CAVALEIROS DO NORTE!! Batalhão de Cavalaria 8423, última guarnição militar portuguesa nas terras uíjanas de Quitexe, Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange, Songo e Carmona! Em Angola, anos de 1974 e 1975!

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

3 596 - A desactivação dos GE´s e o Alto Comissário de Angola

Os furriéis milicianos Neto e Viegas, ambos de Operações Especiais (os
 Rangers) integravam o PELREC e,  ao mesmo tempo, estavam responsabi-
lizados aos Grupos Especiais 217 e 223 - os dois GE´s do Quitexe. Mais  
tarde, também com o furriel pára-quedista Miguel Peres dos Santos

Viegas e Miguel, dois dos furriéis milicianos (com o
 Neto) responsabilizados pelos GE´s 217 e 223 do Quitexe


A extinção dos Grupos Especiais (GE) associados ao Batalhão de Cavalaria 8423 - o BCAV. 8423, os Cavaleiros do Norte! -, enquanto unidades orgânicas do Subsector, começou a 30 de Novembro de 1974, hoje se fazem 42 anos.
«A ineficiência que se vinha verificando e a sua desnecessária in)existência levaram os escalões superiores a prever a sua desactivação», relata o Livro da Unidade.
Os três furriéis milicianos dos GE`s do Quitexe
num momento de descontracção: o Miguel,
o Viegas (travestido...) e o Neto
OS GE eram pequenas unidades especiais de assalto que, apesar de serem treinadas e operarem sob comando português, não estavam integrados nas Forças Armadas. 
Eram formados por voluntários locais, normalmente da mesma etnia, mas enquadrados por graduados metropolitanos. Era o caso dos GE 217 e 223 do Quitexe, que estavam responsabilizados aos furriéis milicianos Viegas e Neto, ambos de Operações Especiais (Rangers), e mais tarde também ao furriel miliciano pára-quedista Miguel Peres dos Santos - que foi colocado na CCS do BCAV. 8423.
A minha (Viegas) primeira
Crachá dos GE
operação militar em Angola, pela Baixa do Mungage e em 3 dias, foi precisamente com estes dois grupos, num total de 62 homens - sendo eu o único branco, camuflado o mais que pude, de quico enterrado na cabeça, de luvas e óculos e lenço verde a esconder o rosto.
O cessar-fogo anunciado em Outubro precipitou a desactivação dos GE 217 e 223 (os do Quitexe), o mesmo acontecendo com os grupos de Aldeia Viçosa (o 222) e Vista Alegre (o 208).
O Livro da Unidade, sobre a extinção dos GE, refere que «se verificou a 30 de Novembro, podendo até curiosamente dizer-se que muitos deles enfileiraram de imediato nas forças irregulares da FNLA e também, segundo alguns, nas do MPLA». O que, verdadeiramente, nada espantou.
O comandante Carlos Almeida e Brito, tenente-coronel, foi ele o redactor do LU, não estava enganado. Por exemplo, em Agosto seguinte (de 1975) eu e o Neto fomos encontrados em Luanda, na Avenida D. João II, por um capitão do MPLA que tinha sido chefe de um dos GE´s do Quitexe.
«Subi nos viiida...», disse-nos ele, no seu sotaque tipicamente africano, ufano e perante o nosso espanto, relativamente à sua graduação militar.  
A Junta Governativa de Angola foi abolida a 30 de
 Novembro de 1974, há 42 anos. Na foto, o  capitão de

 fragata Leonel Cardoso, o brigadeiro Altino de Ma-
 galhães, o almirante Rosa Coutinho, o coronel pi-
loto aviador Silva Cardoso e o major Emílio Silva

Junta Governativa
foi... abolida

A 30 de Novembro de 1974, em Luanda, o almirante Rosa Coutinho anunciou que a Junta Governativa de Angola estava abolida e que ele mesmo, embora interinamente, ia assumir as funções de Alto Comissário, enquanto não fosse nomeado o efectivo. Viria a ser ele. 
A medida, segundo disse, obedecia à «necessidade de actualizar a estrutura governamental de Angola e de lhe conferir maior liberdade de acção».
Rosa Coutinho, no mesmo dia e mesma conferência de imprensa, confirmou também a realização da cimeira de Portugal com os representantes dos três movimentos de libertação - o MPLA, a FNLA e a UNITA. Dela sairia, expectava-se nesse tempo, «a constituição do Governo de Transição que levará Angola à independência».

Maioria silenciosa

A cosmopolita Luanda, por esses dias de há 42 anos, fervilhava em boatos. 
Um deles apontava para uma manifestação no dia 8 de Dezembro, no Largo da Mutamba - uma das principais praças da baixa da capital angolana.
A convocação era feita através de panfletos anónimos, para «uma manifestação da maioria silenciosa».

Cavaleiros em festa

O 30 de Novembro de 1974 foi de festa de anos para pelo menos 3 Cavaleiros do Norte. Todos a festejar 22 viçosos aninhos de vida. Hoje, 64!!!
O José Domingos Encarnação Guerreiro era soldado mecânico-auto da CCS, no Quitexe. Era natural do lugar do Sítio das Lombas, em Lagoa (Algarve), e diz o Cabrita que tem uma oficina de automóveis no Alvor. 
O José Maria Luís foi soldado atirador de Cavalaria da 3ª. CCAV. 8423, a da Fazenda Santa Isabel. É de Melriço, em S. Tiago da Guarda, em Ansião, e mora actualmente em Chão de Couce, também de Ansião.
O Raúl Rosa da Graça também foi soldado atirador de Cavalaria dos Cavaleiros do Norte de Santa Isabel. Era residente no Barreiro, e mora agora na Mina do Lousal, Azinheira dos Barros e S. Mamede, em Grândola.
Parabéns ao trio! 

terça-feira, 29 de novembro de 2016

3 595 - Comissão de Contra-Subversão do Quitexe e televisão para Angola!

A 3ª. CCAV. 8423, há 42 anos, fazia as malas para sair da Fazenda Santa Isabel e rodar para o Quitexe.
Aqui, estão os furriéis milicianos José Querido (atirador de Cavalaria), Victor Mateus Ribeiro Guedes
 (de armamento pesado, falecido a 16 de Abril de 1998, em Lisboa e de doença), António Fernandes (ati-
rador de Cavalaria, de bigode), Agostinho Belo (alimentação, de óculos) e Ângelo Rabiço (enfermeiro)


A Fazenda Santa Isabel. Na imagem, o 1º. cabo Manuel
 Quaresma da Silva, apontador de morteiros, Era de
 Cacia, em Aveiro, onde faleceu a 4 de Junho de 2004,
vítima de doença no estômago. RIP!
A Comissão Local de Contra-Subversão (CLCS) do Quitexe reuniu a 29 de Novembro de 1974, continuando «o programa traçado» pelas autoridades militares, num período que o Livro da Unidade caracteriza por «uma acalmia não encontrada há largos anos». E ainda bem!
A rotação do BCAV. 8423 estava em andamento e apenas faltava a saída da 3ª. CCAV. 8423 da Fazenda Santa Isabel, que se previa para os primeiros dias de Dezembro de há 42 anos. Seria concluída a 10 e para o Quitexe.
Imagem de Santa Isabel, aqui com o soldado Ângelo
 Simões Teixeira (TRMS), que é da Amoreira, na
Portela do Fogo, em Pampilhosa da Serra, e agora
 empresário comercial do sector do calçado
em Alverca do Ribatejo 
O processo de descolonização de Angola estava em permanente actualização e, à partida de Lisboa para Luanda, o presidente da Junta Governativa e próximo Alto Comissário, o almirante Rosa Coutinho, admitiu como «muito provável a realização de uma cimeira entre os três movimentos de libertação». Em Portugal, disse, «e ainda este ano».  
O objectivo, como sublinhou, era «para exactamente se estudar e se fixar a plataforma de entendimento necessária para a formação do Governo de Transição de que Angola está à espera».
As negociações prosseguiam em outras capitais: Mário Soares, o ministro dos Negócios Estrangeiros, esteve em Tunis (Tunísia) e Kinshasa (Zaire) e Melo Antunes em Argel (Argélia), ambos «em missões relacionadas com o processo de descolonização».

Uma televisão
para Angola

Rosa Coutinho era portador, nesta viagem de Lisboa para Luanda, de uma interessante notícia: a da criação da televisão de Angola.
O decreto de promulgação já tinha sido assinado pelo então Presidente da República, o general Costa Gomes, e, sublinhou o (próximo futuro) Alto Comissário, «agora só depende da capacidade de montagem dos técnicos e até dos administrativos que têm de constituir a sociedade, cuja maioria de capital será do Estado».
Rosa Coutinho, avisadamente, todavia, não se comprometia com prazos: «Talvez para os princípios do próximo ano Angola comece a ter a sua televisão, em moldes absolutamente iguais aos de qualquer país civilizado», disse o almirante.
O capitão Tojal de Meneses, comandante da CCAÇ. 5015,
 e o furriel Américo Rodrigues, da 1ª. CCAV. 8423, a de
 Zalala. Imagem de 2012 e em Vila Nova de Famalicão

Anos do capitão
Tojal de Meneses

A 1ª. CCAV. 8423 concluiu, a 25 de Novembro de 1974, a sua rotação de Zalala para Vista Alegre e Ponte do Dange. E saiu daqui a 24 de Abril de 1975, rodando para o Songo - onde substituiu a 1ª. CCAÇ. 5015.
A Companhia de Caçadores era comandada pelo capitão miliciano Manuel Diamantino Tojal de Meneses e tinha jornadeado por Chimango e Lucunga, antes de chegar ao Songo. Dela fazia parte um primo do furriel miliciano Américo Rodrigues, Cavaleiro do Norte atirador de Cavalaria de Zalala - mas, caprichosamente, não se encontraram por lá.
O capitão Tojal de Meneses é agora professor doutorado e investigador do Centro de Estudos de Língua, Comunicação e Cultura do Instituto Superior da Maia (IAMAI) e hoje está em festa de aniversário. Parabéns!
José Tavares Pires

Zé Pires, um
soldado do Quitexe

José Tavares Pires, um antigo combatente do Quitexe e conterrâneo do editor deste blogue (em Ois da Ribeira, Águeda), faleceu ao princípio da noite de ontem, no Hospital Distrital de Aveiro e vítima de doença.
O Zé Pires, como sempre foi conhecido, foi condutor da CCS do BCAÇ. 2873, que a 19 de Maio de 1969 chegou ao Quitexe e de lá saiu para Catete em finais de Outubro de 1970. Até ao final da comissão, quando regressou a casa para conhecer o seu filho mais velho - que nascera cá e ele andava pelas terras uíjanas.
Há poucos dias, muito poucos mesmo..., uma vez mais nos achámos a falar do Quitexe, de onde, cada um no seu tempo, ambos saímos com saudades que perduram até hoje.
«Sabes onde era o talho?!...», perguntou-me, a ironizar sobre a questão. É que, no tempo dele, o tempo da CCS do BCAÇ. 2873, era na traseira de um carro que se abatiam os animais. Qual talho, qual quê?!
Faleceu ontem, aos 69 anos, deixando viúva Maria Isolete Soares de Almeida e três filhos (Helder Manuel, Ernesto Fernando e Hernâni José), noras e netos. O funeral está marcado para amanhã, às 16 horas, da capela mortuária para o cemitério paroquial desta nossa terra comum, de chãos que ambos pisa(á)mos com paixão. RIP!!!
- Ver «Dois tipos de Ois da
Ribeira no Quitexe», AQUI

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

3 594 - Nomeação de 15 futuros alferes, o reconhecimento da UNITA!

Cavaleiros do Norte da CCS, no Quitexe, De pé, NN e NN. furriéis Mosteias (de cabelo rapado,  falecido a 5
 de Fevereiro de 2013), Neto, José Pires e Rocha (de boina e meio tapado), Graciete Hermida, NN, alferes
 Hermida, NN, Salgueiro (?), ,NN, 1º. cabo Oliveira e Soares. Na fila do meio, Madaleno, NN (sapador),
 Luciano, Silva, 1ºs. cabos Coelho (Buraquinho) e José Gomes, NN, furriel Cruz (de óculos e bigode),
 NN, NN e NN. À frente, 1º.s cabos Florindo, Costa (TRMS), NN, Cabrita, furriéis Monteiro (?) e
 Cândido Pires e NN. Alguém ajuda a identificar os NN?

Alferes milicianos dos Cavaleiros do Norte à porta da
 messe de oficiais do Quitexe: Luís Pedrosa, Jaime
 Ribeiro, António Cruz e António Garcia (mobilizados a
 26/11/1973, há 43 anos) e José Leonel Hermida (que
 hoje festeja 70, na Figueira da Foz)
O dia 28 de Novembro de 1974 foi tempo para, pelas bandas do Quitexe uíjano e outras terras onde se aquartelavam os Cavaleiros do Norte (Aldeia Viçosa e ainda Luísa Maria e Fazenda Santa Isabel), de se saber da proposta de reconhecimento da UNITA, pela OUA.
A recomendação fora feita por uma comissão especializada, liderada pelo brigadeiro Olufemi Olutrye, da Nigéria, e punha «termo a vários anos de ostracismo a que a UNITA foi votada pelos estados africanos»
O capitão Cruz, segundo da esquerda para a direita, com
 4 dos 15 alferes milicianos mobilizados há 42 anos: Car-
valho de Sousa, capitão José Manuel Cruz, António
A. Cruz, João Periquito e, de cócoras, Jorge Capela
A imprensa desse dia destacava que o reconhecimento «parecia inevitável, em face da intenção que anima Lisboa de constituir um Governo Provisório em Luanda, formado por representantes daquele movimento e das duas outras organizações reconhecidas pela OUA - o MPLA e a FNLA».
A União Nacional para Independência Total de Angola (UNITA) era presidida por Jonas Savimbi, que tinha sido secretário geral da UPA (a futura FNLA, resultante da fusão com o Partido Democrático de Angola) e ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo da República de Angola no Exílio (GRAE) em 1962/64. Saiu da FNLA em 1964 e, depois de uma fracassada tentativa de adesão ao MPLA, fundou a UNITA em Março de 1966.
O mês de Novembro de 1974 foi tempo, também,  para a chegada do furriel miliciano Mário J. R. Soares, atirador, à 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa. E à CCS, no Quitexe, do soldado cozinheiro Carlos J. F. Gomes. De ambos, não temos memória e muito menos rasto.
A Ordem de Serviço nº. 278, do RC4 e de 26 de
Novembro de 1973, com as nomeações para o ultra-
mar de 15 futuros alferes milicianos do BCAV. 8423.
Há precisamente 43 anos!

Alferes milicianos
mobilizados

Um ano antes, em Santa Margarida, foi publicada a Ordem de Serviço nº. 278 do RC4 que, na página 7, dava conta que «foram nomeados, por imposição, para prestar serviço na RMA e nas companhias que a cada um se indicam» nada mais nada menos que 15 futuros alferes milicianos do Batalhão de Cavalaria 8423. Mal eles sabiam.
Os seguintes:
- CCS, que viria a ser a do Quitexe: António Manuel Garcia (de Operações Especiais, os Rangers, entretanto falecido, a 2 de Novembro de 1979, de acidente e ao serviço da Polícia Judiciária, era da Carrazeda de Ansiães e residia no Porto), Jaime Rodrigues Picão Ribeiro (sapador, de Constância, onde reside) e António Albano Araújo de Sousa Cruz (mecânico, em Santo Tirso 
- 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala: Mário Jorge de Sousa Correia de Sousa (de OE, então morador na freguesia de S. José, Lisboa) e os atiradores de Cavalaria Carlos Jorge da Costa Sampaio (de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa), Pedro Marques da Silva Rosa (do Bombarral) e José Manuel Lains dos Santos (de Almeirim).
- 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa: João Francisco Pereira Machado (de OE e natural da freguesia de S. Sebastião da Pedreira, em Lisboa) e os atiradores de Cavalaria Jorge Manuel de Jesus Capela (da Fernão Magalhães, em Lisboa), João Carlos Lopes Periquito (de Santarém) e Domingos Carvalho de Sousa (de Marrazes, em Leiria).
- 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel: Augusto Rodrigues (de OE, natural de Vouzela e morador em Lisboa) e os atiradores de Cavalaria Mário José Barros Simões (de S. João Baptista, em Tomar), Luís António Pedrosa de Oliveira (de Marrazes, em Leiria) e Carlos Almeida da Silva (de Outeiro do Marco, em Beco, Ferreira do Zêzere).
José Lopes Esteves

Anos do alferes Hermida
e do 1º. cabo Esteves

O dia 27 de Novembro de 1974 foi tempo de duas festas de aniversários no Quitexe.
O alferes miliciano José Leonel Pinto de Aragão Hermida, oficial de transmissões, comemorou 28 anos - por lá feliz e acompanhado da sua gentil esposa, a professora Graciete Ferreira. Hoje, apagará 70 velas na Figueira da Foz, onde residem e já ambos aposentados do ensino.
O 1º. cabo José Lopes Esteves, escriturário da secretaria do Comando do BCAV. 8423, festejou 22. Regressado a Portugal, fez vida como vendedor de automóveis e, agora já reformado, mora em Viseu, onde hoje lhe cantarão os parabéns pelos 64 anos.

domingo, 27 de novembro de 2016

3 593 - A rotação do dispositivo militar, Daniel Chipenda e o Enclave de Cabinda

Quitexe. O que, de data desconhecida, restava do edifício do Comando do BCAV. 8423, no gaveto da
 Rua da Igreja (ao fundo) com a avenida. As duas coberturas que se vêem à direita estão onde era a parada,
 mas não são do tempo dos Cavaleiros do Norte. À esquerda e depois da parede branca e à frente da
 árvore mais alta, vê-se o telhado da missão católica - onde o padre Albino Capela esteve vários anos

Momento de boa disposição de um grupo de Cavaleiros
 do Norte da CCS, no Quitexe: NN (de barbas, quem é?),
 alferes Ribeiro, Almeida (cozinheiro), civil (de cor), João Mes-
sejana (que faleceu a 27 de Novembro de 2009, de doença e
 em Lisboa, hoje se fazem 7 anos), Florêncio (de barbas) e
 alferes António Garcia (f. a 2 de Novembro de 1979, de aci-
dente, era de Carrazeda de Ansiães e morava no Porto)
O Comando do Sector do Uíge reuniu a 27 de Novembro de 1974, em Carmona. A rotação do dispositivo militar foi certamente ponto da agenda. Segundo o Livro da Unidade, «preparada do antecedente (...), começou a ser efectivada à custa de verdadeiros sacrifícios, dada a carência de meios auto que permitissem a materialização desses movimentos, os quais envolviam não uma simples mutação, mas, sim, a extinção de aquartelamentos». 
Estrada do Café (ou Rua de Cima), no Quitexe: a
 farmácia (porta azul) e o Bar Camabatela (vermelha)
e  sala de jogos (azul), dos Irmãos Santiago
Era o caso do Batalhão de Cavalaria 8423 (BCAV. 8423), quanto às suas sub-unidades das Fazendas de Zalala (a 1ª. CCAV. 8423, a do capitão miliciano Davide Castro Dias) e do Liberato (a CCAÇ. 209/RI 21, do capitão miliciano Victor), já concluídas, e a de Santa Isabel (a 3ª. CCAV. 8423, do capitão miliciano José Paulo Fernandes), que se preparava para, nos primeiros dias de Dezembro, rodar para o Quitexe. 
CCAÇ. 4145/72, de Vista Alegre, substituída pela 1ª. CCAV. 8423, mas tinha chegado a receber a CCAÇ. 4145/74, que esteve por Vista Alegre apenas dois dias e logo rodou para Luanda.

Independência 
de Angola

Ao tempo, e soube-se por lá a 27 de Novembro de 1974, a Comissão Nacional de Descolonização criou o cargo de Alto-Comissário para Angola, depois de uma reunião que demorou cerca de... 7 horas. Rosa Coutinho era o indigitado e abandonou a reunião no momento de se votar o respectivo decreto-lei.
Rosa Coutinho que era o presidente da Junta Governativa e, reagindo às declarações de Agostinho Neto (apontando 1975 como o ano da independência), afirmou que «o processo tem de ser negociado».
«Os movimentos de libertação tem de ser ouvidos e como tem todos têm as mesmas ideia sobre o processo é necessário, primeiro, que as ajustem e encontrem uma plataforma comum, sem a qual a formação do Governo de Transição é impossível», disse Rosa Coutinho, sublinhando que «Angola é um país, vigoroso, potencialmente rico e com ânsia de independência» - ânsia que, do seu ponto de vista, «se verifica a todos os níveis», a ponto de considerar que «poderei dizer que 99,9% da população de Angola, se consultada a esse respeito, é favorável à independência».
Daniel Chipenda, ao centro, aqui como secretário ge-
 ral da FNLA, presidida por Holden Roberto (à direita)

Os casos FLEC, 

FUA e PCDA 

O caso FLEC continuava na ordem do dia e o almirante admitiu que «como organização política, digamos como associação política, já existia antes do 25 de Abril» e acrescentou que

«pretendemos que continue como tal».
«Dado o nosso reconhecimento da liberdade de associação política, pois, consideramos que a FLEC tem o direito de existir como associação política. Não tem direito a existir como movimento armado. Movimentos armados apenas reconhecemos a existência de três», disse Rosa Coutinho, considerando que «ainda por cima, a FLEC tomou a atitude oportunista de aparecer como movimento armado a exigir, ou a pedir, um reconhecimento de uma independência separada para Cabinda, que é contrária não só aos interesses de Angola e de Portugal mas ainda às determinações e recomendações internacionais, pela ONU e pela OUA».
Era curioso o entendimento de Rosa Coutinho sobre as posições políticas dos três movimentos de libertação: a FNLA mais à direita, a UNITA ao centro e o MPLA de tendência mas progressista, à esquerda. Assim e por isso, considerava não serem necessários mais partidos.
Quando à Frente Unida de Angola (FUA) e Partido Cristão Democrata de Angola (PCDA), fundados após o 25 de Abril, Rosa Coutinho considerava-os «associações políticas» que, explicou, «podem perfeitamente continuar a existir e até são úteis porque Angola, tal como em Portugal, precisa que o seu povo comece a viver a política, comece a ser politizado».

Daniel Chipenda


O caso Daniel Chipenda, dirigente e combatente ao tempo dissidente do MPLA e que Agostinho Neto dissera estar ao serviço da FNLA e fora «expulso do MPLA», foi tema de opinião do almirante, comentando que «os problemas internos dos  movimentos não são da nossa competência».

«Neles não devemos imiscuir-nos», disse Rosa Coutinho.

Atirador João Messejana

O atirador de Cavalaria João Manuel Pires Messejana (foto ao lado) foi um bom companheiro do PELREC, o pelotão operacional da CCS dos Cavaleiros do Norte.
Discreto e sempre disponível, regressou a Portugal e à sua Lisboa, onde morava na Rua Augusto Machado e onde fez vida. Que nem sempre lhe correu bem e o enfermou de doença que o levou a falecer, precisamente há 7 anos: a 27 de Novembro de 2009.
Hoje o recordamos com  saudade. RIP!!!

sábado, 26 de novembro de 2016

3 592 - Comício da FNLA em Vista Alegre foi há 42 anos!...

Vista Alegre e o aquartelamento da 1ª. CCAV, 8423, a que foi de Zalala. 
A 26 de Novembro de 1974, a localidade foi palco de um comício da FNLA

Cavaleiros do Norte de Zalala, já em Vista Alegre: fur-
riel Queirós (atrás, de cabeça levantada e bigode), 1º. cabo
 Ferreira (de bigode e óculos)-, furriel Barreto (de bigode),
1º .cabo Dorindo (encostado a Barreto e também
 de bigode). E os outros, quem os identifica?


 Vista Alegre, a 26 de Novembro de 1974, foi cenário de um comício da FNLA. «Um comício de metalização das populações, certamente tendente a procurar anular a influência local e da área que o MPLA possui», como refere o Livro da Unidade, do BCAV. 8423. 
Ao tempo, e com a 1ª. CCAV. 8423 já lá (e em Ponte do Dange) totalmente instalada, ida da mítica Fazenda de Zalala, vivia-se «o clima de cessar-fogo estabelecido no mês anterior».
Cantina de Vista Alegre, à entrada da porta de armas do
quartel e ainda com os matraquilhos na varanda. Foto
de Carlos Ferreira (1º. cabo), a 1 de Dezembro de 2012
Por isso mesmo e, como aqui já foi dito, «obviamente começaram a ser estabelecidos contactos com  as autoridades, por parte de elementos dispersos da FNLA, agora já nas categorias elevadas da sua chefatura».
Tais contactos, ora no Quitexe (onde estava instalado o Comando dos Cavaleiros do Norte, do tenente-coronel Carlos José Saraiva de Lima Almeida e Brito, e a CCS, do capitão António Martins de Oliveira, SG) e Aldeia Viçosa (a 2ª. CCAV. 8423, do capitão miliciano José Manuel Romeira Pinto da Cruz), ora em Vista Alegre, é que, ainda segundo o Livro da Unidade, «permitiram a realização» do tal comício - naturalmente, «já em fase mais adiantada» de tais contactos. Contactos que, muito provavelmente e no caso de Vista Alegre, já teriam sido iniciados no período de aquartelamento da CCAÇ. 4145/72, que, na  práticas, os Cavaleiros do Norte de Zalala tinha rendido nos dias anteriores, numa operação concluída precisamente na véspera (25).
Holden Roberto, Agostinho Neto e Jonas Savimbi,
presidentes, respectivamente, da FNLA, MPLA e UNITA

Movimentos sem
uma frente unida

Angola, a esse tempo, vivia vivia diferenças que não aproximavam, antes separavam os movimentos de libertação. E assim não seria fácil a plataforma política que negociaria com Portugal - o país colonizador.
Notícias de Angola, na última página do
 Diário de Lisboa de 26 de Novembro de 1974
Agostinho Neto, presidente do MPLA, afirmava ao «Liberation», jornal francês, que «o único problema que retarda a descolonização é a existência de movimentos com os quais ainda não formamos uma frente unida». Faltava, assim, «definir em conjunto uma plataforma política, a partir da qual possamos formar um Governo de Transição», havendo, por esse tempo e no seu dizer, «esperança que 1975 seja o ano da independência».
O presidente Neto denunciou a Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) como «uma organização separatista e movimento anti-nacional». «Depois do 14 anos de luta, não consentiremos que Cabinda, parte integrante do território angolano, nos seja retirada», afirmou o líder do MPLA, também denunciando, num outro prisma, «as forças reaccionárias que, dentro do país, querem provocar o caos económico»
Sobre «as contradições internas» do (seu) MPLA, afirmou que se tratava de «um problema vindo do exterior» e que «internamente «está unido», referindo que «Chipenda e o seu grupo trabalham agora com a FNLA e por este facto estão excluídos do movimento».  

FNLA, UNITA e
Soares de... acordo

A 26 de Novembro de 1974, a FNLA e a UNITA anunciaram, em Kinshasa, a assinatura de um acordo para pôr termos às suas divergências e instaurando «uma cooperação e uma assistência mútua, ara fazer frente a qualquer eventualidade extremista, vinda de qualquer lado».
O acordo foi assinado pelos dois presidentes: Holden Roberto, da FNLA, e Jonas Savimbi, da UNITA, na mesma data em que, também em  Kinshasa e depois dessas conversações, Mário Soares, ministro português dos Negócios Estrangeiros, garantia, em declarações à France Press, que «falamos a mesma linguagem»
«Estamos de acordo quanto à maneira como devem ser abordados os problemas de Angola e encontrei neles compreensão e abertura de espírito», disse Mário Soares, sublinhando que «o Governo provisório que será constituído, deverá ser formado por diferentes movimentos nacionalistas» e que, para o efeito «decidimos fazer uma mesa redonda na primeira quinzena de Dezembro».
- SANTA ISABEL: O dia foi de festa de anos em Santa Isabel, fazenda onde se aquartelava a 3ª. CCAV. 8423, então já em vésperas de rodar para o Quitexe.
O aniversariante foi o 1º. cabo Adriano Martins de Oliveira, apontador de morteiros. Era natural da Areosa, no Porto, e dele se perdeu o «rasto». Onde estiver, parabéns!

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

3 591 - O último dia de Zalala; 80 mortos e dezenas de prisioneiros!

Zalala, «a mais rude escola de guerra». A última guarnição portuguesa na mítica fazenda foi a 1ª. CCAV.
 8423, que de lá definitivamente saiu a 25 de Novembro de 1974. Era comandada pelo capitão miliciano
 Davide Castro Dias e rodou para Vista Alegre e Ponte do Dange
Grupo de Cavaleiros do Norte da 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala. Atrás, o quinto é o 1º. cabo Gigante.
Seguem-se, o furriel Queirós, NN, furriel Eusébio Martins (Falecido a 16/04/2014 (de doença e em
 Belmonte), Coelho (atirador), NN, NN (de cor) e Carlos Costa (Plateias). Em baixo, Adélio, José
 Aires, José Santos (impedido da cantina), NN (de cor), Moura (clarim e impedido da messe de
oficiais), NN e NN e Borges. Quem, ajuda a identificar os NN?

O comandante Almeida e Brito, à direita, com os furriéis
 Viegas, à esquerda, e Cruz, a 27 de Setembro de 1997, no
 encontro de Penafiel. Foi a última vez que esteve com os
 (seus) Cavaleiros do Norte da CCS do BCAV. 8423

O dia 25 de Novembro da 1974, há precisamente 42 anos, foi o último da presença militar portuguesa na Fazenda de Zalala, ocupada destes os trágicos acontecimentos de 1961. Dali saiu a 1ª. CCAV. 8423, a dos Cavaleiros do Norte comandados pelo capitão miliciano Davide Castro Dias e que ali tinham chegado no dia 7 de Junho desse mesmo ano. 
O capitão Davide Castro Dias, ao centro, ladeado
 pelos alferes Pedro Rosa e Lains dos Santos, todos
 milicianos de Zalala, no encontro de 2016
«Tornando-se necessária a ocupação de Vista Alegre e Ponte do Dange, previamente teve início a rotação da 1ª. CCAV. para estes locais, a qual completou os seus movimentos a 25 de Novembro», historia o Livro da Unidade. 
Este previamente reporta-se a uma data anterior a 21 de Novembro, quando a CCAÇ. 4145/72 «saiu do Sub-Sector», depois da CCAÇ. 4145/74 ter chegado a 19 e saído a 20.
Furriel Queirós, capitão Castro Dias, NN e furriel Mota
 Viana no encontro de Águeda,  a 9 de Setembro de 1995.
Milicianos da 1ª. CCAV. 8433, a de Zalala!

Comandante de férias
e a festejar 47 anos

O dia foi de visita do capitão José Paulo Montenegro Mendonça Falcão, oficial adjunto e de operações e comandante interino do BCAV. 8423, à 2ª. CCAV. 8423 - a de Aldeia Viçosa e comandada pelo capitão miliciano José Manuel Romeira Pinto da Cruz. Visita para «estabelecer contactos operacionais».
O capitão José Paulo Montenegro Mendonça Falcão substituía interinamente o tenente-coronel Carlos José Saraiva de Lima Almeida e Brito, comandante do BAV. 8423 e ao tempo de férias em Portugal - onde, em Lisboa e no conforto e afecto da família, festejou 47 anos de vida. 
O nosso saudoso comandante viria a falecer a 20 de Junho de 2003, no decorrer de um passeio turístico a Espanha, onde vítima de ataque cardíaco. Estava fotografar o grupo de excursionistas em que se incluía quando, de forma fulminante, caiu para o lado, já morto.
Recordamo-lo com saudade. RIP!!!

80 mortos e dezenas
de prisioneiros 

A 25 de Novembro de 1975 sabia-se, de Angola, que as forças populares - das FAPLA/MPLA - «encurralaram a coluna invasora sul-africana na região do Lobito, depois de previamente ter fraccionado e desmantelado uma parte dela, que se encontrava perdida nas montanhas». E tinham esperança em recuperar Lobito e Benguela, de onde, e citamos o Diário de Lisboa desse dia, «há notícias que as forças da FNLA e UNITA, que acompanham a força invasora da África do Sul, começaram a desertar».
A tentativa de reconquista de Novo Redondo resultou, segundo o MPLA, «em pesadas derrotas nos últimos dias, que se traduzem nas maiores sofridas pelas forças invasoras sul-africanas». Os sul-africanos e «os mercenários portugueses», nos combates da região do Ebo, «sofreram 80 mortos e perderam 8 blindados e 6 camiões de transporte, tendo sido feitos dezenas de prisioneiros, entre eles os primeiros sul-africanos».

Quitexe e Carmona
sem... notícias

A norte, a região que mais interessava aos Cavaleiros do Norte, não havia notícias do Quitexe e de Carmona, mas sabia-se que «uma coluna invasora tentou penetrar até à zona de N´Dalatando e posteriormente até ao Dondo, abrindo uma ponte para a zona sul e com o objectivo de ocupar a barragem de Cambambe, mas foi sustida numa região conhecida por 21 curvas».
A coluna saíra de Samba Caju mas foi «obrigada a recuar para Camabatela, deixando no terreno muitos mortos e prisioneiros, bem como grande quantidade de material bélico, de diverso tipo».
O ataque, segundo o MPLA, tentou «romper a barreira defensiva de Lucala e N´Dalatando e foi desencadeado depois de a coluna agressora ter sido reforçada com efectivos da FNLA que retiraram, nos últimos dias, das confrontações do Caxito, Barra do Dande e Libongos».
O mesmo dia 25 de Novembro foi tempo para, segundo o DL, os Estados Unidos admitirem o aumento oficial do seu apoio à FNLA, através do Zaire e a pretexto da intensificação do apoio da União Soviética ao MPLA.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016


3 590 - Ofensiva das FAPLA para reconquistar o Quitexe

PELREC, momentos antes da partida para mais uma operação. De pé, 1º. cabo Almeida, falecido 
a 28/02/2009, de doença e em Penamacor), Messejana, Neves, 1º. cabo Soares, Florêncio, 1º. cabo
 Ezequiel, Marcos, 1º. cabo Pinto, Caixarias e 1º. cabo enfermeiro Florindo, que hoje festeja 64 anos. 
Em baixo, 1º. cabo Vicente (f. a 21/01/1997, de doença e em Vila Moreira, Alcanena), furriel Viegas, 
Francisco, Leal (f. a 18/06/2007, de doença e no Pombal), 1º. cabo Oliveira (TRMS), 1º. cabo Hipólito, 
Aurélio (Barbeiro), Madaleno e furriel Neto 

Cavaleiros do Norte: 1º. Victor Vicente (apontador de
 morteiros) e Eduardo Tomé (Sintra (o Mercedes, condutor),
 ambos da 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa;  e os 1ºs.
 cabos Victor Florindo e Alfredo Coelho (Buraquinho)

O dia 24 de Novembro de 1974 foi domingo e de celebração de missa - a que iam alguns Cavaleiros do Norte -, na Igreja da Mãe de Deus do Quitexe, onde sacerdotava o padre Albino Capela, da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos e que era o titular da Missão. Nesta, também missionava sua irmã, a Irmã Maria Augusta Vieira Martins, da Congregação da Imaculada Conceição e Santo António - que continuou em Angola depois da independência e veio falecer a Lisboa, de doença cancerosa, a 21 de Junho de 2006, aos 73 anos.
O padre Albino Capela na celebração do baptizado de
Elisabete Rei na Igreja da Santa Maria de Deus do Quitexe
 
O padre António Albino Vieira Martins Capela regressou a Portugal e deixou a Ordem, «com muita pena», frequentou Humanidades na Universidade Católica e casou, sendo pai de um casal. É frequentador habitual dos encontros anuais da CCS, «sem nunca esquecer Angola», onde viveu das maiores e mais marcantes experiências de vida.

Missa, futebol e
Alto Comissário

O domingo, para a tropa, era dia de mais folga na guarnição, menos para quem estivesse de serviço. E de futebol, cujos relatos, através da onda curta da Emissora Nacional (actual RDP), por lá avidamente ouvíamos. Benfica e FC Porto lideravam o campeonato nacional da 1ª. divisão, com 16 pontos, seguidos de V. Guimarães (15), Sporting (13) e Farense (12). Depois, V. Setúbal e Boavista (11), Belenenses, Atlético e SC Espinho (9), União de Tomar e Olhanense (8), CUF e Leixões (7), Oriental (5) e Académico(a) de Coimbra (4). 
A memória desse tempo pode recordar os resultados da jornada (a 10ª.) desse 24 de Novembro de 1974: Olhanense-Farense, 1-1; Acad. Coimbra-U. Tomar, 3-1; FC Porto-Atlético, 5-0; Guimarães-Setúbal, 3-2; CUF-Benfica, 0-1; Oriental-SC Espinho, 0-0; Sporting-Boavista, 1-0; Belenenses-Leixões, 0-0.
Outros clubes e outros futebóis! 
O dia, em Luanda, foi de partida do almirante Rosa Coutinho para Lisboa, onde ia reunir com a Comissão Nacional de Descolonização. Era o presidente da Junta Governativa de Angola e, na agenda de trabalhos, previa-se a nomeação de um Alto-Comissário - que seria (e foi ele próprio) responsável pela constituição de um Governo de Transição.
O que sobrou do edifício do Comando do BCAV. 8423 (foto
 de cima) depois de combates entre as FAPLA e o ELNA, da
 FNLA. A de baixo mostra o mesmo edifício, na esquina da
 rua da Igreja com a avenida e duas enormes árvores no
 espaço que tinha sido a parada dos Cavaleiros do Norte. 
Fotos da net e de autor e data desconhecida

Grande ofensiva
na Frente Sul

Um ano depois e já com Angola declarada independente desde 11 de Novembro, o comandante Júlio de Almeida, do MPLA, anunciou em Luanda que «as forças populares angolanas desencadearam um grande ofensiva na frente sul, com o objectivo de expulsarem is invasores estrangeiros
das posições que controlam»

O responsável militar do movimento do Presidente Agostinho Neto sublinhou também que «Novo Redondo foi retomada» depois de «combates muito duros» e que «as forças populares estão agora empenhadas em combates mais para sul, com a finalidade de libertarem o Lobito, Benguela e Moçâmedes».
Desmentiu que Malanje tivesse «caído em poder do inimigo», atribuindo as notícias sobre tal noticiada perda da cidade como «fazendo parte da propaganda imperialista contra a República Popular de Angola».

Ofensiva das FAPLA
contra o Quitexe 

A Frente Norte registava, nesse 24 de Novembro de há 41 anos, «uma ofensiva das FAPLA contra o Quitexe, vila situada a apenas 50 quilómetros de Carmona». Na verdade, o «nosso» saudoso Quitexe fica a 40.
A ofensiva registava, no mesmo dia, «avanços das forças populares rumos a Pambos e Camabatela» - esta vila, também muito próxima do Quitexe.
O Diário de Lisboa desse dia, que temos vindo a citar, reportava que «os invasores zairenses e portugueses, enquadrados nas forças da FNLA, foram forçados a retirar-se da zona de Quifangondo, tendo as FAPLA reconquistado Úcua, Piri e Quibaxe» - povoações da Estrada do Café, que liga(va) Luanda a Carmona e também passa(va) por Ponte do Dange, Vista Alegre, Aldeia Viçosa e Quitexe, chãos por onde jornadearam os Cavaleiros do Norte.
A situação, nesta frente, caracterizava-se, porém e ainda, por «uma contra-ofensiva inimiga, na área de Samba Caju»

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

3 589 - Cavaleiros do Norte e o povo; os invasores de Angola!

O Papélino, «suposto» engraxador do Quitexe, aqui com os furriéis
 milicianos Joaquim Farinhas (falecido a 14 de Julho de 2005, em 
Amarante e de doença), Francisco Neto e Viegas

O furriel miliciano António Carlos Letras, da
 CCAV. 8433, com várias crianças de Aldeia Viçosa.

Era próxima a relação da tropa com os civis

A relação dos Cavaleiros do Norte com a comunidade civil uíjana - o povo da sua zona de acção... - era muito próxima, diria até (nalguns casos) que era íntima. Desde a que mais próximo lidada connosco, no dia a dia das povoações onde nos aquartelávamos, quer com o pessoal e famílias dos trabalhadores das fazendas - ora ainda nas que eram «sede» de companhias operacionais, ora pelas que eram espaço das nossas operações e patrulhas militares, ou simplesmente de escoltas às visitas do capitão médico Manuel Leal (que protegíamos). O mesmo não diria das
O inesquecível Papélino, engraxador do
 Quitexe que não engraxava nada... Era

«companheiro» diário da vida do quartel
relações com alguns gerentes e encarregados de fazendas, normalmente brancos europeus de narizes muito empinados e que pouca (nenhuma) afeição tinham pela tropa que os protegia. E alguns problemas tivemos com essas «excepções».
Se quisesse personalizar em alguém a magia do relacionamento da tropa com civis angolanos, com o povo africano que era a gente do nosso tempo da jornada uíjana, logo me lembraria do incontornável e inesquecível Agostinho Papélino, que se fazia passar por engraxador, sem nada... engraxar. Fazia de conta!!! Mas era «unha com carne» com a guarnição, passando de uns batalhões para os outros.
Papélino chamar-se-ia Agostinho e aparentemente não tinha família próxima. Era uma criança na pré-adolescência, esperto como um alho, mais sagaz que o que dava a entender..., o corneteiro-mor do Quitexe. Com uma mangueira de jardim, tocava todos os toques militares.
A 2 de Março de 1975, quando saímos do Quitexe, pediu-nos (a mim e ao Neto) para o trazermos para Portugal: «Leva-me nos puto, esfurrié!»
Não lhe respondemos e por mim,  passando-lhe a mão pela carapinha, dei-lhe uma nota de 20 angolares. Embrulhou-a na mão e fugiu, escondendo-se atrás das plantas da messe de oficiais e vendo-nos sair para Carmona. Soube que me procurou no BC12, algum tempo depois, mas nunca mais o vi.

Soares no Zaire,
Angola e Cabinda


O dia 23 de Novembro de 1974, há 42 anos!, foi o da chegada de Mário Soares a Kinshasa, onde foi participar nas comemorações da independência do Zaire. «Venho para restabelecer relações normais e amigáveis, mas também para discutir a independência de Angola, que desejamos se faça na paz, na calma e liberdade», disse o ministro português dos Negócios Estrangeiros, acrescentando que «o actual Governo de Portugal está sempre disposto a dialogar com os representantes de todos os movimentos de libertação».
Mário Soares, sobre a questão de Cabinda, afirmou que era «um problema de fundo», que, por via disso, não poderia ser tratado numa conferência de imprensa. E mais não disse.
Notícia do Diário de Lisboa com declarações
 do presidente Agostinho Neto

Países africanos
ignoram a invasão

Um ano depois e com o país independente e em guerra civil, o Presidente da República, Agostinho Neto, acusou «a maioria dos países africanos de ignorarem a invasão de Angola pela África do Sul e Zaire».
O líder do MPLA falava à APS, agência oficial argelina, e substantivou a acusação: «A maioria dos países africanos está a trair-nos, permanecendo silenciosa sobre tal situação e evitando a condenação da África do Sul». Também não poupou a OUA, porque «ainda não disse uma palavra sobre os invasores zairenses e sul-africanos», mas acrescentou que «nós seremos serenos e firmes na nossa atitude com os racistas».
Angola ia assim, há 41 anos!

terça-feira, 22 de novembro de 2016

3 588 - Reunião no Sector do Uíge e aliança contra o MPLA

Zalala, há 42 anos, «fazia malas» para Vista Alegre. Como memória
 desse tempo, uma foto da selecção de futebol da 1ª. CCAV. 8423: Fião,
 1º. cabo Ferreira, Alegre (motorista), furriel Barreto e NN (motorista). Em
 baixo: NN (motorista), NN (motorista), Silva (?, 1º. cabo enfermeiro), 
Famalicão (Agra) Alfama (transmissões) e furriel Nascimento. Alguém
ajuda a identificar os NN?


A entrada do antigo quartel de Vista Alegre. Foto
 de Carlos Ferreira, a 12 de Dezembro de 2012


A 22 de Novembro de 1974, o Comando do Sector do Uíge (CSU) voltou a reunir em Carmona, desta vez no BC12, envolvendo os comandantes de todas as unidades, para os habituais «contactos operacionais»
O BCAV. 8423 foi representado pelo comandante interino, o capitão José Paulo Montenegro Mendonça Falcão (SGE), que era o oficial adjunto dos Cavaleiros do Norte.
O capitão Davide Castro Dias, comandante da 1ª. CCAV.
  8423 (à direita), com o alferes João Machado, «Ranger»
 da 2ª. CCAV., a de Aldeia Viçosa. Ambos milicianos!
O comandante Carlos José Saraiva de Lima Almeida e Brito, então tenente-coronel, estava, recordemos, de férias em Lisboa. Por essa altura, prosseguia o processo de rotação na ZA dos Cavaleiros do Norte. A 1ª. Companhia de Cavalaria 8423 «fazia malas» para o adeus à Fazenda Zalala e já parcialmente se aquartelava em Vista Alegre e no Destacamento da Ponte do Dange.  

Isolar o MPLA, o
Governo de Angola

O MPLA, em Luanda e pela voz de Lúcio Lara, anunciou a disponibilidade do movimento para «todas as funções que possam contribuir para a resolução de todos os principais problemas que afectam a vida nacional».
«Isto quer dizer que o MPLA está pronto a participar num governo deste ou daquele tipo, depois de trocar, evidentemente, as necessárias impressões com os movimentos de libertação, para que seja possível encontrar, em conjunto, as fórmulas que se impõem para a continuidade política, económica e social de Angola», disse Lúcio Lara - que era, há 42 anos, o responsável pela delegação do MPLA em Luanda.
Ao tempo e nesta capital, onde se repetiam problemas de segurança, murmurava-se que o encontro marcado para o dia seguinte e em Kinshasa, entre Holden Roberto (presidente da FNLA), Jonas Savimbi (idem, da UNITA), Daniel Chipenda (dissidente do MPLA) e Simão Toco (líder religioso), tinha como objectivo «a continuação de uma aliança contra o MPLA, beneficiando do patrocínio do Presidente Mobutu», do Zaire.
Notícia do Diário de Lisboa de 22 de Novembro
de 1974: «O MPLA pronto a participar num
 Governo de transição» de Angola
A reunião de Kinshasa, acrescentava o Diário de Lisboa (pelo jornalista Eugénio Alves), estaria integrada na «campanha iniciada há alguns dias, para tentar isolar o MPLA».

Protesto de Portugal,
Áfrca do Sul em Angola

Um ano depois, Portugal protestou oficialmente junto do Governo sul-africano, pelo «envolvimento das suas tropas, a partir da Namíbia», reportava o Diário de Lisboa. O protesto foi apresentado na Assembleia Geral das Nações Unidas, pelo embaixador José Manuel Galvão Teles, frisando que «temos provas concretas» de que os sul-africanos tinha entrado em Angola, a pretexto de «defenderem trabalhadores da barragem do Cunene».
Quanto ao envolvimento de «mercenários de diversas nacionalidades, incluindo os do ELP», Galvão Teles disse que «havia sido chamada a atenção do seu Governo para provas desse envolvimento».
A chamada invasão de Angola há muito que vinha a ser denunciada pelo MPLA (agora Governo) e a questão dividia altos responsáveis sul-africanos. O Diário de Lisboa referia que «os dissídios sobre a política de Pretória sobre Angola atingem o mais alto nível, estando neste momento a ganhar os que advogam o aprofundamento da intervenção militar».
Hillgard Muller, seu ministro dos Negócios Estrangeiros, era, segundo o DL, «um dos seus mais acérrimos defensores», tendo, sublinhava o jornal, «logrado a adopção desta política quando, em meados deste ano, se tornou evidente que a UNITA e a FNLA não conseguiriam opor-se sozinhas ao MPLA».
Pieter Botha, 1º. ministro sul-africano, no mesmo dia e segundo a Reuter, comentou a intervenção do embaixador Galvão Teles e afirmou que o envio de topas para Angola foi «feito com conhecimento prévio e aprovação do Governo Português, afim de proteger o projecto hidro-eléctrico do Cunene, logo ao norte da fronteira».
A barragem do Cunene era um projecto conjunto de Portugal e África do Sul, para «abastecimento de energia eléctrica e água ao sul de Angola e ao sudoeste sul-africano» - a Namíbia.