de Setembro de 1975 - hoje se fazem 38 anos. Era comandada pelo capitão miliciano Fernandes e chefe de secretaria o 1º. sargento Marchã. Chegou a Angola a 5 de Junho de 1974 e à fazenda uíjana a 11 seguinte. A 10 de Dezembro, abandonou a epopeica Santa Isabel e partiu para o Quitexe, onde se juntou à CCS. Indo esta para Carmona a 2 de Março de 1975, aqui se juntaram em Julho seguinte.
Os últimos partiram para Luanda, os últimos voltaram a Portugal.
O seu último dia na capital angolana foi tempo de notícias da vitória militar do MPLA sobre a FNLA, assumindo o comando do Caxito. Agostinho Neto, falando em Luanda, num encontro regional com a Juventude do MPLA, integrado na Semana da Defesa Popular, referiu-se a esta vitória militar, afirmando que «nenhum angolano poderia deixar de se sentir satisfeito, já que marca mais uma importante etapa da luta que os angolanos travam contra o imperialismo»
O presidente do MPLA lembrou que «foram as agressões estrangeiras que determinaram o início da segunda luta armada de libertação nacional em que o povo está engajado». Referia-se ao Zaire, que alegava apoiar a FNLA, a norte (por onde andaram os Cavaleiros do Norte), e à África do Sul, que, a sul, apoiaria a UNITA.
Os cavaleiros de Santa Isabel chegados a Lisboa, encontraram um Portugal onde o Conselho da Revolução estava preocupado com a censura e um assalto ao BPA, em Lisboa, rendeu 5000 contos. Outro, em Vila do Conde «valeu» 100 e em Nova Oeiras assaltaram uma casa e levaram 900. Os militares manifestavam-se no Porto e Almada e trabalhadores na CUF e em muitos plenários, nas zonas mais industrializadas. Populares preparavam uma manifestação de apoio aos soldados da PM.
Ao Sporting, chegaram os brasileiros Picolé, Gilson Paulino e Robervai. Alguém lembra deles? No hóquei em patins, Portugal ganhou (12-1) à Suíça, para o campeonato da Europa. Jogaram: Ramalhete, Rendeiro (2), Garrancho 81), Livramento (4), Chana (5), Casimiro e Gomes da Costa.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

1 789 - Os Cavaleiros do Norte de Aldeia Viçosa

Cavaleiros do Norte da 2ª. CCAV. 8423. À esquerda, de pé, o furriel miliciano Matos, com parte do seu pelotão. E os outros? Quem nos ajuda a identificar estes companheiros da jornada africana do Uíge angolano? 

A 10 de Setembro de 1975, a gloriosa 2ª. CCAV. do comando do capitão miliciano José Manuel Cruz, levantou voo de Luanda para Lisboa, no adeus à Angola que foi poiso da nossa jornada africana. Para trás, ficavam 15 meses - desde que a 4 de Junho de 1974 chegara a Luanda e, no dia 10 seguinte, partira e chegara a Aldeia Viçosa - por terras do Uíge.
A véspera fôra dia de partida da 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala, em data que registou o apelo de Agostinho Neto, presidente do MPLA, à «resistência popular generalizada». Falando ao país, o futuro presidente angolano «analisou a situação político-militar e insistiu na necessidade de reforço das organizações de base, como via para a implantação do poder popular e para varrer definitivamente do país as forças ao serviço do imperialismo e do neocolonialismo».
A 8 de Setembro, viajava a CCS para Lisboa, o major Fernandes, informador oficial do Exército Português, dava conta que «a FNLA não parece estar à altura de ameaçar Luanda» e que «o MPLA, devido à disciplina que reina nas suas fileiras, revelou uma maior maturidade no terreno» e que, a sul do território angolano, «está quase a completar o cerco às forças da UNITA, essencialmente  concentradas em Nova Lisboa e Silva Porto».
Os Cavaleiros de Aldeia Viçosa chegaram a Lisboa por volta das 18 horas de 10 de Setembro e, cada qual, partiu para o chão das suas terras e o afecto das suas famílias. Foi há 38 anos, hoje se completam.
Dia 28 deste Setembro que corre, entretanto, último sábado do mês e como é seu costume, vão reunir no seu encontro anual. Este ano, no Fundão, com a parte da logística (restaurante) a cargo do Carmo - que pode ser contactado pelos telemóveis 936913600 e 927069292.
O Ramalho (966095508 e 266707300) e o Beato (963573376 e 224221948) ajudam na organização e a concentração será na Zona Industrial da cidade, entre as 10 e 12 horas.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

1 788 - O Portugal que nos recebeu a 8 de Setembro de 1975

Aeroporto de Lisboa, como deveria ser em 1975 (em cima). Recorte do 
Diário de Lisboa, sobre a greve que nos deu jeito para viajarmos de avião e não no Niassa




A Lisboa que nos recebeu a 8 de Setembro de 1975 ardia em intrigas políticas e militares e Portugal era palco de muita ebulição social. Basta ler alguns títulos da imprensa desse dia: «Reunido o Conselho da Revolução: Impasse difícil» era a caixa alta do Diário de Lisboa. A primeira página tinha outros títulos: «Que é isso de guerra civil, sr. capitão?», ou «5ª. Divisão recebida em Belém». Também «11 de Março: o relatório da 5ª. Divisão».
A edição do jornal dava conta, também,  de que o povo não cedia em Proença-a-Nova e que armas de guerra tinham sido roubadas em furgoneta... roubada. E falava de plenários de trabalhadores, de professores e de trabalhadores em greves, de sindicatos, de esquerdas, fascismos e direitas, suicídios, manifestações, roubo de jóias e outros roubos, reforma agrária, esclarecimento de Durant Clemente sobre um comunicado do Estado Maior do Exército, até do assalto de trabalhadores a um empresa (a NOVIL).
O nacional de futebol da 1ª. divisão tinha começado na véspera: Braga-Atlético, 2-2; Beira Mar-CUF, 0-1; FC Porto-U. Tomar, 6-1; Setúbal-Académico de Coimbra, 3-1; Leixões-Sporting, 0-0; Guimarães-Belenenses, 2-2; Estoril-Farense, 2-0. O Benfica-Boavista (0-0) só se realizou no dia 10.
Em Moçambique, Samora Machel casava-se (no dia 7) com Graça Simbine, a ministra da Educação e Cultura. No universo português, a Companhia Nacional de Navegação (CNN) ia no 11º. dia de greve - ver imagem. Sorte a nossa: era num dos seus navios (o Niassa) que os Cavaleiros do Norte deveriam viajar para Lisboa. Não houve barco, houve avião e os dez dias de mar foram substituídos por 8 horas de voo.
Em Luanda, a 9 de Setembro de 1975, era a 1ª. CCAV. a fechar as malas e a dizer adeus a Angola! Os homens de Zalala regressavam a casa!

domingo, 8 de setembro de 2013

1 787 - O dia do adeus a Luanda...

Aeroporto internacional de Luanda (gare), nos anos 70 do século XX.  Daqui saíram os Cavaleiros do Norte, entre os dias 8 e 11 de Setembro de 1975. Viegas, Mosteias e Neto em Carmona, em Julho de 1975 (em baixo)



A última refeição de Angola, foi no Grafanil, de domingo para 2ª.-feira. Refeição aligeirada, à falta de melhor: de pastéis e vinho branco, oferecidos pelo familiar de um dos Cavaleiros do Norte que ia partir. Um dos nossos!!! Era 7 para 8 de Setembro de 1975 e os dias não eram de fartura pela Luanda a que íamos dizer adeus. 
A noite foi passada sem sono e, madrugada aberta, já no dia (hoje se fazem 38 anos), lá fomos para o aeroporto internacional de Luanda, onde centenas (milhares?) de civis aguardavam «boleia» para Lisboa e protestavam pelos atrasos que adiavam o embarque. Eram à volta de 1300 pessoas - dizia-se por lá... - que, por esse tempo, diariamente voavam para a Europa, num corropio enorme, frenético e para muitos angustiante, e nem sempre bem controlado.
A Luanda que deixávamos tinha vivido um fim se semana aparentemente calmo, em termos militares, e a nossa manhã do aeroporto ainda deu para saber que mesmo no Caxito - onde se vinham a multiplicar incidentes entre o MPLA e a FNLA - não se tinham registado combates nos dois últimos dias. 
Tivemos notícias de Carmona, de onde tínhamos saído a 4 de Agosto, pouco mais de um mês antes: instalou-se lá uma equipa da Cruz Vermelha Internacional, formada por dois médicos (um de clínica geral e um anestesista) e duas enfermeiras, obviamente para acudir a feridos. 
O Neto, o Mosteias e eu (foto) - e não me lembro se mais algum furriel - fomos encarregados, no aeroporto de «trazer» presos para Lisboa. Eram militares com problemas disciplinares e entrámos no avião com algemas a "ligar-nos". O que me acompanhou, ele mo contou durante a viagem, tinha mortes no registo criminal e sentenças que o tinham condenado a (bastantes) anos de prisão.
Por volta das 10 horas, levantámos voo e, já no ar, olhámos Luanda pela última vez. Emocionados!
- MOSTEIAS. Luís João Ramalho Mosteias, furriel miliciano 
sapador, da CCS. Faleceu a 5 de Fevereiro de 2013, vítima 
de doença. Ver AQUI.

sábado, 7 de setembro de 2013

1 786 - A véspera de voltar a Portugal! Há 38 anos...

Marginal de Luanda nos tempos dos Cavaleiros do Norte (em cima). Almirante Leonel Cardoso, a esquerda, com o general Altino Magalhães, almirante Rosa Coutinho, coronel Silva Cardoso (piloto aviador) e major Emílio Silva (em baixo)

Domingo, 7 de Setembro de 1975!! Os Cavaleiros do Norte alvoram sonhos e fecham malas, que próxima está a viagem de regresso a Portugal. Há ordens para toda a gente da CCS estar no Grafanil ao fim da tarde. Para o controlo final e a definição de tarefas para a dúzia de quilómetros que nos separam do aeroporto de Luanda, de onde um avião dos TAM, na manhã seguinte, nos trará em voo para Lisboa.
O Neto, eu e o Monteiro, manhãzinha cedo, dizemos adeus à casa que, em Viana, fora nosso poiso desde 4 de Agosto. Estava combinado que deixaríamos as malas no Grafanil e iríamos até Luanda, para os «adeuses» finais.
O novo Alto Comissário de Angola chegara na antevéspera, dia 5 - o almirante Leonel Cardoso. Desconsolado, porque, em Lisboa, não teve o conforto da presença, no aeroporto, de qualquer responsável político, ou militar. Sequer, de seus representantes, a levar-lhe, como se queixou em Luanda, «uma palavra de despedia, de simpatia e de encorajamento».
«Não será esse facto, talvez único ma história dos embarques de dezenas de pessoas a quem alguma vez coube a honra de orientar os destinos de Angola, que fará esmorecer a sede de que venho animado e me levou a aceitar a missão que ninguém queria», disse o almirante.
Angola não paraíso para ninguém.
O MPLA redenunciava a presença de forças estrangeiras no território angolano e aludia à possibilidade de internacionalização do conflito que opunha os 3 movimentos: o próprio MPLA, a FNLA e a UNITA.
A África do Sul admitia que as suas tropas tinham entrado em Angola, explicando que tal se devia à necessidade de protegerem a estação de tratamento de águas de Calueque, junto à fronteira com a Namíbia. Que saíriam «logo que seja possível». No documento enviado ao Governo Português, dava conta da «satisfação» pelo facto de Portugal «chamar a si» a segurança da estação.
A 12ª. Cimeira da OUA, em Kampala, decidira «criar uma comissão de conciliação» que, em Luanda, tentasse «por termo aos confrontos entre UNITA, FNLA e MPLA». O embaixador Djoudi, secretário geral adjunto da OUA, reuniu-se em Lisboa com o Governo português, no dia 5, por essa razão e, à imprensa, deu conta que «uma certa potência ocidental decidiu interferir na questão angolana, fornecendo armas a uma das partes, o que complica o problema». Não disse que país era. Apenas que ficava «situado a norte de Portugal, com interesses directos na África do Sul e que vota sempre por ela nas instâncias internacionais»
Foi neste contexto que, no primeiro domingo de Setembro de 1975, dia 7 - hoje se fazem 38 anos! -, os Cavaleiros do Norte da CCS passaram as últimas horas da sua jornada angolana.
- OUA- Organização de Unidade Africana.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

1 785 - Angola, Águeda e o Farinha, 38 anos depois...

Viegas e Neto, em Setembro de 2013 (em cima e 
em Águeda), e Rafael Farinha em 1974, no Quitexe (em baixo)


A 6 de Setembro de 1975, já tínhamos malas prontas para o regresso a Lisboa e a nossas casas - o que aconteceria dois dias depois. Hoje, 38 anos passados, eu e o Neto cumprimos a tradição de ir à Festa do Leitão (aqui, na nossa terra de Águeda) lembrar essa nossa epopeica jornada angolana. E aí estamos nós, como se vê na foto, de taças erguidas e depois de desfiar memórias sobre os 15 meses que nos levaram a terras africanas - pelo Quitexe, por Carmona e por Luanda.
O ritual já tem anos e creio (tenho a certeza, melhor dizendo...) que ambos, já  sem querer, "arquivamos" a data de forma mental e automática - dispensando-nos de qualquer compromisso que possa comprometer este ritual gastronómico e evocativo.
Hoje, é dia de anos (61!!!...) de Rafael Serra Farinha, que foi 1º. cabo mecânico-auto da CCS e faz vida, já reformado, por Odivelas - entretendo o tempo com um negócio de automóveis, a sua área de sempre. Quis o destino (e as facilidades telefónicas de hoje) que, à distância de mais de 200 quilómetros, pudéssemos lembrar muitos nomes de Cavaleiros do Norte: os capitães Falcão e Oliveira, o alferes Cruz, o 1º. sargento Aires, os furriéis Morais, Farinhas e Pires, os 1ºs. cabos Teixeira, Frangãos (o Cuba) e Breda, os condutores Esgueira e Gaiteiro, Miguel, Joaquim Celestino, Serra, Vicente, Vicente, Picote, sei lá...
Foi um dia em cheio, este 6 de Setembro de 2013 dos Cavaleiros do Norte!  

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

1 784 - MPLA ganha no Caxito em vésperas do «ir embora»....

Tropas da FNLA no Caxito. À esquerda, o português José Victor Carvalho. A foto é da sua tomada 
da vila (a 50 kms. de Luanda), não da situação citada neste post. Em baixo, noticia do DL sobre Angola

Quinta-feira, 4 de Setembro de 1975. Os Cavaleiros do Norte sabem que a viagem para o «puto» é no dia 8 e de avião. Têm de aligeirar a carga que pretendiam transportar, limitada, agora, aos 25 ou 30 quilos. 
Muitos de nos, procuram avisar as famílias da antecipação, sem conseguirem. Não era o meu caso, que queria aparecer de surpresa. Mas o Neto, ligou para Portugal - pelo telefone, coisa rara e difícil, ao tempo... -, e combinou com a família que alguém nos iria buscar a Lisboa. Com a obrigação de não avisarem a minha.
Luanda vivia momentos tensos e balbuciava-se, à boca calada, que a FNLA poderia entrar na cidade. Estava no Caxito, a uns 50 quilómetros, e a leitura do DL desse dia refresca-nos a memória: «Embora as notícias sejam pouco claras, atribui-se a vitória ao MPLA, cujas forças teriam logrado cercar as tropas rivais, ocupando agora a barragem de Mabubas», o  que, a confirmar-se, afastava temporariamente o risco de ser cortado o abastecimento de água à capital, a partir da central de Quifangondo.
Há notícias de combates no Cubal e Ganda, entre MPLA e UNITA - movimentos que, recordemos, aparentemente negociavam aproximação política. Embora, em Kinshasa, o secretário geral adjunto da UNITA dissesse que «a guerra em Angola não terminaria enquanto a UNITA e a FNLA não recuperassem as zonas de influência do MPLA» - e cito do DL, como se pode ler na imagem.
Aos Cavaleiros do Norte, faltavam quatro dias para «fugir» do ambiente marcial que que se vivia em Angola.
- PUTO. Assim se designava Portugal (continental).
- MFA. Oficiais sargentos e praças de Angola denunciam a legitimidade 
dos militares presentes na Assembleia do MFA. Ver AQUI

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

1 783 - Medidas de urgência para Angola...

Avião dos Transportes Aéreos Militares (TAM). Foi neste, ou num igual, que os Cavaleiros 
do Norte regressaram a Lisboa. Em baixo, a notícia, do DL, das «medidas de urgência para Angola»


O Governo Português, a 2 de Setembro de 1975, anunciou «medidas de emergência para Angola», tendentes a proporcionarem «uma actuação mas correcta no problema angolano e a concorrerem para a normalização da vida naquele território». Nomeadamente, no ponto 1, passando pela «suspensão transitória da vigência do Acordo do Alvor, em virtude das violações constantes, por parte dos três movimentos de libertação».
O docuento de 7 pontos, tornado público pela Comissão Nacional de Descolonização, atribuía funções legislativas ao Alto-Comissário - que assumia novos poderes, nomeadamente podendo «declarar o estado de sítio, com a suspensão total ou parcial das garantias constitucionais em uma ou mais partes do território».
O objectivo era procurar evitar a paragem da máquina administrativa, suster o colapso da vida económica (pelo menos quanto ao abastecimento alimentar mínimo das populações), minorar as migrações internas e reforçar os meios de retorno dos nacionais a Portugal.
O comunicado pode ser lido na imagem acima editada, clicando sobre ela.
Terá sido por estes dias que os Cavaleiros do Norte tiveram uma das melhores noticias da comissão: o regresso a Lisboa, marcado para 8 de Setembro, já não seria no navio «Niassa». Seria, e  foi, de avião. Foi uma sorte (grande)!!!  

terça-feira, 3 de setembro de 2013

1 782 - Nem mais um soldado para Angola...

Nota de 1000 escudos de Angola (os chamados angolares). Aventino Teixeira, 
Franco Charais e Jaime Neves na Assembleia do Exército de 2 de Setembro de 1975

As coisas por Angola iam como iam e não melhor iam por Portugal, onde, por entre outros «luxos» revolucionários, se gritava «nem mais um soldado para Angola». Então, e  os que lá estavam e com a sua comissão cumprida?
Os (chamados) retornados, em Lisboa, a 2 de Setembro de 1975, reocuparam o Banco de Angola, exigindo trocar angolares (os escudos angolanos) por escudos de Portugal. Era cerca de três centenas e entraram à força, pela porta principal e janelas. O banco já fora evacuado nessa madrugada, por forças militares e militarizadas.
Luanda era terra de candonga à vista desarmada:  civis a comprarem escudos de Lisboa, a 200, a 300, a 1000%. Muitos negócios se fizeram nas ruas da cidade. E terra onde o MPLA proclamava ter conseguido «repelir a força invasora sul-africana que havia penetrado no sul do país, forçando-a a retirar para alem-fronteiras». O DL, que citamos, em despacho de Luanda, dava conta que «a FNLA, que no domingo (31 de Agosto) tinha conseguido avançar até 20 kms. de de Luanda, foram repelidas na 2ª. feira (dia 1) para 40 kms», pelas forças do MPLA. O seu objectivo seria «destruir os reservatórios de água».
A Assembleia de Delegados do Exército, no mesmo dia 2 de Setembro, reunida na Escola Prática de Engenharia, em Tancos, presidida por Carlos Fabião, o Chefe do Estado Maior, analisou «problemas específicos das Forças Armadas e do Exército, em especial», tendo os representantes do MFA/Angola «exposto com dura realidade, a situação naquele território», sendo afirmada, como reporta o DL do dia 3 (ver imagem), «a intenção de envidar todos os esforços para que sejam tomadas medidas imediatas, nomeadamente no que se refere ao embarque de tropas, para a manutenção do efectivo, estabelecido no Acordo do Alvor e ao reforço da ponte aérea para evacuação dos nossos compatriotas e sua posterior integração na nossa sociedade».
Era isso mesmo que os Cavaleiros do Norte queriam: que para lá embarcassem tropas e de lá viessem as que a missão tivessem cumprida.
- AVENTINO. Aventino Teixeira, oficial do Exército, mais tarde conselheiro do Presidente Ramalho Eanes. Viria a conhecê-lo em Buenos Aires e tornámo-nos amigos de família. Já falecido, com a patente de coronel.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

1 781 - Pouco provável cessar fogo entre MPLA e UNITA

Imagem da net, sobre a presença da FNa no Caxito. Ver AQUI
Em baixo, recorte do Diário de Lisboa de 2 de Setembro de 1975


Setembro de 1975, dia 2, uma terça-feira!!! Recebo correio do «puto», de Alberto Ferreira - o amigo que era cabo especialista da Força Aérea e que regressara a Portugal semanas antes. «Isto está uma m...», escrevia ele, falando da revolução que varria Portugal.
Luanda não ia melhor. A France Press dava conta de rumores que circulavam na capital angolana sobre a chegada de 12 tanques russos ao aeroporto, no domingo de manhã - 31 de Agosto. Chegados de avião e  «atravessando a  cidade de madrugada, para alcançarem um destino desconhecido».
O Jornal de Angola (ex-A Província de Angola), considerado próximo do MPLA, dava conta que «a luta de libertação se transformou num conflito entre o povo angolano e a UNITA, aliada à FNLA». Lopo do Nascimento, chegado de Lisboa, não fez qualquer referência ao cessar fogo entre o MPLA e a UNITA e o seu comunicado apenas refere que «o resultados das conversações de Lisboa requerem ainda um confirmação das chefias dos dois movimentos». Mas, por Luanda, já se especulava que, e citamos o Diário de Lisboa, «são escassas as possibilidades de, mesmo que as direcções dos dois partidos acordem no terno das hostilidades, conseguir separar as respectivas forças nas áreas onde a UNITA e a FNLA combatem em conjunto».
A poucos dias de 8 de Setembro, os Cavaleiros do Norte preparavam as malas para regressarem a Portugal e dividiam o seu tempo entre o Grafanil e os prazeres de Luanda. 
O MPLA confirmava a denuncia sobre a presença de forças militares sul-africanas (com aviação e mercenários) no sul de Angola - o que era desmentido elo cônsul em Luanda, em reunião de trabalho com o Alto Comissário Interino, Ferreira de Azevedo. 
O ELNA (exército da FNLA) teria «actividade praticamente nula, não havendo qualquer notícia sobre a sua progressão em direcção em Luanda», conforme já se dissera na véspera  especialmente «referindo-se à sua posição na região do Caxito-Barra do Dande».
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domingo, 1 de setembro de 2013

1 780 - O regresso dos Cavaleiros do Norte a Portugal

O navio «Niassa» e notícia sobre Lopo do Nascimento, como Alto-Comissário Adjunto

A 1 de Setembro de 1975, era certo que o BCAV. 8423 regressaria a Portugal no dia 8, a bordo do navio «Niassa» (foto). Sabia-se até aí do dia, sabia-se agora do meio de transporte. «As necessidades de responder aos compromissos tomados com os movimentos de libertação, no referente aos efectivos militares a estacionar em Angola, reduziram as comissões militares para 15 meses», lê-se no Livro da Unidade. Os Cavaleiros do Norte estavam a uma semana do regresso a suas casas.
Luanda, entretanto, fervia na área política e o jornal «Comércio de Luanda» dava conta que Lopo do Nascimento, na véspera chegado de Lisboa, «deverá passar a funcionar como Alto-Comissário Adjunto, trabalhando com o Almirante Leonel Cardoso, agora empossado como Alto Comissário para Angola». Ocuparia o terceiro lugar na hierarquia, depois de Leonel Cardoso e do general Heitor Almendra, nomeado por Costa Gomes (o PR) como comandante-chefe adjunto.
Lopo do Nascimento chegara na véspera de Lisboa e, depois de negociações com a UNITA, admitia que «foram esboçadas algumas medidas que permitem ultrapassar esta fase de confrontação militar e de impasse político que, em certa medida, se atravessa e lançar as bases dos esquemas que permitam a ascensão à independência em 11 de Novembro próximo».
O futuro diria que não seria bem assim.

sábado, 31 de agosto de 2013

1 779 - O «sô» Breda da Barosa, condutor-auto da CCS!

Viegas e Breda, em Agosto de 2013. O Breda, num jardim de Carmona, em 1975 (em baixo)

«Olha o meu amigo da tropa!...». Foi com esta exclamação e um farto sorriso, rasgado de orelha a orelha, que o Breda me olhou, à porta de sua casa, na Barosa de Leiria, ao fim de uma manhã calorenta de Agosto de 2013.
O Breda era 1º. cabo condutor da CCS, com jeep às ordens do capitão Falcão - o oficial adjunto e de operações. E de outros serviços, por exemplo na PM de Carmona, disso recordando (nós ambos) a tarde para a noite de um domingo de Junho/Julho de 1975, quando tivemos de ir ao aquartelamento da já então ex-PIDE/DGS «buscar» dois civis que tinham sido aprisionados por elementos das Forças Militares Mistas - as FMM. 
A «coisa» estava feia e o nosso impagável Breda ficou à porta da porta d´armas, com o jeep em alta aceleração, para o caso (iminente) de termos de fugir de alguma rechaçada dos homens das FMM, caso não  libertassem os dois civis.
O Breda está fixe, aposentado e com umas arritmiazitas a perturbar-lhe o coração. «Apertam-me de vez em quando...», disse-me ele, entre conversa farta, a fazer memórias dos nossos 15 meses da jornada angolana. Mas arritmias que «não preocupam muito».
Condutor e 1º. cabo, o Breda foi louvado pelo comandante Almeida e Brito, por proposta do capitão Falcão. E porquê? Porque «sempre demonstrou inexcedível dedicação pelo serviço, aliada ao maior zelo e esforço no cumprimento do seu dever, muito contribuindo para a operacionalidade das viaturas que teve distribuídas, creditando-se como militar de elevado sentido de responsabilidade».
O louvor foi publicado na Ordem de Serviço nº. 169, que frisa o facto de ser «militar educado e disciplinado, bom colaborador do seus superiores».
Ei, ó Breda, foi um gosto enorme reencontrar-te! Grande abraço!
- BREDA. Joaquim Rama Breda, 1º. cabo condudor-auto 
da CCS. Aposentado, mora na Barosa, em Leiria.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

1 778 - MPLA em ruptura com Governo de Portugal

A 29 de Agosto de 1975, os Cavaleiros do Norte não variavam os seus dias de espera por 8 de Setembro, a data da partida para Lisboa. Em Luanda, o MPLA reagia ao anúncio do fim do Governo de Transição e do Acordo do Alvor, feito pelo Alto Comissário Interino, general Ferreira de Macedo - que, do seu ponto de vista (do MPLA) punha em causa a política portuguesa sobre Angola.
«A coberto de uma falsa neutralidade - afirmava o documento, que repescamos do Diário de Lisboa de 30 de Agosto daquele ano - o Governo Português permitiu que o nosso país fosse invadido pelo exército do Zaire e pelo da África do Sul».
«O mesmo governo - prosseguia o comunicado - assiste impassível aos crimes perpetrados pela FNLA e pela UNITA», consentindo, frisava, «o assassínio em massa de angolanos, torturados até à morte, violados e espancados até os canibais imperialistas se sentirem satisfeitos».
O MPLA retomava, com este comunicado, a a acusação da prática de canibalismo já anteriormente dirigida à FNLA e, sendo o único movimento com ministros no Governo de Transição (suspenso pelo Alto Comissário), assumia «totais responsabilidades governamentais em 11 de Novembro» - o dia anunciado para a independência.
«Nós, o MPLA, assumiremos no fim a total responsabilidade governamental. Nós, o MPLA, repetimos uma vez mais ao Governo Português quer o povo angolano não abdicará dos seus direito e não hesitará em os defender pela força das armas», assegurava o movimento presidido por Agostinho Neto - que se vê na foto, no dia da sua chegada a Luanda.
A edição DL desse mesmo dia titulava que «tropas sul africanas avançam sobre Sá da Bandeira» e noticiava que Pereira d´Eça já estava ocupada. Que «ontem, havia indícios seguros de que aviões e helicópteros da África do Sul estariam a sobrevoar General Roçadas». 
As forças sul-africanas, noticiava o DL, eram «constituídas por cerca de 800 homens, entre os quais se encontram mercenários portugueses da ex-PIDE/DGS e excomandos moçambicanos, apoiados por meios militares sofisticados, tais como carros blindados, obuses de longo alcance, etc.».

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

1 777 - O fim do Governo de Transição de Angola

Palácio Governador, em Luanda (foto de Jorge Oliveira, de 1974) e 
notícia do fim do Governo de Transição de Angola, no Diário de Lisboa (em baixo)


A 29 de Agosto de 1975, o Alto Comissário interino de Angola determinou «a cessão do Governo de Transição», que tinha sido criado na sequência do Acordo do Alvor mas que, na prática, já não existia - desde que a FNLA e a UNITA tinham sido expulsos de Luanda, pelo MPLA, no princípio do mês.
O Alto Comissário interino era o general Ferreira de Macedo que, nesse dia, falou à população através da rádio. Duas semanas antes, já esta decisão tinha sido preconizada, embora muito contestada pela MPLA, cujos ministros, como se lê no recorte do Diário de Lisboa dessa data, «se têm mantido em funções».
Ao outro dia, em Lisboa, a UNITA desmentia um acordo de cessar fogo com o MPLA e acções integradas com a FNLA, para além de negar a participação num «governo de balcanização do país» e afirmar, em conferência de imprensa, que «o Governo de transição não acabou». A solução política, segundo José Ndele (1º. ministro) passaria por «negociações com o MPLA, com quem queremos chegar a uma solução fraternal». 
Ao tempo, segundo o DL, as conversações entre UNITA e MPLA «passavam pela troca de prisioneiros e transposição de obstáculos imediatos para a continuação do Governo de Transição». «O Governo de Transição existiu sempre. As condições é que não permitem que toda a gente possa estar no lugar das suas funções», disse José Ndele, em Lisboa.
Razões de segurança, disse, eram o motivo por que a UNITA «retirara de Luanda e não podia comparecer às sessões governamentais».  

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

1 776 - O atirador Victor Francisco...

Viegas e Vitor Francisco, em Agosto de 2013 (em cima), «achados» na Marinha 
Grande. O Francisco no Quitexe, onde integrou o PELREC da CCS, em 1974 (em baixo)



O Francisco foi soldado atirador do PELREC e dele se sabia ser da Marinha Grande. Mas o que é feito dele, o que não é, por onde anda, ou não anda? O melhor era bater-lhe à porta e aí apareceu ele, achado numa tarde de Agosto, quando regressava a casa, das compras do Modelo. O Francisco foi um bom soldado, discreto, eficiente, sem levantar ondas. Comigo fez alguns serviços de PM (ou PU), sem falhas, cumpridor, corajoso, sereno, disciplinado. Era daqueles antigos companheiros que nos ficam guardados na memória, na esperança de um dia o encontrarmos, numa qualquer esquina da vida. Foi o que aconteceu no sábado à tarde, dia 24 de Agosto deste 2013 que corre.
«Eh, Viegas, pá... quantas vezes eu me lembro da malta!!!», disse-me ele, mal o chamei, quando se aprontava a entrar em casa. Conheceu-me logo, sem eu lhe dar graça da minha graça, num jeito que o continuou a mostrar como o rapaz humilde que conhecemos há 39 anos, a sorrirem-lhe os olhos, a abraçar o antigo companheiro da jornada angolana e a lembrar «aquela malta toda...».
O Francisco está reformado, depois de uma vida a trabalhar nas fábricas de vidro da Marinha Grande, com duas breves interrupções - quando trabalhou em França. Tem uma filha e dois netos, na altura «a passar férias no Algarve». Ele não quis ir. «Estive lá o ano passado e fartei-me», contou ao blogue.
Costuma encontrar-se com o Grácio, o sapador que zelava o depósito de géneros e prometeu combinar com ele a ida ao encontro de 2014. Até lá!
- FRANCISCO. Victor José Ferreira Francisco, soldado atirador 
de cavalaria do PELREC. Aposentado, mora na Marinha Grande.
- PM. Polícia Militar.
- PU. Polícia de Unidade.




terça-feira, 27 de agosto de 2013

1775 - Justiça popular e fuzilamentos em Luanda...

GRAFANIL. Entrada do Campo Militar, foto de Jorge Oliveira, em 1973 (em cima). 
Notícia do Diário de Lisboa, sobre fuzilamentos em Luanda, em 1975 (imagem em baixo)



A 27 de Agosto de 1975, seis elementos das FAPLA - braço armado do MPLA - «foram julgados por um tribunal popular de Luanda e executados»
A notícia foi publicada na edição do Diário de Lisboa do dia seguinte, sublinhando que «o julgamento decorreu no bairro suburbano de Sambizanga, em Luanda, sendo os seis elementos das FAPLA acusados de violarem, roubarem e assassinarem 11 pessoas».
«O tribunal popular pronunciou-se contra os réus, que foram executados em público», acrescentava o DL, precisando, ainda, que «o Estado Maior General das FAPLA publicou um comunicado em que chama a atenção de todos os militantes do MPLA, sob sua autoridade, para a necessidade de cumprirem, integral e  conscientemente, as disposições contidas na lei da disciplina das FAPLA», frisando, também, que «toda a infracção a essa lei será punida com justiça e com a rigidez que ela permite e que a gravidade do caso impuser».
Os Cavaleiros do Norte, por esse tempo e cada vez mais próximos do regresso a Lisboa e às suas casas, nem saberiam destes casos. Aquartelados no extinto Batalhão de Intendência de Angola, no Campo Militar do Grafanil, cumpriam «missões de unidade de reserva da RMA» -o que, na prática, equivalia a serviços internos (poucos), caldeados de saltos à cidade de Luanda e aos ses pontos de atracção - as praias, a ilha, os bares e os restaurantes, a noite!
O dia 8 de Setembro estava cada vez mais próximo.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

1 774 - MPLA aumentava a zona de influência...

A fortaleza de S. Pedro da Barra, em Luanda (imagem da net). 
Notícia do DL, em Lisboa, sobre a  influência do MPLA em Angola



A situação militar de Luanda, a 26 de Agosto de 1975, estava calma e era dada como certa a formação de uma Junta Militar para assegurar a governação - com funções idênticas às do Alto Comissário. 
O MPLA controlava a situação, o que se repetia um pouco por todo o território - aumentando a sua zona de influência. Menos no norte uíjano, de onde tinham saído os Cavaleiros do Norte.
Sá da Bandeira (e toda a Huíla), Pereira d´Eça, General Roçadas e Humbe (?), Lobito, Moçâmedes caíram em poder do MPLA, por capitulação das forças da FNLA e da UNITA - que evacuaram das zonas. Os arredores do Luso eram palco de combates entre o MPLA e a UNITA. Em Nova Lisboa, uma coluna militar portuguesa deslocou-se ao Alto do Catumbela e recolheu cerca de 1200 civis, que estavam acantonados na fábrica de celulose.
O Caxito registava «intenso movimento de forças do MPLA e da FNLA», o que fazia prever confrontações.
Em Luanda, a Polícia Judiciária autorizou a visita de jornalistas ao forte de S. Pedro da Barra, de onde tinham  sido evacuados militares da FNLA. A três quilómetros, os jornalistas puderam ver «uma vala comum, cheia de cadáveres em estado de decomposição e juncada de despojos humanos». 
«Outros corpos - relatava o DL, em Lisboa - empilhados em diversas outras valas, não puderam ainda ser exumados, visto a FNLA ter minado o terreno». 

domingo, 25 de agosto de 2013

1 773 - Armamento para a FNLA, em Carmona...

O quartel do BC12, fachada principal e lado 
do Songo (em cima) e vista aérea das instalações

A 24 de Agosto de 1975, um domingo, é dia ainda mais folgado para a guarnição do 8423. Eu, voltei a «matabichar» na Portugália e de novo com o jornalista Rebelo Carvalheira. Com o Albano Resende, ia ter almoço e preparação do meu plano de ele enviar correio meu, para Portugal, durante os dias em que duraria a viagem do Niassa e até Lisboa. Eu queria aparecer de surpresa e a forma de «iludir» os 10 dias eram enviar correio nesse período da viagem marítima. O que ia combinar com ele.
Os combates, em Angola, prosseguiam diariamente e voltou a falar-se de Carmona, o feudo da FNLA, onde, segundo o MPLA e apesar de um desmentido de Washington, «aviões do tipo «Skymaster», provenientes das bases americanas da Alemanha Federal, estariam a realizar um vaivém entre Kinshasa, no Zaire, e Carmona, onde estão concentradas importantes tropas da FNLA».
Os aviões, ainda segundo o MPLA, citado no Diário de Lisboa, «estariam a fornecer armamento, incluindo canhões de longo alcance». Acrescentava o MPLA que «200 instrutores chineses encontrar-se-iam perto do Caxito», a uns 80 quilómetros de Luanda. E que «mercenários do Zaire, da Tunísia e afro-americanos combateriam ao lado da FNLA». FNLA que acusava  MPLA de receber apoio da URSS e de países do leste, desmentido pelo movimento de Agostinho Neto. 
Assim ia Angola, há 38 anos!

sábado, 24 de agosto de 2013

1 772 - Holden Roberto voltou a Carmona...

Aeroporto de Carmona, de onde, a 3 de Agosto de 1975, saíram os Cavaleiros 
do Norte. E onde, a 23 do mesmo mês, chegou Holden Roberto (FNLA)

Luanda, 23 de Agosto de 1975. Passam-se 2 anos da morte de meu pai e um sobre um das noites mais dramáticas da nossa jornada africana, na pista de aviação do Quitexe - onde o PELREC «sonambulou» medos e resistiu à tentação do ataque a uma coluna de infiltrados. Das vésperas, tinha aerograma de minha mãe - que me vinha lembrar o nosso luto e desejar-me a sorte que uma mãe viúva deseja a um filho que está na guerra, onde ele imagina todos os males e tragédias do mundo. Senti, na altura, um inexplicável conforto emocional.
Tenho encontro com o Albano Resende (com conterrâneo, civil), na Portugália, a meio da manhã, e para lá me dirijo, ido de Viana. Lá costumava «matar-o-bicho», com Rebelo Carvalheira, jornalista de A Província de Angola. É nele (jornal) que leio sobre a possibilidade de uma aliança da FNLA com a UNITA, para combater o MPLA. Os movimentos liderados por Agostinho Neto e Holden Roberto contariam, segundo o jornal, com «apoio tribal de mais de 40% da população total de Angola», pelo que cada um estava interessado na aliança com a UNITA, mas esta, e cito o PA, «limitar-se-á a uma aliança militar táctica».  
Carmona, de onde saíramos menos de 3 semanas antes, raramente era notícia, mas, em Portugal, o Diário de Lisboa desse dia, titulava que «Holden Roberto chegou a Carmona num avião da Air Zaire» - acompanhado de John Eduardo, que fôra 1º. ministro do Colégio Presidencial no Governo de Transição.
Dias antes, tinha sido fotografado na Barra do Dande e não foi dada explicação sobre a sua reentrada no território angolano - coincidente com o empurramento da FNLA, pelo MPLA, «para norte do rio Dande e do Lucala, quase até Samba Caju» - como se lê na notícia do DL.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

1 771 - A fuga de funcionários públicos angolanos

Furriéis Aldeagas e Queirós (1ª. CCAV.), Cândido Pires e Luís Mosteias, 
sapadores da CCS, na baixa de Luanda, nos últimos dias de Angola


Os Cavaleiros do Norte, fazendo contas aos dias de calendário que os separavam de 8 de Setembro, dia previsto para a viagem marítima para Lisboa, iam espreitando os prazeres urbanos, desconhecidos para a maioria deles, mas que desafiavam os seus apetites mais carnais.
Os restaurantes e bares da baixa luandina era seu pouso habitual - pela Portugália, a Mutamba, o Paris Versailles, o Pólo Norte, o Amazonas, a Floresta, a ilha, a restinga, o Mussúlo e quantos outros sítios onde se matavam prazeres. O 8, o 23 e o 24, por exemplo!!! Ou o BO e o Marçal!!!
Os Estados Unidos desmentiam o envio de material de guerra para Carmona e Negage, a partir das duas bases europeias da Alemanha Federal. Em Kinshasa (Zaire), o secretário dos Negócios Estrangeiros da UNITA desmentia qualquer acordo com a FNLA, mas o Jornal de Angola desse dia 23 de Agosto de 1975 admitia que «a reunião magna da UNITA poderá decidir oficialmente uma aliança com a FNLA».
Lopo do Nascimento (foto), do MPLA, em Luanda, dava conta das suas preocupações sobre «o elevado número de funcionários nascidos e residentes em Angola que se inscreveram no quadro de adidos de Portugal». Considerava o facto como «inconveniente»  e frisava que os angolanos nessas condições «perderão automaticamente a cidadania angolana, passando a ser estrangeiros no país que tiverem escolhido».
«Pedimos a todos esses compatriotas que assumam as suas responsabilidades de angolanos, que aceitem os sacrifícios que as actuais circunstâncias impõem e que contribuem com o seu trabalho na luta contra a sabotagem económica pelo aumento da produção», disse Lopo do Nascimento, há 38 anos - no Verão de 1975.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

1 770 - Os Resende´s, o MPLA/UNITA e a FNLA...

A família Resende, em Luanda, com Viegas (segundo da direita) e capitão Domingues (à 
direita). José Bernardino (de barba), com a esposa Fátima, as filhas e o irmão Albano 



A vida de Luanda, apesar de todos os incidentes inter-movimentos, era estranhamente calma por Agosto de 1975, embora os militares portugueses, pelo menos os Cavaleiros do Norte, circulassem na cidade com extremos cuidados e sempre em grupos. Assim estvam instruídos.
Já por aqui falei, várias vezes, da família Resende (meu principal ponto de encontro em Luanda), e foi Fátima (foto) quem, em Julho de 1975, me transportou para Lisboa uma aparelhagem de som (que ainda jaz ali na minha sala) e caixas de wiskye, de que sobram ainda algumas garrafas.
O Albano, pouco mais velho que eu e (anterior) vizinho de 50 metros, aqui na aldeia, fazia-me de cicerone pela cidade de Luanda e por isso a conheci tão bem. Falávamos, obviamente, da situação, mas não se lhe notava grande preocupação sobre o amanhã. Angola seria o seu futuro. Mas não foi.
Em Luanda, a 21 de Agosto de 1975, falava-se de uma cimeira MPLA/UNITA. A FNLA, na área do Caxito, tinha avançado até perto de Quifangondo, mas recuou uns 15 quilómetros, por força do MPLA. MPLA que, a 22, dava conta de que, nesses combates, tinham sido abatidos mercenários brancos, ao serviço da FNLA. «A ser verdade - relatava o Diário de Lisboa de 22 de Agosto - tal facto vem apenas confirmar diversos boatos que falam da presença de americanos e chineses na orientação das forças da FNLA que actual naquele sector».

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

1 769 - O alferes miliciano oficial de justiça e poeta...

Alferes Ramos, oficial miliciano (em cima) e poeta (em baixo)



O alferes Ramos apresentou-se no BC12 e na 2ª. CCAV. 8423 (a de Aldeia Viçosa) em Maio de 1975. Por lá fez inventário do espólio militar da guarnição, fez 63 anos a 14 de Agosto e o facto foi evocado no blogue.
«Obrigado pela atenção! Dei uma vista de olhos pelo blogue e gostei da lembrança e de ver as fotos e o respectivo ambiente!», escreveu o agora advogado Fernando Ramos, dando conta que «na altura não presenciei a saída do Batalhão de Carmona, pois, como estava ali por castigo e não estava familiarizado com o pessoal, aproveitei a primeira oportunidade para voltar de férias para Luanda, onde aliás tinha família!».
Por Carmona e nos Cavaleiros do Norte deixou rasto... poético, na edição que assinalou o primeiro ano do BCAV. 8423 em Angola, em Junho de 1975 - como se vê na imagem.
Achado de férias em Luanda, por lá ficou, com processos disciplinares e outros!
«Era eu e um furriel, cujo nome não lembro! Nem sei se ele e os processos também eram desse nosso Batalhão ou outro», conta Fernando Ramos.
Oficial de justiça, nessa altura e para esse efeito, foi-lhe distribuído um jeep Land Rover, mas como já faltavam pneus, lembra-se «os de trás, um era maior que o outro».
Os Cavaleiros do Norte começaram a regressar a Lisboa a 8 de Setembro, mas por lá continuou o oficial de justiça e poeta. «Regressei de avião, a 22 de Outubro de 1975, e permaneci no serviço de Justiça até ao Verão de 1976, num quartel perto de Sete Rios... por aí!», contou ele ao blogue.
Gostava de reencontrar o furriel que com ele lidou na justiça. «Ao ler-se o blogue, talvez alguém se lembre de quem era esse furriel!», disse Fernando Ramos.
Quem sabe?!
- RAMOS. Fernando António Morgado Ramos, alferes miliciano atirador de cavalaria. Advogado em Vila Nova de Foz Coa, onde reside.