sexta-feira, 15 de abril de 2016

3 367 - Santa Isabel em Carmona e negociações em Luanda

A Fazenda Santa Isabel, onde, entre 11 de Junho de 10 de Dezembro de 
1974, esteve aquartelada a 3ª. CCAV. 8423, dos Cavaleiros do Norte e 
comandada pelo capitão miliciano José Paulo Fernandes

O furriel Viegas num momento de lazer,
nas férias de há precisamente 41 anos, em
Nova Lisboa (Angola)

Um grupo de combate da 3ª. CCAV. 8423 reforçou a guarnição de Carmona no dia 15 (para 16) de Abril de 1975, ainda eu e o António Cruz andávamos a laurear o queijo pela zona de Nova Lisboa, no planalto huambano e gozando o segundo mês de férias da nossa jornada africana de Angola.
A 3ª. Companhia de Cavalaria dos Cavaleiros do Norte era comandada pelo capitão miliciano José Paulo Fernandes e, recordemos, estava aquartelada no (saudoso) Quitexe - desde 10 de Dezembro de 1974, depois de, desde 11 de Junho deste mesmo mesmo ano, ter estado na Fazenda Santa Isabel. 
Cavaleiros do Norte da 3ª. CCAV. 8423, a de
Santa Isabel: os furriéis milicianos Agostinho
Belo, Ângelo Rabiço, José Querido, Vitor Guedes
(falecido a 16//04/1998) e António Fernandes
O objectivo da rotação tinha a ver, segundo se lê no Livro da Unidade, com o reforço das NT na cidade e porque «pretendendo-se ao mesmo tempo realizar patrulhamentos de longo curso, chamemos-lhe assim, não se podia deixar a cidade de Carmona inactiva».
Ao tempo, recordemos, os Cavaleiros do Norte, no âmbito do seu intenso plano operacional, realizavam «intensa actividade de patrulhamentos mistos» e, por isso mesmo, «houve que reforçar temporariamente o BCAV. 8423», que, na véspera, já tinha recebido um grupo de combate do BCAÇ. 5015. Ia assim o processo descolonizador, com estas dúvidas e este anátemas!
Luanda era cenário de negociações entre os três movimentos e expectava-se a recolha de armas e desarme de civis (os considerados agitadores), tarefa que se afigurava muito difícil. Por exemplo, como recolher armas em posse desconhecida (ou nem tanto...) em bairros (os suburbanos) com 30 000, ou 40 000, ou 60 000 pessoas, nem se sabia?! Em posse de pessoas que, invocando a auto-defesa - ou qualquer outro motivo... -, dificilmente entenderiam que só a tropa portuguesa e as dos movimentos, ou as Forças Militares Mistas (FMM) poderiam andar armadas. Iriam entregá-las, ficando sem defesa própria?!


quinta-feira, 14 de abril de 2016

3 366 - Reforço militar de Carmona e OUA/ONU em Luanda!!!

O ex-capitão Tojal Meneses, comandante da 1ª. CCAÇ. 5015, em 2012, 
com o ex-furriel Américo Rodrigues, da ª. CCAV. 8423, em Vila Nova de Famalicão

Grupo de militares do BCAÇ. 5015, aquartelado
no Songo e do qual, a 14 de Abril de 1975, saiu um
Grupo de Combate para reforçar os Cavaleiros
do Norte, ao tempo em Carmona

Aos 14 dias de Abril de 1975, a guarnição dos Cavaleiros do Norte, em Carmona, foi «temporariamente reforçada» com um Grupo de Combate do BCAÇ. 5015, cuja 1ª. Companhia estava instalada em Chimacongo, passando por Lucunga e Songo. O objectivo da rotação deste grupo do Songo era claro: «(..) cumprir a intensa actividade de patrulhamentos mistos», que vinham a assoberbar as NT. 
A casa do tio Joaquim Viegas, que a lenda
familiar diz ter sido uma das primeiras (a primeira?)
de 1º. andar construída em Nova Lisboa
«(...) Os incidentes de Luanda e Salazar vieram de ressaca até Carmona, dando origem a que houvesse que fazer intervenção a conflitos diversos, o mais grave deles em 13 de Abril, na própria cidade, aquando uma acção de fogo entre o MPLA e a FNLA, através de elementos das suas forças militares», relata o Livro da Unidade. O incidente é o mesmo que aqui ontem historiado e que originou o louvor do alferes miliciano Meneses Alves.
O furriel Viegas em férias civis.
Há precisamente 41 anos,num jardim
da cidade de Nova Lisboa
Eu e o Cruz continuávamos por Nova Lisboa, eu ao tempo muito empenhado em conhecer a casa de tio Joaquim Viegas, que a «lenda» familiar apontava como um das primeiras de Nova Lisboa, com 1º. andar. Não espantaria: foi construída em 1939 e a cidade fundada em 1912. Cicerone foi o primo Manuel Viegas (dele sobrinho directo e direito primo de meu falecido pai), que nos levou ao bairro e apontou a casa - que já não era da família.
Luanda, a capital angolana, recebia uma delegação da OUA e da ONU, formada por 4 elementos e ali deslocada especialmente para, segundo o Diário de Lisboa desse dia, «estudar o panorama político de Angola, onde as lutas entre ao MPLA e a FNLA ameaça pôr em risco a passagem pacífica para a independência». Mas a da ONU, após protesto do MPLA, assegurou que não teria interferência na actividade política. Iriam, durante 10 dias, «estudar as necessidades do país no campo social e económico».
O MPLA, ao tempo, também se opunha ao envio, para Angola, de uma missão da OUA e da ONU para investigar as confrontações armadas ocorridas na cidade. Lúcio Lara, alto dirigente do movimento/partido e chefe da Delegação em Luanda, afirmou mesmo, numa conferência de imprensa, que tal interferência era contrária aos interesses nacionais.
O dia era segunda-feira e chegavam  notícias do «puto» (como por lá era popularmente designado o Portugal europeu): decorria a campanha eleitoral (para a Constituinte, com eleições marcadas para o dia 25 de Abril) e, a duas jornadas do fina do campeonato, Benfica e Sporting (tal qual hoje) disputavam o título de campeão da 1ª. divisão de futebol - a 1ª. Liga de hoje. Era o tempo dos dois pontos por vitória e os benfiquistas tinham 46, contra os 42 dos leões. Bastava-lhe um ponto para ser campeão, tendo de ir a Alvalade na jornada seguinte. Depois, FC Porto (40), Boavista e Guimarães (36) , Belenenses (30), Leixões (29), Farense, CUF e Setúbal (25), Atlético (24), União de Tomar (21), Académico/a e Oriental (19), Olhanense (15) e Sp. Espinho (14).
- BCAÇ. 5015: ver AQUI e AQUI

quarta-feira, 13 de abril de 2016

3 365 - Incidentes FNLA/MPLA em Carmona, turismo em Nova Lisboa!!!

O furriel Viegas com o casal Rafael Polido/Cecília Neves na Barragem do 
Cuando, a 20 quilómetros de Nova Lisboa e há precisamente 41 anos. 
Repare-se no jovem pescador do lado direito


O PELREC em festa (e eu de férias por Nova Lisboa). Reconhecem-se, da
esquerda para a direita e seguidos: Jorge Vicente (1º. cabo, falecido a
21/01/1997). Francisco, Almeida (1º. cabo, falecido a 28/02/2009), Florêncio,
Alberto Ferreira, João Pinto e... (...). Da direita para a esquerda, alferes
Garcia (falecido a 02/11/1979), Leal (f. a 18/06/2007), Messejana (f. a
27/11/2009), Hipólito«, Soares (1º. cabo) e... (...) ao fundo o alferes Ribeiro
O dia 13 de Abril de 1975, por Nova Lisboa e depois do serviço de almoços do Hotel Bimbe, fomos de passeio até à Barragem do Cuando, a uns 20 quilómetros da cidade e no rio do mesmo nome, afluente do Cunene. Já ao tempo era atracção turística e chamava a atenção para a sede da Missão da Congregação do Espírito Santo, cuja construção ainda decorria.
O trio familiar frente à Missão da Congregação do
Espírito Santo, no Cuando, então em construção (em Abril
de 1975), a 20 kms. de Nova Lisboa (agora, Huambo)
Era domingo, dia de muitos passeios e de muita gente em lazer, e de lá laureámos por outras bandas turísticas da região, passando rápida a tarde e ganha a pressa em voltar à cidade e ao hotel, para o serviço de jantares. 
A noite desse domingo foi, quero crer (e se a memória acerta), o tempo em que eu e o Cruz nos achámos em farta ceia de marisco, no bar do Orlando Rino - meu conterrâneo do bairro de Santo António e muito perto da Escola de Aplicação Militar (EAM) de Nova Lisboa. Marisco regado a bom vinho branco fresco, muito fresco..., nada de cervejas... - o que nos surpreendeu o paladar. E agradou. 
Estando lá os sogros de Orlando Rino (o casal Figueiredo, também conterrâneo), fui alvo de uma bateria de perguntas sobre as gentes e a realidade da nossa terra comum - que eu tinha deixado há menos de um ano e eles há já largos tempos.
Andávamos nós a turistar pela capital do Huambo e Carmona, nesse mesmo domingo, foi palco de incidentes de alguma gravidade, que implicaram a pronta intervenção de uma força das NT, comandada pelo alferes Meneses Alves, da 2ª. CCAV. 8423. Aconteceu, o quê? Uma «manifestação não autorizada» que resultou, segundo o Livro da Unidade, em «confrontos entre elementos de dois movimentos emancipalistas, com uso de armas de fogo, na via pública»
Os movimentos eram a FNLA e o MPLA (da UNITA, por lá, mal se ouvia falar...) e o grupo de combate comandado pelo alferes Meneses Alves «actuou de forma rápida, decidida e enérgica, não deixando dúvidas quando à determinação do pequeno núcleo de tropas que comandava».
O (ex-alferes) Meneses Alves faleceu
a 15 de Maio de 2013, em Leiria
A acção foi concluída com «a detenção de dois dos elementos em confronto», tendo, por outro lado e como consequência material, «ainda e de imediato ter feito abortar a referida manifestação», como reporta o Livro da Unidade. 
O incidente era do tipo dos que por lá (por Carmona) frequentemente se repetiam e punham em perigo a segurança e a vida das pessoas. Muitas vezes (quase sempre) eram evitados, ou abortados, pela pronta e sempre destemida intervenção dos Cavaleiros do Norte que, 24 sobre 24 horas, patrulhavam a cidade - muitas vezes, mesmo muitas vezes sob o olhar desdenhoso e acusador dos que, os quem protegiam.
Manuel Meneses Alves, o alferes miliciano atirador de Cavalaria, de Leiria e ao tempo colocado na 2ª. CCAV. 8423, viria a ser louvado pela acção, com publicação de tal louvor na Ordem de Serviço nº. 90 do Batalhão de Cavalaria 8423. De regresso a Portugal, foi empresário de sucesso em Leiria, no sector da alimentação, e faleceu, vítima de doença, a 15 de Maio de 2013.
- A morte do (ex-alferes 
miliciano) Meneses.
Ver AQUI

terça-feira, 12 de abril de 2016

3 364 - Marisco na Caála, comunicados em Luanda e morte no Luso!

O furriel Viegas de férias em Nova Lisboa, há 41 anos. Aqui, com a madrinha 
Isolina, ao tempo já viúva do padrinho (de baptismo) Arménio Tavares

O clâ Viegas (parte), em Nova Lisboa. Manuel e
esposa Ondina são os primeiros à esquerda. O
«patriarca» Joaquim está de fato e gravata, ao lado do
militar. Mercedes, a  esposa, estám à direita, segurando
uma neta. O tempo de férias militares foi tempo de
apetitosas visitas familiares

A 12 de Abril de 1975, um sábado e depois de uma manhã no jardim zoológico e de um salto ao bairro de Santo António - a convite de Orlando Rino, agora em Rio Grande, no Brasil... -, fomos ao miradouro da Senhora do Monte, perto da Caála, e fizemos refeição por ali perto, farta e bem regada, com marisco chegado do Lobito e num pic-nic preparado pela Cecília e marido - o Rafael. Um grande luxo, para os tempos de então!!! Férias eram férias e Nova Lisboa, a bela Nova Lisboa!!!, oferecia-nos bem-estar, qualidade vida 
O furriel Viegas no miradouro da Senhora do Monte,
perto de Caála e numa estrutura a 40 metros de altura.
A cidade de Nova Lisboa fica(va) ao fundo
e segurança.
O que não acontecia tanto por Luanda, onde embora «restabelecida a calma», noticiada pelo Diário de Lisboa desse dia, dirigentes do MPLA e da FNLA continuavam a trocar acusações, cada qual responsabilizando a outra parte pelos incidentes dos dias e semanas anteriores. Também mo Luso, no leste angolano, se tinham registado «incidentes graves na terça-feira». dia 8, e que nos tinham passado despercebido, «empoeirados» nos de Luanda e coincidentes com nossa viagem (minha e do Cruz) de Luanda para Nova Lisboa.
«Está restabelecida a calma no Luso (...), onde se deram incidentes graves (...), envolvendo forças do MPLA e da FNLA, que duraram cerca de 12 horas», anunciou um comunicado do Alto Comissário, sublinhando que «os incidentes originaram muitos prejuízos materiais de certa monta nalguns edifícios da cidade» e que «morreu um civil e houve vários militares e civis feridos».
O Diário de Lisboa de 12 de Abril
de 1975 noticiou o fim dos incidentes em
Luanda e o registou incidentes
no Luso, no leste de Angola
O absurdo, digo eu..., é que o dia 8 foi o dia do acordo do cessar fogo, estabelecido pelos Estados Maiores dos três movimentos. 
Por Carmona, através do telefone civil da messe de sargentos (antiga de oficiais) do Bairro Montanha Pinto), sabíamos nós (eu e o Cruz) da calma local, embora temperada dos já habituais incidentes entre MPLA e FNLA, ambos a quererem marcar terreno no chão uíjano - onde, recordemos, o movimento de Holden Roberto tinha larga predominância.
A noite foi de jantar em casa do primo Manuel Viegas, onde a mulher Ondina nos presenteou com comida daqui (da nossa aldeia), embora com alguns condimentos angolanos - o que resultou numa apetecível refeição, acompanhada de vinho tinto (o Teobar). Falámos do futuro e o meu «conselho» foi no sentido de se prepararem para o regresso a Portugal. Mas por Nova Lisboa ninguém acreditava que a luta fratricida do norte e do leste, de Luanda e de outras cidades, alguma vez chegasse ao planalto huambano.
«A nossa terra é aqui!!!... Ficamos!!!...», por várias vezes exclamou Manuel, indiferente à recomendação do jovem militar de 22 anos, filho de seu primo e procurador, meu pai! A noite e a viagem de regresso ao Hotel Bimbe (onde nos levou) foi de memórias da nossa aldeia e das nossas gentes! «E fulano? E beltrano?!...», perguntava ele, matando as saudades com as respostas que lhe oferecia à sua curiosidade. Há 41 anos!

segunda-feira, 11 de abril de 2016

3 363 - Viagem turística à Caála e medo de guerra civil!!!

Os furriéis milicianos Francisco Neto e Domingos Peixoto, na messe de 
sargentos (antiga messe de oficiais) do Bairro Montanha Pinto, em Carmona


O furriel Viegas com as familiares Fátima e
Idalina, no Colégio S. José de Cluny, que ambas
frequentavam em Nova Lisboa. Há 41 anos!

O comandante Almeida e Brito deslocou-se ao Negage, a 11 de Abril de 1975, no âmbito das «visita do Comando às subunidades», no caso à CCAÇ. 4741, ali aquartelada desde o dia 17 de Março do mesmo ano - vinda de Santa Cruz, bem perto da fronteira.
O capitão José Diogo Themudo era o 2º. comandante dos Cavaleiros do Norte e acompanhou-o nesta visita de trabalho, para preparar as próximas rotações militares do Uíge. Desta CCAÇ. 4741/74 tinha sido o furriel miliciano Domingos Peixoto que, por razões disciplinares, foi transferido para o nosso BCAV. 8423 - ainda no Quitexe (e depois em Carmona). E para a mesma CCAÇ. 4741/74 fora transferido o também furriel miliciano Mota Viana, da 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala, em Outubro/Novembro de 1974. Curiosamente, ambos de Braga.
Mapa com indicação de Santa Cruz, Negage,
Carmona (hoje, cidade do Uíge) e Dange (Quitexe),
terras angolanas faladas no texto de hoje.
Clicar, para ampliar a imagem
Eu e o (também furriel miliciano) António Cruz continuávamos em Nova Lisboa, de férias e conhecendo as suas terras, paisagens e gentes. Pela data da fotografia, neste dia de há 41 anos fomos de viagem à Caála (ao tempo, ex-Roberto Wiliams), de farnel no carro do casal Neves/Polido, depois do almoço e por tarde de lazer e prazer que recordo com saudade. Antes, e de passagem, visitámos as filhas do casal (Fátima e Idalina), que estudavam no Colégio S. José de Cluny (como se vê na imagem).
Luanda «acusava» notícias de nova suspensão do jornal «A Província  de Angola», desta vez com uma multa de 100 contos - o equivalente a 13 841,60 euros de hoje, segundo o conversor da Pordata. E porquê? Por ter publicado uma notícia em que acusava o MPLA de ter morto soldados da FNLA, com metralhadoras recebidas da União Soviética, o que, relatava o Diário de Lisboa, «não tem o mínimo fundamento».
A UNITA, de seu lado, anunciava a criação de comités de paz e de um sindicato nacional para «suster a violência em Angola». O seu destacado dirigente Jorge Valentim referia também que estas medidas sucediam-se aos recentes confrontos entre MPLA e FNLA «em que morreram mais de 200 pessoas» e que receava que «a violência possa vir a evoluir para uma guerra civil». Era de calma, porém e nesse dia, a situação em Luanda, «não se tendo registado confrontos nas últimas 24 horas», segundo reportava o Diário de Lisboa desse dia.

domingo, 10 de abril de 2016

3 362 - Assaltos à OPVDCA e formação do Exército de Angola

Grupo de Cavaleiros do Norte. Reconhecem-se, os furriéis Luís Costa (Morteiros, o 
segundo, atrás), Agostinho Belo (de óculos) e Luís Capitão (com mãos à volta do 
pescoço) e, em baixo, Graciano Silva, Grenha Lopes e António Flora. Quem 
ajuda a identificar os restantes?


O furriel Viegas de férias, junto da
estátua de Norton de Matos, em Nova
Lisboa, no Largo dos Correios

Os dias de férias na capital do Huambo, há 41 anos, iam excelentes, afectuosamente anfitrionados (eu e o António Cruz) no hotel da Família Neves/Polido e ambos em «digressão» pelas residências do clã Viegas - primos de meu pai, ao tempo falecido ia para dois anos e meio. Aparecia de surpresa (ninguém por lá me imaginava...) e fomos recebido com muito carinho e um mar de perguntas sobre a situação em Angola. Do Manuel, do Aníbal e do José (os primos direitos de meu pai), mas também de outros conterrâneos: os Mirandas, o Orlando Rino e Arnaldo Figueredo, os Reis, as filhas de Amadeu e Manual Zé Costa! Lá encontrei dois amigos de escoa primária: os irmãos Óscar e Neson Miranda!
A Nova Lisboa chegavam notícias (menos boas) de Luanda, onde, na noite de 8 para 9 desse Abril de há 41 anos, «foram assaltadas e  ocupadas instalações da OPVDCA» - o que aconteceu «em vários pontos do território, pelo MPLA, FNLA e UNITA». Neste caso e do Campo do Grafanil (imagine-se!!!...), «desapareceram 150 G3, 350 morteiros, 20 000 munições e rádios emissores-receptores»
O Caxito, a Fazenda Tentativa, Artur de Paiva, Cuíto Canavale (muito lá a sul...), Longa, Serpa Pinto, Silva Porto e Henrique de Carvalho foram outras localidades de assaltos, ora à OPVDCA, ora à PSPA e GEI.
Luanda, onde os Estados Maiores de MPLA, FNLA e UNITA voltaram a reunir e adiantaram posições diferentes quanto à formação do futuro Exército de Angola - cujos elementos passariam a ser integrados como soldados, não como militantes - quisesse isso dizer, na prática, o que fosse. De todo o modo, este passo significava algum desanuviamento da tensão entre os três movimentos.
Notícia do Diário de Lisboa de
10 de Abril de 1975, sobre a
formação do Exército de Angola
Os Cavaleiros do Norte, lá pelo Uíge nortenho de Angola, continuavam a sua difícil missão, com sacrifícios imensos do pessoal mas sem baixar a guarda, apaziguando e controlando os incidentes que se sucediam entre militantes/militares da FNLA (em força na zona) e o MPLA, assegurando a estabilidade social dos centros urbanos.
Ao tempo, recordemos e do BCAV. 8423, estavam aquarteladas em Carmona a CCS e a 2ª. CCAV. 8423, reforçadas desde 28 de Março por um grupo de combate da 3ª. CCAV. 8423, que fora da Fazenda Santa Isabel e estava no Quitexe. E uma pequena força, aquartelada na ZMN (no centro da cidade), mais de serviços que operacional.
- OPVDCA. Organização Provincial de Voluntários e 
Defesa Civil de Angola. Era um corpo de voluntários, de 
ambos os sexos, que auxiliava as Forças Armadas e 
garantia a defesa civil das populações. Organização 
tipo milícia, directamente subordinada ao Governador 
Geral de Angola e aos Governos Provinciais. 
O quartel do Quitexe ficava ao lado direito, na saída 
para Carmona, na Estrada do Café.

sábado, 9 de abril de 2016

3 361 - BLOGUE CAVALEIROS DO NORTE COMEÇOU HÁ 7... ANOS!

a
O furriel Viegas em férias, num jardim de Nova Lisboa, com parte da família 
Neves/Polido: Saudade, Fátima, Idalina, Viegas e Valter. À frente, Rafael Polido. 
A foto está datada de 12 de Abril de 1975


O primeiro post do Blogue Cavaleiros do Norte: «O
furriel miliciano em Angola!!!». Foi publicado a 9 de
Abril de 2009, hoje se fazem 7 anos|||

Há precisamente 7 anos, a 9 de Abril de 2009, era dia de Quinta-Feira Santa, precisamente neste mesmo espaço desta minha casa de nascença e moradia, nasceu o blogue Cavaleiros do Norte, ao tempo, como hoje, para fazer memória da jornada africana de Angola do Batalhão de Cavalaria 8423. Para preparar o reencontro (no Setembro desse ano) dos companheiros que, por terras do Uíge angolano, fizeram história e dela se orgulham, sem quaisquer constrangimentos. 
O blogue foi publicando histórias e estórias, dia a dia e sem uma falha, evocou nomes e momentos de glória e de tensão, de dor e de saudade! Fez história de estados de alma, lembrou momentos de epopeia e de tragédia, de dramas pessoais e de sonhos e dramas de um povo que medrava para a independência. Lembrou, e lembra, os sons e os cheiros de uma guerra que acabava para se fazer a paz e construir a identidade nacional própria de um povo generoso, são e amigo!
A avenida 5 de Outubro, em Nova Lisboa,
onde se localizava o Hotel Bimbe, da família
Neves/Polido e onde fizeram férias os furriéis
Viegas e Cruz, dos Cavaleiros do Norte
Aos 7 anos de blogue, que hoje se fazem e com muitos contributos por aqui semeados, temos o gosto de por aqui se terem reaproximado companheiros da jornada africana que a vida separou pelo  mundo. Por aqui continuaremos, após este post 3 361, enquanto pudermos e a memória tiver chão para se evocar, emoções para lembrar, enquanto tiver futuro!!!
Há 41 anos, entretanto e a 9 de Abril de 1975, estávamos (eu e o António Cruz) em regaladas férias por Nova Lisboa, no conforto da família Neves/Polido, descobrindo a urbe moderna, jovem e desafiadora do futuro, a metrópole projectada e construída pela mão sonhadora de colonos portugueses que nela acreditavam como chão dos seus filhos e dos angolanos. 
A cidade surpreendia a cada passo dado, pela modernidade e serviços, edifícios, jardins e cosmopolitismo, pela paz social e o relacionamento inter-racial descomprometido e que se via ser natural. Embriagava-nos de tanta boa surpresa.
De Carmona, tinha aerograma do Francisco Neto, dando conta a tranquilidade que por lá se vivia, aqui e ali intervalada dos (já costumados) incidentes entre FNLA e MPLA - a que a tropa ocorria, em nome da segurança de pessoas e bens. E do Acordo do Alvor!
A noticia do Diário de Lisboa de 9 de
Abril de 1975, sobre a situação em Angola
 
Luanda fazia contas aos incidentes das vésperas e, sobre o avião da SAA atingido, concluía-se que tinha sido por acaso. Apenas por consequência do tiroteio entre MPLA e FNLA nol Bairro Popular, à Estrada de Catete.
Os ministros José N´dele (da UNITA), Johnny Eduardo (FNLA) e Lopo do Nascimento (MPLA) exortaram os Estados Maiores dos três movimentos a, segundo o Diário de Lisboa, «fazerem tábua rasa dos acontecimentos que, desde há 15 dias, vem opondo o ENLA e as FAPLA». No comunicado final, os três Chefes de Estado Maiores determinaram «o cessar fogo imediato das hostilidades entre os três movimentos de libertação» e igualmente «a proibição de circulação nas ruas de militares armados, a não ser em serviço justificado».

sexta-feira, 8 de abril de 2016

3 360 - Férias em Nova Lisboa, jornalistas expulsos em Luanda!!!

O furriel Viegas em Nova Lisboa, no mês de Abril de 1975, com a madrinha Isolina
Pinheiro das Neves (viúva do padrinho Arménio Tavares) e duas das
netas dela: Fátima e Idalina, adolescentes ao tempo e hoje mães e avós


Avenida da República, em Nova Lisboa, onde
se situava o Hotel Bimbe. Aqui fomos fidalgamente
recebido pelo casal Cecília Neves/Rafael Polido.
O Viegas e o Cruz. Há precisamente 41 anos!
Aos 8 dias de Abril de 1975, voámos (eu e o Cruz) para Nova Lisboa, no voo da TAAG, em busca prazerosa de continuadas férias e, no meu caso, ao encontro (de surpresa) de gente do meu sangue. Lá chegámos e, de táxi, fomos do aeroporto até à avenida da República, onde ficava o Hotel Bimbe. Ali estava a família Neves (e Pinheiro), nela pontificando Isolina Pinheiro das Neves, filha de minha tia-bisavó Rosa e, por coincidência, viúva de meu padrinho Arménio Pires Tavares. Perceberam?
A surpresa não poderia ter sido mais afectuosa e festiva. Fomos excepcionalmente bem anfitrionados e (eu e o Cruz) logo ficámos hóspedes reais do casal Cecília Neves/Rafael Polido. E dos filhos Valter, Idalina, Fátima e Saudade. E de minha (por afinidade) madrinha Isolina. 
Um jardim de Nova Lisboa
Nova Lisboa, cidade ainda nova e do interior angolano, surpreendeu-nos: pela modernidade urbana e pelas avenidas e jardins, mas principalmente pelo afecto que nela tivemos da tanta gente que, familiares e amigos, por lá nos recepcionaram de forma fidalga: a família Neves/Polido, o clã Viegas (o Manuel, o Aníbal e o José), Orlando Rino e Figueiredo, os Mirandas, qual deles a ser mais afectuoso e companheiro.
A cidade era a calma total. Não se ouvia por lá qualquer som de guerra, não se sentia qualquer medo, a população circulava e fazia a sua vida na serenidade dos deuses. E deslumbrava-nos: pela grandiosidade da sua massa urbana, pelo desenho arquitectónico, pela grandeza dos edifícios, pela sua própria europeização. Iríamos ter, nos dias seguintes, oportunidade para a conhecer por dentro.
A revista «Notícia», de Luanda (uma capa,
na imagem), foi suspensa pela Comissão
Nacional de Defesa, há precisamente 41 anos
!
Luanda tinha ficado para trás e escaparam-nos as notícias de expulsão de 12 jornalistas e da suspensão da revista «Notícia», esta por «agressão ideológica ao MFA», podem expectar «climas de excitação nas Forças Armadas portuguesas e incompreensão das comunidades civis e dos movimentos de libertação em relação às mesmas Foras Armadas», como reportava o Diário de Lisboa. 
Não por acaso, dois dos 12 expulsos eram João Fernandes (director) e Sousa Oliveira (autor do artigo) - ambos da «Notícia». Os restantes eram da revista «Vida Portuguesa», que circulava na África do Sul e Rodésia mas era editada em Angola, dirigida por Jorge Coutinho e suportada por empresários portugueses daqueles dois países.
Além do director, o rol incluía Carlos Bártolo, Bela Jardim, Penteado dos Reis, Domingos de Azevedo, Hamilton Moreira, Reinaldo Silva, Hélder Martins, Jill Young e Júlio Marques. 
Os artigos eram «contrários ao espírito do Acordo da Penina (Alvor) e tendentes a provocar a discórdia no seio das Forças Armadas portuguesas e entre estas e os movimentos de libertação e o povo angolano», na opinião da Comissão Nacional de Defesa, presidida pelo Alto Comissário, o general Silva Cardoso.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

3 359 - O bacalhau do Vilela, tiroteios e rebentamentos...

A cidade de Luanda e a baía, vendo-se (no fundo, à esquerda) a cúpula da
sede do Banco de Angola. A capital angolana era atraente, moderna,
viva e próspera. Tinha vida permanente, não «dormia»!
Mário Matos, António Artur Guedes e
José Fernando Melo (de pé), António Carlos
Letras, José Gomes e António Cruz, furriéis
milicianos da 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa



A 7 de Março de 1975, com viagem aérea marcada para Nova Lisboa (no dia seguinte) as «despedidas» de Luanda foram no popular Vilela, restaurante especializado em bacalhau, para as bandas do bairro da Cuca - que já conhecia das férias de Setembro e de alguns «desenfianços», do Quitexe à capital.
O tempo, depois de uma tarde de saboreio dos prazeres da praia da Ilha de Luanda, foi de confortar os estomâgos, é verdade, mas também de lavar a alma de emoções, as que todos por lá íamos sentindo, baralhados com a dimensão e pujança da Angola que caminhava para a independência e as lutas fratricidas que dividiam os (seus) movimentos de libertação.
Não imaginávamos, mas o regresso à baixa e ao Katekero, foi «abrilhantada» pelo som (ainda assim distante) de fartos tiroteios e rebentamentos - que mais tarde viemos a saber terem sido contra delegações partidárias e até contra um avião Boeing 707 da South Africa Airways (SAA) - que, por isso, deixou de voar para Luanda. 
O avião aterrou normalmente, apesar de tudo, depois de sobrevoar o Bairro Popular, mesmo ao lado do aeroporto, e tinha 287 passageiros a bordo. Fazia a viagem  Joanesburgo-Londres, com escalas em Salisbúria e Luanda.
Praia das Ilha de Luanda, com a mata,
a baía e a cidade ao fundo (da net)
O Toyota do Albano Resende voou pela cidade fora, passando por um grupo armado (da FNLA, do MPLA?) no bairro de S. Paulo e dele se alheando, quando nos fez sinal para pararmos. Não parámos! Ainda nos refrescámos na esplanada da Biker, já sem som de disparos a atroar na noite, já sem o suor dos medos que sempre levedam nestes momentos, e fomos para o Katekero, no Largo Serpa Pinto - de onde acabámos por subir ao Danúbio Azul, ali bem perto, para repousar os olhos nas raparigas que por ali desnudavam os corpos e nos «davam» as atenções que procurávamos para divertir a noite.
Novidade do dia era, afinal, não ter sido assinado o acordo preliminar sobre a banca, por a FNLA, à última hora, ter apresentado uma proposta alternativa. Da véspera, dia 6 de Abril de 1975, havia notícia,  do Diário de Lisboa, de «novos incidentes, embora pouco numerosos, pelo que é ainda de tensão o ambiente da capital».
Era segunda-feira e véspera de eu e o Cruz continuarmos a digressão turística pela imensa Angola. De férias, num território a caminho da independência mas em... guerra!

quarta-feira, 6 de abril de 2016

3 358 - Cavaleiros em férias e Luanda com... indecisões!...


Viegas e Cruz, dois furriéis milicianos dos Cavaleiros do Norte, em férias 
angolanas, há precisamente 41 anos. À esquerda, a messe de oficiais; à 
direita, a Casa dos Furriéis do saudoso Quitexe

Luanda à noite, em foto de Henrique Oliveira (net).
Os desafios das casas de diversão eram muitos, ao apetite
dos jovens militares em férias, há 41 anos...

Domingo, 6 de Abril de 1975!!!
É domingo e, num almoço de amigos, fala-se dos incidentes de Luanda, dias antes. 
Quantos mortos? 
Quantos feridos? 
Falava-se em mais de uma centena de vítimas mortais, e muitos mais feridos, muitos mais..., mas ninguém sabe com rigor, nem as autoridades oficiais. Os números falados na imprensa pode(ia)m ser especulativos e, pela certa, pecando por defeito. A comunidade branca, a que vive na cidade do asfalto, a mais urbana e cosmopolita (principalmente europeia, ou dela originária...) começa a sentir-se inquietada. E engravidada de dúvidas!!! Para tal tinha boas/más razões! 
O Katekero, onde se hospedaram o furriéis
Viegas e o Cruz nas férias luandinas de 

Abril de 1975. Há 41 anos!!!
As confrontações militares (mães de muito sangue e lutos) são entre a FNLA e o MPLA, e «sobra(va)» a UNITA, cujas posições não se conheciam muito bem mas que, por estratégia ou casualidade (vá lá saber-se...), andava mais ou menos fora dos conflitos armados. Os militares dos dois outros movimentos, apesar do cessar fogo e do protocolo acordado, ainda não tinham deixado a cidade - até aumentavam os seus efectivos... - e começaram a circular panfletos a incitar distúrbios nas zonas habitadas pelos brancos. Levedavam medos entre estes, que começaram a enviar bens para Portugal. 
«Será que isto vai dar para o torto?...», perguntou Albano Resende, o civil, amigo e conterrâneo, nesse almoço domingueiro do Abril de 1975. 
Eu não sabia responder, é verdade, mas, a olho nu, era visível a fricção mortífera entre FNLA e MPLA - através dos seus braços armados, respectivamente o Exército de Libertação Nacional de Angola (o ELNA) e as Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA).
Jonas Savimbi, em digressão pelas capitais africanas, angariava apoio para a sua UNITA - movimento que, aparentemente, ganhava fôlego político no processo de descolonização. Melo Antunes, o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, chegou a comentar, por essa altura, que a aliança MPLA/UNITA seria uma boa e a melhor solução. Isto é, a UNITA (que tardiamente tinha sido reconhecida pela Organização de Unidade Africana, a OUA) acabava por começar a ser o pêndulo da causa fratricida que enlutava Angola 
Em Dar-es-Salam, os presidentes da Zâmbia, da Tanzânia e do Zaire, reunidos para apreciar a situação em Angola, tentavam «encontrar uma solução pacífica», alertando os movimentos de libertação para «divergências que tornam possível manobras do inimigo no país». 
O rebocador "Quitexe", ancorado na baía
de Luanda, fez-nos por momentos recordar a já
então (Abril de 1975) vila que nos aquartelou entre
Junho de 1974 e Março de 1975.

Foto de Henrique Oliveira
O estado de tensão mantinha-se em boa parte do território e era para este (para Nova Lisboa) que eu e o Cruz preparávamos malas, já com bilhete de avião marcado para daí a dois dias! O final da tarde desse domingo (6 de Abril de 1975) foi de encontro ajantarado com o Alberto Ferreira (cabo especialista da Força Aérea) e o furriel comando Nuno Neves (ambos de Fermentelos, a vila da Estalagem da Pateira, ponto de encontro dos Cavaleiros do Norte), seguido de «digressão» nocturna ao Embaixador, para banhos de espumas, cores de luzes, músicas e danças que aceleravam os cios quentes de jovens com fome de vida!!! 

terça-feira, 5 de abril de 2016

3 357 - Comandante em Vista Alegre e boas férias em Luanda!!!

Vista Alegre, em foto do (1º. cabo mecânico de armas) Carlos Ferreira, 
tirada em Dezembro de 2012. Aqui esteve, há 41 anos, o comandante 
Almeida e Brito, em visita operacional à 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala, 
comandada pelo capitão miliciano Davide Castro Dias

O 1º. cabo Manuel Quaresma da Silva, apontador
de morteiros da 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel.
Faleceu há 12 anos, a 6 de Abril de 2004, vítima de
doença e em Cacia (Aveiro), de onde era natural

O comandante Almeida e Brito esteve em Vista Alegre a 5 de Abril de 1975, hoje se fazem 41 anos. Fez-se acompanhar dos capitães José Diogo Themudo (2º. comandante) e José Paulo Falcão (oficial adjunto e de operações) e a deslocação inseria-se no plano de «visitas aos comandos das subunidades». 
Os tempos por Carmona (e pelo Uíge, no Quitexe e Vista Alegre/Ponte do Dange, terras dos Cavaleiros do Norte...) continuavam muito iguais aos das últimas semanas, se bem que fosse cada vez mais notória a hostilidade entre a FNLA (que era, entre os movimentos de libertação, a força dominante da região) e o MPLA. Da UNITA, por lá pouco se ouvia falar - sabendo-se, embora, da sua existência, como óbvio é. Não estava suficientemente implantada na região uíjana.
Por Luanda, onde eu e o Cruz continuávamos a laurear as nossas férias, o dia desse sábado (5 de Abril de 1975) foi aproveitado para turistar pelos pontos mais relevantes da capital, a que nos levou o conterrâneo Albano Resende (no seu Toyota), com regalado almoço num restaurante da ilha e jantar num outro, na cidade - onde trabalhava outro conterrâneo, o Neca Taipeiro, curiosamente um dos dois primeiros militares da minha aldeia (com o Aníbal Reis)a ser mobilizado para Angola, em 1961.
O furriel Viegas (à direita) com o conterrâneo
Albano Resende (e o seu Toyota) na praia
da ilha (restinga) e baía de Luanda
A vida da cidade continuava «incidentada», mas isso parecia passar ao lado da comunidade civil, que a desfrutava sem limites, enchendo praias, cinemas, restaurantes e esplanadas! Liam-se notícias de Portugal, onde decorria a campanha eleitoral para as eleições constituintes, e em Dar-es-Salam iniciou-se a cimeira dos presidentes da Tanzânia, Zâmbia e Zaire, para «discutir problemas comuns e a situação de Angola». Procurariam, entre outros pontos, chegar a acordo sobre «o apoio a dar ao movimento que ganhe a maioria nas eleições de Outubro», como relatava o Diário de Lisboa desse dia.
O dia, por outro lado, foi o da assinatura do acordo de transferência para Angola de «toda a orientação financeira do país, nomeadamente a actividade bancária»

segunda-feira, 4 de abril de 2016

3 356 - Almeida e Brito no BCAV. 8423 e Luanda com... calma!

O comandante Almeida e Brito, o segundo do lado esquerdo, ladeado pelo 
furriel miliciano Armindo Reino, pelo soldado Armando Silva e pelo capitão 
José Paulo Falcão (oficial de operações). De costas, está o capitão António 
Martins de Oliveira, comandante da CCS. Festa de Natal de 1974!!!

O edifício da Zona Militar Norte (ZMN) e do 
Comando do Sector do Uíge (CSU) em Carmona

O tenente-coronel Carlos Almeida e Brito reassumiu o comando do Batalhão de Cavalaria 8423 a 4 de Abril de 1975, depois de interinamente (e desde 24 de Março) comandar a Zona Militar Norte (ZMN), instalada em Carmona. Nesse mesmo dia de há 41 anos, o capitão José Diogo Themudo deixou o comando interino dos Cavaleiros do Norte, reassumindo as funções de 2º. comandante.
A cidade e o Uíge, com uma ou outras escaramuças entre a FNLA (predominante na zona) e o MPLA, iam mais ou menos tranquilas. O que mais se temia era que os incidentes de Luanda (e de outras cidades e Salazar era a mais próxima) pudessem «ressacar» pelas bandas dos Cavaleiros do Norte - que, às ordens de Almeida e Brito, continuavam a sua espinhosa e difícil missão de garantir a segurança. Sabe Deus o que custou, algumas vezes!
A notícia do Diário de Lisboa de 4 de Abril de 1
975, sobre a situação em Luanda: «Vida normal»,
titulava o jornal da capital portuguesa
Luanda, por onde cirandavam o Cruz e eu (em férias), Luanda cicatrizava feridas dos incidentes entre MPLA e FNLA e reportava o Diário de Lisboa que «não se registaram trocas de tiros nas últimas 24 horas» e que, assim, «a vida regressa à normalidade, depois de 15 dias de violentos incidentes entre as forças da FNLA e do MPLA» . Calma que era confirmada pelo MPLA, porém temendo «o agravamento da situação neste fim de semana». 
O dia 4 de Abril de 1975 era uma sexta-feira e para a terça-fera seguinte (dia 8) estava prevista uma cimeira entre os presidentes da Tanzânia (Julius Nyerere), da Zâmbia (Keneth Kaunda) e do Zaire (Mobutu Sese Zeko, cunhado de Holden Roberto) justamente para discutir a situação de Angola.
Agostinho Neto, na Holanda, disse «ser quase certo o apoio do Governo holandês ao MPLA». O Governo holandês já canalizava o seu apoio social a Angola, até à independência, através do MPLA e o próprio Agostinho Neto afirmou que «os fundos holandeses serão integrados no fundo social do MPLA, para construção de escolas, hospitais, centros comunitários». E que o Governo de Transição aprovara essa decisão. O GT, recordemos, era formado por dirigentes do MPLA, da FNLA e da UNITA e portugueses.
A entrada da Fazenda Zalala, onde esteve
a 1ª. CCAV. 8423, dos Cavaleiros do
Norte: «A mais rude escola de guerra»
A mesma terça-feira era também o dia previsto para a realização de uma reunião dos Estados Maiores dos três movimentos, com o objectivo de «prevenir nos incidentes e combater as provocações que os desencadeiam», apresentados pelo MPLA e pelo Alto-Comissário Silva Cardoso.
De memória, recordo que terá sido na noite deste 4 de Abril de 1975 que, no Bairro da Cuca, me encontrei com o conterrâneo Custódio Ferreira (sapador no Grafanil), em casa de José Martinho - um PSP casado com a conterrânea Emília e que, em 1961, integrava a primeira companhia portuguesa que chegou a Zalala!  Ainda hoje, quando no dia-a-dia nos cruzamos, soltamos o viva «Zalala, sempre!!!...», evocando a nossa passagem pela mítica «mais rude escola de guerra».

domingo, 3 de abril de 2016

3 355 - Apoio ao MPLA, tiros em Luanda e calma nos Dembos

A vila do Quitexe, vista da torre da Igreja de santa Maria de Deus, em 
foto de José Manuel Gonçalves. Aqui à esquerda, vêem-se as instalações 
militares. Ao cimo (junto ao badalo), vê-se a administração civil

Oficiais dos Cavaleiros do Norte na Aldeia
do Cazenza: capitão António Martins
Oliveira (comandante da CCS e alfe-
res milicianos António Albano Cruz,
Jaime Ribeiro e António Manuel
Garcia (falecido a 2 de Novembro de
1979). Ao fundo e em destaque,
a Igreja do Quitexe

A primeira terça-feira de Abril de 1985 foi tempo de, através da imprensa, se saber em Luanda que «as Forças Armadas Portuguesas começaram já a prestar ao MPLA a mesma assistência militar que estavam a conceder aos outros dois movimentos de libertação» - a FNLA e a UNITA. Era dia 3 (não era dia 1 de Abril...) e a decisão decorrera das negociações que, em  Lisboa, o presidente Agostinho Neto (do MPLA) tivera com Costa Gomes (o Presidente da República), o almirante Rosa Coutinho (antigo alto-comissário e agora membro do Conselho de Revolução) e o 1º. ministro Vasco Gonçalves.
Os Cavaleiros do Norte Cruz e Viegas, furriéis milicianos da CCS do Batalhão de Cavalaria 8423, estavam por Luanda, em descansadas férias mas atentos ao dia-a-aia. Não lhes escapou, por isso, o sempre ameaçador «som» das rajadas de metralhadoras que a noite anterior deixou ouvir, vindas do Cazenza - onde «forças do MPLA e da FNLA trocaram tiros». 
O Diário de Lisboa dessa tarde dá conta de «novas confrontações violentas na capital angolana» e recorda(va), por outro lado, «as duas centenas de mortos, muitos feridos e estropiados e inúmeros desaparecidos» da últimas semana. Nessa altura, ainda segundo o DL de 3 de Abril de 1975, «cerca da meia noite, do interior de uma viatura não identificada, partiram rajadas de metralhadora conta a delegação do MPLA do mesmo bairro» - o Cazenza.
Novidade maior, e melhor, era a de que tinha sido concluída «a troca de prisioneiros capturados pelos dois movimentos, durante os incidentes da semana passada». Os do MPLA, segundo os seus dirigentes, «apresentavam-se muito mal tratados».
Notícia do Diário de Lisboa de 3 de Abril
de 1975, sobre o apoio das Forças Armadas
Portuguesas ao MPLA
Mais para a norte, nos Dembos, mas ainda distantes de Carmona (ou de Vista Alegre e Aldeia Viçosa e já não tanto de Ponte do Dange), na região dos Dembos, «as confrontações violentas terminaram, e o ambiente é normal, tal como no Piri, onde não chegou a haver tiros».
Muito menos no (nosso saudoso...) Uíge, onde os Cavaleiros do Norte, determinados e garbosos, continuavam a sua missão de segurança de pessoas e bens. Ainda que muito incompreendidos e injustamente criticados pela comunidade civil branca europeia.

sábado, 2 de abril de 2016

3 354 - Cavaleiros lá pelo Uíge, acusações lá por Luanda!!!

Vista Alegre vista do quartel onde, há 41 anos, estava aquartelada a 
1ª. CCAV. 8423, a do capitão Davide Castro Dias. Em primeiro plano, o 
campo de imortais futeboladas (de 5) dos Cavaleiros do Norte de Zalala

Furriéis milicianos da 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala e Vista 
Alegre, num momento de diversão: Américo Rodrigues, 
Eusébio Martins (falecido a 16/04/2014, de doença e em 
Belmonte), Jorge Barata (falecido a 10 de Outubro de 
1997, em Alcains e de doença) e Plácido Queirós


A expectativa dos Cavaleiro do Norte, a abrir o mês de Abril de 1975, era a de, segundo o Livro da Unidade, realizar-se «o programa da continuação da remodelação do dispositivo». Todavia, tal só se começaria a concretizar no dia 24, com a desactivação de Vista Alegre e Ponte do Dange. 
«As indicações dadas pelos movimentos emancipalistas, resultantes do abandono de determinadas instalações militares, levou-nos a ter que aguardar que se resolvessem, a alto nível, as questões pendentes e inerentes a esse abandono», considerou o comandante Almeida e Brito, no seu histórico registo, no Livro da Unidade.
Eu e o Cruz continuávamos por Luanda, na delícia das férias angolanas que «rasgavam» dias para a partida para o centro/sul angolano, aguardando a ligação aérea para Nova Lisboa. A capital fazia contas aos incidentes das vésperas, mas a vida civil parecia correr com toda a normalidade. Para nós ambos, corria... seguramente, divertindo-nos dos meios das manhãs até aos depois das meias noites, descobrindo a cidade e o seus desafios para os nosso apetites.
Viegas e Cruz, amigos em 1974 e 1975, amigos
na actualidade - com a jornada africana do Uíge
angolano como razão de fundo e de sempre!

A chegada do ministro Melo Antunes estava prevista para esse dia 2 de Abril de 1975 - hoje se fazem 41 anos!... -, a censura a jornais continuava e, depois dos angolanos, era a vez de serem proibidos o Sempre Fixe (de Lisboa) e o Notícias (Moçambique). A situação era controlada por uma comissão ad-hoc, nomeada pelo Alto-Comissário. 
As posições do MPLA «deixaram de ser noticiadas pelas estações de rádio» e as privadas impedidas de divulgar boletins noticiosos - se bem que pudessem retomar a restante programação. Só a Emissora Oficial de Angola poderia divulgar os boletins.
Johny Eduardo, ministro da FNLA no Colégio Presidencial, recebeu os cônsules na cidade em numa espécie de conferência de imprensa, atacou as posições do MPLA e negou «qualquer responsabilidade da FNLA nos sangrentos acontecimentos recentemente ocorridos». Nomeadamente, e citamos o Diário de Lisboa desse dia, que «tenham existido fuzilamentos e prisões». E acusava o MPLA de «ter provocado o clima de tensão que se viveu na cidade nos últimos dias».
O MPLA reagiu com um panfleto espalhado na cidade (e não divulgado na imprensa), «convocando a população para uma manifestação» e exigindo «a substituição do Alto-Comissário em Angola» (Silva Cardoso» e também «o regresso das Forças Armadas da FNLA aos quartéis». 

sexta-feira, 1 de abril de 2016

3 353 - Férias em Luanda e FNLA «barrada» no Ambriz pelas NT!

A cidade e a baía de Luanda vistas da Fortaleza, nos idos 
anos 70 do século XX, ao tempo da colonização portuguesa

O furriel Viegas de férias em Luanda, há
41 anos e com o conterrâneo Albano
Resende, na Restinga (ilha de Luanda)

Ao dia 1 de Abril de 1975 - Dia das Mentiras!!!... - Luanda acordou com as acusações da FNLA às Forças Armadas Portuguesas que, perto do Ambriz, impediram o avanço de uma sua coluna sobre a capital angolana. «Foram as FAP o suporte, durante 48 anos, do fascismo em Portugal e de 14 anos de guerra das colónias portuguesas», lia-se no jornal «Liberdade e Terra», órgão oficial do movimento de Holden Roberto.
Mais, o ataque à imprensa portuguesa (a do continente): «Insidiosa campanha contra a a FNLA», titulava o jornal, a  toda a largura da primeira página. A última era ocupada, integralmente, com outro título: «Imperialismo manobra | Imprensa portuguesa contra a FNLA». Com artigos a culminar, referia o Diário de Lisboa desse dia 1 de Abril de há 41 anos, «ameaças aos jornalistas e exigindo a sua expulsão» e garantindo que «não permitiremos mais tempo que esses manipuladores, esses agitadores da opinião pública, continuem aqui, na nossa pátria, prosseguindo a nefasta tarefa de que vieram incumbidos». E, por outro lado, exigindo que «seja proibida a circulação de jornais portugueses que insistam nos ataques tendenciosos, nas imagens deturpadas, na calúnia miserável do nosso movimento e do seu glorioso braço armado, o ELNA».
O Diário de Lisboa de 1 de Abril de
1975 noticiava as acusações da FNLA
às Forças Armadas Portuguesas
O ataque do «Liberdade e Terra» era extensivo a Rosa Coutinho, à ANI e jornalistas (no geral), ao ministro da Comunicação Social (comandante Correia Jesuíno), Governo de Transição e Alto-Comissário (Silva Cardoso), comandante das Forças Armadas, à Lei de Imprensa, ao PCP e «declaradamente ao MPLA».
O dia, lá por Luanda - onde eu e o Cruz espreguiçávamos as nossas férias!!!... -, parecia mais calmo que os anteriores. O tiroteio da véspera, na Avenida do Brasil, afinal não passara de «um pequeno incidente» e, reportava o Diário de Lisboa desse dia, «esta manhã, crianças e jovens brancos dirigiam-se calmamente para as escolas e liceus». Mas, nessa mesma manhã de há 41 anos, foi preso Adalberto Vieira Lopes, desenhador da Câmara Municipal de Luanda e militante do MPLA. Por elementos armados do ELNA - o Exército Nacional de Libertação de Angola, braço armado da FNLA. O mesmo ELNA que, na véspera, já detivera Couto Cabral, director dos Serviços de Informação, levado para a sede da FNLA, «onde esteve durante hora e meia».
Eu e o Cruz, saídos do Katekero, matabichámos calmamente na Portugália e demos uma saltada às praias da ilha, onde regaladamente almoçámos e, pelo fim da tarde, nos reunimos com o Alberto Ferreira, para, juntos, cobiçar os prazeres da noite de Luanda.