CAVALEIROS DO NORTE!! Batalhão de Cavalaria 8423, última guarnição militar portuguesa nas terras uíjanas de Quitexe, Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange, Songo e Carmona! Em Angola, anos de 1974 e 1975!

sábado, 30 de junho de 2012

1 334 - O Encontro das 4 Companhias dos Cavaleiros do Norte

Madaleno, Monteiro, Viegas, Neto, Caixarias, Pinto e Cordeiro,
todos do PELREC da CCS do BCAV. 8423, no encontro de Barracão (1996)

A ideia do reunir as 4 companhias dos Cavaleiros do Norte tem muitos adeptos e é manifestamente interessante. Tem absoluta viabilidade, carecendo, todavia, de mobilizar bastantes recursos. Do encontro de 1996, o último que as juntou, recordo os almoços preparatórios no restaurante S. Sebastião, em Pombal - que juntaram com (o capitão Castro Dias e o (furriel) Dias, da 1ª. Companhia, eu mesmo (da CCS), o Matos (furriel) e o Carvalho (alferes), da 2ª. CCAV, com (os alferes) Pedrosa de Oliveira  e Mário Simões (de Santa Isabel). 
Apanhou-me (e ao Matos) Castro Dias na entrada da auto-estrada da Mealhada e aí fomos nós,  por aí abaixo, até ao S. Sebastião, onde almoçámos e delineámos ideias - cabendo ao Carvalho e ao Pedrosa, o trabalho local de negociação do restaurante.
Um outro almoço, mo mesmo S. Sebastião (pelo menos mais um), estabeleceu a ementa final e tudo avançou para a dia 1 de Junho desse 1996 - quando, entre Cavaleiros do Norte e famílias, se juntaram mais de 400 pessoas. Um número realmente extraordinário!
Olho aqui para a listagem e dou conta de que já faleceram, pelo menos e dos que participaram, o comandante Almeida e Brito, os sapadores José Louro e José Coelho, os atiradores Leal e Vicente, o carpinteiro Marques, todos da CCS e do Quitexe. Também também o 1º. sargento Norte (2ª. CCAV.) e o furriel Capitão (3ª.  CCAV.). Outros terão falecido e para eles (todos) vai o nosso até já de saudade.

1 333 - O futebol de Carmona na 2ª. divisão de Angola

Estádio 4 de Janeiro, antigo campo 
do Clube Recreativo do Uíge, em Carmona (Uíge)


O que aqui venho falar nada tem a ver com os Cavaleiros do Norte, mas com futebol e a antiga Carmona: dois clubes da cidade (agora chamada Uíge) iniciam amanhã a disputa do Torneio de Apuramento para a próxima época do Girabola: o União Sport do Uíge e União Stade do Uíge.
A jornada, aliás, começa já hoje, com dois na Série A - Domang do Bengo-Benfica de Cabinda e Pekendek de Malange-Polivalentes FC - e dois da série B - o Petro do Huambp-Ecale do Cunene e Dragões de Kuando Kubango-Benfica do Huambo.
Jogos de amanhã:
- Grupo A: Ritondo de Malange-Stad do Uíge, União Sport do Uíge-Baixa de Cassange (Malange), Norberto de Castro-Porcelana do Kwanza Norte e FC Cabinda-S. Salvador do Zaire.
- Grupo B: ARA da Gabela-Desportivo da Huíla, Benfica do Lubango-Académica do Lobito, União da Catumbela-Desportivo do Chingo e 1º. de Maio de Benguela-17 de Maio de Benguela.
Sobem os vencedores dos grupos e os segundos jogarão, entre si, a terceira vaga no Girabola (a nossa Super Liga Sagres, ou 1ª. divisão)



sexta-feira, 29 de junho de 2012

1 332 - Reunir as 4 companhias do Batalhão...


A ideia foi (re)lançada no Encontro de Paredes, pelo engº. (ex-alferes) Cruz, que agora goza os privilégios da reforma e será, em 2013, o mordomo da CCS: reunir o batalhão. As 4 companhias! Sem tirar nem pôr!
Não seria inédito: o primeiro encontro, em 1994 (a 9 de Setembro), reuniu na volta das 200 pessoas, na Estalagem da Pateira, em Águeda, e bem me lembro das dezenas de hora que,  então, passei ao telefone, procurando localizar gente espalhada pelo país e que fui descobrir aos mais inusitados e inesperados sítios. Mais avantajado foi o segundo, já em 1996, no Barracão (Leiria), onde se juntaram na ordem das 400 pessoas, mas então com uma equipa organizadora bem mais alargada e dividida pelas 4 companhias.
Deste encontro, entre outros episódios mais ou menos emotivos, recordo a epopeica viagem de um companheiro do Quitexe que, de motorizada, se fez à estrada com a mulher e mais de 200 quilómetros pela frente e para cada lado. E a presença do Leal, já, surpreendentemente, com vários netos pela mão - ele que tinha 42 para 43 anos mas já era pai quando jornadeámos por Angola. 
E, desfiado em memórias de tempo mais recente,  ocorre-me a viagem do (alferes) Almeida, em 2010, que veio de Marraquexe (em Marrocos), directamente para o encontro desse ano - de novo na estalagem da Pateira.
Agora, foi o Guedes a lançar o que ele pensa de melhor para estes "velhotes", antigos expedicionários de uma guerra a que "fechámos portas": reunir o batalhão!!! Reunir, reunir, reunir..., reunir as 4 companhias!!!
Reunir o batalhão, essa tanta e saudosa gente, parece-me algo ousado, na verdade quase, quase um atrevimento - mesmo embora com as facilidades de comunicação de hoje e as acessibilidades imensamente mais fáceis e rápidas, quando comparadas com as de há 18 anos! Mas não será por isso (pelo que eu penso) que não se fará o encontro. E dou as mãos com uma data: Maio de 2014, quando 40 anos se passarem da nossa partida para Angola.
Eu estou nessa!!

quinta-feira, 28 de junho de 2012

1 331 - O corajoso depoimento do (furriel) Guedes






O Guedes nasceu pelas arribas do Douro, na aldeia de Moura Morta do Peso da Régua. Fez-se à vida por escolas e seminários e chegou aos Cavaleiros do Norte como furriel miliciano da 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa. A tropa o levou à jornada de África e a tropa o trouxe a Lisboa, voando de Luanda a 10 de Setembro de 1975.
Entrou para a GNR e fez carreira nas Brigadas de Trânsito, chegando a sargento-mor. Algumas vezes a vida nos encontrou, pelos anos 80, patrulhava ele a EN1 e, sabendo-me de Águeda, aqui me procurando. E nos encontros dos Cavaleiros do Norte dos anos 90.
Acha-se agora reformado e as curvas da vida apanharam este companheiro com um problema prostático. Operado em Janeiro de 2011, a um cancro nesta magna e sensível zona do corpo masculino, resultou bem a tarefa e recupera tranquilo.
Ele mesmo, em depoimento de coragem, nos dá conta de como, sem tabus mas serenamente, foi «matando» a doença: «Creio que o problema está sanado, os níveis do PSA não evoluíram, até ao momento, tenho feito análises trimestrais e sinto-me tranquilo».
Os finais de 2011 voltaram a ser-lhe tensos, quanto teve «um ameaço de AVC», com a tensão a disparar para valores proibitivos. «Verdadeiramente, nunca me senti mal. Apenas senti, durante o dia, o entorpecimento do braço direito, o que aconteceu várias vezes, servindo de aviso, claro...», conta ele, sem complexos mas com coragem de quem sabe enfrentar perigos, há distância de meses e sossegado sobre a sua saúde, mas sabendo que a tensão alta tem agora de ser controlada.
«Temos de ir aprendendo a viver com estas nuances. De resto, está tudo bem, continuando a dedicar-me à agro-pecuária, à segurança privada e a uns almoços com os amigos, o que de algum modo me mantém "vivo". Estou bem, nada de preocupante...», sossega-nos o Guedes, sobre o que ele próprio considerou «a realidade muito difícil de aceitar» com que se confrontou vai para ano e meio, mas assumindo, de corpo e alma inteiros, que «temos de ser fortes e perseverantes».
E o blogue pode falar disso, ó Guedes?, perguntei-lhe eu.
«Claro que podes, não sentirei qualquer constrangimentos. Isto, não há segredos. É a realidade nua e crua e é a falar das coisas que nos podemos alertar para elas».
Aqui fica, Guedes, o teu exemplo de alma e luta.
Não é dos fracos que reza a história!!!
- GUEDES. António Artur César Monteiro Guedes, furriel
miliciano atirador de cavalaria. Natural de Moura Morta 

(Peso da Régua), sargento-mor da GNR, aposentado e 
residente em Foros de Salvaterra.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

1 330 - Não dêem a independência a Angola!

Algumas das primeiras notícias que me chegaram ao Quitexe (nas primeiras semanas de Junho de 1974)  foram em forma de jornal. Uma delas, assaz surpreendente e curiosa, retirada da boca de uma portuguesa em Londres, nas comemorações do dia 10: «Não dêem a independência a Angola! Não dêem a independência a Angola! Não dêem a independência a Angola!».
Exactamente 3 vezes, assim falou a compatriota, aos microfones da RTP.
As coisa não iriam bem por Portugal, embora as labaredas revolucionárias continuassem a entusiasmar o povo. Mas era também por 10 desse Junho que o General Spínola, então Presidente da República, dava alertas para reflexão: «Nesta hora confusa, nesta hora mista, em que a traição campeia com o autêntico patriotismo (...)», disse o general, nas comemorações da base aérea da Ota.
O jornal semanário chegava-me às terça-feiras (o 10 de Junho foi a uma segunda e te-lo-ei lido, pois, a 18 de Junho) e relatava incidentes em Lisboa, com manifestações, cartazes  rasgados e comícios improvisados e com polémicas. E nós no Quitexe, a pensar nestas coisas e na independência de Angola, de onde (apenas lá chegados há menos de mês) queríamos era vir embora.
Galvão de Melo, general da Junta de Salvação Nacional e ainda nós em Santa Margarida (a 27 de Maio), alertara para «o mau uso que se vem fazendo da liberdade ao povo de Portugal». Os enxovalhos a que muitos portugueses foram sujeitos, a falta de autoridade, os excessos do caldo revolucionário que se vivia, a indisciplina que medrava nos quartéis, alguma (ou muita) violência nas ruas, tudo isso dava que pensar.
«A anarquia acabará, fatalmente, por abrir a porta a novas ditaduras», avisa (e avisava-se) o general Spínola.
E nós, no Quitexe?
«Isto, mais mês menos mês vamos embora...», dizia o Neto, menos dado a leituras que eu, menos reflexivo e mais pragmático na hora das convicções e quando no quarto falávamos destas coisas. 
«Mais menos menos mês, vamos embora...», persistia ele.
A verdade é que houve independência, mas os Cavaleiros do Norte por Angola ficaram até Setembro de 1975. 

terça-feira, 26 de junho de 2012

1 329 - Visitas militares e convidados da administração civil...

Administração do Concelho do Dange, no Quitexe (à direita) e residência
do administrador, na foto de baixo. Em cima, o edifício, em 2012


A 26 de Junho de 1974, hoje se fazem 38 anos, os comandantes da ZMN e CSU - respectivamente, brigadeiro Altino de Magalhães e coronel tirocinado Bastos Carreiras - visitaram Aldeia Viçosa e Santa Isabel, onde se aquartelavam a 2ª. CCAV. e a 3ª. CCAV. 8423 - e Vista Alegre, onde jornadeava a CCAÇ. 4145, «encostada» aos Cavaleiros do Norte. 
Altino de Magalhães acumulava funções com as de Governador do Distrito do Uíge e, nesta qualidade, fez-se acompanhar pelo administrador do concelho do Dange. O objectivo era «o estreitamento de relações entre as autoridades civil e militar».
O concelho do Dange foi criado em1961, com sede na vila do Quitexe, tendo Rodrigo José Baião como primeiro administrador (vindo de Chefe do Posto de 31 de Janeiro), seguindo-se Meneses e Pereira, João Nunes de Matos, Raúl Teixeira (interino) e Octávio Pimental Teixeira - que suponho ser o do tempo dos Cavaleiros do Norte, a ele se sucedendo Galina (interino). Dados DAQUI.
A delegação militar era acompanhada por Almeida e Brito, o tenente-coronel que comandava o Batalhão de Cavalaria 8423, e pelo administrador do Quitexe,  participou «em todas as reuniões de mentalização realizadas no decorrer do mês» e, inclusivé, se deslocou a Aldeia Viçosa, Vista Alegre e ao Destacamento de Luísa Maria.
Almeida e Brito tinha alguma «vantagem» nestes contactos. Já tinha passado pelo Quitexe, enquanto major de operações do Batalhão de Cavalaria 1917 - 5 anos antes.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

1 328 - O Eusébio de Zalala...

Pinto, Eusébio, Mota Viana e Rodrigues (em cima), 
Dias, Queirós e Barreto em Belmonte (a 23 de Junho de 2012)


Eusébio foi furriel miliciano atirador de cavalaria na épica Zalala, na guarnição comandada pelo (capitão miliciano) Castro Dias, a última que por lá ergueu e arreou a bandeira de Portugal, a 25 de Novembro de 1974.
A primeira memória mais segura que tenho de Eusébio, já em Angola, foi pelos algures de Julho ou Agosto de 1974, quando o pelotão que integrava (suponho que o do alferes Sampaio) esteve de reforço ao Quitexe e, na casa dos furriéis, o vi febril de paludismo. Eu mesmo, semanas antes, tinha sido «salvo» dos calores da doença - da qual tínhamos muitos avisos, já desde o Portugal Europeu. Que seria até mortal, se de carácter agudo; ou crónico, igualmente podendo levar à morte.
Meu pai tinha tido experiência curta no pelo Hospital de Águeda, sabia da doença e eu crescera na adolescência ouvindo-o falar de paludismo, de que um primo dele tinha sido vítima em Nova Lisboa, pelos anos 40 do século XX.
Sendo iminente a guerra que estaria no meu destino, lá me ele foi aprudentando contra tal doença infecciosa e endémica, característica das regiões tropicais.
Os acessos febris que senti, pouco espaçados no tempo, levaram-me à consulta do dr. Leal, que me receitou e defendeu. E dele guardei a medicação de sobra, não fosse voltar a precisar. Precisou o Eusébio, que, em estado febril adiantado, deambulava uma noite da casa dos furriéis e a quem, na urgência, dei parte dos compridos e levei a acordar o Lopes, para a injecção da ordem e o pontapé no tal paludismo.
Perdi-me nesta lembrança, a relembrar o Eusébio palúdico, quando venho aqui hoje mas para falar do Eusébio sexagenário, que na sexta-feira foi anfitrião emocionado de 6 zalalas: o Pinto, o Mota Viana, o Rodrigues, o Dias, o Queirós e o Barreto, todos (menos o Mota Viana) já aposentados e, logo por isso, prontos e sempre disponíveis para estas jornadas de afecto e de saudade. Está-lhes no sangue!
O Eusébio, a quem a vida não facilitou (roubando-lhe a perna direita), foi companheiro e amigo da jornada angolana e posso imaginar a emoção que lhe varreu a alma ao abraçar, neste sábado 23 de Junho de 2012, aqueles «ganda malucos» de Zalala. 
Grande abraço, Eusébio!!!
- EUSÉBIO. Eusébio Manuel Martins, furriel miliciano atirador de cavalaria. Aposentado da função pública e residente em Belmonte.
- PINTO. Manuel Moreira Pinto, furriel miliciano de Operações Especiais (Rangers). Empresário, residente em Paredes.
- MOTA VIANA. Fernando Manuel da Mota Viana, furriel miliciano atirador de cavalaria. Comercial de artes gráficas, residente em Braga.
- RODRIGUES. Américo Joaquim da Silva Rodrigues, furriel miliciano atirador de cavalaria. Aposentado e residente em Vila Nova de Famalicão.
- DIAS. João Custódio Dias, furriel miliciano de Transmissões. Aposentado da Polícia Judiciária, residente em Tomar.
- QUEIRÓS. Plácido Jorge de Oliveira Guimarães Queirós, furriel miliciano atirador de cavalaria. Aposentado do sector comercial automóvel, de Braga.
- BARRETO. Jorge Manuel Martins Barreto, furriel miliciano enfermeiro. Aposentado da função pública, residente no Porto.

domingo, 24 de junho de 2012

1 327 - As mentiras que se pregavam às mães e namoradas...

O Banco das Mentiras, na terra uíjana do Quitexe (1972

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ANTÓNIO CASAL DA FONSECA

A foto acima não foi tirada por caso ou, para ser apenas mais uma. O cadeirão, feito pelo carpinteiro da CCS, servia também para fotos de pose para enviar à família, dando a ideia de que tudo aquilo era maravilhoso. Alguns aproveitavam para enviar às  namoradas, em ponto grande e com dedicatórias que eu escrevia para lhes dar mais ênfase! Como nas cartas e aerogramas do Luis e do Mário José, quando achavam necessário levantar a moral e paixão das suas namoradas. Penso que numa missiva terá até seguido moral a mais! Talvez paixão a mais!
«Escreve-me umas coisa bonitas mas ditas assim mais à maneira da minha terra!», dizia-me o Mário, com o seu ar malicioso bem aguçado e também receoso de que a sua “jarra”  terra-bourense se virasse para o vizinho, que não iria perder a oportunidade de lhe arrastar a asa!
«Se o gajo lhe deita o caliço, bem me pode esperar!», ameaçava ele, já sem o seu habitual sorriso maroto! Bom, quem segurou o braço do capitão em momentos tensos aquando da revista às instalações, certamente não teria pejo em acertar contas com o D. Juan de Terras de Bouro!
Voltando ao cadeirão, vejo que a foto nele tirada tem uma legenda que não corresponde à verdade, apenas uma mentira bem intencionada que tinha como destinatários os meus progenitores!
Ontem mesmo (e desculpem o assunto pessoal), em conversa com a minha mãe, que já vai nos seus 96 anos, quis armar-me em esperto e contei-lhes algumas das aldrabices e omissões com que a brindei nas missivas, fazendo-a crer, devido a uma doença do foro cardíaco que a atormentava na época, que, em Angola, eu não estava na zona de guerra nem no mato, mas, sim, num paraíso como se estivesse em férias permanentes!
Ouviu-me, como sempre sem me interromper, e no fim disse-me com o seu ar calmo, de quem não tem pressa para coisa nenhuma:
«Então, 40 anos depois estás aqui com esse ar todo esperto e na altura não tiveste esperteza para perceberes nas minhas cartas que eu nunca acreditei numa palavra tua?! Tu até tiraste uma fotografia à porta de uma igreja com o teu amigo da Marinha Grande, só para dizeres que ias à missa! Foste lá uma vez ou duas, e vá lá…vá lá!..., não te conhecesse eu de gingeira! E não me venhas para aqui falar outras vez que aquilo é que eram bons tempos!..., já ficas de aviso
E avisado fiquei, e até meio desconcertado, quando vi o dedo indicador na direcção dos meus olhos!
Bons tempos não terão sido, dei eu comigo a pensar, com um filho recém-chegado de Zalala e outro recém-chegado ao Quitexe! E também com oito vizinhos, simultaneamente, divididos por Angola e Guiné e com noticias aterradoras que punham a pacatez daquele canto da aldeia em estado de sítio! Para entender, não será necessário puxar muito pela imaginação!
Ora bolas, fiquei eu a pensar diante do ar calmo e extremamente maduro da minha mãe, tantos cuidados com as cartas e fotos, algumas tiradas em Luanda e Carmona, e venho a saber que a minha esperteza, afinal, não terá passado de esperteza saloia! Digo eu!
Sim senhora, senhora minha mãe, depois do meu pedido de desculpas, aqui me penitencio! É a vida!!!
ACF

sábado, 23 de junho de 2012

1 326 - A coluna de Carmona para Luanda...

Coluna para Luanda, em Agosto de 1975. Furriel Guedes e soldado Santos (2ª. CCAV.), 
1º. cabo Deus (??, da 3ª. CCAV.), 1º. cabo Mendes (2ª. CCAV.) e outro militar de Santa Isabel 


A epopeica coluna de Carmona para Luanda já foi aqui evocada em várias postagens de Agosto de 2010, com publicação de algumas imagens, algumas sem identificação, ou com a que foi possível. O Guedes, veio agora corrigir a de 12 desse mês, dando nota de nomes da fotografia - onde ele próprio está.
O episódio da viatura avariada foi protagonizado pelo grupo do Guedes, ainda antes de a coluna chegar ao Negage. Viatura que o comandante Almeida e Brito «peremptoriamente determinou que fosse ribanceira abaixo», vem dizer o (ex-furriel miliciano) Guedes, já sem memória sobre quem a tripulava e teve de se mudar para outra, o que para o caso pouco importa, tantos anos depois.
A coluna, recordemos, saiu de Carmona a 4 de Agosto de 1975, com 210 viaturas militares (ou civis, ao serviço das NT), a que se juntaram, em vários pontos do percurso (mas já a partir da capital uíjana), mais de 700 viaturas e «milhares de desalojados que procuravam o refúgio protector nas NT». Coluna escoltada por uma Companhia de Comandos (à frente) e outra de Pára-quedistas (a fechar), aviões de combate (Fiat´s) e helicópteros. No Negage, juntaram-se as viaturas e pessoal da Base Aérea 3 e das Companhias de Caçadores ali estacionadas.
A coluna, após peripécias narradas mas postagens de Agosto de 2010 (e outras) chegou a Luanda às 12,45 horas de 6 de Agosto, após percorrer 570 quilómetros, em 58,45 dramáticas horas.

- GUEDES. António Artur César Monteiro Guedes, furriel 
miliciano atirador de cavalaria. Natural da Régua, sargento-mor 
da GNR, aposentado e residente em Foros de Salvaterra.
 Ver AQUI

sexta-feira, 22 de junho de 2012

1 325 - O pó de que somos feitos e voltaremos a ser...




Cruzamento da RIMAGA, na Avenida de Portugal, em Carmona. Em destaque, o «plinto» do polícia sinaleiro, que se punha no centro da avenida


A formação do (que seria) futuro exército de Angola, no caso de Carmona integrando elementos da FNLA e da UNITA, pois o MPLA tinha sido «corrido» do Uíge, levou à simultânea constituição de Estados Maiores Unificados, quer no CTC, quer no BCAV., esperado-se «encontrar em tais elementos uma colaboração que permita levar a bom termo o processo em curso».
Os Cavaleiros do Norte - e cito do Livro da Unidade - estavam «verdadeiramente imbuídos do sentido de grandeza próprio do consciente desinteressado e leal desejo de cumprir a missão que está sendo imposta pelo processo de descolonização». Estar, estavam. Não há dúvidas. Viviam-se é momentos muito conturbados e o rescaldo dos incidentes dos primeiros dias de Junho de 1975 continuava a perseguir a tranquilidade que se desejava, para construir a paz.
Escrevia eu, com data de 21 de Junho de 1975, em notas pessoais que agora reli:
«Há corações e almas em arrepios, passeia-se na cidade e sente-se o cheiro e o peso da morte, que alguns homens parecem carregar nas mochilas ensaguentadas, parecem disparar sobre tudo o que mexe, sem olhar a cor do alvo, o tamanho da criatura, sem nojo do luto que semeiam. Hoje, perto do sinaleiro da Rimaga, um grupo de soldados foi alvo de chacota, de escárnio e agressões verbais. Resistiram enquanto puderam à tentação da resposta, sangrando-lhes os nervos de raiva, mas serenando-se. Estes soldados, que não são deste chão e já não são desta guerra, foram uns heróis. Não porque foram mais rápidos no gatilho, e na rajada, derrubando um inimigo que não têm, nem querem ter. Não porque foram cobardes, porque não reagiram a quem os quis humilhar, emboscando-lhe a honra e o garbo de militares! Não foram heróis por outra coisa que não fosse o seu sentido de missão. Foram heróis que não vão ter medalhas, mas são construtores do alicerce que se abre na construção do país novo».
Reli e emociono-me. O grupo que chegou e interveio, evitando um confronto que poderia ser trágico, era formado por homens do PELREC: o Garcia (alferes que comandava), eu, o Francisco, o Madaleno, o Vicente, o Soares, o Pinto, o Hipólito, o Almeida, o Caixarias e outros, que ao tempoa já me apagou da memória. Também o condutor Gaiteiro, o enfermeiro Florindo, o transmissões Moreira.
O Garcia, o Vicente, o Leal, o Almeida, pelo menos estes quatro companheiros já partiram. Não os levou a guerra de Angola, levou-os um sopro do pó de que somos feitos e voltaremos a ser!

quinta-feira, 21 de junho de 2012

1 324 - O aviário cheio de frangos em tempos de guerra...


Grupo de Militares de 1ª. CCAV. 8423 (em cima) e Eusébio (em baixo) 


Um grupo de «zalalas» vai amanhã viajar até Belmonte, para abraçar o Eusébio, que de lá é e por lá vive! Vão matar saudades e reviver emoções como as que, há precisamente 37 anos, viviam(os) por Carmona.
 «Passámos muitos maus momentos, muitas noites sem dormir e sempre à espera de ataques e preparados para a defesa da guarnição»,  recorda o Rodrigues, por lá foi furriel miliciano atirador de Cavalaria do BCAV. 8423 e um dos que viaja para Belmonte.
Os dias da capital do Uíge, por este tempo de Junho de 1975, foram bem amargos, na verdade e como por aqui temos dito. Era «um ambiente de cortar à faca», como bem recorda o Rodrigues - que a Carmona chegou, integrado na 1ª. CCAV., a 6 de Junho, completando-se a rotação no 12 seguinte.
  Os «zalalas» ficaram instalados no Comando do Sector e lá ocorreu um episódio com um civil, dos muito que por essa altura começaram a abandonar a zona, fugindo aos conflitos que iam matando muita gente e semeando muitos lutos. 
Um belo dia, apareceu o homem a dizer que ia para Luanda, porque  as condições  na zona envolvente a Carmona já não ofereciam segurança (dizia ele), mas que não podia levar o aviário que tinha cheio de frangos. Que os deixava para a tropa. 
«Deram uns belíssimos churrascos durante dias e dias seguidos, numa ementa que ninguém pensava ser possível, nesse tempo e nessas condições», recorda o Rodrigues.
A tropa, então, de aviário cheio, não se deixou para dietas: «Era meio frango para cada um, numa época em que faltava quase tudo,  em termos de alimentação e isto durante uns dias», disse o Rodrigues. 
Encheram o papinho de frango, nos intervalos da guerra.
- EUSÉBIO. Eusébio Manuel Martins, furriel 
miliciano atirador de cavalaria. De Belmonte, 
onde reside e é aposentado da função pública.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

1 323 - A tropa portuguesa isolada, preocupada e quase sem motivações

Parada do BC12, em Carmona, com o (ex-libris) depósito de água


A 29 de Junho de 1974 (há 38 anos, hoje se fazem),  iniciou-se a primeira grande operação militar do BCAV. 8423, denominada Castiço DIH e que se prolongou até Julho, envolvendo todas as sub-unidades e dividida em quatro fases. Já  AQUI  falámos disso.
Um ano depois, por Carmona de 1975 - onde a CCS estava desde 2 de Março e depois dos dramáticos incidentes da primeira semana -, vivia-se «uma calma ainda mais fictícia e preocupante», devido, essencialmente, às desconfianças da FNLA (a vencedora militar da província), que considerava «discriminatória e partidária»  a posição das NT, do que resultou, e citamos o Livro da Unidade, «um período seriamente preocupante para o BCAV. 8423».
Levou tempo até que os responsáveis da FNLA (e particularmente o seu braço armado, o ELNA) compreendessem a posição da tropa portuguesa, o que, com a felicidade que se adivinha, «acabou por colmatar as desinteligências existentes», pelo que, por esses dias de Junho de 1975, se acalmou a situação e «novamente se reiniciou a calma no distrito» - o Uíge, de que Carmona era a capital.
Uma calma aparente, digamos! Uma paz simbólica! Na verdade, basta ler o Livro da Unidade para recordar os dias de Junho de 1975, quando «daí resultou, contudo, calma ainda mais fictícia e preocupante e, no rescaldo,  a verdadeira conclusão é que, mais que nunca, as NT, estão a viver no reino da FNLA, isoladas, preocupadas e quase sem motivações justificativas da sua estada, salvo que entendem de dever e necessária a sua presença».
Amarga conclusão, a um tempo em que a comunidade civil nos olhava de soslaio, desconfiada e provocadora.
- NT. Nossas Tropas.
- FNLA. Frente Nacional de Libertação de 
Angola, liderada por Holden Roberto.
- ELNA. Exército Nacional de Libertação 
de Angola, braço armado da FNLA.



terça-feira, 19 de junho de 2012

1 322 - Os cavaleiros à volta do capitão!...



Os cavaleiros à volta do capitão!! Seria, esta, uma boa e adequada legenda para esta imagem do encontro de Paredes (e já lá vão duas semanas e tal, vejam só como as coisas são!)
O capitão é.... Acácio Luz, Acácio Carreira da Luz!!!, que oficialou como tenente na secretaria do comando do BCAV. 8423 e, do alto dos seus actuais 83 anos, não perde oportunidade para confraternizar com os miúdos que o acompanharam na última comissão, em Angola.
Aqui está ele, bem apessoado e melhor prendado e de mão sobre o ombro da sua mais que tudo, quem o levou ao altar e lhe deu os filhos de quem sempre fala, com a ternura de quem neles tem orgulho.
E que são estes meninos imberbes de 1974, agora sexagenários sempre a morrer de saudades do Quitexe?! Olhem bem, da esquerda para a direita: o Miguel Teixeira (escriturário), o João Monteiro (Gasolinas), o Alfredo Coelho (Buraquinho), o capitão Luz e esposa, o Delfim Serra e o Joaquim Celestino (condutores), o Aurélio  Júnior (Barbeiro, a espreitar), o Joaquim Moreira (enfermeiro) e o Domingos Teixeira (estofador).
Assim, todos vestidos de branco, parecem até uns anjinhos da guarda. Parecem, mas não são! São Cavaleiros do Norte.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

1 321 - Os primeiros contactos dos Cavaleiros do Norte com os quitexanos

O Clube do Quitexe, onde os Cavaleiros do Norte (Junho de 1974) 
reuniam com a Comissão Local de Contra-Subversão, população civil, comerciantes, 
autoridades da vila e autoridades tradicionais, para falar do Programa do MFA

A 17 de Junho de 1974 - já lá vão 38 aninhos, passados ontem! -, o comandante do Batalhão de Cavalaria 8423, tenente coronel Almeida e Brito, teve uma reunião com a comunidade civil do Quitexe, no Clube e «com vista a preparar e mentalizar as populações para o Programa do MFA».
Ao tempo, de resto, fez «variadíssimas reuniões de trabalho» para esse mesmo efeito. E compreendiam-se: havia muitas dúvidas sobre o programa e muitas mais quanto ao futuro dos residentes, naturais ou principalmente dos metropolitanos. A Comissão Local de Contra-Subversão reunia normalmente e nesse dia reuniu, mas até com espírito diferente. 
Até aí, agia directamente junto das populações, através de acção psicológica e visando influenciar o seu comportamento, no sentido de promover uma maior fixação no território e de negar o apoio a elementos infiltrados do exterior - o clássico inimigo. Era uma espécie de braço civil não armado (com militares) de apoio às Forças Armadas. Assim era no Quitexe. mas deixou de ser, para os militares explicarem os novos ventos da  história.
Os Cavaleiros do Norte tinham chegado a 6 de Junho (ao Quitexe) e só a 14 assumiram a responsabilidade da sua  Zona de Acção. Compreende-se, por isso, o ritmo de reuniões com a CLCS (a 19 e 26 de Junho de 1974), com os comerciantes e população da vila (a 17) e as autoridades tradicionais (22 e 29). Anunciavam ao que vinha o Programa do MFA e apresentavam a suas credenciais.

domingo, 17 de junho de 2012

1 320 - Os negócios do 1º. sargento e o soldado «borra-botas»...



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ANTÓNIO C. FONSECA
Texto (e na foto)

Nunca fui grande apreciador de bebidas brancas e, talvez por isso mesmo, tenha sido dos poucos sem stock de garrafas de whisky, principalmente do que se fabricava em Angola. Não era grande coisa, segundo diziam os entendidos na matéria, embora alguns destes “entendidos” nunca tivessem provado tal tipo de bebida antes de pisar solo angolano! O que normalmente se bebia por cá era vinho, do bom, do puro, da adega, ali a escorrer da ruidosa torneira de madeira! Agora, whisky…, qual whisky, deixemo-nos de coisas!
Mas tínhamos por lá, pelo Quitexe, grandes apreciadores e também dos que faziam grandes negócios com o dito! Negócios feitos, alguns por gente do quadro, já batidos naquelas andanças e sempre à espreita do lucro fácil! Já se tornava difícil avaliar quem conseguia maiores lucros, tais eram as movimentações e os esquemas que aqueles cérebros engendravam. Negócios que, por vezes, punham a um canto os bem sucedidos esquemas dos combustíveis e outros, supervisionados pelo Palma, que também é Florentino e com raízes em Mira d’Aire (isto em resposta à pergunta, não inocente, do Cavaleiro JD)!
Claro que nunca me interessaram tais actividades e até delas me ria quando, ingenuamente, alguns falavam quase em código, pensando, talvez, serem os únicos seres inteligentes à face da Terra! Todos os outros eram burros, porque não percebiam o que se passava, ou porque não eram suficientemente espertos para o negócio! Mas diz-nos a vida que, quando nos sentimos os únicos espertos, estamos à beira de sentir também cangalhas nas costas, colocadas por supostos asnos!
Tudo isto me passaria ao estreito, não tivessem um dia tentado usar-me  no negócio das bebidas!
Então e não é que certo dia, no posto de rádio, fui confrontado com uma ordem estranha de um 1º, sargento do quadro?! Abeirou-se de mim, com uma lista na mão,  para que eu contactasse, via rádio, os seus tentáculos espalhados pelas companhias operacionais?! E que o fizesse usando os códigos possíveis, afim de não ser detectado!
Afinal, o esquema já ultrapassava a barreira da CCS, coisa que eu até ali desconhecia!
Estupefacto, ouvi o recado até ao fim, como um bom subordinado, mas no fim saltou-me a tampa e meti o 1º. na rua, à bruta e sem medir as consequências, valendo-me eu da área ser reservada!
«Empurraste o nosso 1º., pá!!!!... Vamos ver se o gajo não te f…lixa!», dizia-me preocupado o Mario José, que eu acabara de substituir e que já se prontificara a ficar no meu lugar enquanto eu chamava o oficial de transmissões ao posto de rádio, afim de lhe dar conta do sucedido e proceder como ele melhor entendesse!
Tanto quanto soube, o 1º. sargento não se livrou de um forte aperto de calos, não passando de mais um no vasto currículo. A minha atitude mais brusca, assim como o meu depoimento, só não se viraram contra mim porque o Zé, que era (e é) de Murça, e que ainda faz o favor de ser meu amigo, disse ao comandante Trindade e Lima: «Meu comandante, posso não passar de soldado borra-botas, mas ninguém é mais honesto que eu!».
O comandante apreciou, e muito, a sua postura, mas aquela do “borra-botas”, nem por isso!
«Fica o soldado a saber que neste batalhão não há borra-botas!»,corrigiu-o, com voz  forte e determinada, demonstrando a quem cabia a última palavra!!!
E a vida no Quitexe continuava, calma e serenamente, também um pouco alimentada por estes e outros episódios que no fundo nos aliviavam de outras preocupações! E distraíam!
ANTÓNIO C. FONSECA

sábado, 16 de junho de 2012

1 319 - Forte tensão emocional em Junho de 1975

Almeida é o 2º. da direita, em cima e com a garrafa na mão. Com ele estão, o Hipólito (também com uma garrafa), Monteiro (à civil) e Vicente (de bigode). Em baixo, Garcia, Leal, Neto e Aurélio (Barbeiro), todos do PELREC. Almeida, Vicente, Garcia e Leal já faleceram 



O mês de Junho de 1975 foi evoluindo, na província do Uíge, «sob forte tensão emocional, quer pelos alguns atritos que voltaram a dar-se, quer também porque se estão vivendo momentos de carências logísticas», o que não era mais que «reflexo do estado latente de conflito que continua» - como se lê o Livro da Unidade.
As questões logísticas, compreendem-se: uma das razões foi a parada do BC12 ter estado largo dias com milhares de civis, ali recolhidos durante os incidentes dos primeiros dias do mês e que tinham de ser alimentados. E foram, pelas Forças Armadas. Não me falha a memória, de Luanda veio um avião carregado de farinha. E de avião porque era difícil a circulação nos itinerários rodoviários. Se se ia de área controlada pela FNLA, não se passava para a do MPLA, porque se ia da... FNLA. O inverso também era verdadeiro.
E não falha também a memória para recordar que a padaria esteve em produção permanente durante dias seguidos, noite e dia, a fabricar pão. 
Tal viria a justificar um louvor ao 1º. cabo atirador Almeida (do PELREC), entre outras razões porque, encarregado do serviço de padeiro, «teve especialmente notório esforço durante os dias em que foi prestado auxílio aos refugiados dos incidentes em Carmona, trabalhando noite e dia, para apoiar tão elevado número de pessoas».
- ALMEIDA. Joaquim Figueiredo de Almeida, 1º. cabo 
atirador de cavalaria. Natural de Penamacor.
Faleceu a 28 de Fevereiro de 2009.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

1 318 - Os 1ºs. cabos da messe de oficiais do Quitexe

Miguel e Almeida no bar da messe de 
oficiais (1974), servindo-se de canecas de cervejas

Ontem, falámos aqui do gerente da messe de oficiais - o alferes Almeida, que também ontem comemorou 65 anos!! Hoje, postamos dois companheiros que,  por outras razões, serviram na sobredita messe: os 1ºs. cabos Miguel e Almeida.
Este, por natureza da sua formação militar: justamente cozinheiro. O Miguel, pelo jeito de bem servir, empratar e levar a mesa, entre dois sorrisos e umas boas petiscadelas na cozinha. Fazia vida principal pela secretaria da CCS, onde era escriturário, a sua formação militar. E era rapaz bem folzagão, divertido, feliz e bem disposto, sempre de graça na ponta da língua. Era (é) do Porto e...  basta dizer. Ainda agora mostrou disposição rasgada, no encontro de Paredes - o de 6 de Junho de 2012. Bem o conheci!!! E bem o reconheço!
O Almeida, 1º. cabo cozinheiro, foi louvado pelo comandante da CCS, o capitão Oliveira, como militar de «inexcedível zelo e eficiência, postos no seu trabalho, durante toda a sua comissão de serviço». A que aliou, e isto respigo o louvor do Comando, «inteira competência e dedicação profissional, proporcionando que a alimentação fosse reconhecida pela qualidade na confecção e, até, por certo requinte». Mais: «Auxiliar dedicado dos seus superiores, foi incansável no trabalho, sacrificando o repouso e as próprias licenças disciplinares».
Dois companheiros do alto!
- MIGUEL. Miguel Soares Teixeira, 1º. cabo 
escriturário a CCS do BCAV. 8423. Residente 
na Senhora da Hora (Porto).
- ALMEIDA. José Maria Antunes de Almeida, 1º. cabo 
cozinheiro, conhecido por Sabóia (?).  Natural de Arganil 
e residente em Boliqueime (Algarve), onde é cozinheiro profissional.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

1 317 - Os 65 anos do (nosso alferes miliciano) Almeida

Alferes José Alberto Almeida, numa fazenda dos
 arredores do Quitexe (1974), onde ia às compras para as messes

O (nosso alferes) Almeida faz hoje 65 anos!!! Já não é oficial miliciano, que desses galões já lá se foi o tempo!!!!, mas para nós, Cavaleiros do Norte, continua a ser o oficial do reabastecimento e da justiça. É arquitecto, economista, empresário e, entre outros etc.´s e tais, Cônsul do Reino de Marrocos no Algarve.
É gente fixe, gente da boa, da alta, de sinal +!, de linhagem  e cultura acima da média, e todos falamos do (nosso alferes) Almeida com gosto, com saudade e lembrando o companheiro mais velho, que pelo Quitexe nos sorria sobriedade e inteligência. Dele assim se falou no Encontro de Paredes, há dias, logo quando o capitão Luz perguntou por ele e, depois, perguntou tanta gente que gostava de o abraçar e beber algo do que ele tem de sábio e divide.
Interpelei-o!! Digo eu: «Então, falta à formatura de Paredes?».
O (nosso alferes) Almeida, adivinho eu..., deve ter-se sorrido e tratou de prometer que «para o ano, se Deus o permitir, não faltarei ao Encontro de Santo Tirso». Que está marcado para 1 de Junho. «E para me penitenciar da minha ausência deste ano - acrescentou o (nosso alferes) Almeida -  mando-te uma das poucas fotos que tenho das campanhas de África».
A foto é a que estamos ali a ver, com ele numa das expedições comerciais que, como gerente da Messe de Oficiais (lá estava o bichinho do economista...), fazias às melhores fazendas da região, em cata de géneros frescos - que depois também erem distribuídos pela messe de sargentos e pelos praças que tinham feito a escolta.
Então, já que hoje faz 65 anos, que os comemore intensamente, feliz, muito divertido, sempre disponível para servir e como português que acredita no futuro de Portugal! Um Portugal melhor que aquele que vivemos e não é aquele com que tanto sonhámos, na nossa jornada angolana! 
Crónicas do alferes Almeida, neste blogue:
AQUI e
AQUI, sobre a sua chegada ao Quitexe
AQUI e o currículo
AQUI

quarta-feira, 13 de junho de 2012

1 316 - A 1ª. Companhia das Forças Militares Mistas de Angola

Militares da 1ª. Companhia das Forças Militares 
Mistas, na parada do BC12, em Carmona (Junho de 1975)




O tempo de Junho de 1975, em Carmona, foi de criação da 1ª. Companhia das Forças Militares Mistas (1ª./FMM), formada por elementos da FNLA e da UNITA - e que seria (mas não chegou a ser) uma parte do futuro exército angolano. 
Não foi e fartas dores de cabeça nos deram, no período de formação, ministrada pelos quadros das NT. Ao alferes Garcia (na foto à esquerda), comandante do PELREC, coube a tarefa de ensinar técnicas de tiro. Era o oficial de instrução, comigo e o Neto (ambos furriéis de Operações Especiais, como ele) na função de monitores.
A instrução era dada na carreira de tiro, no meio de um capinzal por que se descia, na frente do BC12, e não foram nada simpáticos alguns momentos por lá passados, nomeadamente resultantes da evidente inabilidade e falta de pontaria dos instruendos, com linhas de tiro completas sem uma vez acertarem nos alvos. Não acertavam nos alvos, acertavam onde? Era esse o problema, pois não se sabia, nunca se sabia!, para onde atiravam e a segurança da carreira de tiro ficava extremamente fragilizada. Perigosa!
Um dia, de farda nº. 2 (a de saída) vestida, um jovem tenente das FMM ousou disparar, no intervalo de duas linhas de tiro, sem dizer «ó burro, queres palha?!». Foi avisado pelo alferes Garcia, o oficial de tiro. Repetiu a  gracinha, porém o tenente e, numa vez seguinte, indiferente às normas e à segurança, ousou assumir a sua patente de tenente, superior à do oficial de tiro (alferes). 
Rapou, porém, o alferes Garcia de uma G3 e disparou, de rajada!!! À volta dele! Ai o que aconteceu: «desapareceu» o jovem tenente na nuvem de pó vermelho que se levantou à sua volta e todos nos alarmámos. Teria acontecido, o quê? Mas desapareceu o pó e lá estava o jovem tenente, mais branco que o negro da sua cor de pele, de pé, hirto e sem mexer um sapato! Foi remédio santo. Não mais ousou ele, em toda a instrução, dar um tiro na respectiva carreira, sem a ordem/autorização do respectivo oficial!

terça-feira, 12 de junho de 2012

1 315 - O bolo de festa dos Cavaleiros do Norte de Santa Isabel...

José Paulo Fernandes foi comandante da 3ª. CCAV. 
e aqui é o Cavaleiro maior do Encontro de Azeitão, a  cortar o bolo

A 3ª. Companhia dos Cavaleiros do Norte - a de Santa Isabel!!! -, esteve em fraterno convívio no sábado, dia 9 de Junho e em Azeitão, comungando saudades e afectos. 
Os tempos de 1974 e 1975 eram outros, mais jovens e mais intensos. Mas deles sobraram e multiplicaram-se amizades e companheirismos imortais, como os que se apalparam e viveram no segundo sábado de Junho de 2012, no encontro organizado pelo Pavanito e pelo Moço. 
O (ex)capitão Fernandes deu-nos nota que «uma vez mais foi uma festa muito alegre!». Melhor ainda: «Teve participação de alguns estreantes» nestas andanças de colo e de emoções que nos fazem adolescentes mimados, sempre que sobrevive na memória mais uma história e um momento mais vivo dos idos anos em que jornadeámos pelo Uíge angolano.
Aos já mais de 38 de partida e 37 do regresso, importa sublinhar o que diz o (ex)capitão miliciano: «Como sempre repito, apesar da importância da forma como decorre o convívio, em termos de espaço, refeição e animação, convenhamos que o mais importante é a possibilidade de nos voltarmos a encontrar pelo menos essa vez no ano».
Disse e disse bem, muito bem, adivinhando e desenhando que «para o ano, tudo se repita com a mesma alegria». O Cardoso já foi nomeado mordomo, o operacional de 2013, e o próximo convívio será em Arganil. Até para o ano, ó rapaziada!
- FERNANDES. José Paulo de Oliveira Fernandes, capitão 
miliciano e comandante da 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel. 
Aposentado, vive em Torres Vedras.
- CARDOSO. João Augusto Martins Cardoso, furriel miliciano 
de transmissões, natural de Arganil. Aposentado da 
administração fiscal, residente em Coimbra.
Ver AQUI

segunda-feira, 11 de junho de 2012

1 314 - A rotação dos «zalalas» do Songo para Carmona

Furriel Rodrigues na parada do Comando 
de Sector da ZMN (Junho de 1975)

A 12 de Junho de 1975, completou-se a rotação da 1ª. CCAV. 8423 do Songo para Carmona - depois de Zalala, Vista Alegre (com Ponte do Dange). Faz hoje 37 anos! 
Os primeiros dias foram passados no BC12, a ajudar  a instalar os civis que vieram integrados na coluna militar,  e, posteriormente, os zalalianos foram colocados no já então extinto  Comando da Zona Militar Norte (ZMN), mesmo no centro da cidade.
Os momentos bem difíceis que se tinha passado aprudentaram decisões e comportamentos da guarnição, reforçada para que pudesse «acorrer a situações semelhantes às vividas na primeira semana do mês», assim sublinha o Livro da Unidade. 
Os quartéis da área do Songo foram entregues às autoridades administrativas e igualmente foi reforçada a guarnição do Negage, onde se localizavam uma base e um hospital militares. Para lá mudou a o BCAV. 8324 (não confundir com o 8423), que tinha perdido um soldado em combate, a 17 de maio anterior. Chamava-se José Duarte da Silva e era da 3ª. CCAV. do BCAV. 8324. O batalhão estava em Sanza Pombo.



1 313 - Os artilheiros do Quitexe na Penha de Guimarães


Os Artilheiros do Quitexe por lá jornadearam de 1965 a 1967, formando a CCS do Batalhão de Artilharia 786. Chegaram à vila-mártir a 11 de Junho de 1965 e 26 deles, uns quantos de cabelo a menos e peso algo a mais, mas todos ufanos da jornada que os levou a Angola, juntaram-se na Penha de Guimarães para confraternizar, a 9 de Junho de 2012 (anteontem).
A foto da malta do convívio foi-nos enviada por José Lapa, que faz vida pelo Porto, aposentado com uns e outros «afazeres» da vida, e ali vemos à direita, de azul «à FCP» e com barba de meses, para (des)fazer um dia, mas todo espadaúdo, como se não tivessem passado 45 anoS desde que disse adeus às gentes do Quitexe.
«Pena foi o tempo não ter ajudado, pois a chuva e nevoeiro foi uma constante. Mas o mais importante foi o nosso convívio e tudo ter corrido bem», contou-nos ele, com a remessa da foto, para que outros artilheiros possam ver e evocar as memórias e as histórias de quem pelo Quitexe passou e água de lá bebeu, não mais esquecendo a vila do norte cafeícola de Angola.

domingo, 10 de junho de 2012

1 312 - O encontro dos Cavaleiros do Norte de Santa Isabel


Os Cavaleiros do Norte de Santa Isabel (alguns deles com as respectivas amazonas) estiveram ontem reunidos no encontro de 2012, em Azeitão. Cumpriu-se a tradição! «Entre cumprimentos e abraços, confraternizaram alguns, até com filhos(as) e até netos, para que este tipo de eventos, jamais sejam esquecidos», narrou-nos o (ex-alferes) Carlos Silva, dando conta que «poderiam ter aparecido mais camaradas, certamente que sim!, mas, ou pela crise ou por outros afazeres (compromissos) não estiverem neste encontro».
Não faltam emoções e recordações, a regar o entusiasmo dos (agora) sexagenários ex-combatentes, que já agendaram o encontro do próximo ano (2013), possivelmente em Arganil, no primeiro fim de semana de Junho. O «operacional de serviço» vai ser o (ex-furriel de transmissões), o Cardoso!, o terceiro da foto, à esquerda, em baixo.

sábado, 9 de junho de 2012

1 311 - Cavaleiros do Norte deram refúgio, segurança e pão

Refugiados de Carmona na parada do BC12 (Junho de 1975)

Os dias que passam de Junho de 1975 foram, em Carmona, de uma realidade nova para todos, depois da que se pode dizer vitória militar da FNLA sobre o MPLA. Vitória em Carmona, no Quitexe, no Negage e «todas das vilas do distrito onde tais forças existiam».
O Livro da Unidade refere que os incidentes começaram em Ponte do Dange - «a servir de espoleta», assim de lê no LU -, depois de «reiniciados em Luanda, transbordando para as áreas limítrofes, primeiro, e depois para todo o Quanza Norte», acabando por atingir Carmona, «em avalanche de gravíssimos confrontos entre ELNA e FAPLA».
Os dias desse Junho, vistos agora, fazem lembrar muitas emoções e como, sem hesitar um momento, se movimentaram os Cavaleiros do Norte, para salvar vidas e bens, para evitar o derramamento de sangue, o avolumar de tragédias, o morrer de famílias inteiras.
«As NT mais uma vez procuraram minimizar o conflito, procurando o seu términus rápido e diligenciando por limitar os seus efeitos», sublinha o Livro da Unidade, dando conta, também, que «contudo, como rescaldo, ainda mais vincada  ficou a hegemonia da FNLA». Na verdade, e na sequência da sua vitória militar, «tudo o que se possa considerar combatente ou simpatizante do MPLA foi expulso do distrito, nos melhores casos, porquanto noutros há a citar alguns dezenas de mortos».
A parada do BC12, por estes dias de Junho de 1975, encheu-se de refugiados - gente que fugiu à guerra da primeira semana e nas NT, nos Cavaleiros do Norte, encontrou refúgio, segurança e pão.
- ELNA. Exército Nacional de Libertação 
de Angola, braço armado da FNLA.
- FAPLA. Forças Armadas Populares de 
Libertação da Angola, do MPLA.
- NT. Nossas Tropas.



sexta-feira, 8 de junho de 2012

1 310 - A Companhia de Zalala chegou a Carmona

Comando de Sector em Carmona (1975), onde se
 aquartelou a 1ª. CCAV. 8423. A bandeira de Portugal hasteada (no destaque)


Aos seis dias de Junho de 1975, a 1ª. CCAV. do BCAV. 8423 rodou do Songo para Carmona e instalou-se no Comando de Sector. Era o terceiro pouso da jornada angolana dos comandados do capitão Castro Dias - que começaram em Zalala e passaram por Vista Alegre, com destacamento na Ponte do Dange.
Ao tempo, e com os ânimos muito mais serenados desde a madrugada de 1 de Junho (o domingo anterior, quando rebentaram os incidentes de Carmona, entre a FNLA e o MPLA) «era imperioso obter um efectivo que permitisse acorrer a situações semelhantes às vividas na primeira semana do mês», assim se lê no Livro da Unidade.
Desse 1 de Junho de 1975 (o mais dramático de toda a nossa jornada angolana!), vem-me à memória o correio de minha mãe, das vésperas, anunciando-se a festa de Nossa Senhora de Fátima, na nossa aldeia de Ois da Ribeira, abrilhantada pela Banda de Casal de Álvaro, aqui vizinha. E a procissão das velas, na noite de sábado, 31 de Maio - que eu fiz de serviço, em patrulha na cidade, a noite quase inteira! Imagine-se, entre e durante estes momentos festivos da aldeia, o que se vivia por Carmona, onde se carregaram lutos de morte e muito sangue amortalhou gente que defendia o seu metro de terra e de vida, numa luta fratricida - que já não era com a potência colonizadora, era entre irmãos.
Angola, a esse tempo - e tal recordando agora, com a serenidade dos 37 anos que se passaram! - era um vulcão aberto, a sangrar; era um ódio que desembainhava espadas e fazia explodir morteiros de sangue, onde homens se crivavam de balas; onde havia guerra a valer, a queimar a pele e a alma, a estilhaçar a carne!! Onde as armas não eram cravos vermelhos, nem os guerrilheiros pombas brancas de paz e de amor. Não eram santos, nem meninos de coro, nem depunham armas para fazer política e dar as mãos a irmãos. Entrincheiravam-se e disparavam contra quem disparava. Era assim, ninguém sabia quem dava o primeiro tiro, ou o segundo, quem despoletava a primeira granada, quem lançava o primeiro morteiro, quem era inimigo de quem!
Os Cavaleiros do Norte, no imenso Uíge de 1975, sentiram as dores de quem sofre o respirar de estilhaços e os fumos das granadas, o rebentar dos obuses e os silvos das rajadas que espalharam sangue e morte na terra de Carmona. Não se barricaram nas paliçadas do medo, mas foram para a rua: carregaram crianças, mulheres e homens, civis que não queriam morrer. Salvaram vidas e bens, galgando as ruas da cidade, sem nunca deporem as armas ou deixarem falecer a coragem, carregando as pessoas nas Berliets, para fazerem a paz, semearem esperança, querendo levar a cartilha do amor a quem se cansava e matava de tantos ódios, de tantos anos!
A 1ª. CCAV. chegou a Carmona a 6 de Junho de 1975. Juntaram-se aos outros Cavaleiros do Norte que, nesses primeiros dias do mês, foram homens de coragem, no meio de lutos, de medos, de ódios e de morte!