quinta-feira, 17 de março de 2016

3 338 - Duas Companhias de Caçadores nos Cavaleiros do Norte

Cavaleiros do Norte das Transmissões: Mendes (1º. cabo), Soares, José 
Pires (furriel miliciano), Oliveira (1º. cabo) e Costa (de pé). Em baixo: José 
Orlando (?), Zambujo e Salgueiro (1º. cabo)


Os furriéis milicianos Francisco Neto e João
Peixoto, no mar da messe de sargentos (que tinha
sido de oficiais) do Bairro Montanha Pinto, em Carmona 

As alterações do dispositivo militar em toda a Região Militar (RMA) implicaram, no caso do Uíge, que a CCAÇ. 4741/74 (estacionada no Negage, depois de ter estado em Santa Cruz) e a 1ª. CCAÇ. 4911 (aquartelada em Sanza Pombo) «passassem a depender operacionalmente do BCAV. 8423».
A retracção do dispositivo militar português, na verdade, levou a que as forças se concentrassem cada vez mais nos centros urbanos, especialmente em Carmona - no caso da província do Uíge. 
Os Cavaleiros do Norte, com a CCS e a 2ª. CCAV. aquarteladas no BC12, apenas tinham a 1ª. CCAV. em Vista Alegre e Ponte do Dange (de lá sairia a 24 de Março desse ano de 1975) e parte da 3ª. CCAV. ainda no mítico Quitexe. A 2ª. CCAV. mantinha um pequeno grupo em Aldeia Viçosa, a guardar equipamentos (segundo há dias nos recordou o capitão José Manuel Cruz), de lá saindo de vez a 26 de Abril.
Mapa com localidades por onde passaram o
s Cavaleiros do Norte e companhias que do
BCAV. 8423 passaram a depender operacionalmente.

Clicar na imagem, para a ampliar
Carmona, nesse tempo de 17 de Março de 1975 (uma segunda-feira), continuava militarmente calma, embora com pequenos incidentes entre militantes e ex-combatentes dos movimentos de libertação - que as NT resolviam sem grandes dificuldades. E continuava a animosidade da comunidade branca, relativamente às NT - já em rotina, quase indiferente!
Luanda acordava com acusações, em Lisboa, às Forças Armadas Portuguesas: «Certas esferas (...) têm sistematicamente tomado atitudes discriminatórias relativamente ao MPLA, o que, a continuar, poderá comprometer a cooperação que nos desejamos manter com as forças progressistas portuguesas», considerou Paulo Jorge, alto dirigente do movimento/partido liderado por Agostinho Neto.
O também membro da Comissão de Relações Exteriores do MPLA e representante permanente em Argel falava em Lisboa, onde passava a caminho de Havana, para participar numa reunião do Bureau de Coordenação dos Países Não-Alinhados. «Impõe-se que todas as forças que participam no processo de descolonização de Angola, e em particular as Forças Armadas Portuguesas, respeitem rigorosamente o Acordo do Alvor», acrescentou Paulo Jorge. Acordo que, como hoje sabemos, pouco além foi de declaração de intenções.
Lá por Carmona, no Uíge angolano, os Cavaleiros do Norte pouca atenção davam a estas novidades - que, de resto, tarde lá chegavam. Nunca, algumas!

quarta-feira, 16 de março de 2016

3 337 - Adaptação à cidade, a PM e a hostilidade da população

Cavaleiros do Norte do parque-auto, a «ferrugem». Assinalados estão 
o alferes António Albano Cruz (a amarelo), o 1º. sargento Joaquim Aires 
(vermelho) e o furriel Norberto Morais (branco) 

O furriel Viegas, no Quitexe, a «escrever
memórias», muitas das quais já foram faladas
neste blogue, fazendo parte da história da jornada
africana dos Cavaleiros do Norte no Uíge angolano

Aos meados de Março de 1975, pela terra angolana do Uíge, os Cavaleiros do Norte continuavam a sua missão, relativamente indiferentes aos tempos de crescente instabilidade que levedava pela capital (Luanda) e outras zonas do imenso território que Diogo Cão descobriu e que, ao tempo, crescia para a independência.
Carmona, a capital uíjana, oferecia um mundo novo aos «apetites» dos jovens combatentes, que por lá debutavam a (sua) vida urbana e se adaptavam aos desafios que se abrem numa cidade, «coisa» nova para a generalidade dos jovens Cavaleiros do Norte da CCS, que lá se aquartelavam no BC12, desde o dia 2. Não eram, agora, os desafios e os medos que se tinham «ganho» nas operações da mata fechada e tenebrosa, angustiante, galgando os trilhos semeados de minas e armadilhas, muito perigosos..., de emboscadas traiçoeiras e mortais; ou das escoltas ou das patrulhas apeadas, garantindo alas de segurança para quem transitava ou habitava nas terras mártires do nosso saudoso Quitexe. Eram os desafios e os medos que espreitavam nas esquinas das ruas, ou do alto traiçoeiro de uma janela dos altos edifícios da cidade; eram as acusações injustas que lhes eram atiradas à cara, era a crescente hostilidade da comunidade civil. A branca e europeia, em crescente animosidade e que nos chamava de cobardes e traidores; a local, que espreitava o momento mágico da sua independência e, o mais rápido que fosse possível, nos queria ver pelas costas.
Carmona, actual cidade do Uíge. A Rua do Comércio e o
popular sinaleiro. Neste local, hoje se fazem 41 anos,
registou-se um incidente entre a PM do BCAV. 8423 e
um grupo de civis
As nossas instruções eram rigorosas: não reagir às provocações! A PM improvisada do BCAV. 8423 controlava os Cavaleiros do Norte na cidade uíjana e garantia o seu bom comportamento, prevenindo incidentes e agindo pela força, se necessário! 
A 16 de Março, um domingo, hoje se passam 41 anos..., na Rua do Comércio, uma unidade PM parada no cruzamento do sinaleiro (foto), foi insultada e cuspida. «Filhos da p..., cobardes!!! Traidores de m... Cabrões», gritou uma mulher, ali parada com alguns familiares, espumando de raiva e despejando cuspe para cima do jeep militar. 
Reagiu o João Marcos, bravo e garboso Cavaleiro do Norte do PELREC, atirador de Cavalaria do BCAV. 8423 e querendo desforço.
«Fod.... já, raaaanhosos!...», gritou ele, tentando saltar da viatura, para retaliar, mas impedido pelo furriel que comandava a força PM. E saiu este da viatura, aconselhando serenidade à família, para evitar confrontos. E foram evitados, mas tendo ele, porém, de ouvir, o mais tolerante que foi capaz e seguro, mais acusações:
«Vocês são todos uns traidores, uns cobardes, estão a dar isto aos pretos...», disse um dos vários homens do grupo, com ar ameaçador, agressivo e colérico, de olhos a faiscar raiva, com evidente instinto de agressão física.
A serenidade do grupo PM evitou o confronto e semanas depois, numa daquelas dramáticas ironias da vida, foram estes mesmos Cavaleiros do Norte quem, perto do Cinema Moreno, acudiram a um assalto à casa do mesmo homem, quando homens da FNLA já lhes carregavam mobília e vários bens e roubado jóias, dinheiro e valores. 
«Somos nós, somos!!...», disse-lhe o furriel, contemporizador mas preciso. «Os traidores e cobardes da Rua do Comércio!!!... Lembra-se?!», acrescentou-lhe, em pergunta, com tranquilidade mas em evidente ironia - já depois de terem desamarrado os familiares, atados com cordas às barras das camas.
Foi isto há 41 anos!
Quando Angola evoluía para a independência e os Cavaleiros do Norte faziam de Carmona e do Uíge uma fortaleza de segurança, que duraria até à madrugada de 4 de Maio, quando os trágicos incidentes desse e dias seguintes tantos lutos fizeram na cidade.

terça-feira, 15 de março de 2016

3 336 - Patrulhamentos mistos em Carmona, inspecção aos Cavaleiros no RC4!

O quartel do Regimento de Cavalaria 4 (RC4), em Santa Margarida. Foi a 
unidade mobilizadora do BCAV. 8423 e no seu Destacamento aconteceu 
a primeira inspecção militar, há precisamente 42 anos!

Encontro de Águeda, a 9 de Setembro de
1995: Alfredo Coelho (Buraquinho), Joaquim
Moreira, NN (o careca, quem, é?) e José Gomes,
enfermeiros da CCS do BCAV. 8423

A 15 de Março de 1975, Carmona foi palco das comemorações do feriado da FNLA, assinalando o 14º. ano do início da sua luta armada contra a presença portuguesa. Foi o primeiro dia dos patrulhamentos mistos - envolvendo tropas portuguesas e dos exércitos da FNLA (o ELNA - Exército de Libertação Nacional de Angola), do MPLA (as FAPLA - Forças Armadas Populares de Libertação de Angola) e da UNITA (o ELNA -Exército de Libertação Nacional de Angola). 
A experiência de patrulhamentos mistos, que se oficializaria a 26 para 27 desse mesmo mês de Março, funcionou, neste caso (o do dia 15), «exclusivamente em serviço de segurança dos locais aonde iriam celebrar-se tais comemorações», como refere o Livro de Unidade. E passou quase despercebida à grande maioria da guarnição dos Cavaleiros do Norte, nessa tarde mais interessados em sintonizar a onda média da Emissora Nacional (actual RDP) e ouvir os relatos do Benfica-CUF (1-0) e do Boavista-Sporting (2-0), pois os dois clubes da capital iam à frente da classificação, separados por dois pontos. Já agora, os outros resultados: Espinho-Oriental, 1-3; Leixões-Belenenses, 2-0; Farense-Olhanense, 2-1; União de Tomar-Académico(a) de Coimbra, 1-4; Atlético-FC Porto, 1-2; Setúbal-Guimarães, 0-4.
O Benfica continuou isolado na liderança (com 42 pontos), seguido do Sporting (37), FC Porto (35), V. Guimarães (33), Boavista (32), Belenenses (26), Farense (25) e Leixões (24),  CUF (22), V. Setúbal e Atlético (21), U. Tomar (19), Oriental (18), Académico(a) (17), Espinho e Olhanense (13). A vitória, nesse tempo, valia 2 pontos.
Um ano antes e no Destacamento do RC4 do Campo Militar de Santa Margarida, os futuros Cavaleiros do Norte do Uíge de Angola eram alvo da «primeira inspecção de Instrução Operacional», feita pelo coronel tirocinado Lobato Faria, na sua qualidade inspector da Região Militar de Tomar. Era sexta-feira e dia último desse período de instrução, já que a 18 (a segunda-feira seguinte) foi tempo para «o início da Licença de Normas».
O Serviço de Informação Pública das Forças Armadas dava conta, nesse 15 de Março de 1974, de mais um morto em combate, na Guiné. o 1º. cabo Amândio da Silva Carvalho, natural de Sarzedo, em Arganil.

segunda-feira, 14 de março de 2016

3 335 - Tragédia da vila-mártir do Quitexe foi há 55 anos!

Quitexe. A capela (igreja) da Mãe de Deus, onde pastoreava o padre Albino 
Capela - da Missão local. Repare-se nas placas da frontaria,  com 
os nomes dos mortos da tragédia de 15 de Março de 1961


A Igreja da Mãe de Deus do Quitexe,
ao fundo. Indicada pela seta amarela, a casa que
 foi o comando do BCAV. 8423, os Cavaleiros do Norte

Há 55 anos,
precisamente, o Quitexe foi cenário de brutal da primeira intervenção (revolta) da União dos Povos de Angola( UPA), a futura Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), de Holden Roberto. 
O trágico «saldo» humano foi de «centenas de portugueses e milhares de angolanos mortos», como recordam João Nogueira Garcia e António Manuel Pereira Guerra, no texto «HÁ 50 ANOS – QUITEXE, A VILA MÁRTIR» - de que nos socorremos.
A guerra prolongar-se-ia por 13 longos anos, até 1974 e já no tempo da comissão do Batalhão de Cavalaria 8423 (os Cavaleiros do Norte) e «continuaria de outra forma, até ao novo milénio»
A zona do Quitexe, há 55 anos, «foi das primeiras a ser confrontada com este cortejo de desgraças» e os autores descrevem «as situações dramáticas que viveram e episódios que ajudam a compreender os caminhos que levaram àquela tragédia imensa». 
Capa do livro de João Nogueira
Garcia, sobre o 15 de Março de 1961
 no Quitexe
«São textos fundamentais para a compreensão do conflito, escritos de forma impressiva, a que não ficamos indiferentes, devido à magnitude do drama humano e social então vivido, à sinceridade que se pressente no que os autores nos dizem e à forma simples, viva e directa como estão escritos», refere João Garcia, filho de João Nogueira Garcia, o autor do livro «Quitexe, uma tragédia anunciada - O velho Cazenza e outras histórias».
O blogue Cavaleiros do Norte / Quitexe, hoje, dá a palavra, por inteiro, ao texto dos dois autores, que faz memória da tragédia que há precisamente 55 anos enlutou o Quitexe e o fez a vila-mártir onde, 13 anos depois, começámos a nossa jornada africana do Uíge angolano.
Ver AQUI

domingo, 13 de março de 2016

3 334 - Polícia Militar dos Cavaleiros na cidade de Carmona

Um bem animado grupo de Cavaleiros do Norte: Bento, Rocha, Viegas, Flora, 
Lopes (enfermeiro), Capitão e Ribeiro (atrás), Carvalho, Belo, Lopes (Grenha) e Reino

Cavaleiros do Norte no Encontro de Águeda, a
9 de Setembro de 1995. A contar da direita e de
frente, Manuel Machado, Brogueira
Dias, António Cabrita e Francisco Neto

O Livro da Unidade refere, no espaço do mês de Março de 1975, que «a mudança do BCAV. para Carmona levou a necessidade de promulgação de novas NEP, ou alteração das mesmas, e a situação na cidade levou à necessidade de execução de um serviço de PM nas ruas da cidade».
O objectivo, sem dúvidas, era «garantir a melhor apresentação do pessoal militar», sobretudo, acentua(va) o LU, «com vista a procurar, através deste meio, prever a resolução das muitas quezílias existentes entre a população civil e as NT, devido à animosidade que aquela tem a estas». Que era, na verdade, notória e sensível, vá lá saber-se porquê!
O Neto e eu, da CCS (que me aprestava a entrar de férias) e o Guedes (da 2ª. CCAV. 8423) fomos alguns dos furriéis milicianos (não me lembro dos outros, mas seriam apenas mais dois ou três) que foram chamados a executar a tarefa e para ela recebemos instruções do capitão José Paulo Falcão e, creio, até do comandante Almeida e Brito. 
Vista Alegre, em foto recente, de José
Manuel Voigt. Repare-se nos candeeiros de
iluminação pública
Ao tempo, e a Carmona, continuavam a chegar notícias da intentona de 11 de Março, mas a elas pouca importância dava a guarnição, muito mais interessada no seu dia-a-dia que preocupada com as labaredas (contra)revolucionárias de Lisboa. No Quitexe, continuava a 3ª. CCAV. 8423, a do capitão José Paulo Fernandes, ali mantendo a soberania portuguesa - enquanto as delegações dos movimentos/partidos procuravam sensibilizar a população para os seus programas políticos. O mesmo acontecia em Vista Alegre e Ponte do Dange, onde o capitão Davide Castro Dias liderava a 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala. Carmona e o BC 12 aquartelavam a CCS (do capitão SGE António Martins de Oliveira) e a 2ª. CCAV. 8423 (do capitão José Manuel Cruz.
- NEP. Normas de Execução Permanente.
- PM. Polícia Militar, que, em Carmona e nesta altura, 
  se denominava Polícia de Unidade (PU).

sábado, 12 de março de 2016

3 333 - A intentona militar de Lisboa e a calma de Carmona

Os furriéis milicianos Viegas e Cândido Pires na aldeia do Talambanza, à 
saída do Quitexe e na Estrada do Café, para Carmona

Rogério Raposo, à direita, com outro Cavaleiro
do Norte de Zalala, mas ao tempo já em Vista
Alegre, nas quedas do Duque de Bragança,
em turismo... militar!

Aos 12 dias de Março de 1975, chegaram a Carmona (e à guarnição dos Cavaleiros do Norte) ecos dos acontecimentos da véspera, no Portugal europeu. «Intentona fracassada em Lisboa», titulava o jornal «Diário de Luanda», em letras garrafais, referindo-se à falhada tentativa de golpe de Estado dirigida por António Spínola, que a 30 de Setembro de 1974 se demitira da Presidência da República.
A informação chegava a Carmona mais rapidamente que ao Quitexe (que ficava a apenas 40 kms.), principalmente pela imprensa escrita de Luanda - que raramente aparecia na vila-mártir de 61, mas surgia na capital uíjana no avião das 5 da tarde. Mas era pouco clara, mais se assemelhando a boatos que circulavam de boca em boca, com despachos das agências noticiosas nem sempre esclarecedores - o que fazia aumentar a incredibilidade e a suspeição.
O que nos chegava, sem grandes pormenores, era que, a partir da Base Aérea da Tancos, aviões e helicópteros tinham atacado o RAL1, perto do aeroporto de Lisboa, logo pela manhã (9 horas) de 11 de Março, que ao princípio da tarde tinha sido dado o ataque como controlado e que Spínola fugira para Espanha.
Títulos de vários jornais de Lisboa, a
propósito do 11 de Março de 1975
A Emissora Oficial de Angola tinha vagamente falado do golpe ao fim da tarde e com mais algum pormenor no noticiário das 20 horas (de 11 de Março), mas não o ouvimos nós, que a essa hora  andaríamos a vadiar pela cidade. O Diário de Lisboa publicou várias edições nesse dia e, a 12 (hoje se passam 41 anos), falava em «ampla reportagem do acontecimento», referindo que, antes, foi transmitida uma mensagem do Alto Comissário, o general Silva Cardoso, nomeadamente afirmando que «a situação está(va) completamente controlada pelas Forças Armadas».
Preocupou-nos muito, tal situação na capital do Portugal europeu?
Não errarei se disser que continuámos a nossa vida na tranquilidade dos deuses, cumprindo as nossas missões e tentando compreender, isso sim, a hostilidade que cada vez mais notávamos da parte da comunidade civil. Eu próprio, com o Cruz a pouco mais de duas semanas de férias, riscávamos dias no calendário, até ao nosso voo para Luanda e para a Angola do centro e sul que planeávamos ir conhecer. 
- 3 333. O post de hoje tem este número mágico: 3 333!!! 
Por outras palavras, 3 333 vezes (e até foram bem mais...) que
 o blogue Cavaleiros do Norte aproximou a rapaziada que, há 41 
e 42 anos, cumpriu, com garbo e orgulho, a jornada africana do 
Batalhão de Cavalaria 8423 por terras do Uíge angolano. 
Enquanto pudermos e se justificar, por cá continuaremos! 
Abraço para todos!!!
CV

sexta-feira, 11 de março de 2016

3 332 - O adeus da 2ª: CCAV. dos Cavaleiros do Norte a Aldeia Viçosa

Os capitães José Manuel Cruz e José Paulo Fernandes (ao centro), comandantes 
da 2ª. CCAV. 8423 e 3ª. CCAV. 8423, respectivamente, com o comandante Bundula (da 
FNLA) e o alferes João Machado, da 2ª. CCAV. 8423, a 26 de Janeiro de 1975

O inimitável António Santana Cabrita e a
esposa Palmira (sua namorada dos tempos do
Quitexe e Carmona) no encontro de Águeda, a 9
de Setembro de 1995 - 20 anos depois da chegada dos
Cavaleiros do Norte de Angola


O Livro da Unidade dá conta que, a 11 de Março de 1975, a 2ª, CCAV. 8423 deslocou-se de Aldeia Viçosa para Carmona e o BC12, onde já estava, desde o dia 2 desse mês, um dos seus grupos de combate (para lá rodado na mesma data da CCS).
Curiosamente, o mesmo Livro da Unidade dá conta que, já a 26 de Abril seguinte, «fez-se a desactivação de Aldeia Viçosa, podendo afirmar-se que só a partir dessa data se completou a remodelação do dispositivo, que se julga ser a última até ao terminar da comissão». A 1ª. CCAV. 8423, que de Zalala passara para Vista Alegre/Ponte do Dange, daqui saíra na antevéspera (dia 24) para o Songo.
A aparente contradição - a saída a 11 de Março e a desactivação a 26 de Abril de 1975 -   foi hoje minimamente explicada pela capitão José Manuel Cruz, com quem acabámos de falar: «O mais certo é que, após a saída, lá tenha ficado um grupo, a guardar material, até que fosse transportado para Carmona», disse o então comandante de Aldeia Viçosa.
Notícia do Diário de Lisboa de 11 de Março de
1975, sobre a PIDE/DGD, que Agostinho Neto,
presidente do MPLA, a essa data, dizia
continuar a actuar em Angola
Em Luanda, sabia-se da adesão ao MPLA de vários Movimentos Democráticos: o de Angola, o da Huíla, o do Lobito e o do Huambo (Nova Lisboa). A cerimónia de integração foi presidida por Agostinho Neto, o presidente do MPLA,  que afirmou acreditar ser «desnecessário aqui frisar as razões porque todas as forças progressistas de Angola, de todas as etnias, se estão reunindo cada vez mais dentro do MPLA».
«Quer dizer que todos nós temos o mesmo objectivo, o de fazer com que Angola, que está a sair do colonialismo, possa sair de maneira que possa permitir que todas as camadas do nosso povo participem de facto neste processo importantíssimo que é uma viragem na história. Uma viragem não fácil, em que nós somos actores e não espectadores», disse Agostinho Neto, depois questionando o facto de «estarem em Luanda todas as estruturas e quase todos os elementos da PIDE/DGS», que, frisou, «ainda agem, estão estruturados, estão a agir, não no sentido de uma natural descolonização de Angola mas no sentido de uma neocolonização de Angola».
Assim ia o processo de descolonização, há precisamente 41 anos!

quinta-feira, 10 de março de 2016

3 331 - Cavaleiros em Carmona, saudades e manifestação em Luanda!

Cavaleiros do Norte. Reconhecem-se o condutor Celestino, furriel Morais, 
Teixeira (estofador), alferes Cruz e 1º. sargento Aires (à frente). O Malheiro, entre 
Celestino e Morais. À direita, Ferreira (com boina no ombro) e Almeida (falecido
 a 28/02/2009). Quem identifica os outros? 

A entrada de Carmona, actual cidade do
Uíge, na Estrada do Café, para Luanda e passando
pelo Quitexe, Aldeia Viçosa, Vista Alegre e Ponte do Dange


Segunda-feira, 10 de Março de 1975! Carmona é uma cidade tranquila, onde a CCS e um grupo de combate da 2ª. CCAV. 8423 (a de Aldeia Viçosa) se adaptam rapidamente aos novos ritmos. O BC12 é um magnífico quartel e sargentos e oficiais estão instalados em excelentes messes. A saudade é a dor maior da guarnição, que vai no décimo mês da jornada que a levou ao Uíge angolano.
O conhecido prédio redondo, na rotunda da
entrada de Carmona, de quem ia do Quitexe e do Negage
O mesmo não se pode dizer de Luanda, onde «largas centenas de pessoas se manifestaram em frente ao Palácio do Governador», protestando contra o encerramento de um programa radiofónico - o Kudibanguela, da Emissora Oficial de Angola, por ordem da sua direcção e por ter transcrito parte de um livro de Marcelo Caetano, que falava de Jonas Savimbi, o presidente da UNITA. Era a reacção popular, exigindo a reabertura do programa e escutada e vista pelo Alto Comissário Silva Cardoso e pelos ministros Lopo do Nascimento e Rui Monteiro, na varanda do palácio.
Um dos oradores, Manuel Bento, aproveitou para, e cito o Diário de Lisboa, «exprimir, em nome do povo, discordância com algumas medidas tomadas ultimamente pelo Governo de Transição, nomeadamente a mobilização do pessoal dos portos de Luanda e Lobito, a nova lei de regulamentação das greves, etc...».
O Ministério da Informação (de Rui Monteiro), a propósito, emitiu um comunicado e reconheceu que «serão tomados em conta os pedidos apresentados pelos manifestantes». Manifestantes que eram, referia o DL de 10 de Março de 1975, «membros das comissões populares de bairro desta capital, patrocinadas pelo MPLA».
Notícia do Diário de Lisboa de 10 de Março
de 1975, sobre a manifestação do MPLA em Luanda
Carmona, a uns 340 quilómetros, lá para o norte cafeeiro e chão de muitos combates; o Quitexe, «capital do café e terra mártir de 1961», como se lê no Livro da Unidade (e onde continuava a 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel), Vista Alegre/Ponte do Dange (com a 3ª. CCAV. 8423, a de Zalala) e Aldeia Viçosa (onde a 2ª. CCAV. 8423 fazia malas para a capital da província), eram pousos dos expectantes Cavaleiros do Norte. 
Vamos embora? Não vamos? Se e quando?
A cidade abria-se aos nossos apetites e íamo-la descobrindo, dia a dia, episódio a episódio, no seu esplendor e força empreendedora! Na sua oferta social, nos prazeres que nos davam os seus colos! Bons tempos, apesar de tudo, os primeiros tempos de Carmona!

quarta-feira, 9 de março de 2016

3 330 - Dias da uíjana Carmona e notícias do furriel Abrantes

Furriéis milicianos dos Cavaleiros do Norte: Ribeiro, Fernandes, Viegas, 
Belo (de óculos), Grenha Lopes (tapado), Bento, Costa e 
Flora. À frente, Rabiço, Graciano e Abrantes (de cachimbo)

José Pires, de camisa branca (e com filho
e esposa Dulcínia à sua direita) e Francisco Neto,
de gravata (com a esposa Eunice). Furriéis dos
Cavaleiros do Norte no encontro de Águeda, a
9 de Setembro de 1995

Aos fins de 1974, chegou ao Quitexe o furriel miliciano Abrantes, atirador de Cavalaria do Batalhão de Cavalaria 8324, que estava aquartelado em Sanza Pombo. Pois bem: seguiu carreira como professor, foi director de escola secundária do Agrupamento Afonso de Paiva, de Castelo Branco, e está aposentado há cerca de três anos.
O Abrantes distinguia-se dos companheiros da messe de sargentos, por fumar... cachimbo e ser bom conversador. Tinha integrado a 2ª. CCAV. do BCAV. 8323, aquartelada em Quicua. Chegou ao Quitexe ido do Destacamento de Macocola, de uma companhia independente de «maçaricos», na altura deslocada na fazenda Santa Cruz. O BCAV. 8324 tinha sido formado no Regimento de Cavalaria 3, em Estremoz. No Quitexe, ficou instalado no meu quarto e do Neto.
«Foram bons tempos, tempos de muito boa camaradagem», comentou o Abrantes, há algum tempo, a recordar a (sua e nossa) jornada africana do Uíge angolano e a viver a aposentação na sua terra natal de Castelo Branco.
Cine Moreno, em Carmona, espaço de muitas
e boas sessões de cinema. Em frete, ficava
a Rádio Clube do Uíge
Há 41 anos, dia 9 de Março de 1975, um domingo e já ele estava connosco em Carmona, a malta dos Cavaleiros do Norte «soltou-se» pela cidade, descobrindo os seus lugares de prazer e ócio. O Cine Moreno foi um dos espaços escolhidos, pudera!!!..., para sessões cinematográficas (à tarde e à noite), o que (ver um filme...) para a generalizada maioria de nós acontecia pela primeira vez. Os tempos desse tempo eram mesmo outros.
Era dia de correio, através do SPM, distribuído na hora imediatamente antes do jantar. Um momento sagrado, sempre esperado com ansiedade e ilusão, quantas vezes não correspondida. Por volta da meia noite, as Berliets e Unimogs recolheram a malta que fez da cidade o seu dia de domingo - o nosso primeiro domingo urbano! Dia de ouvirmos as primeiras «bocas» da comunidade civil, a questionar a nossa missão, a duvidar das razões da nossa presença. A insultar, nalguns casos!

terça-feira, 8 de março de 2016

3 329 - Cavaleiros do Norte adaptam-se à cidade de Carmona

Grupo de Cavaleiros do Norte em pose fotográfica. Atrás, o Vicente (?, o segundo), Miguel Teixeira (o terceiro), 
Grácio (5º.), Mesejana (7º.), alferes Ribeiro (de braços cruzados, o 8º.) e furriel José Pires (encostado, o 9º.). À
 frente do Grácio, o Florindo. Em baixo, o Cabrita (?, 3º.), o Carpinteiro (meio sentado, apoiado nos braços), furriel 
Mosteias. E os outros? Quem os conhece e  os identifica? 

Águeda, encontro de 9 de Setembro de 1995: furriéis
Mota Viana (de camisa florida) e Manuel Pinto (às riscas 

azuis e pretas), Barreto (a olhar para a direita e Américo
Rodrigues (de barba). Mais à direita, o 1º. sargento Fialho
Panasco, todos da 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala!



Carmona, 8 de Março de 1975. Os Cavaleiros do Norte da CCS e da 2ª. CCAV . 8423 adaptam-se o melhor que podem à sua vida nova. Vida urbana, continuando a militar. A enormíssima maioria de nós nunca tinha estado em cidades, muito menos lá vivido, e todo o movimento diário da urbe uíjense é uma permanente e boa surpresa - assim como a altura  e modernidade dos prédios, o bulício e os hábitos urbanos, os restaurantes e cinemas, a vida nocturna. Ao tempo, já vamos com quase uma semana de BC12 e de Carmona e muitos Cavaleiros do Norte ainda nem sequer tinham ousado sair do quartel.
Os mais atrevidos (e vividos, os mais endinheirados!) corriam a noite carmoniana, depois da dispensa de toque de ordem (das 5 horas da tarde) e enchiam as enormes esplanadas de restaurantes e bares da cidade: o Escape, o Gomes e o Eugénio, o Chave d´Ouro, o Pinguim, o do aeroporto e outros (cujo nome já se varreu da memória). E não se dispensavam das noites quentes do Diamante Negro ou do Kikoko, para fartar os cios dos seus desejos.
O Diamante Negro, bar/boite nocturno, perto
do campo de futebol, ainda existe em Carmona,
actual cidade do Uíge
Aqueciam as coisas por Luanda, onde a Comissão Nacional de Defesa (presidida pelo Alto Comissário Silva Cardoso) expulsara 12 jornalistas da revista «Notícia». Dois deles já estavam em Lisboa: o director João Fernandes e Sousa Oliveira. A Associação de Jornalistas de Angola protestou, assim como os jornais «O Comércio» e «A Província de Angola». Mas 83 trabalhadores da Neográfica (a proprietária da revista) concordaram com a decisão. Para eles, «a punição deve servir de exemplo aos que ingenuamente tentam pôr em risco o processo de descolonização». A favor da detenção e expulsão estavam também 47 jornalistas, os trabalhadores da revista «ABC» e a Emissora Oficial de Angola apoiaram a decisão da Comissão Nacional de Defesa.
Assim ia o processo de descolonização de Angola, há 41 anos!!!

segunda-feira, 7 de março de 2016

3 328 - A chegada dos especialistas e os medos da guerra

Furriéis milicianos Cruz e Viegas no ajardinado de separação da Avenida
do Quitexe (a Rua de Baixo), em Dezembro de 1974. Atrás e à direita, o bar 
dos praças. Em frente, a messe de oficiais, casa dos furriéis e secretaria da CCS

Encontro de Águeda, a 9 de Setembro de 1995: os
furriéis milicianos João Aldeagas (de pé) e João Dias (de
dedo no queixo), Jorge Barreto (de pé) e Américo Rodrigues,
todos da 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala
Santa Margarida, 7 de Março de 1974, há 42 anos: chegam mais especialistas ao Destacamento do RC4, onde se forma o Batalhão de Cavalaria 8423. É quinta-feira e com ar muito sério, a cofiar o bigode e cara de poucos amigos, apresenta-se o já furriel miliciano Cruz, mecânico rádio-montador. É o mais velho de nós todos e a especialidade «durou-lhe» um ano, em Paço de Arcos. Viria a ser um dos meus maiores companheiros da jornada africana. Até em férias, quando em Abril de 1975, corremos a enorme Angola, de Luanda ao sul, sentindo-lhe os seus cheiros e deslumbrando-nos com as suas cores.
Ao jantar, ficámos na mesma mesa e daí cresceu a amizade que, levedada pelo tempo, dura até aos dias de hoje. Na hora do café, a conversa virou-se para o futuro: o que nos esperará em Angola? As notícias do dia não são das melhores. O comunicado oficial do Serviço de Informação Pública das Forças Armadas dá conta de mais mortos: dois em combate (na Guiné e em Angola), um de acidente de viação, na colónia do nosso destino. Em combate, o 1º. cabo  Samuel Silva de Faria Quinta, madeirense da Ribeira Braga (em Angola) e Bacar Demba, do recrutamento da Guiné. De acidente e em Angola, o furriel ,miliciano António dos Reis Morais, do Barco, na Covilhã.
Viegas e Cruz,  em Lisboa, num dos seus
frequentes encontros. Este, 40 anos depois de se
terem conhecido em Santa Margarida (a 7 de
Março de 1974)
Falámos do fatalismo da guerra e do estigma com que crescemos, desde os nossos 8/9 anos, galgando a adolescência e a juventude com a certeza de que o nosso destino já estava marcado na agenda das nossas vidas, para esses trágicos anos de combates, de dores e medos. 
Agora, nesse tempo de 1974, aí estávamos nós, jovens de 21 para 22 anos, operacionalizados na exigente instrução militar e em vésperas do embarque para a África onde, pelas juras da Pátria, iríamos defender o património político e territorial que aprenderamos a conhecer na escola: o do Portugal que vai (ia) de Minho a Timor!

domingo, 6 de março de 2016

3 327 - «ONU» CONDENA PORTUGAL E MORTOS EM ANGOLA


Grupo de combate da 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala, comandado pelo alferes 
miliciano Carlos João Sampaio - o primeiro, do lado esquerdo. Quem ajuda 
a identificar os que por tal estão, nesta imagem?

Zalala, quatro Cavaleiros do Norte em pose: Rogério 
Raposo (de transmissões, actualmente em Angola) e 
o furriel José Louro (em Évora), à frente. Atrás, o saudoso 
furriel Jorge Barata (falecido a 11/10/1997, em Alcains) e (?) 
o 1º. cabo Amaro, do Fundão (atirador de Cavalaria)


Dia 6 de Março de 1974, uma quarta-feira: os futuros Cavaleiros do Norte sabem que a Comissão dos Direitos Humanos da ONU recomendou que o Conselho Económico e Social  «condene vigorosamente a África do Sul, Portugal e a Rodésia, pela sua flagrante e persistente desobediência às moços da ONU sobre a auto-determinação e direitos humanos na África Austral».
A resolução fora aprovada com 19 votos favoráveis, um contra (o dos Estados Unidos) e três abstenções (da Inglaterra, França e Itália). Nove dos 32 membros do Comissão dos Direitos Humanos não assistiram à sessão.
Isso preocupou-nos alguma coisa? Nada. A política era «coisa» bem distante dos horizontes mais próximos e, para nós (pelo menos para mim), mais relevante era a notícia da tomada de posse dos novos Governadores Civis - entre os quais o de Aveiro, o dr. Horácio Marçal, que eu bem conhecia, a sua presidência da Câmara Municipal de Águeda. O insuspeito Diário de Lisboa dedicou quase 4 páginas ao assunto.
Preocupantes eram outras razões. Por exemplo, o comunicado do Serviço de Informação Pública das Forças Armadas, com notícias bem menos simpáticas: mortes de militares portugueses na guerra colonial. A guerra para que, em Santa Margarida, nos preparávamos, em exercícios finais. Na Guiné, dois mortos em combate e dois em acidentes de viação (todos da incorporação local). Em Moçambique, um, também do recrutamento local mas natural de Macedo de Cavaleiros. Em Angola. quatro em acidentes de viação: dois do recrutamento local e um de Campanhã, no Porto (o 1º. cabo Manuel da Silva Ribeiro Mendes).
Conselho de Ministros decretou lei
de excepção para mobilizar as empresas
angolanas, publicas e privadas
Um ano depois e já no 10º. mês de comissão em Angola, a Carmona a notícia do decreto-lei aprovado pelo Conselho de Ministros, dando autonomia ao Governo Provisório para «ordenar a mobilização militar de quaisquer instituições, serviços e empresas de natureza pública ou privada, por períodos de 3 meses, prorrogáveis, subordinadas à Comissão Nacional de Defesa». Na prática, quaisquer delas ficava às ordens do Estado Maior Unificado, que «indicaria elementos militares para orientação do funcionamento dessas unidades mobilizadas». Um verdadeiro estado de excepção.


sábado, 5 de março de 2016

3 326 - Protocolo no Uíge e instrução em Santa Margarida

O alferes Pedrosa de Oliveira, à esquerda, no encontro dos Cavaleiros do 
Norte de 9 de Setembro de 1995, em Águeda. Quem identifica os 
companheiros das outras duas fotos?

Quarteto de Cavaleiros do Norte  da 1ª. CCAV.
8423, a de Zalala: Coelho, Rogério 
Raposo (que 

está em Angola), Aires (rádio-telegrafista) e o 1º. cabo
 Carlos Ferreira (que está em Moçambique)


Aos 5 dias do mês de Março de 1975, o tenente-coronel Almeida e Brito estabeleceu contactos protocolares com o Governador do Distrito,  Bispo da Dioceses eJuízes do Tribunal do Uíge. Foram, «operações de charme» do comandante dos Cavaleiros do Norte junto das mais altas entidades públicas locais - que nós, do BCAV. 8423, já conhecíamos de visitas ao Quitexe, exceptuando os Juízes.
O mesmo dia dia há 41 anos foi também tempo para o empate (0-0) do Benfica, no campo do PSV, na Holanda, tendo jogado José Henrique (Bento), Barros, Humberto, Messias e Artur; Toni, Victor Martins, Eusébio e Simões; Nené e Moínhos. O jogo era da Taça dos Vencedores das Taças (actual Liga Europa, em outros moldes). Na segunda mão, no dia 19 e em Lisboa, venceu (2-1) o PSV.
Um ano antes, em Santa Margarida e no Destacamento do Regimento de Cavalaria 4 (RC4), continuava a apresentação dos especialistas do (nosso) BCAV. 8423, já em instrução operacional para a comissão em Angola. O Serviço de Informação Pública das Forças Armada noticiava a morte, em combate, de alguns militares em Moçambique e de um em Angola: o 1º. cabo José Carvalho Casaca, do recrutamento local mas natural de Reigada, no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo.
Era para essa guerra - a que indistintamente chamavam colonial ou ultramarina... - que os Cavaleiros do Norte se preparavam no Campo Militar de Santa Margarida. 
Capa do Livro  «BCAV. 8423 -
 História da Unidade», do qual este
blogue frequentemente se socorre
Recordo aqui alguma da literatura que nos era distribuída, ao tempo, de mentalização psicológica e em slogans: «O soldado português é dos melhores do mundo», ou o simbólico «O Exército Português é o espelho da Nação», também o sugestivo «Suor da instrução é sangue que não corre», ou ainda o «tens de querer e saber», pois, como se lê no Livro da Unidade, «esta é a maior virtude do soldado, a compensação e dádiva que podes oferecer e  e que tem por único fim o servir bem, por enlevo a glória, por único móbil a honra e a dignidade».
Já lá vão 42 anos e parece que foi ontem!

sexta-feira, 4 de março de 2016

3 325 - Especialistas no BCAV. 8423 e recuperação do Alexandre Oliveira

Cavaleiros do Norte já no Quitexe. Atrás, os 1º.s cabos Soares, Luís Oliveira e 
António Pais, furriel Rocha, 1º. cabo Estrela (sem boina), Silva, alferes Hermida (de 
bigode), Zambujo (bigode), furriel Pires (de braços cruzados), Felicíssimo (da 
1ª. CCAV.), José Mendes, Soares, Pires (o Fecho-Eclair?, de mão no queixo) e 
Wilson. De cócoras, Jorge Silva (3ª. CCAV.), José Costa, 1º. cabo Salgueiro, 
furriel Cruz e 1º. cabo Tomás. Alguns dos especialistas que se apresentaram a 
4 de Março de 1974. Há 42 anos!!!

O clarim Alexandre Oliveira, o segundo a contar
da direita, quando, a 25 de Outubro de 2015, foi
visitado por José Freire (1º. cabo), António Soares, José
Manuel Cruz (capitão) e José Maria Beato (1º. cabo).
Está curado da doença degenerativa que o preocupava

Há 42 anos, dia 4 de Março de 1974, começaram a apresentar-se os especialistas do Batalhão de Cavalaria 8423 - ao tempo aquartelado no Destacamento do Regimento de Cavalaria 4 (RC4), no Campo Militar de Santa Margarida. Especialistas que, lê-se no Livro da Unidade, «haviam de completar os efectivo do Batalhão», o que, sublinha, «continuou a processar-se nos dias seguintes».
Especialistas, por isso se entendam os quadros (sargentos e oficiais) de enfermagem, alimentação, mecânica (auto e de armamento), transmissões, administração, sapadores, cozinheiros, condutores, electricistas, até um auxiliar de serviços religiosos (um sacristão...), entre outros.
Era uma segunda-feira e relativamente à guerra colonial, a grande notícia tinha a ver com a autorização dada ao Governo Geral de Moçambique para contrair um empréstimo de um milhão de contos, para «financiar programas económicos incluídos no IV Plano de Fomento» daquele território. De Angola, sabia-se, através do jornal A Província de Angola, que os trabalhadores metropolitanos dos jazigos de mármore branco e vermelho de Moçâmedes iam ser substituídos por estrangeiros, por lhe ter sido negada a pretensão de a maior parte do ordenado ficar na metrópole, o que «os levou a regressar».
Hoje, 42 anos depois, temos o gosto de noticiar a recuperação de Alexandre Santos Oliveira, que foi clarim da 2ª. CCAV. 8423 (a de Aldeia Viçosa) e está definitivamente curado de uma doença degenerativa que há meses o «trazia» entre o hospital e a sua casa do Seixo, em Vila Nova de Gaia.  
«Está definitivamente curado...», disse-nos o (1º. cabo) José Maria Beato - que a 25 de Outubro de 2015, com (o capitão) José Manuel Cruz, o (1º. cabo) José Freire e o António Soares, o foram visitar e incentivar na luta contra a doença.
Livrou-se desta e, disposto a gozar a vida, foi à pesca, descuidou-se dos frios e apanhou uma pneumonia - de que está a recuperar. Sai lá dessa, ó Oliveira!
- Visita solidária ao clarim
Alexandre Oliveira.
Ver AQUI

quinta-feira, 3 de março de 2016

3 324 - O segundo dia dos Cavaleiros do Norte em Carmona

Furriéis milicianos da CCS dos Cavaleiros do Norte, ainda no Quitexe, na 
parada: António Cruz (rádio-montador), Cândido Pires e Luís Mosteias (sapadores), 
Francisco Neto (Rangers), José Pires e Nelson Rocha (transmissões)

Os furriéis milicianos Mosteias (à esquerda,
sentado na parede da varanda, falecido a 5
de Fevereiro de 2013, em Santo André), Viegas
(de pé), Bento, Monteiro e José Pires, na
varanda das traseiras da messe de
sargentos do Montanha Pinto - de oficiais,
até 2 de Março de 1975

A 3 de Março de 1975, uma segunda-feira, foram continuadas a instalação do pessoal e as arrumações de equipamentos no BC12, um excelente quartel - situado na estrada para o Songo, à saída de Carmona.
O pessoal sentiu-se magnificamente instalado. Na verdade, o BC12 era um verdadeiro quartel, construído de raiz e relativamente novo. Nada o comparava (para muito melhor) ao Quitexe - onde apenas a parada, casernas e oficinas se assemelhavam a um aquartelamento e a tropa estava espalhada por vários sítios e casas (alugadas a civis), onde jornadeáramos 9 meses e onde continuava a 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel (desde 10 de Dezembro de 1974).
Os oficiais foram instalados numa das messes da cidade e os sargentos e furriéis milicianos numa outra (também de oficiais) no Bairro Montanha Pinto - bem perto de outra de sargentos, para onde, dias depois, foram os companheiros da 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa. Era só atravessar o jardim.
A transformação do dia-a-dia da guarnição foi quase... radical: melhores instalações e (que)  novo tipo de serviços, numa cidade com muito mais oferta social que a pequena e saudosa Quitexe. 
O BC12, visto do lado do Songo, na estrada
que liga(va) esta cidade a Carmona 
Carmona era a capital do Uíge e estava em visível crescimento, bem estruturada e desenhada, rasgada nos seus horizontes urbanísticos e com serviços públicos civis, hospital, aeroporto, tudo o que era preciso numa cidade a projectar-se no futuro.  Ali estava instalados os comandos militares e as lideranças civis, tinha grande dinamismo comercial e era visível a sua crescente industrialização. A vida social era visivelmente intensa e muito grande a oferta de serviços. Muitos de nós viam (estavam e viviam) pela primeira vez numa cidade e (quase) tudo nos deslumbrava. Os restaurantes e cafés da cidade, os clubes nocturnos, passaram a ser espaço de frequência dos Cavaleiros do Norte - os que mais podiam (por razões financeiras) e nas horas de fora dos serviços de ordem.
A CCS, nesta rotação para Carmona, foi acompanhada por um grupo de combate da 2ª. CCAV. 8423 (a de Aldeia Viçosa), indo «o restante desta subunidade apresentar-se no dia 11 de Março», como se lê no Livro da Unidade.

quarta-feira, 2 de março de 2016

3 323 - Adeus, Quitexe...., que vamos para Carmona!

 Cavaleiros do Norte da CCS no encontro de Penafiel, em 1997, organizado 
pelo (furriel miliciano) José Augusto Monteiro, a 27 de Setembro de 1997

Planta do Quitexe, feita de memória por Alfredo Baeta
Garcia
, com possíveis erros de localização. Alguns
pontos: Igreja e Missão (7 e 7A), quartel (8 e 9),
secretaria e casa dos furriéis (4 e 5), messes de
oficiais (3) e sargentos (1), enfermaria (29), bar dos
praças (25), restaurantes Topete (11), Rocha (69) e
Pacheco (23), administração civil e jardins (52 e 53),
 escola (48), hospital (55) e clube (49).
Clicar na imagem para a ampliar




Os Cavaleiros do Norte, a 2 de Março de 1975 - hoje se passam nada mais nada menos que 41 anos!!! - deixaram o Quitexe, em rotação para Carmona e para o BC12. «Conforme fôra previsto, face à retracção dos dispositivo militar da RMA, rodou o BCAV. para a cidade de Carmona», lê-se no Livro da Unidade, falando desse Março africano do Uíge angolano.
O dia foi de emoções várias. Dizíamos adeus a uma terra onde crescemos como homens e fomos aprendizes dos males e dos bens da vida, ali cerzidos na ambiência de uma guarnição militar e dos momentos (mais ou menos) dramáticos que ali matrizaram o nosso dia a dia, por 9 meses da nossa jornada africana.
A comunidade civil quitexana espreitou o adeus da Companhia de Comando e Serviços (CCS) à saída da missa dominical e com alguma indiferença, até com algum desdém - talvez porque não tinha ideia certa e justa do papel das forças armadas na sua segurança e garantia de pessoas e bens, que vinha desde 1961. Ou porque, indo embora a CCS e continuando a 3ª. CCAV. 8423 (a de Santa Isabel, ali aquartelada desde 10 de Dezembro de 1974), pouco para eles se alteraria.
Seja como for, o nosso adeus começou a formar-se logo pela manhã, com os últimos carregamentos nas Berliets e entre graças da rapaziada da CCS, trocando piadas e bocas com a malta da 3ª. CCAV., do capitão José Paulo Fernandes.
O momento mais emotivo, para mim, foi o do troco com Francisco Caiango, ou Augusto Cacungo, chamasse-se lá ele como chamasse, para nós era o Agostinho Papélino, de quem ainda ontem aqui falámos.
Agostinho Papélino, o (não)
engraxador do Quitexe
«Leva-me no puto, esfurrié...», pediu ele, abrindo os olhos em cor de esperança.
Ele queria que alguém o trouxesse para Portugal e repetidamente o tinha pedido (pelo menos a mim e ao furriel Neto), mas ficou pelo Quitexe.
Passei-lhe eu a mão na carapinha, nada disse mas dei-lhe 20 angolares, que embrulhou na mão e com eles fugiu de nós, escondendo-se atrás as flores da entrada da messe de oficiais, para nos ver partir.
A CCS arrancou para Carmona, instalou-se no B12 (um quartel com magníficas instalações) e iniciou uma nova vida da sua jornada africana. Mal adivinharia os trágicos momentos que por lá iria viver!

terça-feira, 1 de março de 2016

3 322 - A véspera, há 41 anos, da saída do Quitexe...

Furriéis milicianos Farinhas (falecido a 14 de Julho de 2005, em 
Amarante), Neto e Viegas, com o engraxador Agostinho Papelino 

O sorriso, bem ladino e
inesquecível, de Agostinho Papelino,
o engraxador do Quitexe

Dia 1 de Março de 1975, véspera da saída da CCS do Quitexe, rumo a Carmona! Era sábado e o dia da guarnição da CCS foi passado tranquilamente, em fecho de malas e passagens breves pelos «templos» da vila: o Rocha, o Pacheco, o Topete, o Morais, talvez outros..., para o adeus bebericado à vila-mártir de 1961, que nossa casa foi entre 6 de Junho de 1974 e 2 de Março de 1975.
Passei depois, já noite bem dentro, pela Igreja da Mãe de Deus, passeando o adro que ia desde a parada militar e chegava à missão do padre Albino Capela. Já era bem de noite, uma noite muito quente.., mas ainda assim muito nostálgica, espreitando o luar avermelhada que se estendia para além do horizonte, escondendo-se atrás da floresta, até onde os nossos olhos podiam ver. Fui chamado da vedação por alguns «pelrec´s», que bebiam cervejas fresquíssimas, tiradas de uma pequena arca, alimentada a petróleo. E apareceu o Pepelino!!!
A igreja do Quitexe (ao fundo), o sítio do quartel
(onde se vê a árvore, à direita) e a Estrada do
Café (ou Rua de Cima) do Quitexe, vistos
do lado do jardim da vila
O Papelino, Agostinho Papelino seria este o nome (ou Francisco Caiango, ou Augusto Cacongo, nunca se soube bem...), tinha na casa dos 12/13 anos e vivia (aparentemente) sem família, (fazia que) engraxava sapatos e botas da tropa mas nem sequer usava graxa mas repetia todos os gestos da escova e do pano, num ritual de «batuque» que transformava em festa..., que nos divertia. Tocava todos os toques militares com uma mangueira de água, era um espécie de mascote (não) oficial da tropa. Chegámos a interrogá-lo sobre se não passava informações para o IN (algumas vezes desconfiámos), mas nunca que se abriu sobre tal coisa. Não dormia no quartel, mas comia e passava o dia entre a tropa. O seu sonho era (aparentemente) que um de nós o trouxesse para Portugal.
Na caserna do PELREC, bebidas as cervejas, futurámos os dias seguintes e fui até ao quarto, onde o Neto já se entregava a Morfeu. Não sem, antes, passear vagarosamente pela Ruas de Cima (a Estrada do Café, de Luanda a Carmona) e de Baixo (a avenida). Uma espécie de adeus antecipado algumas horas.