sábado, 14 de maio de 2016

3 396 - Mobilização de furriéis e «uma solução para Angola»

Carvalho (3ª. CAV. 8423) e Viegas (CCS do BCAV. 8423), furriéis 
milicianos Cavaleiros do Norte, com um outro, do recrutamento 
local e cujo nome se varreu da memória. Alguém de lembra?

Rodrigues, Queirós e Eusébio (falecido a
16 de Abril de 2014, de doença e em Belmonte). Três
dos furriéis milicianos da 1ª. CCAV. 8423, a
de Zalala, mobilizados em Dezembro de 1973. Em
baixo e da 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa,
Letras, Costa, Guedes e Gomes em hora de leitura
A imprensa de 14 de Maio de 1975 anunciava as diligências que, em Luanda, o ministro Melo Antunes, dos Negócios Estrangeiros, fazia junto do MPLA, da FNLA e da UNITA no sentido de «encontrar uma solução para o problema de Angola». Tinha reunido na véspera (e separadamente) com os elementos do Governo de Transição de cada um dos três movimentos e com Agostinho Neto (presidente do MPLA) e nessa manhã ia encontrar-se com dirigentes da FNLA e da UNITA.
Admitia-se, então, que, numa segunda fase, os três movimentos reuniriam entre si e só depois com o Governo Português e numa conferência «ao mais alto nível». 
Quanto a incidentes, na capital, referia o Diário de Lisboa de 14 de Maio de há 41 anos que «continuam a registar-se alguns, embora de pouca gravidade», entre o MPLA e a FNLA. 
O mesmo acontecia em Nova Lisboa (actual Huambo) onde, porém, se tinham anotado 18 mortos - quatro do MPLA e 14 da FNLA. Em Teixeira de Sousa, também se tinham registado incidentes entre os dois movimentos, tendo as forças da FNLA «retirado para o Zaire». Atritos houve igualmente em Vila Nova, Cuíla e Caála.
Carmona e o Uíge, mais para a norte angolano, continuavam com alguns incidentes, é verdade, mas controlados pela abnegada, oportuna e sacrificada intervenção dos Cavaleiros do Norte - que dispunham de pequena guarnição para tantas necessidades operacionais.
A Ordem de Serviço 291/74, 
com as mobilizações dos futuros 
furriéis. Clicar na imagem, para 
a ampliar
Hoje, recordamos a Ordem de Serviço 291, do RC4, de 15 de Dezembro de 1973, com uma lista de 1ºs. cabos milicianos «nomeados para servir no Ultramar, com destino à RMA» - futuros furriéis milicianos Cavaleiros do Norte.
Os seguintes:
- CCS, do Quitexe: António Lopes (enfermeiro), José Pires e Nelson Rocha (transmissões), Francisco Dias (alimentação), Joaquim Farinhas, Cândido e Pires e Luís Mosteias (sapadores), António Cruz (rádio-montador), Francisco Bento (informações) e José Carlos Fonseca (amanuense). Destes, já faleceram o Farinhas (a 14/07/2005, de doença e em Amarante) e o Mosteias (a 05/02/2013, de doença e em Santo André).
- 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala: José Nascimento (alimentação) Jorge Manuel Barreto (enfermeiro), João Custódio Dias (transmissões), Manuel Pinto (Operações Especiais, os Rangers) e os atiradores de Cavalaria Fernando Viana, Francisco J. C. Silva (que não seguiu para Angola), José Louro, Américo Rodrigues, João Baldy Pereira, Eusébio Martins, Victor Costa, João Aldeagas e Plácido Queirós. Destes, faleceu Eusébio Martins, em Belmonte e de de doença, a 16 /04/2014. 
- 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa: Abel Maria Mourato (alimentação), Jaime J. V. Ribeiro (enfermeiro, que não seguiu para Angola), António Augusto Rebelo (transmissões), António Carlos Letras (Operações Especiaia, os Rangers) e os atiradores de Cavalaria José Maria Ferreira, José Gomes, José Manuel Costa, José M. S. Gomes (que não seguiu para Angola), Mário Matos, António Cruz e António Artur Guedes.
- 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel: Agostinho Belo (alimentação), Ângelo Rabiço (enfermeiro), João Cardoso (transmissões), Victor Guedes (armamento pesado) e os atiradores de Cavalaria António Flora, José Avelino Querido, Graciano Silva, José Fernando Carvalho, Alcides Ricardo, Delmiro Ribeiro, António Luís Gordo José Grenha Lopes e António Fernandes. Já faleceu, Victor Mateus Ribeiro Guedes, de doença e a 16 de Abril de 1998, em Lisboa.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

3 395 - A não cimeira e o reencontro com o TRMS José Mendes

Quatro Cavaleiros do Norte, ainda no Quitexe: o Mortágua (?), Jorge 
Pinho (1º. cabo escriturário, falecido de doença a 10 de Abril de 2003, no 
Porto),Pagaimo (Morteiros) e... quem é?  Quem identifica 
este companheiro da jornada africana do Uíge angolano?


José Mendes (que hoje faz 64 anos) e Viegas em Lisboa, a
20 de Abril de 2016, quando aquele falava com o (ex-furriel)
Pires, ambos das transmissões do Quitexe

A 13 de Maio de 1975, uma terça-feira, soube-se que a UNITA de Jonas Savimbi também (a par da FNLA de Holden Roberto) se recusava a participar na Cimeira, se esta tivesse participação das autoridades portuguesas, enquanto o MPLA considerava que «a necessidade de revisão dos Acordos da Penina (do Alvor) não dispensavam a presença portuguesa». 
A primeirapágina do Diário de Lisboa
de há precisamente 41 anos, o dia
13 de Maio de 1975!
«Os três movimentos não podem decidir sobre um documento assinado por quatro partes», declarou um dirigente do MPLA ao Diário de Lisboa, que citamos, no mesmo dia em que a Luanda chegava Melo Antunes, o Ministro dos Negócios Estrangeiros. A Luanda, uma cidade onde «não há novos incidentes», mas onde se regista(va) a «uma fuga desordenada de técnicos europeus, devido a instabilidade da situação e aos acontecimentos sangrentos das últimas semanas».
O mesmo jornal, desse dia 13 de Maio de há 41 anos, noticiava a chegada de 400 refugiados a Lisboa, «recebido por um Grupo de Apoio que funciona no 7º. andar do edifício do Ministério da Coordenação Inter-Territorial», liderado por Almeida Santos.
O dia foi de aniversários entre os Cavaleiros do Norte: o ciclista Francisco Miranda (que não foi para Angola, era atirador), o atirador de Cavalaria José Coutinho das Neves, o condutor Manuel Brites da Costa e o 1º. cabo de transmissões José da Fonseca Mendes. Este, achámo-lo a 19 de Abril deste ano (foto acima), como empresário do sector da restauração em Lisboa - no Travessa, na Travessa das Necessidades e muito perto do Palácio deste nome, de funciona o Ministério dos Negócios Estrangeiros. 
O Mendes tem uma bonita história de vida, desde que nasceu em Alvoca da Várzea, do concelho de Oliveira do Hospital, neste dia de 1952. Aos 10 anos, com escola primária concluída, foi para Lisboa e foi ardina, até aos 14 trabalhando na rua e no Calvário. Seguiu-se a vida de marçano, numa mercearia, até aos 17/18 - idade em que entrou para a restauração, trabalhando na Praça da Armada, na tasca de um irmão. Com ele trabalhou e para ele la foram feitas obras, mas, em 1987, soube de uma mercearia em trespasse, nelas fez obras e nela instalou o seu restaurante - o Restaurante A Travessa. Que é nome da rua e qualidade no prato.
Hoje, socorremo-nos da Ordem de Serviço nº. 301 do RC4, de 26 de Dezembro de 1973, para recordar a apresentação, em Santa Margarida, dos (então futuros) furriéis milicianos atiradores de Cavalaria José Avelino Querido e António Flora (ambos para a 3ª. CCAV. 8423) e Américo Joaquim Rodrigues (1ª. CCAV.), os três oriundos da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém e apresentados à uma hora da madrugada de 23 de Dezembro. E do António Chitas, que chegava do RI3, no seu caso para a 2ª. CCAV., que chegou às 21 horas do do 22 do mesmo mês de há quase 43 anos. O tempo passa, voa!!!

quinta-feira, 12 de maio de 2016

3 394 - Mobilização de alferes e tensões no Uíge angolano

Alferes milicianos Cavaleiros do Norte, à porta da Messe de Oficiais do 
Quitexe: Pedrosa de Oliveira (2ª. CCAV.), Jaime Ribeiro, António Albano 
Cruz, António Manuel Garcia e José Leonel Hermida (CCS)

Alferes Machado, da 2ª. CCAV. num passeio
turístico às Quedas do Duque de Bragança

Há 41 anos, lê-se no Livro da Unidade, «o galopar desenfreado dos acontecimentos leva(va) a admitir a necessidade de, pelo menos fazer vir a 1ª. CCAV. 8423 para Carmona, abandonando Songo e Cachalonde» - guarnições que, de resto, já eram consideradas «desnecessárias, senão inconvenientes».
Carmona continuava ser cenário de incidentes entre os movimentos e eram cada vez mais e maiores as dificuldades sentidas para garantir a segurança de pessoas e bens, num período de crescente hostilidade às NT - e os Cavaleiros do Norte eram já, à altura, a única força militar portuguesa no distrito do Uíge.
A FNLA, entretanto, anunciava a sua recusa categórica em participar na cimeira dos três movimentos «a que esteja associado um representante do Governo Português». Isto, referia o comunicado do grupo liderado por Holden Roberto, devido «à evidente parcialidade e falta de objectividade que certos membros do Governo de Lisboa dão provas em relação à FNLA».
Um ano antes, a 12 de Maio de 1974, soube-se que o livro «Portugal e o Futuro», de António Spínola, tinha sido proibido de entrar em Angola, por decisão do Governador Geral Santos e Castro e até ao dia 25 de Abril. A revelação foi do jornal «A Província de Angola», que teve dois editoriais cortados pela censura - quando, em Fevereiro, foi lançado o livro.
A Ordem de Serviço nº. 278, do RC4 e de
23 de Novembro de 1973, com as mobilizações
dos alferes milicianos Cavaleiros do Norte
Hoje, recordamos a mobilização dos oficiais milicianos do BCAV. 8423, os então aspirantes a oficiais milicianos e futuros alferes milicianos cavaleiros do Norte. A Ordem de Serviço nº. 278, de 23 de Novembro de 1973, do RC4, dava conta  que «nos termos da alínea c) do nº. 1 do Decº. Lei 49107, foram nomeados por imposição para prestar serviço na RMA e nas Companhias que cada um se indica os senhores oficiais deste Regimento». E lá estão António Manuel Garcia, Jaime Rodrigues Picão Ribeiro e António Albano Araújo de Sousa Cruz (da CCS), Carlos Jorge da Costa Sampaio, Pedro Marques da Silva Rosa, José Manuel Lains dos Santos e Mário Jorge de Sousa Correia de Sousa (1ª. CCAV.), Jorge Manuel de Jesus Capela, João Carlos Lopes Periquito, Domingos Carvalho de Sousa e João Francisco Pereira Machado (2ª. CCAV.), Carlos Almeida e Silva, Mário José Barros Simões, Luís António Pedrosa de Oliveira e Augusto Rodrigues (3ª. CCAV.).

quarta-feira, 11 de maio de 2016

3 393 - Apresentações e reencontro de Cavaleiros, a Cimeira Angolana

Grupo de Cavaleiros do Norte da 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala - aqui a 
descansar de um patrulhamento a Quibaxe, quando já estavam aquartelados 
em Vista Alegre. Quem os identifica?

Furriéis milicianos (Rangers) Neto, Viegas e
Monteiro na avenida do Quitexe, em 1974.
Apresentaram-se no RC4 às 1 horas da manhã
de 24 de Dezembro de 1974, véspera de Natal.
Ver Ordem de  Serviço, abaixo

Uma guerra civil e/ou a internacionalização do conflito eram os medos que levedavam nos meados de Maio de 1975, por Angola, onde os Cavaleiros do Norte, na terra vermelha do chão uíjano, continuavam a sua jornada africana.
O Governo de Transição já em Abril se opusera a intervenções da Organização da Unidade Africana (OUA) e Organização das Nações Unidas (ONU). 
E Agostinho Neto, presidente do MPLA, sugerira a nova cimeira dos três movimentos - o que colhia a simpatia e apoio de Jonas Savimbi, presidente da UNITA.
«Os acontecimentos de Luanda, o problema de Cabinda (agora em foco pelas declarações em favor da independência, de responsáveis políticos do Zaire, do Congo e do Gabão), a invasão de Angola por cidadãos zairenses armadas e as manobras do imperialismo americano e europeu e do sub-imperialismo africano ditam a urgência desta cimeira, que nos anuncia uma atitude mais firme de Portugal contra essas manobras», opinava o Diário de Lisboa, concluindo «até porque da independência total de Angola depende a democracia e a revolução portuguesa».
O 11 de Maio de 1975 foi um domingo e dia de mais um patrulhamento urbano, de 24 horas, e soube-se que o plano económico de Angola, apresentado pelo ministro Vasco Vieira de Almeida (Assuntos Económicos), era apoiado pelos três movimentos (MPLA, FNLA e UNITA). Previa o «estabelecimento de uma maior justiça social e uma maior intervenção estatal nos aspectos mais amplos da economia». De resto, referia o Diário de Lisboa, «eliminando todos os vestígios do colonialismo».
Hoje, recordamos a apresentação dos (futuros) furriéis milicianos Neto, Monteiro e Viegas, os três de Operações Especiais (Rangers) e destinados à CCS do BCAV. 8423 e vindos do Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOE), em Lamego, «por terem sido nomeados para servir no ultramar (...) no BCAV. 8423/73/RC4/RMA».
Cavaleiros do Norte de Santa Isabel, mais
de 40 anos depois do regresso de
Angola: o condutor Manuel Mendes, o
 alferes Carlos Silva  e o atirador
Ernesto Dias Simões
A apresentação foi a
uma 2ª.-feira e, imagine- 
se, véspera de Natal de 1973. A Ordem de Serviço nº. 301, de 26 de Dezembro de 1974, dá conta da hora de apresentação: 11 da manhã. Levámos «baile» do oficial e do sargento de dia e acabámos por ser dispensados, «voando» no SIMCA 1100 do Francisco Neto até Águeda - de onde o Monteiro apanhou boleia para o Porto, cidade a que foi buscá-lo um irmão, expressamente ido de Fornos, em Marco de Canaveses. E passámos a noite e dia de natal em família!
Anteontem, entretanto e em Ferreira do Zêzere, foi dia de três Cavaleiros do Norte (na foto) se reencontrarem, mais de 40 anos depois do regresso de Angola: o condutor Manuel Augusto Marques Mendes, de Avelar  (que tem feito vida de emigrante no Luxemburgo, desde o regresso), o alferes Carlos Almeida e Silva (de Ferreira do Zêzere) e o atirador de Cavalaria Ernesto Dias Simões, de Casal de S. João, em Torres, município de Ansião. Todos da 3ª. CCAV. 8423, todos da Fazenda Santa Isabel. Grande momento de saudade e de emoção!!!

terça-feira, 10 de maio de 2016

3 392 - Promoções do Lopes e Rabiço, electricidade no Uíge...

Os furriéis milicianos Cândido Eduardo Pires, António José Cruz, José 
Pires, Armindo Reino, GrenhaLopes, Norberto António Morais e Agostinho 
Belo. O António Maria Lopes, sentado, foi promovido há exactamente 42 anos

Os furriéis milicianos Agostinho Belo
(vagomestre), Ângelo Rabiço (enfermeiro,
promovido há 42 anos, hoje se fazem) e José
Adelino Querido (atirador) frente
ao bar de sargentos de Santa Isabel

A Ordem de Serviço nº. 109, de 9 de Maio de 1974, do Regimento de Cavalaria nº. 4 (RC4), publica as promoções dos 1ºs. cabos milicianos António Maria Verdelho da Silva Lopes (da CCS, a do Quitexe) e Ângelo Tuna Rabiço (da 3ª. CCAV., a da Fazenda Santa Isabel), ambos enfermeiros do BCAV. 8423 e agora (então) furriéis milicianos.
As promoções foram conhecidas no dia seguinte (o 10), há precisamente 42 anos e na sexta-feira em que, na Mata do Soares, os futuros Cavaleiros do Norte terminaram a Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (IAO) e regressavam ao Destacamento do RC4, onde se aquartelavam todos os praças e serviços do Batalhão. Oficiais e sargentos tinham acomodações próprias no RC4.
A Ordem de Serviço do RC4 com as
promoções dos furriéis milicianos
António Lopes e Ângelo Rabiço, ambos
enfermeiros do BCAV. 8423
O António Lopes é agora aposentado da administração fiscal e vive em Vendas Novas; a promoção era desse dia 9 de Maio, com antiguidade para o dia 1. O Ângelo Rabiço, professor do ensino básico, goza a aposentação em Vila Real. A sua promoção era do dia 10 (hoje se fazem 42 anos) e também com antiguidade a 1 de Maio de 1974.
O 10 de Maio foi também de partida (dos futuros Cavaleiros do Norte) para mais um fim de semana em casa e à espera de saberem a data de embarque para Angola. Daqui, chegavam notícias de mais 3 soldados mortos em combate: António José Lopes Neto, de Novo Redondo; João Maria, de Maconda, ambos do recrutamento local; e Américo Dias Sá, de Fornos, em Santa Maria da Feira.
Portugal continuava sem Governo, que era negociado pelo presidente António de Spínola e Junta de Salvação Nacional com dirigentes dos partidos e organizações políticas. O Governo Provisório incluiria «representantes de todas as correntes políticas anti-fascistas, desde os antigos deputados liberais, agora reunidos no Partido Popular Democrático (o PPD, actual PSD) até ao Partido Comunista».
Um ano depois, em Maio de 1975, com os incidentes a repetirem-se por todo o território angolano e o Governo Português a sugerir nova cimeira com os três movimentos, a SONEFE lançava um concurso para a electrificação do Distrito do Uíge. A empreitada a adjudicar previa o estabelecimento de linhas de transporte de 220 KV e 110 KV e de grande distribuição 30 KV.
A SONEFE era a Sociedade Nacional de Estudo e Financiamento de Empreendimentos Ultramarinos, de capital anónimo e presidida por Nandin de Carvalho.
O processo do concurso custava 4 000$00 e as propostas deveriam ser apresentadas até 11 de Agosto desse ano. Em tempo de (iminente) guerra civil, repare-se no espírito de confiança, e empreendedor, com que era olhado o futuro de Angola.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

3 391 - Situação extremamente delicada e grave no Uíge!

Reunião de trabalho em Santa Isabel: os alferes Carlos Silva e Jaime 
Ribeiro, capitão José Paulo Fernandes, comandante Almeida 
e Brito, um civil, capitão José Paulo Falcão e  alferes Augusto Rodrigues
Alcides Ricardo (atirador) e Agostinho Belo
(vagomestre), dois furriéis milicianos da Fazenda
de Santa Isabel, a da 3ª. CCAV. 84233

Há 42 anos, os Cavaleiros do Norte estavam em véspera de terminar o IAO, na Mata do Soares (arredores de Santa Margarida) e expectando sobre o que se passava em Angola, o nosso destino próximo e de chegavam notícias de mais militares mortos.
Três soldados, mortos em combate: José Francisco Barros Marques, de Baiões (S. Pedro do Sul), Manuel Jorge da Silva Heleno, de Vagos e deixando viúva Maria de Fátima de Jesus da Silva; e Venâncio Dinis Albano, de Malanje (incorporação local) 
e ficando viúva Fátima Ferraz.
Notícia do Diário de Lisboa de há 42
anos, com notícia de militares mortos
na Guiné, Angola e Moçambique
Um ano depois, o comandante Nito Alves, do MPLA, comentava que, e citamos, «não vejo possibilidades do cumprimento do Acordo do Alvor» e desfiava o Governo Português, o Alto Comissário em Angola e o MFA para que «tenham coragem de fazer cumprir, às partes intervenientes, as responsabilidades assumidas e a programação resultante» do acordo.
Nito Alves falava na Casa da Angola, em Lisboa, e, confessando-se «sem ilusões» quando a tal cumprimento, apontou o dedo à FNLA, que descreveu como «aliada à reacção europeia instalada e braço armados dos imperialismos americano e europeu». Acrescentou o comandante do MPLA: «Temos notícias de que a situação é extremamente grave e delicada no distrito do Uíge e nas áreas do Caxito, Ambriz e Sazaire».
«Nesta hora em que falo, é muito provável que as operações da reacção esteja a devastar as localidades que apontei», disse Nito Alves a quem o ouvia na Casa de Angola, sublinhando que «simultâneamente está a realizar-se no norte de Angola toda uma operação de captura e enforcamento, por parte do ELNA (o exército da FNLA) contra militantes do nosso partido».
A «nossa» Carmona era (e é) a capital do Uíge. Imagine-se como por lá se sentiam os Cavaleiros do Norte, sempre garbosos e corajosos no cumprimento das suas missões, é verdade, mas simultâneamente alvo de críticas e ataques de opinião, da parte da comunidade civil e nomeadamente da europeia.
A lista de abonos de ração de combate e pão para a
3ª. CCAV. 8423. na IAO e para os dias 6 e 7 de Maio
de 1974. Clicar na imagem para a ampliar
Hoje, recordamos a ordem de serviço que publicou o abono de ração de combate e pão para os Cavaleiros do Norte da 3ª. CCAV, 8434, relativamente aos dias 6 e 7 de Maio de 1974 - há 42 anos. Nela e para alem dos praças, vêem-se os nomes do tenente e e futuro capitão miliciano José Paulo Fernandes (comandante da Companhia), dos aspirantes e futuros alferes milicianos Augusto Rodrigues, Mário José Simões, Luís Pedrosa de Oliveira e Carlos Silva (atiradores de Cavalaria) e 1ºs. cabos milicianos e futuros furriéis milicianos Delmiro Ribeiro, António Flora, Alcides Ricardo, António Fernandes, José Fernando Carvalho, Graciano Silva José Grenha Lopes, Luís Capitão, José Adelino Querido (todos atiradores de Cavalaria) e Victor Mateus Guedes (armamento pesado e falecido a 16/04/1998, de doença e em Lisboa).

domingo, 8 de maio de 2016

3 390 - Ameaças e vexames em Carmona, 200 mortos em Luanda!

Cavaleiros do Norte de Zalala. Atrás, o clarim Mário Costa e Rogério 
Raposo. De pé, o furriel João Aldeagas, o casal Sousa (alferes Mário Jorge e 
esposa), Jorge Silva (rádio-telegrafista), Jaime Rego (condutor) e Hélio 
Cunha (rádio-telegrafistas). Em baixo, furriéis Jorge Barreto (com a 
criança ao colo) e José Louro e António Lopes, o Famalicão (condutor)
Cavaleiros do Norte, quatro rádio-montadores: Rodolfo 
Tomás (1º. cabo), António José Cruz (furriel miliciano),
António Pais (1º. cabo) e António Silva

Os primeiros dias de Maio, em Carmona, lá se iam riscando no calendário, serviço após serviço, patrulha atrás de patrulha, «Procurando posição de isenção, foi a actuação das tropas orientada no cumprimento da sua missão. Contudo, viu sempre escolhos diversos a vencer, viu e sentiu ameaças, foi alvo de vexames, mas, sobretudo, foi sempre apelidada de partidária e, consequentemente, viu as suas actividades mal aceites, ainda que não suscitem quaisquer dúvidas quanto à sua isenção», escreveu no 
Notícia do Diário de Lisboa de 8 de Maio
de 1975, 5ª.-feira: «O MPLA denuncia o perigo de
internacionalização dos conflitos em Angola»
comandante Almeida e 
Brito, no Livro da Unidade.
Bem sentíamos tais ameaças e acusações, na alma e na pele - pois por lá dávamos o corpo ao manifesto, em nome da segurança de bens e de pessoas, que nos acusavam de traição e cobardia.
Luanda, ao tempo (8 de Maio de 1975), continuava a sarar feridas dos incidentes dos dias anteriores, O Alto Comissário Português, o MPLA e a FNLA emitiram um comunicado sobre esses incidentes e o cumprimento do acordo assinado a 1 desse mês.
A cidade, relatava a imprensa, «continua calma» embora, e citamos o Diário de Lisboa, «perturbada apenas pela questão dos desalojados» - cerca de 2000! O MPLA desmentia «quaisquer acções contra brancos» e considerava falsas tais notícias, de resto «uma tentativa de agudização dos conflitos raciais» e também «uma manobra para internacionalizar pequenos problemas internos por que passa o país», com o objectivo de «forçar a intervenção de forças estrangeiras e inimigas».
O movimento de Agostinho Neto, em uma outra frente, denunciava ataques, na noite de 2 para 3 de Maio, às suas delegações de S. Salvador, Sanza Pombo e Ambrizete «por forças do ELNA», o exército da FNLA. O seu  comunicado denuncia(va) «centenas de civis barbaramente assassinados, feridos ou mutilados». Já no dia 4, o seu destacamento e «inúmeros militantes» foram obrigados a abandonar Ambrizete e Sanza Pombo.
A FNLA, em comunicado divulgado pelo Diário de Lisboa, e citamos este jornal, sobre estes incidentes, «não os desmente, antes os considerando consequência das confrontações armadas desencadeadas em Luanda».
Um ano antes, pelas bandas de Santa Margarida, os Cavaleiros do Norte continuaam o seu IAO e a imprensa dava conta de «3 grandes tendências políticas em Angola» - o MPLA, de Agostinho Neto; a UPA (FNLA) de Holden Roberto e a UNITA, de Jonas Savimbi. E de 3 militares mortos em Angola: o alferes miliciano Rogério Puga (do Porto), o 1º. cabo Sabino Jesus (do Pombal) e o soldado Manuel Costa (de Cantanhede).
Hoje, e socorrendo-nos da Ordem de Serviço do RC4 (aqui ao lado), danos conta da mobilização do (futuro) furriel miliciano Victor Manuel da Conceição Gregório Velez, atirador de Cavalaria da 1ª. CCAV. 8423 e oriundo da Escola Prática de Cavalaria, de Santarém.
- Clicar na imagem, para a ampliar.


estivesse calma.

sábado, 7 de maio de 2016

3 389 - Comandantes do RC4 e ração de combate para Zalala´s

Zalalas em Zalala: furriéis milicianos José Louro, Américo Rodrigues, 
José Nascimento, Jorge Barata (falecido a 11/10/1997) e Jorge Barreto e 
alferes Mário Jorge Sousa e Lains dos Santos

Cavaleiros do Norte da 1ª. CCAV. 8423, já
em Zalala. Quem  os identifica(s), ó Vargas?

A 7 de Maio de 1974, há 42 anos e «em cerimónia muito simples», o coronel Luís Maria de Sousa Campeão Gouveia assumiu o comando do Regimento de Cavalaria 4 (RC4), substituindo o também coronel João Carlos Craveiro Lopes. Do BCAV. 8423, «somente tomou parte», na cerimónia, o comandante Almeida e Brito, ao tempo tenente-coronel.
Coronel Craveiro Lopes
Os Cavaleiros do Norte continuavam o seu IAO na Mata do Soares, preparando-se para a jornada Africana de Angola - ainda sem saber para que zona e muito menos para que localidade. Sabia-se era que a PSPA e a OPVDCA passariam, desde esse dia, a estar sob «dependência do Comando Chefe das Forças Armadas» no território. E que tinham sido nomeadas comissões ah hoc temporárias para controlar a Emissora Oficial de Angola e Voz de Angola (formada pelo major José Lopes Rijo, tenente-coronel Garrido Borges e capitão piloto aviador Gandela Vasques) e Diário de Luanda (major Sousa Guedes, 1º. tenente Nunes da Cruz e capitão piloto aviador Beça Azevedo). 
Ainda de Angola chegava a notícia da formação de um partido político de tendência social-democrata - o Movimento Popular Unido da Angola (MOPUA), por iniciativa de antigos estudantes de Sá da Bandeira e enquadrando personalidades europeias e africanas de diversos sectores de actividade, já com núcleos em  muitos distritos angolanos.
Um ano depois, uma 4ª.-feira, o presidente Kenneth Kaunda, da Zâmbia estava em Lisboa e foi recebido pelo general Costa Gomes, na Ajuda - onde o Presidente Português acentuou o seu «papel no processo de descolonização portuguesa na África Austral». Disse o Presidente da República Portuguesa que «nos meses que se  seguiram ao 25 de Abril de 1974, os dirigentes portugueses recebe(ra)m o melhor apoio , compreensão e auxílio, na extremamente complexa tarefa de liquidar uma situação velha de séculos e agravada os últimos anos por uma guerra injusta».
A ordem de Serviço de 10 de Maio de 1974,
com a relação dos abonados da 1ª. CCAV. 8423 com
ração de combate e pão, para o IAO da Mata do
Soares. Clicar na imagem, para a ampliar
Hoje, a fazer memória dos nossos dias de há 42 anos, editamos o fac-simile da Ordem de Serviço nº. 110, do RC4 com a relação dos militares da 1ª. CCAV. 8423 «abonados de ração de combate com pão para os dias 5 e 6 de Maio de 1974» - dois dias do IAO. Lá estão o então tenente e futuro capitão miliciano Davide Castro Dias, os aspirantes e futuro alferes milicianos Mário Jorge Sousa, Pedro Rosa, Carlos João Sampaio e José Lains dos Santos e os cabos milicianos e futuros furriéis  Américo Rodrigues, Fernando M ota Viana, Jorge António Barata (falecido a 11/10/1997), Plácido Jorge Queirós, Manuel Pinto, Victor Costa, José Baldy Pereira, João Matias Aldeagas e José Louro, além dos praças.
Tudo boa gente, como mostrou então e provou o futuro!
- PSPA. Polícia de Segurança Pública de Angola.
- OPVDCA. Organização Provincial de 
Voluntários de Defesa Civil de Angola.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

3 388 - Ração de combate para a 2ª. CCAV., a de Aldeia Viçosa

Cavaleiros do Norte da 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa. Um misto de 
europeus e africanos. À esquerda e de pé, reconhece-se o furriel miliciano Mário 
Matos. Quem ajuda a identificar os restantes?

Furriéis milicianos da 2ª. CCAV. 8423: António
Augusto Rebelo, Amorim António Martins, Abel Maria
Mourato e Mário Augusto Matos em Aldeia Viçosa. Em
baixo, o ca
pitão miliciano José Manuel Cruz
A 6 de Maio de 1974, pela Mata do Soares, nos arredores do Campo Militar de Santa Margarida, andavam os futuros Cavaleiros do Norte em Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (IAO) - que decorria dos dias 3 a 10 desse mês. Sabendo nós o nosso destino - que era Angola... -, soube-se nesse dia, pela imprensa que eu próprio sempre procurava acompanhar /defeito de ofício...) que as exportações de petróleo da Cabinda 
Golf atingiam os 4 664 866 barris. 
Uma brutalidade! 
Ainda de Angola, chegavam notícias da reestruturação do jornal Diário de Luanda, que passava ter Manuel Pereira da Costa como director interino. Era o director executivo da direcção de Francisco Silveira Pinto e o jornal afirmara-se como apoiante da Junta de Salvação Nacional e com o objectivo de continuar a pugnar pela «igualdade social e racial, pela ordem e pela participação activa de todas as etnias na administração». Dois dias antes e numa manifestação de democratas, um representante do MPLA (numa primeira intervenção pública em Angola), «ocupara-se quase exclusivamente em atacar o Diário de Luanda e o seu actual director».
O 6 de Maio de 1974 era segunda-feira e sabiam-se os resultados do futebol da véspera: Académica-Sporting, 1-3; Leixões-CUF, 3-1; Olhanense-Benfica, 1-7; Belenenses-Farense, 3-1; Barreirense-V. Guimarães, 1-1; V. Setúbal-FC Porto, 0-0; Oriental-Beira Mar, 0-1; Boavista-Montijo, 4-0. A duas jornadas do final do campeonato (como hoje), comandava o Sporting, com 45 pontos, seguido do Benfica (44), V. Setúbal (42), FC Porto (412), Belenenses (36), V. Guimarães (30), CUF (25), Farense e Boavista (24), Olhanense, Académica e Barreirense (21), Oriental e Leixões (19), Montijo e Beira Mar (18). A vitória valia 2 pontos, um o empate e zero a derrota.
Ordem de Serviço do RC4, de 10 de Maio de
1974, com ração de combate para a 2ª. CCAV. 8423
Hoje, recordamos a parte da Ordem de serviço nº. 61 do RC4, de 10 de Maio de 1974, com a lista de companheiros da 2ª. CCAV. 8423 que «foram abonados de ração de combate para os dias 4 e 5 do corrente mês». Para além dos 1ºs. cabos e soldados, registamos os nomes do tenente e futuro capitão miliciano José Manuel Cruz, dos aspirantes e futuros alferes milicianos Jorge Manuel Capela, Domingos Carvalho de Sousa, João Carlos Periquito e João Francisco Machado e dos 1ºs cabos milicianos e futuros furriéis milicianos Rafael António Ramalho, António Carlos Letras, José Maria Ferreira, António Chitas,  José Manuel Costa, José Gomes. António Artur Guedes, José Fernando Melo e João António Brejo.


quinta-feira, 5 de maio de 2016

3 387 - Alferes Ramos na 2ª. CCAV. 8423 e baixas no RC4 em 1974

O capitão José Manuel Cruz, comandante da 2ª. CCAV. 8423 (segundo, da 
direita, ladeado pelos alferes milicianos Domingos Carvalho (à esquerda), 
António Albano Cruz (CCS) e João Periquito. Em baixo, Jorge Capela 
O alferes miliciano Fernando António
Morgado Ramos, que há 41 anos chegou a
Carmona e à 2ª. CCAV. 8423. É
advogado em Vila Nova de Foz Coa 

A 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa mas ao tempo já em Carmona, foi reforçada, em Maio de 1975 e «para além do QO» pelo alferes miliciano Fernando António Morais Ramos, atirador de Cavalaria. Que por lá pouco tempo se quedou. «Talvez em Julho, voltei a Luanda, de férias, e já por lá fiquei, não voltando a Carmona», recordou o agora advogado em Vila Nova de Foz Coa, que para o BCAV. 8423 tinha ido por razões disciplinares.
«Um castigo tão guerreiro quanto castrense», recordou o antigo oficial miliciano, que também jornadeou (antes) por terras do Luvo, Mamarrosa e Damba e, na segunda vez de Luanda, integrou as Forças Militares Mistas. 
Carmona continuava expectante: «Se há incidentes em todas as cidades, também aqui chegarão...», alertava o comandante Almeida e Brito, por palavras que cito de memória. Mas tinham este sentido.
O Livro da Unidade, de que me socorro, dá conta que «pareceria o fim tácito de vários anos de guerra em Angola traria, por consequência, situações de acalmia em todo o território, procurando os diversos movimentos emancipalistas, através da ideologia político-social que defendem, fazer enraizar nas populações esses seus ideais e daí, com maior ou menor facilidade, conduzir-se-iam as suas acções no decurso do processo de descolonização».
As baixas do Carlos Alberto 
Lopes, da CCS (quem era?) e 
do condutor Rui Rocha,
 da 2ª. CCAV. 8423. 
Clicar na imagem, para 
a ampliar e ler
Só que, frisa(va) o mesmo Livro da Unidade, «sucede, porém, que o Uíge, a bem ou a mal, terá que ser terra da FNLA e, consequentemente, não será bem aceite no seu solo qualquer outra opção política, donde resultam permanentes quezílias entre movimentos, as quais dia a dia vão tendendo a aumentar». E bem as sentíamos nós, Cavaleiros do Norte, na alma e na pele - procurando apaziguar diferenças, gerindo os conflitos entre militantes (armados) dos movimentos e a isso acumulando o mau-estar da comunidade civil, que nos depreciava a acusava dos males que se passavam na cidade e região.
Um ano antes e do RC4, em Santa Margarida, marchou (a 3 e voltou a 6 de Maio) para o Hospital Militar Regional 3, de Tomar, o soldado Carlos Alberto A, Lopes, da CCS do BCAV. 8423, Foi a uma consulta externa de cardiologia e sabe-se que não embarcou para Angola - provavelmente por razões de doença, deste foro clínico. Quem também foi a consulta da mesma especialidade (e a 28 de Abril e 3 de Maio) ao mesmo HMR3 foi o soldado condutor Rui Manuel Duarte da Rocha. O Rocha não teve a mesma sorte e embarcou para Angola, na companhia comandada pelo capitão miliciano José Manuel Cruz.


quarta-feira, 4 de maio de 2016

3 386 - Cavaleiros a «viver numa ilha no mar da FNLA»

Carmona: a estrada da cidade para o BC12 e o Songo. À direita, o 
edifício do liceu. Por aqui passámos centenas de vezes, várias vezes 
ao dia, de e para o quartel e para missões na cidade e acessos 
Cavaleiros do Norte do PELREC: 1º. cabo
Almeida (falecido a 28/02/2009, de doença e em
Penamacor), João Messejana (falecido a 27/11/2009,
em Lisboa e de doença), José Neves, Fernando Soares,
Augusto Florêncio e Francisco António. Em baixo,
1º. cabo Jorge Vicente (falecido a 21/01/1997, em
Vila Moreira, Alcanena), Furriel Viegas, Victor 

Francisco e Manel Leal (falecido a 18/06/2007, de
doença e em Pombal)


Os dias de Carmona, por Maio de 1975 fora, confirmaram, da parte dos Cavaleiros do Norte, «a dificuldade em fazer vingar o papel de árbitro atribuído, como prioritária missão das NT», como se pode ler no Livro da Unidade. Não esmoreceram, é verdade (e disso nos orgulhamos) mas foram muitas e variadas as dificuldades sentidas. Expondo os seus problemas mas cumprindo», recorda o livro de memórias do Batalhão de Cavalaria 8423, começaram, todavia, «a sentirem-se desautorizados e alvo de atropelos», o que levou  a sublinhar «viver-se numa ilha no mar da FNLA» e isto, frisa o documento, «com todas as inconveniências que daí advém».
Curiosamente e por Luanda - a imensa metrópole, capital de Angola! -, as confrontações entre movimentos pareciam ter terminado, já na tarde do dia 2, mas com um saldo trágico: «Mais de 200 pessoas morreram, para além de centenas de feridos», relatava a imprensa do tempo.
As ruas, tal como as de Carmona, estavam «a ser patrulhadas por forças mistas» - formadas pelas Forças Armadas Portuguesas e  pelos movimentos de libertação, «actuando prioritariamente nas zonas dos incidentes».
Ordem de Serviço do RC4, nº. 61, de 12 de
Março de 1974, com a apresentação de um
grupo de Cavaleiros do Norte. Clicar na
imagem, para a ampliar
Por Carmona, eram constantes os atritos, pequenos incidentes e ameaças entre os homens da FNLA e do MPLA, mesmo durante os patrulhamentos - quando uns queriam proteger os seus ou «agredir» os outros.
À distância de 41 anos, ainda nos custa entender como todos nós, com maior ou menor dificuldade, geríamos estes conflitos, impondo a disciplina necessária neste tipo de actividades operacionais, actuando com prudência e, por que não dizê-lo, agindo com coragem. Era (foi) muito difícil. Mesmo muito difícil e perigoso.
Hoje, reportamos a Ordem de Serviço nº. 61, do RC4 e de 12 de Março de 1974 (há pouco mais de 42 anos), com as apresentações de mais futuros Cavaleiros do Norte, destinados à CCS e todos eles com a Escola de Cabos: o mecânico José Domingos da da Encarnação Guerreiro, o bate-chapas Carlos Alberto Serra Mendes e o estofador Domingos Augusto Teixeira (vindos do BE 3), Joaquim M. S. Pedreira, que acabou por não seguir para Angola (do BC 5), o mecânico electricicta Carlos Alberto de Jesus Mendes (do GCTA) e os sapadores Gabriel Mendes, José Adriano Nunes Louro (falecido a 23 de Julho de 2008, em Tomar, de suicídio) e Albino Jorge  Oliveira Pires (do RAL1). 

terça-feira, 3 de maio de 2016

3 385 - Instrução operacional do BCAV. 8423 em Santa Margarida

Santa Isabel, onde esteve aquartelada a 3ª. CCAV. 8423, de 11 de Junho 
a 10 de Dezembro de 1974. Os Cavaleiros do Norte foram a última guarnição 
militar portuguesa que esteve na mítica fazenda do norte de Angola


Cavaleiros do Norte de Santa Isabel: os furriéis
milicianos Agostinho Belo, Ângelo Rabiço, José Querido,
Victor Mateus Guedes (falecido a 16/04/1998, em Lisboa
 e de doença) e António Fernandes

A 3 de Maio de 1974 - há precisamente 42 anos!!!... - o Batalhão de Cavalaria 8423 iniciou em Santa Margarida «os exercícios de instrução operacional», que decorreram até ao dia 10, na Mata do Soares.
A decisão foi na véspera (2 de Maio) e a actividade realizou-se «já com a autonomia das diversas companhias», como se lê no Livro da Unidade, com o objectivo de «pô-las a viver à semelhança, embora ténue, daquilo que iria ser  a sua vida no ultramar».
A memória faz lembrar que o futuro PELREC, comandado pelo então aspirante a oficial miliciano António Manuel Garcia, agiu como «inimigo» das três companhias operacionais. Patrulhávamos a zona e fazíamos «emboscadas» aos pelotões da 1ª. CCAV. 8423 (a que viria a aquartelar-se em Zalala), a 2ª. CCAV. 8423 (em Aldeia Viçosa) e a 3ª. CCAV. 8423 (a da Fazenda Santa Isabel) - comandadas, respectivamente, pelos então tenentes milicianos (futuros capitães) Davide Castro Dias, José Manuel Cruz e José Paulo Fernandes. 
O alferes Lains dos Santos e os furriéis
Queirós e Rodrigues, da 1ª. CCAV. 8423 (a
de Zalala)  na instrução operacional
de há 42 anos, em Santa Margarida
Portugal, por esse tempo, vivia a euforia do 25 de Abril. Era sexta-feira e a imprensa ainda focava a festa do 1º. de Maio da antevéspera. De Angola - para onde iríamos partir, não sabendo ainda a data - sabia-se que, relatava o Diário de Lisboa desse dia 3 de Maio, «encontra-se em processamento a libertação de todos os presos políticos do Estado», embora se ignorasse, ainda, «qual o critério que presidirá a esse processamento» e se soubesse já, também,  que «começaram a ser libertadas algumas pessoas». 
Agostinho Neto, falando em Bruxelas, afirmou que «o povo angolano quer o direito à independência completa e imediata» e que «a luta mão cessará enquanto os povos angolanos não tiverem direito à auto-determinação», assegurando que o MPLA «não tem  intenção nenhuma de expulsar os portugueses depois da independência». Sobre os acontecimentos de Lisboa (o 25 de Abril), garantiu que  «foi dado um grande passo e estamos prontos a negociar em qualquer momento» - afastando, porem, a ideia de uma Federação, sugerida por António Spínola. no livro «Portugal e o Futuro», porque, sublinhou, segundo o Diário de Lisboa, seria «uma federação que deixaria os cargos ministeriais importantes nas mãos dos Portugueses».
Ordem de Serviço nº. 66 do RC4, de 20 de Março de 1974,
com a relação dos militares da 3ª. CCAV. 8423 que entraram
de licença de 10 dias - os 10 dias antes da partida para o
ultramar. Não foi o caso dos Cavaleiros do Norte.
Clicar na imagem, para a ampliar 
Hoje, editamos o fac-simile da Ordem de Serviço 66, de 20 de Março de 1974 e do Regimento de Cavalaria 4 (RC4), a unidade mobilizadora dos Cavaleiros do Norte, o rol de mobilizados da 3ª. CCAV. 8423, nomeadamente o tenente miliciano José Paulo Fernandes, os futuros alferes milicianos Augusto Rodrigues, Mário Simões, Carlos Silva e Pedrosa de Oliveira, o 1º. sargento Francisco Marchã e os futuros furriéis milicianos Delmiro Ribeiro, António Flora, Alcides Ricardo, António Fernandes, José Fernando Carvalho, José Lino, Graciano Silva, António Luís Gordo, Grenha Lopes, Agostinho Belo, Luís Capitão (falecido a 05/01/2010, de doença e em VN Ourém), José Avelino Querido, João Augusto Cardoso, Armindo Reino e Victor Mateus Guedes (falecido a 16/04/1998, em Lisboa e de doença) e dos praças (1ºs. cabos e soldados). 
A 18 de Março de 1974, «entraram de licença nos termos do artigo 75º.- das NNAPU», por 10 dias. Como aqui já dissemos, os conhecidos 10 dias antes da partida para o ultramar (que não foram, afinal, os do BCAV. 8423).

segunda-feira, 2 de maio de 2016

3 384 - Cavaleiros no Encontro de Antigos Combatentes em Fátima

Alfredo Coelho, o 1º. cabo Buraquinho (à esquerda) e o condutor Joaquim 
Celestino foram a Santo Tirso, a casa do ex-alferes António Albano Cruz, 
buscar o estandarte e preparar a ida ao Encontro Nacional de Antigos 
Combatentes do Ultramar - que decorreu ontem, em Fátima


Os (já) capitães milicianos José Manuel Cruz  (ao
centro) e José Paulo Fernandes, comandantes,
respectivamente, da 2ª. CCAV. e da 3ª. CCAV. 8423,
 com o alferes miliciano João Machado (da 2ª. CCAV.) ,
já em Angola
O Batalhão de Cavalaria 8423 participou ontem no Encontro Nacional de Antigos Combatentes da Guerra do Ultramar, representado por uma delegação formada por Alfredo Coelho (o 1º. cabo Buraquinho) e pelos condutores Joaquim Celestino, José António Gomes e Vicente Alves.
O grupo de Cavaleiros do Norte da CCS apresentou-se em Fátima com o estandarte do Batalhão e o Vicente e o Gomes (também com um cunhado deste) foram alguns dos ex-combatentes (da Guiné, de Angola e de Moçambique) que levaram o andor de Nossa Senhora de Fátima, durante a procissão.
As cerimónias envolveram ex-militares dos três ramos das Forças Armadas (Exército, Marinha e Força Aérea) e começaram às 9 horas, com a concentração nas imediações do Santuário e desfile para a Capelinha das Aparições - onde foi rezado o terço. Seguiu-se a procissão, para o altar, e a celebração da missa.
«Foi um momento de muita emoção e de muitas recordações», comentaram o Alfredo Coelho (Buraquinho) e o Joaquim Celestino Silva, sensibilizados com as cerimónias e pela distinção dada ao Batalhão de Cavalaria 8423, transportando o andor de Nossa Senhora de Fátima.
Notícía do Diário de Lisboa de 2
de Maio de 1974. Há 42 anos e
sobre a «situação preocupante
em Luanda»
A delegação foi preparada durante um encontro com António Albano Cruz, alferes miliciano mecânico auto, em Santo Tirso - Cavaleiro do Norte que é o guarda-mor do estandarte do BCAV. 8423. A foto (acima), ele mesmo a legenda: «Três valentes Cavaleiros a fazerem aquilo que mais sabem, comer, beber e contar histórias...».
O encontro foi ontem, mas há 42 anos a história era outra. Portugal estava em oitavas da festa do primeiro 1º. de Maio depois de Abril e, por África, o presidente da Zâmbia exigia «a independência de Angola e Moçambique».
Kennett Kaunda, na sua primeira intervenção depois da revolução portuguesa, tal pedia «ao novo regime de Lisboa» e reafirmava «apoio aos movimentos de libertação que lutam com as forças militares portuguesas em territórios africanos».
Em Luanda «a situação é (era) preocupante», segundo o Diário de Lisboa de 2 de Maio de 1974. O director geral da PIDE/DGS, S. José Lopes, afirmou que a situação em Angola se «manteria como até aqui». A Comissão Cívica Democrática, apoiante do programa do MFA, sentiu-se ameaçada e «receando pela vida dos seus membros». Apenas 6 presos políticos tinham sido libertados e os democratas angolanos exigiam a presença, em Luanda, de um membro da Junta de Salvação Nacional para «clarificar as coisas e fazer cumprir as suas determinações».
Holden Roberto, presidente da FNLA e falando em Kinshasa (capital do Zaire), denunciou «o carácter fictício da auto-determinação de que fala o general Spínola», considerando haver uma facção política, em Lisboa, «no sentido de que as colónias de África são o prolongamento de Portugal». E que «os presos políticos em África, designadamente em Angola, não foram libertados, tão-pouco os partidos políticos angolanos no exílio foram autorizados a regressar a Angola, para ali exercerem livremente as suas actividades, como é o caso de Portugal» - onde tinham sido autorizada reconstituição dos partidos e o regressos dos partidos políticos que estavam no exílio.
Ordem de Serviço nº. 66, do RC$, com a
licença dos 10 dias de mobilização da 2ª. CCAV.
8423 - os Cavaleiros do Norte de Aldeia Viçosa
Hoje, fazendo história das Ordens de Serviço, cito a nº. 66 do RC4, de 20 de Março de 1974 (há 42 anos) e quanto ao BCAV. 8423, dou conta da ida de férias (a 18 desse mesmo mês) dos futuros Cavaleiros do Norte de Aldeia Viçosa - os militares da 2ª. CCAV. 8423, comandada pelo então ainda tenente miliciano José Manuel Cruz.  
A fac-simile mostra os nomes dos oficiais, sargentos e alguns praças, mas a OS inclui todos os outros dessa Companhia (e outras do BCAV.) que, nessa data, «entraram de licença nos termos do artigo 75º. das NNAPU» - os conhecidos 10 dias antes do embarque para o ultramar (que, nosso caso, não corresponderam a tal).

domingo, 1 de maio de 2016

3 383 - Dias de Carmona e do BC12, depois de Luanda...

O furriel António José Cruz (terceiro a contar da esquerda) de serviço 
no BC12. Reconhecem-se o alferes António Albano Cruz (à frente), o 
furriel Domingos Peixoto (à direita) e 1º. sargento José Luzia (atrás)

Cavaleiros do Norte de Zalala: os furriéis
milicianos José António Nascimento e Manuel
Dinis Dias (falecido a 20 de Outubro de 2011,
em Lisboa, por doença)

O 1 de Maio de 1975 não «parou» os incidentes da cidade de Luanda, onde se mantinha o recolher obrigatório e, segundo o Diário de Lisboa do dia seguinte, se mantinha «um clima de tensão, embora o tiroteio tenha terminado durante a tarde» desse mesmo dia (o 1).
«Uma multidão de residentes nos bairros mais atingidos pela luta, na sua maioria brancos, mas incluindo alguns negros, dirigiu-se ao Palácio do Governador para protestar contra a destruição das suas casas», reportava o jornal vespertino de Lisboa, referindo-se à tarde de 1 de Maio.
Carmona, a capital do Uíge - aonde chegáramos na véspera (eu e o Cruz), depois da falsa saída de Luanda, no avião que teve de voltar à pista, ao fim da tarde de 29 de Abril -, Carmona estava minimamente calma, se bem que continuassem incidentes entre combatentes/militares da FNLA e do MPLA.
«Isto não está grande coisa..., mas vai-se aguentando», contou o Francisco Neto, reportando algumas das situações mais complicadas dos últimos 30 dias. «Os gajos não se entendem, temos de os controlar, nem sempre aceitam o nosso papel, que não é fácil...», acrescentou o furriel miliciano «Ranger», meu conterrâneo (de Águeda) e companheiro da jornada militar africana, desde a instrução de Operações Especiais, em Lamego. 
Era 6ª.-feira e, inevitavelmente depois da apresentação, eu e o Cruz iríamos entrar de serviço e antevia eu que não escaparia e não escapei) a patrulhamento na cidade, das 8 horas de sábado às 8 horas da manhã de domingo - que era tempo de normal maior agitação na cidade! 
A Ordem de Serviço com a apresentação
dos 1ºs. cabos operadores-criptos João Estrela e
António Carlos Medeiros (falecido a 10 de Abril
de 2003, por doença e no Porto
As patrulhas eram mistas, com militares portugueses (e por eles comandadas) e ex-combatentes da FNLA e do MPLA, o que só complicava a situação. «Desconfiam uns dos outros e ambos desconfiam de nós...», disse o Neto. E ele sabia do que falava, pela experiência do seu último mês de jornada em Carmona, a partir do BC12. 
Hoje, e reportando-nos a 14 de Março de 1974 e à Ordem de Serviço nº. 61 do RC4, damos conta da chegada de dois 1ºs. cabos ao BCAV. 8423: João Francisco Lavadinho Estrela e António Carlos da Fonseca Medeiros, ambos operadores-criptos. O Estrela, natural de Campo Maior e quadro da Remax, mora na Amadora. Medeiros, já falecido, de doença e a 10 de Abril de 2003, era do Porto - onde residia.