quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

3 303 - Emblema do BCAV. 8423 e avanço do MPLA a sul

Barros Simões, alferes miliciano da 3ª. CCAV., à esquerda, foi o criador do emblema do Batalhão de 
Cavalaria 8423. A foto é do encontro de Águeda, a 9 de Setembro de 1995. À direita, está o (furriel) Manuel 
Machado (da CCS). E quem é o Cavaleiro do Norte da imagem do meio?


O emblema do BCAV. 8423 foi
desenhado pelo (alferes miliciano) Barros
Simões, da 3ª. CCAV., a de Santa Isabel
O emblema braçal do Batalhão de Cavalaria 84233 foi conhecido a 11 de Fevereiro de 1974, no Destacamento do RC4, no Campo Militar de Santa Margarida. Segundo o Livro da Unidade, «servindo o lema «Perguntai ao Inimigo Que Somos, pertença das tradições do RC4». O desenho é da autoria do (então futuro) alferes miliciano Mário José Barros Simões, atirador de Cavalaria da 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel.
«Foi-me pedido pelo comandante Almeida e Brito, sabendo que eu trabalhava na área das artes gráficas. Deu-me as indicações e desenhei-o», disse Barros Simões, há anos perguntado pela forma como foi criado, frisando que «com as dicas recebidas, fui-o aperfeiçoando até ao produto final».
O emblema foi projectado para «plena identificação com a sua unidade mobilizadora» - o RC4 -, a fundo preto (assim como o guião), «enquanto que as Companhias adoptaram as cores vermelha (a 1ª., a de Zalala), azul (a 2ª., de Aldeia Viçosa) e castanha (a 3ª. CCAV., de Santa Isabel)».
A 1ª. página do Diário de Lisboa de 11
de Fevereiro de 1976, noticiando o avanço
do MPLA no sul de Angola e o «atraso»
em Portugal reconhecer Angola
O objectivo inicial foi «instituir o espírito de corpo ao BCAV., de modo a que se constituísse num todo coeso, disciplinado e disciplinador», sublinha o Livro da Unidade.
Um ano depois, era terça-feira de carnaval e os Cavaleiros do Norte continuavam a agora mais tranquila jornada africana do Uíge angolano, com a actividade operacional limitada a serviços de ordem. O mês desse Fevereiro de 1975, para os Cavaleiros do Norte, «caracterizou-se pela incerteza do seu futuro destino», como refere o Livro da Unidade, sublinhando também que «iria ser considerado a fazer parte das tropas de integração determinadas pelo Acordo da Penina» - o do Alvor. 
Dois anos depois, a 11 de Fevereiro de 1976, já os Cavaleiros do Norte tinham regressado a casa e pela Angola independente continuavam os combates. O MPLA avançava no sul do território e, reportava o Diário de Lisboa, «consolida(va) posições, fazendo crer que em breve dominará a totalidade do território angolano». 
A posição portuguesa é que se mantinha renitente, quando ao reconhecimento da República Popular de Angola, declarada a 11 de Novembro de 1974, pelo MPLA, na voz do presidente Agostinho Neto.
«O MPLA avança, enquanto Lisboa parece, por agora, atrasar uma decisão inelutável», resumia o Diário de Lisboa, na sua edição de 11 de Fevereiro de 1976. Há 40 anos!!!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

3 302 - Psicologia no Quitexe e o MPLA no Lobito

Quitexe. A secretaria da CCS e Casa dos Furriéis ficavam na casa ao fundo. 
A imagem foi tirada da Estrada do Café, a Rua de Cima


Os furriéis milicianos António Fernandes e
José Adelino Querido, da 3ª. CCAV. 8423, em
dose dupla. No encontro de Águeda, a
9 de Setembro de 1995

Os dias de Fevereiro de 1975, há 41 anos, iam-se passando algo lentamente, sempre expectando notícias sobre a rotação dos Cavaleiros do Norte. Que não mais chegavam! As guarnições do Batalhão de Cavalaria 8423 -no Quitexe, em Aldeia Viçosa e Vista Alegre/Ponte do Dange - cumpriam os serviços de rotina e, cito o Livro da Unidade, «a saída do oficial de acção psicológica do BCAV ., por motivos disciplinares, e a sua substituição, fez melhorar os trabalhos inerentes àquela função, impulsionando-se a prática de jogos desportivos e, o que é mais importante, fazendo-se um jornal de parede, o qual teve a melhor adesão dos militares, seus únicos colaboradores, e a maior aceitação de sua parte».
A imagem que hoje reproduzimos (aqui ao lado) é a da capa do jornal comemorativo do aniversário no BCAV. 8423. Era feito em policópias e distribuído gratuitamente entre a guarnição.
Ao dia, um curioso trabalho publicado no Diário de Lisboa dava conta de que, segundo dados de 1972, viveriam em Angola 318 895 cidadãos brancos - entre imigrados e nascidos. O trabalho era do Centro de Estudos Africanos da Universidade da Califórnia (por Gerald J. Bember e Stanley Yoder). Mas os números variavam, segundo as fontes. Logo a seguir ao 25 de Abril (e segundo o mesmo estudo americano), «as estimativas sobre o número de brancos em Angola variavam entre os 700 000 e 350 000, sendo 500 000 o número mais espalhado e mais aceite fora de Portugal».
Um ano depois, confirmada a conquista de Nova Lisboa a UNITA, o MPLA avançava sobre o Lobito, «importante porto a sul de Luanda». Depois da queda do Uíge (a «nossa» Carmona), a 4 de Janeiro - que «consagra(va) a derrota da FNLA» -, a de Nova Lisboa (Huambo) era, para o MPLA e Governo angolano, segundo o Diário de Lisboa, «além do êxito militar que representa, constitui uma vitória e um trunfo económico de primeira ordem».
Notícia do Diário de Lisboa de 10 de
Fevereiro de 2006. sobre o avanço do
MPLA sobre o Lobito 
Vitória política, porque a UNITA perdeu a sua capital e o controlo de uma das regiões mais populosas do país. E política, porque o Huambo era simultâneamente uma das regiões mais ricas do país - nomeadamente em termos de produção bovina e agrícola. Quando ao Lobito, tinha o maior porto de Angola, o primeiro em termos de tonelagem e terminal do caminho de ferro de Benguela - por onde transitavam o cobre do Zaire e da Zâmbia.
«Ao entrarem triunfantes no Huambo, as forças do MPLA alcançaram muito mais que um êxito militar», reportava o Diário de Lisboa de 10 de Fevereiro de 1976.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

3 301 - Chegada do alferes Meneses e a guerra civil de 1976

Quitexe, a avenida, ou rua de baixo. O bar dos praças está indicado pela 
seta vermelha (à esquerda). Ficava em frente à messe de oficiais. 
A enfermaria, à direita (seta verde)


O 1º. sargento José Claudino Luzia
no encontro de Águeda, a 09/091995


O dia 9 de Fevereiro de 1975 foi domingo de Carnaval e, no Quitexe, terra uíjana dos Cavaleiros do Norte, foi tempo de se dar uma olhadela, ao vivo, pelas tradições angolanas deste dia - muito diferentes das do nosso chão europeu. Por ser domingo, deu até para, apeada e depois bem regada de marufo, dar uma saltada às aldeias vizinhas da vila e conhecer os sons dos batuques e a cor das danças africanas, com homens e mulheres em bailação bem sensual, uns e umas de caras pintadas, outro(a)s de máscaras muito artesanais. 
O saracoteio de
Alferes Meneses Alves
ancas desnudadas das mais jovens raparigas da sanzala, de peitos soltos e olhos rasgados de cio, entusiasmaram os nossos olhares, gulosos de ver os corpos de ébano que se abanavam em danças intermináveis e eram novidade apetitosa ao nosso novo conhecimento.
A vida pelo aquartelamento quitexano continuava tranquila e, da política - da angolana e da portuguesa... - nem nos chegavam novidades. O que era bom sinal. Bom sinal pelo Quitexe, onde jornadeavam a CCS e a 3ª. CCAV. 8423; por Vista Alegre e Ponte do Dange (1ª. CCAV. 8423) e Aldeia Viçosa (2ª. CCAV. 8423). Aqui, por data indeterminada desse mês de Fevereiro de 1975, a maior novidade foi a apresentação do alferes miliciano Manuel Meneses Alves, atirador e vindo de Cabinda. Aqui, tinha sido oficial miliciano do Batalhão de Caçadores 4519, rodando para os Cavaleiros do Norte há 41 anos.
A primeira página do Diário de Lisboa
de 9 de Fevereiro de 1976, com notícia
da vitória do MPLA em Nova Lisboa
Um ano depois, na Angola independente, o Diário de Lisboa noticiava a vitória do MPLA, depois da conquista do Huambo (Nova Lisboa), «libertada às 2,50 horas da madrugada de ontem». dia 8 de Fevereiro de 1976. A norte, tinha sido tomada Santo António do Zaire, o que «culminou o controlo do MPLA de todo o litoral, desde Novo Redondo até ao rio Zaire».
As FAPLA controlavam o leste, com «a cidade do Luso cercada» e, na zona central, expectavam a tomada de Silva Porto, até porque a UNITA estava, ao tempo, «privada do apoio dos seus aliados sul-africanos» e recuava, face à ofensiva do MPLA. A sul de Novo Redondo, as forças do MPLA cercavam Lobito e Benguela e esperava-se que a libertação ocorresse nessa semana. Mais a sul, «as tropas racistas sul-africanas», como o DL as designava, estavam a ser «fortemente contestadas pelos guerrilheiros do MPLA, que desenvolvem acções constantes contra os invasores e seus aliados angolanos».
A UNITA estava numa «situação desesperada» que já nem Jonas Savimbi escondia. Em declarações a imprensa, admitia que «a situação é muito crítica» e culpava americanos e sul-africanos, por terem decidido «sacrificar Angola». Dispunha-se a abandonar a capital do Bié, onde tinha instalado o seu Estado Maior. A norte, o DL dava conta na edição de faz hoje 40 anos, da «derrocada da FNLA», onde, sublinhava, «os próprios mercenários recrutados à pressa por Holden Roberto são impotentes para alterar a situação e sofrem desaires sucessivos».
- MENESES. Manuel Meneses Alves, alferes miliciano 
atirador. Natural de Cortes, em Leiria, onde era empresário 
do sector das carnes e faleceu, de doença a 15 de Maio de 2013.
Ver AQUI

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

3 300 - Comício FNLA/PAIGC no Quitexe e festa em Carmona

Cavaleiros do Norte e músicos de Zalala, mas aqui já em Vista Alegre. Quem será o da esquerda, de 
barbas. Depois. de costas e a tocar viola, o alferes Mário Sousa, o Carlos Ferreira (tapado  pelo Sousa), 
Fião (?), o Ângelo Lourenço e o Cunha (enfermeiro, com o biberon do bebé do casal Sousa), o soldado 
Celestino Eira e a esposa do alferes Sousa. A foto é do (furriel) João Dias

O condutor Joaquim Celestino e o atirador de
cavalaria Raúl Caixaria (com a esposa) no primeiro
encontro dos Cavaleiros do Norte. Em
Águeda, a 9 de Setembro de 1995 


Aos oito dias de Fevereiro de 1975, um sábado, foi tempo de comício do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) no Quitexe e em colaboração com a FNLA - como agora releio no Livro da Unidade. 
O acontecimento não tem respaldo na minha memória, o que me leva a concluir que não estaria na vila que aquartelou os Cavaleiros do Norte - provavelmente em algum «desenfianço» para Luanda, como tudo leva a crer. É que nesse mesmo dia, ou noite  (é mais acertado dizer), realizou-se em Carmona, por iniciativa da ZMN e no pavilhão do Clube Recreativo do Uíge (CRU), «um espectáculo de soldados (...), o que causou impacto positivo no estado psicológico das tropas». E dele em guardo memória de assistir, provavelmente no regresso aéreo da capital e com boleia, depois, dos Cavaleiros do Norte para o Quitexe.
Memória particular tenho da actuação de um conjunto musical, em que guitarrava e cantava o capitão José Paulo Fernandes, comandante da 3ª. CCAV. 8423 - a de Santa Isabel mas ao tempo já no Quitexe, desde 109 de Dezembro de 1974. Ele mesmo se lembra deste espectáculo, mas sem grandes pormenores. «Eu tocava umas coisas e organizámos o conjunto um bocado à pressa», disse-nos recentemente, lembrado que «a festa teve grande impacto junto da população civil». 
O Carlos Ferreira, ao tempo 1º. cabo mecânico de armas, agora a jornadear civilmente por Moçambique, recordou-nos que «Zalala também esteve presente» nesse espectáculo. «Eu e o Lourenço tocávamos viola», memoriou este «zalala», ao tempo e com toda a 1ª. CCAV. 8423 aquartelados em Vista Alegre e com destacamento em Ponte do Dange. Ângelo Ferreira Lourenço era 1º. cabo operador cripto e, actualmente, aposentado do Sindicato dos Motoristas de Táxis de Lisboa - onde já trabalhava antes da jornada africana de Angola.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

3 299 - O fim das escoltas, há 41 anos, na Estrada do Café

A Estrada do Café, a 12 de Dezembro de 2012, em foto do (1º. cabo) Carlos 
Ferreira, da 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala. Não é muito diferente do tempo 
dos Cavaleiros do Norte

Américo Gaiteiro e António Calçada (foto
da esquerda), Delfim Serra e Gaiteiro, Cavaleiros do
Norte da CCS no encontro de Águeda, a 9
de Setembro de 1995

Quitexe, no Uíge angolano, dia 7 Fevereiro de 1975!! É sexta-feira e o dia nasce(u) quente, como quase sempre. Pela frente,  tínhamos mais uma estafante escolta na Estrada do Café. Estafante e com alguns perigos. Nunca se sabia quando, encoberto por uma árvore da floresta, um homem (apenas um!!!...) podia disparar sobre a coluna. Disparar e fugir, deixando semeado o medo, quem sabe se feridos, quiçá mortos! O que, felizmente, nunca aconteceu!
As escoltas iam desde a entrada de Carmona até (muitas vezes) ao Úcua, divididas por troços e várias patrulhas dos Cavaleiros do Norte - das 4 Companhias. Algumas vezes tínhamos e de ter paciência para as iras de muitos motoristas de longo curso, quem, principalmente, beneficiava desse desgastante serviço militar, que lhes dava segurança no itinerário.
Recordo um que, em data indeterminada, seguia na direcção de Luanda com um enorme carregamento de sacos de café (muitas toneladas), recusou identificar-se no stop militar e ousou saltar da cabine para a estrada com uma arma empunhada e nos ameaçou. Estes momentos, recordados mais de 40 anos depois, ainda nos parecem ferir a alma - pois poderiam, ter sido de morte e de tragédia. Controlado pelos militares e buscada a carga, verificou-se que transportava armas e munições em caixotes disfarçados no meio das centenas de sacos do carregamento. Bem sabia ele porque não queria ser fiscalizado. Foi entregue às autoridades civis e dele (e da carga) nada mais soubemos.
Há precisamente 41 anos, pois, a actividade militar dos Cavaleiros do Norte, e cito o Livro da Unidade, «deixou de executar a escolta a Estrada do Café, serviço esse que era assaz desgastante para o pessoal e viaturas e que não conduzia a qualquer finalidade prática».
Ainda não sabíamos, mas já estávamos em vésperas da rotação para Carmona e para o BC12. Seria a 2 de Março desse 1975!

sábado, 6 de fevereiro de 2016

3 298 - O patinador Rodrigo (Buraquinho)! Culpas do MPLA!

O patinador artístico Rodrigo Coelho, filho do (1º. cabo) Alfredo Coelho, o 
Buraquinho, vai estar amanhã no Got Talent Portgal, na noite da RTP1




Hoje, é dia de aqui vir anunciar que Rodrigo Coelho, filho do (1º. cabo analista de águas) Alfredo Coelho - o  Buraquinho! - é amanhã vedeta televisiva, no concurso Got Talent Portugal, na noite da RTP 1.

Rodrigo Viegas Coelho exibe-se em patinagem artística, como se poderá (ante)ver AQUI, e surpreendeu os jurados, como se pode ler na revista TV Mais (imagem ao lado). Vai ser o dia de S. Buraquinho, na noite televisiva de 7 de Fevereiro de 2016. Passa à fase seguinte, não passa? O melhor é reservar tempo para (tele)ver a RTP1 de amanhã à noite. E com antecipados parabéns ao Rodrigo - que já por mais de uma vez foi conviva dos encontros dos Cavaleiros do Norte da CCS.
Há 41 anos, dia 6 de Fevereiro de 1975, o Gabinete do Alto-Comissário de Portugal em Angola apontava o dedo ao MPLA, admitindo que os disparos que tinham estado na origem dos incidentes de S. Paulo - no qual morreram o capitão Ramiro e o alferes Santos, entre outros! - «foram feitos por elementos das FAPLA», muito embora «não tenha sido provada a intenção de causar vítimas», nem que «o desencadeamento da acção de fogo tenha sido ordenada».
Notícia do Diário de Lisboa de 6 de
Fevereiro de 1975 sobre os incidentes
do bairro de S. Paulo, em Luanda
As conclusões do inquérito davam conta de «ser falsa a acusação feita ao comerciante envolvido nos incidentes» - acusado de «ter morto, na véspera, dois civis negros» - e que o Comité Central do MPLA «em face da ausência de pormenores que permitam o eventual apuramento de responsabilidades, determinou ao Estado Maior das FAPLA a abertura de um inquérito que venha a esclarecer a verdadeira identidade dos autores dos disparos».
A comissão de inquérito era formado por representantes das Forças Armadas Portuguesas e dos três movimentos de libertação.
Página oficial de facebook
de Rodrigo Viegas Coelho

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

3 297 - Mosteias morreu há 3 anos! Agostinho Neto em Luanda!

Furriéis milicianos Viegas e Luís Mosteias, falecido há 3 anos, no dia 5 de Fevereiro de 2013. 
Imagem captada em 1974, no varandim da Casa dos Furriéis do Quitexe


O furriel Luís Mosteias em
Águeda, a 9 de Setembro de 1995

O Mosteias faleceu há 3 anos mas a memória não deixa esquecer, não pode!!!, um companheiro maior, que na nossa jornada africana do Uíge Angolano se afirmou sempre como homem solidário e presente, dado de mãos e de alma a todos quantos por lá foram parte da história do país novo que então nascia. 
O Mosteias, o Luís João Ramalho Mosteias, era furriel miliciano sapador mas a sua presença era transversal ao universo humano dos Cavaleiros do Norte aquartelados no Quitexe da nossa saudade. Houvesse um serviço ou uma falta a cobrir, um combate de ideias ou uma discussão mais acesa, uma luta a assumir, um problema a resolver, lá estaria o Mosteias a comungar o que fosse, a partilhar a sua generosa solidariedade, sempre cúmplice do irmão Cavaleiro do Norte.
Mosteias e o seu primeiro filho, Luís
João, nascido a 21 de Setembro de 1974,
quando jornadeávamos pelo Quitexe
A saúde traiu-o em finais de 2012, mas foi forte até ao fim da sua luta contra o inimigo invisível. Faleceu há três anos e hoje aqui o recordamos com saudade! Até um dia destes, grande Mosteias!!!
Há 41 anos, dia 5 de Fevereiro de 1975, o comandante Almeida e Brito deslocou-se ao Songo e lá, no  quartel do BCAÇ. 5015, participou na reunião de comandos do Comando do Sector do Uíge (CSU) - por sinal, a última. Nesse dia, a escolta foi assegurada por um grupo do PELREC  - que eu próprio integrava, com o alferes António Garcia, que, julgo bem, lá participou na reunião de delegados do MFA.
Agostinho Neto chegara na véspera a Luanda e, segundo o Diário de Lisboa, «uma multidão de mais de 300 000 pessoas o vitoriou». Foi da varanda do aeroporto e depois de se encontrar com a mãe e familiares que o presidente do MPLA afirmou que «temos de fazer que o nosso povo se sinta realmente dono do nosso país». Acrescentou: «Que seja livre. Que a unidade e a democracia não sejam palavras que nós só pronunciamos, que só estejam presentes diante do microfone, mas que sejam os ideais que nós, na realidade, defendemos».
Chegada de Agostinho Neto a Luanda,
a 5 de Fevereiro de 1975
«Hoje, dia 4 de Fevereiro, estamos a comemorar o início da luta armada para a libertação do nosso país. Esta luta voa precedida de várias outras lutas, tanto no plano legal como no plano clandestino, por aquela que culminou com a acção do nosso povo vitorioso pela sua independência», afirmou Agostinho Neto.
Sobre os incidentes de S. Paulo foram conhecidos nomes de algumas das vítimas, entre elas o capitão miliciano Ramiro José Amaro de Azevedo Pinheiro e o alferes miliciano José Domingos dos Santos. Em estado grave, ficou o capitão miliciano Manuel Guilherme de Carvalho Figueiredo.
Falecidos: sargento Álvaro Lopes (FNLA) e os civis Joaquim Dulo, Afonso Figueiredo, Kianguili Kalena e José Alberto Carvalho Silva. 
Entretanto, relatava o Diário de Lisboa, «a calma parecer ter retornado à cidade». Ainda bem!!!
- A MORTE DO AMIGO MOSTEIA. Ver AQUI
- MOSTEIAS. Luís João Ramalho Mosteias foi furriel miliciano
sapador, da CCS do Batalhão de Cavalaria 8423 - os Cavaleiros 
do Norte. Natural de Cabeção (Mora), viveu em Lisboa, no 
Montijo (a sua terra de afeição) e Vila Nova de Santo André, 
onde trabalhava e residia. Faleceu a 5 de Fevereiro de 
2013, no Hospital do Litoral Alentejano.o.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

3 296 - O 2º. comandante O. Monteiro e morte de 2 oficiais portugueses

Avenida do Quitexe, ou Rua de Baixo. Aqui, à direita, a entrada para o parque-auto e o edifício 
do comando, com a Bandeira Portuguesa hasteada. Logo a seguir, a secretaria da CCS e 
Casa dos Furriéis e messes dos Oficiais e dos Sargentos


O António Calçada e o João Monteiro (Gasolinas) e
esposa, na primeira foto. O mesmo Calçada e o mesmo
Casolinas na segunda foto, ambas no encontro de
Águeda, a 9 de Setembro de 1995

A 4 de Fevereiro de 1974, no Destacamento do RC4 do Campo Militar de Santa Margarida, os futuros Cavaleiros do Norte conheceram o major Ornelas Monteiro, que fez «a sua apresentação formal» como 2º. comandante do Batalhão de Cavalaria 8423.
Por pouco tempo, já que «por motivos imperiosos de serviço», como refere o Livro da Unidade, «acabou por não acompanhar o BCAV. para a RMA (Região Militar de Angola), tendo sido deslocado nas vésperas para o CCFAG» - o Comando Chefe da Forças Armadas da Guiné -, por «solicitação do Movimento das Forças Armadas». O BCAV. 8423 só em finais de Março de 1975 viria a ter 2º. comandante: o major José Diogo Themudo.
O mesmo dia 4 de Fevereiro, mas de 1975, foi tempo para «a comemoração do feriado oficial do MPLA», o movimento/partido de Agostinho Neto, porém, e seguindo o Livro da Unidade, «sem expressão na «área do BCAV. 8423».
O capitão Ramiro Pinheiro, da 1ª.
CCART. 6323, morto nos incidentes da
Praça de S. Paulo, a 4 de Fevereiro de
 1975. Assim como o alferes miliciano
António Santos
O dia foi considerado «feriado nacional de Angola, tendo em consideração o significado histórico da luta armada de libertação nacional de Angola». Esta data, a do ataque do MPLA às prisões de Luanda, em 1961, mas também 15 de Março de 1961 (ataque generalizado no norte de Angola, pela UPA/FNLA) e 25 de Dezembro de 1966 (ataque da UNITA a Teixeira de Sousa).
O dia foi o da chegada de Agostinho Neto a Luanda (dez anos depois da saída e de que amanhã falaremos) e de registo de incidentes na Praça de S. Paulo, na capital - do qual resultaram 10 mortos e 5 feridos. Entre eles, dois oficiais portugueses, ambos milicianos: o capitão Ramiro Pinheiro e o alferes António Santos, ambos da 1ª. CART. 6323.
Alferes António Santos
Correra o boato de que um comerciante branco abatera dois negros (que escondera no próprio estabelecimento), o que fez com uma multidão de negros se acercasse da loja. Soldados portugueses da da FNLA foram ao local, para protegerem o estabelecimento, ouviram-se tiros e também terão morrido dois soldados da FNLA e alguns civis.
A zona dos incidentes foi depois controlada pelas Forças Armadas Portuguesas e dos três movimentos de libertação - que, segundo o Diário de Lisboa, «fizeram deslocar para a zona muito pessoal e material».
O Governo de Transição, perante «a gravidade da situação, tomou medidas imediatas, tendentes a controlar totalmente a situação» e, assim, «assegurar a manutenção da ordem e impedir que incidentes desta natureza se repitam». E fez um apelo a toda a população, no sentido de «entregar as armas e material de guerra que tenha em seu poder».
- Capitão Pinheiro e alferes 
Santos. Ver AQUI´e AQUI

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

3 295 - Cavaleiros a fazer anos e Angola com saldo económico

Cavaleiros do Norte do PELREC. De pé, o furriel Viegas, João Marcos. 1º. cabo João Pinto, Raúl Caixarias e 
alferes António Garcia. Em baixo, 1ºs. cabos Luís Oliveira (TRMS) e Augusto Hipólito, Aurélio Júnior 
(Barbeiro), Francisco Madaleno e furriel Francisco Neto 


Os furriéis milicianos António Lopes (enfermeiro)
e Norberto Morais (mecânico) no encontro de
Águeda, a 9 de Setembro de 1995


O Madaleno, assinalado a amarelo, faz anos duas vezes por ano: nasceu a 1 de Janeiro mas só foi registado a 3 de Fevereiro de 1952. Já lá vão 64 anos! Atirador de Cavalaria, era um dos bravos Cavaleiros do Norte do PELREC - como se vê na imagem, destacado a amarelo. 
O atraso do registo era vulgar por esse tempo de nascença do Francisco José Matos Madaleno, lá pelos lados da Covilhã - onde ainda mora, agora reformado, depois de uma vida a carpinteirar e, já, de duas operações ao coração. Mas está aí para as curvas. É companheiro habitual dos encontros anuais dos Cavaleiros do Norte da CCS.
Carlos Mendes, 1º. cabo mecânico
electricista, faria hoje 64 anos. Faleceu
a 21 de Abril de 2010, nos Prazeres,
em Lisboa
Quem também fez 23 anos nesse distante 3 de Fevereiro de 1975 foi o 1º. cabo sapador Silvério Teixeira Cardoso, do pelotão comandado pelo alferes miliciano Jaime Ribeiro. Outro 1º. cabo com festa de natal nesse dia foi o Carlos Alberto de Jesus Mendes, mecânico electricista do grupo do alferes José Leonel Hermida- que infelizmente já faleceu (o Mendes), a 21 de Abril de 2010. Morava nos Prazeres, em Lisboa.
Ao tempo, era segunda-feira, o almirante Rosa Coutinho deu extensa entrevista ao Diário de Lisboa, nomeadamente afirmando que «de todos os territórios portugueses, incluindo o próprio Portugal, Angola é que se encontra em situação económica mais favorável».
Angola, acrescentou o ex-Alto Comissário, «fechou o seu ano económico com saldo na balança de pagamentos, com finanças sólidas. Com uma ou outra recessão nalguns sectores económicos, mas com franca explosão noutros sectores, de que não se fala», disse Rosa Coutinho.
Eram boas, como se vê, as perspectivas para a nação que ia nascer!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

3294 - Comício em Aldeia Viçosa e reconhecimento de Angola

O comandante Bundula, da FNLA (à direita), seguido do capitão José Manuel Cruz (comandante da 
2ª. CCAV.), um combatente da FNLA e do capitão José Paulo Fernandes (comandante ~
da 3ª. CCAV., com a mão na boca), em Aldeia Viçosa


Os furriéis milicianos António Carlos Letras e
António Cruz (e esposa) em  1998, 9 de Setembro, em
Águeda. Ambos da 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa

A 2 de Fevereiro de 1975, realizou-se um comício da FNLA em Aldeia Viçosa, de  novo havendo memória de incidentes. Poderá ter sido neste dia que os capitães milicianos José Manuel Cruz e José Paulo Fernandes, respectivamente, comandantes da 2ª. CCAV. 8423 e da 3ª. CCAV. 8423 - se acharam com o comandante Bundula.
O Livro da Unidade regista
O 1º. cabo Alfredo Coelho (o
Buraquinho) e o Joaquim Moreira,
enfermeiro (de pé), ambos da CCS.
E o 1º cabo enfermeiro António 
G. Rocha, da 2ª. CCAV. 8423
«incidentes entre FNLA e MPLA, rapidamente sanados pelas NT», o que deixa entender que não devem ter sido de grande monta. Havia, de resto, já algum cadastro de experiência nestes casos, desde as anteriores «situações de atrito», sendo a de 26 de Janeiro «a  mais grave», aquando da abertura da delegação da FNLA naquela localidade. Então, os dois movimentos pretenderam fazer um comício conjunto, mas «não conseguiram entendimento».
Na ordem do dia estava o Governo de Transição, empossado a 31 de Janeiro desse ano de 1975 e sobre o qual «caíam» grandes expectativas.Um ano depois, com Angola independente desde 11 de Novembro de 1975, «círculos governamentais angolanos, embora mantendo-se na expectativa, não escondem um certo optimismo face às recentes notícias divulgadas em Lisboa, sobre o próximo reconhecimento da República Popular de Angola pelo Estado Português». 
Os jornais diários, a rádio e a televisão oficiais angolanos, e citamos o Diário de Lisboa de 2 de Fevereiro de 1976, «desde há vários dias (...) que cessaram a publicação de quaisquer noticias que hostilizem, ou desfavoreçam as autoridades portuguesas». A esta posição, reportava o DL, «não devam ser alheias recomendações governamentais sobre o assunto».

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

3 293 - Cavaleiros lá pelo norte e Governo em Luanda

O Governo de Transição de Angola tomou posse a 31 de Janeiro de 1975, 
ontem se completaram 41 anos. Posse conferida por Almeida Santos, ministro 
português da Coordenação Inter-Territorial


Encontro de Águeda, a 9 de Setembro de 1995.
O Alfredo Coelho (Buraquinho) e o Moreira (?),
na imagem da esquerda. O furriel António Cruz
e o Buraquinho, na da direita


O Governo de Transição de Angola foi «saudado por mais de 5000 manifestantes, junto do Palácio do Governo». Agitavam bandeiras dos três movimentos de libertação e «gritavam com um brado uníssono de glória, glória», quer aos governantes quer ao Alto Comissário Português, quando assomaram às varandas do Palácio e como relata o Diário de Lisboa do dia seguinte - 1 de Fevereiro de 1975.
Antes, tinham guardado um minuto de silêncio «em memória dos angolanos que tombaram de armas na mão durante os 13 anos de luta pela independência». 
«A máscara do colonialismo caiu (...).  Está definitivamente enterrado o tempo em que das varandas dos palácios coloniais, erguidos com o trabalho forçado do nosso povo, os sorriso do ouro e os gestos da abastança procurava, disfarçar a fome, a usurpação e o genocídio», disse Manuel Rui Monteiro, o Ministro da Informação.
O Alto Comissário Português, por seu lado, reafirmou que o MPLA, a FNLA e a UNITA «são os únicos legítimos representantes do povo angolano» e, citamos o DL, «desenhou o enquadramento político e histórico do Governo de Transição», do qual, sublinhou Silva Cardoso, «angolanos e portugueses esperam capacidade para conduzir Angola à independência, num clima de paz, justiça e respeito mútuo».
Posse do Governo de Transição: o Alto-Comissário
Silva Cardoso (de perfil), Lúcio Lara (MPLA, de
fato claro), Johnny Eduardo (FNLA) e José N´Dele
 (UNITA, de fato e gravata). À direita, Almeida Santos
O Ministro Almeida Santos, da Coordenação Inter-Territorial, por sua vez, afirmou que «o acordo da Penina (do Alvor) será o que os angolanos quiserem que ele seja: a Constituição de Angola ou um simples papel tornado letra morta»
Os Cavaleiros do Norte, lá pela sua ZA uíjana, continuavam expectantes e mantendo a sua actividade normal. Porém, como se lê no Livro da Unidade, «muito limitada, por grande falta de meios humanos». E, de resto, «quase só conduzida ao longo do alcatrão, em constantes patrulhamentos, apeados e auto, através dos quais se garante a nossa presença e a liberdade de itinerário».
Ver discursos, mensagens 
e fotos, AQUI

domingo, 31 de janeiro de 2016

3 292 - Cavaleiros inspeccionados e Governo de Transição de Angola

O Governo de Transição de Angola, que tomou posse a 31 de Janeiro 
de 1975 - hoje se passam precisamente 41 anos!

O furriel Mário Matos, da 2ª. CCAV. 8423, é
o «bigodes» dos três Cavaleiros do Norte da
foto de baixo, a 9 de Setembro de 1995. Quem
são os dois que o ladeiam? Em cima, está o furriel 

mecânico Amorim Martins, da 2ª. CCAV. e que mora 
em Pegões (Vendas Novas), acompanhado 
de mulher e filho?

Há 42 anos, dia 31 de Janeiro de 1974, uma sexta-feira, o coronel Paixão, da Inspecção Geral de Educação Física do Exército (IGEFE), esteve no Batalhão de Cavalaria 8423. Para quê? Em inspecção de rotina à Escola de Recrutas, tal qual acontecera a 23 do mesmo mês e ano, quando lá esteve o coronel Magalhães Corrêa (da DAC).
As inspecções eram normais, ao tempo, e os futuros Cavaleiros do Norte preparavam os seus praças para a jornada africana de Angola, se bem que a generalidade deles da mobilização soubesse apenas por nós, os instrutores - então aspirantes a oficiais milicianos e 1º.s cabos milicianos, futuros alferes milicianos e furriéis milicianos.
Um ano depois, já no Uíge angolano e no oitavo mês de jornada, os Cavaleiros do Norte «assistiram» à tomada de posse do 1º. Governo de Transição de Angola, em Luanda. A cerimónia foi presidida pelo ministro Almeida Santos. O Alto-Comissário era o general Silva Cardoso, com os ministros portugueses Viera de Almeida (Economia), Albino Antunes da Cunha (Transportes e Comunicações) e Manuel Azevedo Ribeiro (Obras Públicas, Habitação e Urbanismo) e os três movimentos de libertação integraram os seguintes elementos:
Notícia do Diário de Lisboa de 31 de
Janeiro de 1975, sobra a tomada de posse
do Governo de Transição de Angola
- MPLA: Lopo do Nascimento (no Colégio Presidencial) e os ministros Manuel Rui (Informação), Saidy Mingas (Planeamento e Finanças) e Diógenes Boavida (Saúde). Secretários de Estado: Augusto Lopes Teixeira (Indústria e Energia), Cornélio Coley (Trabalho) e Henrique Santos (Interior).
- FNLA: Johnny Eduardo (Colégio Presidencial), Kabaeu Sauhde (Interior), Samuel Abrigada (Assuntos Sociais) e Mateus Neto (Agricultura). Secretários de Estado: Graça Tavares (Comércio), Hendrick Val Neto (Informação) e Bapista Nvuvulu (Trabalho).
- UNITA: José N´Dele (Colégio Presidencial) e os ministros Eduardo Wanga (Educação), António Dembo (Trabalho) e Jeremias Kalundula Chitunda (Recursos Naturais). Secretários de Estado: Jaka Jamba (Informação), Manuel Alfredo Teixeira (Pescas) e João Waiken (Interior).
A cerimónia decorreu no salão nobre do Palácio do Governador, em Luanda, e Almeida Santos, na sua intervenção, sublinhou que «é exaltante, senhor Alto-Comissário, senhores membros do Colégio Presidencial e senhores ministros, a tarefa que vos cabe, porque é honrosa, porque é responsabilizante e porque não é fácil».

sábado, 30 de janeiro de 2016

3 291 - Cavaleiros do Norte à espera do Governo de Transição

O Quitexe, sensivelmente como era no tempo dos Cavaleiros do Norte: a zona de aquartelamento (setas 
laranja e vermelha), a Igreja da Mãe de Deus (rectângulo claro), secretaria da CCS e casa 
dos Furriéis (seta 
amarela), bar dos praças (quadrado vermelho), messe de oficiais (seta verde claro), depósito de géneros 
e padaria (triângulo amarelo), mar e messe de sargentos (seta vermelha grande), casa do comandante (seta
 branca) e enfermaria (seta amarela, à direita)

O 1º. cabo rádio-montador António Pais,
da CCS e natural de Viseu, aqui com a
família no encontro de Águeda, a 9 de
Setembro de 1995. Na imagem
de cima,  está outra família. Quem
será o Cavaleiro do Norte
de azul, à esquerda?

Quinta-feira, dia 30 de Janeiro de 1975. Era véspera da tomada de posse do Governo de Transição e, lá pelo Uíge, fervia a curiosidade por saber quem seriam os seus membros. 
A imprensa angolana que lá chegava (geralmente jornal O Província de Angola) pouco adiantava e muito menos a de Lisboa - que chegava muito mais tarde, quando chegava. Era o meu saudoso amigo Alberto Ferreira, aquartelado na Base Aérea de Luanda, quem, por aerograma, me dava algumas dicas: «Consta que no Colégio Presidencial pelo MPLA vai estar Lopo do Nascimento, José N´Dele pela UNITA e Johnny Eduardo da FNLA, mas uma série de ministros, cujos nomes pouco conheço...», escrevia-me ele, a 28 de Janeiro desse ano de 1975, em correio que recebi a 30 - hoje de passam 41 anos.
O ministro da Economia, e isso já era certo, seria o português Vieira de Almeida. Tinha sido ministro da Economia e Finanças do 1º. Governo Provisório que se seguiu ao 25 de Abril, em Lisboa.
O aerograma que recebi de Alberto Ferreira,
há precisamente 41 anos, com notícias sobre o
Governo de Transição de Angola. Eu numerava
 o correio que recebia. Este, é o nº. 31
A noite da véspera, em Luanda, fora tempo para um motim ma Cadeia Civil. Soldados portugueses dispararam para o ar, durante a insurreção, e também acudiram patrulhas da FNLA e do MPLA «para controlar a situação». O incidente provocou ferimentos em em dois reclusos e a evasão de uns quantos (um número desconhecido).
A cidade, ainda assim, estava calma e os presos reclamavam «uma amnistia, por altura da tomada de posse do Governo de Transição» - marcada para o dia seguinte.
Calma ia também a ZA dos Cavaleiros do Norte, remetida a aquartelamentos na zona do asfalto, na Ponte do Dange e Vista Alegre (onde estava a 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala, comandada pelo capitão miliciano Davide Castro Dias), em Aldeia Viçosa (operacionalmente dependente da 2ª. CCAV., do capitão miliciano José Manuel Cruz) e Quitexe - onde estava o Comando do Batalhão (do tenente coronel Almeida e Brito), a Companhia de Comando e Serviços (CCS,do capitão SGE António Oliveira, e a 3ª. CCAV. a de Santa Isabel, do capitão miliciano José Paulo Fernandes.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

3 290 - Agitadores em Luanda e expectativas no Uíge !!!

Cavaleiros do Norte de Zalala: o furriel José António Nascimento 
(vagomestre), o alferes Mário Jorge Sousa (Rangers) e o soldado João 
Gonçalves (conhecido por Bigodes e Cigano)

Cavaleiros do Norte em Águeda, a 9 de
Setembro de 1995, Na foto de baixo e da direita
para a esquerda, os 1º.s cabos José Esteves e
Domingos Teixeira, da CCS. E o outro a seguir? O
«bigodaças» de cima é o Armando Silva, soldado 

clarim da 3ª. CCAV. 8423 , a de Santa Isabel




Quarta-feira, 29 de Janeiro de 1975. A cidade de Luanda estava «invadida» por «agitadores, a soldo não se sabe de quem», que andavam nos subúrbios a «incitar a população para distúrbios no dia 31» - o dia da «tomada de posse do Governo de Transição, que há-de levar Angola à independência completa».
O MPLA, em comunicado, apelou aos seus militantes e simpatizantes para «denunciarem os agitadores que conseguirem identificar», ao mesmo tempo que os aconselha(va) a «não se deixarem arrastar por manobras que só poderão desprestigiar o movimento», como reportava ao Diário de Lisboa.
Jonas Savimbi, o presidente da UNITA e falando em Nova Lisboa (ver ontem), também se referiu à «acção dos agitadores» e falou da «ameaça de um golpe de estado em Portugal». «Há forças que se preparam para um contra-golpe e, quiçá, denunciarem os acordos concluídos com os movimentos de libertação de Angola», afirmou Savimbi, frisando que «há ainda inimigos da nossa independência, que trabalham de dia e de noite».
Notícia do Diário de Lisboa de
29 de Janeiro de 1975, sobre a
actualidade angolana
A Luanda chegaram, entretanto, idos de Kinshasa, os membros da FNLA que iriam fazer parte do Governo de Transição, muito embora não fossem revelados os nomes. Sabia-se que da UNITA seria José N´Dele a integrar o Conselho Presidencial. Natural de Cabinda, tinha feito pare da delegação do movimento de Sabimbi na Cimeira do Alvor (Penina).
Os Cavaleiros do Norte, lá pelo Uíge, como que passavam à margem destas movimentações - embora nelas interessados. Os movimentos independentistas continuavam a sua acção de politização do povo, mais a FNLA e o MPLA, menos a UNITA (por lá pouco ou nada enraízada). O Quitexe (a sede do Batalhão de Cavalaria 8423), como sublinha o Livro da Unidade, «é (era) quase na íntegra da FNLA», enquanto que «nas áreas de Aldeia Viçosa e Vista Alegre se verifica(va) uma mesclagem deste movimento com o MPLA». Só que não se entendiam, como aconteceu no comício de 26 de Janeiro de há 41 anos.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

3 289 - Comandante no Sector e Savimbi em Nova Lisboa

A chegada de Jonas Savimbi, presidente da UNITA, a Nova Lisboa (Huambo), 
a 27 de Janeiro de 1975, terá envolvido meio milhão de pessoas. A foto é 
do jornal A Província de Angola, de 28 de Janeiro desse ano


O furriel António Artur Guedes e família
no 1º. Encontro dos Cavaleiros do Norte, 

em Águeda, a 9 de Setembro de 1995. 
Na foto de baixo, o Rodrigo  Manteigas, 1º. 
cabo clarim da 1ª. CCAV. 8423, GNR 
aposentado, de Idanha a Nova? E o 
outro, quem o identifica?
A 28 de Janeiro de 1975, o comandante Almeida e Brito voltou ao Comando do Sector do Uíge (CSU) para mais uma jornada de «estabelecimento de contactos operacionais», acompanhado do oficial adjunto - o capitão José Paulo Falcão.
Ao tempo, recordemos, era «murmurada uma nova remodelação do dispositivo, na qual o BCAV. 8423 iria sediar-se em Carmona», no BC12 - que «desde 1961 guarnecera a capital do distrito do Uíge» e, como se lê no Outubro da Unidade, «iria ser extinto». O que se veio a confirmar no dia 2 de Fevereiro desse mesmo 1975, quando para lá foi a CCS dos Cavaleiros do Norte.
O dia era terça-feira e soube-se que o jornalista António Cardoso tinha sido libertado pela FNLA, na véspera, «a pedido da UNITA», como reportava o Diário de Lisboa, «uma vez que os trabalhadores da Emissora Oficial de Angola se recusavam a fazer a cobertura da chegada de Jonas Savimbi a Nova Lisboa». Foi entregue «muito combalido, ao comando da Região Militar de Angola»
Savimbi chegou a Nova Lisboa a 27 de Janeiro de 1975 e o DL reporta(va) que «foi ovacionado por uma enorme multidão, que alguns jornalistas calculam em meio milhão de pessoas». O DL, a rematar esta notícia, dava conta que «continua a verificar-se, de resto, um nítido parcialismo da imprensa angolana, em favor da FNLA e da UNITA e em prejuízo do MPLA».
A FNLA,  por sua vez e em comunicado a partir de Kinshasa, denunciava «a presença em Luanda de perigosos agitadores a soldo do imperialismo internacional», que, frisava o DL, «não pertenceriam a qualquer dos três movimentos de libertação e teriam tomado conta da Emissora Oficial de Angola».


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

3 288 - Assalto à Emissora Oficial e calma na terra uíjana


Transporte de militantes para o comício de Aldeia Viçosa, que seria do MPLA 
e da FNLA. A 26 de Janeiro de 1975 e pacificado pela tropa portuguesa


Encontro dos Cavaleiros do Norte, a 9
de Setembro de 1995 - o primeiro, em
Águeda. Em cima, um trio do Comando do
Sector do Uíge: 1º. cabo Manuel Peixoto, 1º.
sargento Gualdino Luz e 1º. cabo Moisés
Carvalho. O «bigodaças» da foto de baixo é 

soldado atirador Avelino Vieira dos Santos, 
da 2ª. CCAV. 8423. Vive em Souto 
de Cima (Leiria)

A FNLA não gostou que um seu comunicado não fosse lido aos microfones da Emissora Oficial de Angola (EOA) e, na noite de 25 de Janeiro de 1975 (um sábado para domingo, o do comício de Aldeia Viçosa, aqui ontem recordado), um grupo comandado por Hendrick Vaal-Neto invadiu as instalações, segundo o Diário de Lisboa do dia 17, «paralisando-a, após destruição de algum material e agressão ao locutor de serviço».
O comunicado, ainda segundo o vespertino da capital portuguesa, «fazia graves acusações ao Governo Provisório e à Junta Governativa de Angola» e a sua não leitura tinha sido decidida por Correia Jesuíno, o Secretário de Estado da Comunicação Social, «tendo sido secundado pelos trabalhadores da emissora»
O sub-chefe de redacção, António Cardoso, foi raptado de madrugada, alegadamente por forças da FNLA, como fazia crer um comunicado deste movimento, referindo que «não é mais do que um nó de uma vasta rede anti-FNLA, à qual pertence, como ele próprio declara».
O ambiente pelos lados do Quitexe, Aldeia Viçosa e Vista Alegre/Ponte do Dange era tranquilo, apesar dos incidentes da véspera (no comício de Aldeia Viçosa) mas o mesmo não acontecia em Luanda, onde «era tenso». A EOA, nesse 27 de Janeiro de há 41 anos «continuava com a programação normal suspensa» e desconhecia-se o paradeiro de António Cardoso.
O assalto da FNLA à Emissora Oficial
de Angola (a 25) foi noticiado pelo Diário de
Lisboa de 27 de Janeiro de 1975
 
O MPLA, em comunicado, acusava a tensão luandina: «Depois dos acordos de Mombaça e da Penina (o Alvor), registou-se uma certa calma (...), mas o clima de guerra civil voltou, agora, a aparecer de novo» - provocado por «certas forças nacionalistas (...), com a aproximação da formação do Governo de Transição». O movimento de Agostinho Neto não dissociava a Revolta do Leste desta situação, citando «a presença repentina de Daniel Chipenda no Posto de Ninda, no leste do país». E a cobertura que a Chipenda era dada pelos órgãos de comunicação social, notando «a facilidade com que insistem na (sua) representatividade, colocando-se deste modo em oposição declarada ao articulado nos Acordos da Penina» - o do Alvor.
Daniel Chipenda, para o MPLA, não passava de «um agente do imperialismo internacional, cujos objectivos são sobejamente conhecidos».

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

3 287 - Comício em Aldeia Viçosa «desentendeu» FNLA e MPLA

Comício de MPLA e FNLA em Aldeia Viçosa, a 26 de Janeiro de 1975. Há 41 anos! 
Os movimentos não se entenderam, o que obrigou à intervenção da 
tropa portuguesa «em situação apaziguadora, que se conseguiu»


O 1º. sargento Fialho Panasco, da 1ª. CCAV. 8423, a
de Zalala. Com a esposa, a 9 de Setembro de
1995, no Encontro de Águeda, o primeiro dos
Cavaleiros do Norte

A 26 de Janeiro de 1975, chegaram ao Quitexe notícias menos agradáveis: o presidente do MPLA, em Dar-es-Salan, admitiu a hipótese de pedir a intervenção da Organização de Unidade Africana (OUA) para, afirmou, «resolver os problemas que Angola terá de enfrentar antes da independência». E o principal problema era o Enclave de Cabinda, onde a FLEC exigia a independência e, na versão de Agostinho Neto, «os governos vizinhos e grupos rebeldes espalham a confusão».
Outro problema era a Revolta do Leste, facção dissidente do MPLA liderada por Daniel Chipenda - que nesse dia, no Luso, deu uma conferência de imprensa, nela afirmando que «fui atacado por um autêntico agente do imperialismo e as Forças Armadas Portuguesas tentaram bloquear a minha entrada no país». Na verdade, as FAP tinham impedido uma outra conferência de imprensa e tentado evitar a entrada dos seus militares (de Chipenda) na cidade. Só desarmados. Mas «acabaram por entrar, após negociações com oficiais portugueses». 
Notícia do Diário de Lisboa, sobre a (possível)
intervenção de tropas da OUA em Angola
«Paralelamente, os meus detractores tentaram impedir que eu contactasse o nosso povo, afim de lhe explicar a situação. A nossa Delegação está pronta a entrar em diálogo imediato com o Governo Português, com a UNITA e com a FNLA», disse Daniel Chipenda, que citamos do Diário de Lisboa, ameaçando que iria visitar outros centros urbanos angolanos «com ou sem autorização».
Estas situações passavam-se longe do Quitexe (e de Carmona), mas não deixavam de preocupar os Cavaleiros do Norte. Até porque, na nossa ZA - predominantemente da FNLA - «registavam-se situações de atrito» entre este movimento e o MPLA. O Livro da Unidade regista que «a mais grave terá sido a 26 de Janeiro, aquando da abertura da Delegação da FNLA em Aldeia Viçosa».
Os movimentos pretenderam fazer um comício conjunto, mas no qual não conseguiram entendimento, o que deu origem à intervenção das NT, em situação apaziguadora, que se conseguiu», relata o Livro da Unidade. 
A paz do Alvor, como se vê, não era bem assim. No terreno, as coisas» complicavam-se.