CAVALEIROS DO NORTE!! Batalhão de Cavalaria 8423, última guarnição militar portuguesa nas terras uíjanas de Quitexe, Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange, Songo e Carmona! Em Angola, anos de 1974 e 1975!

quinta-feira, 19 de julho de 2012

1 353 - O que é feito do Alberto dos Santos Ferreira?

Alberto e Tomás, à porta do bar dos 
praças do Quitexe, nas vésperas do Natal de 1974


O Ferreira era atirador mas fixou-se quarteleiro do depósito de géneros, o que lhe valeu louvor em ordem de serviço, notabilizando-lhe o «muito acerto, honestidade e maior boa vontade» com desempenhou tal funções.
Atirador e do PELREC, foi «formado» para os tiros de G3 na especialidade do campo militar de Santa Margarida. Era bom praça, humilde, cumpridor, zeloso, sem nunca se dispensar de «marchar» em patrulhas, escoltas e operações, sempre que o PELREC para elas saía, deixando as baias da guarnição. Não falhou um serviço, um reforço ou que fosse, cumprindo, para além disso, as suas obrigações de quarteleiro. Se houve quem, entre nós, mereceu louvor, ele foi, seguramente.
Vem aqui hoje por uma razão de ausência; que será feito dele? 
Já descobri dois portugueses com o mesmo nome e do mesmo ano (1952), ambos moradores na zona de Viseu. Mas nenhum era ele. Alguém nos pode ajudar a achá-lo?
O Tomás, esse dele bem sabemos. Faz pela vida em Lousada e é habitual companheiros dos encontros. Falhou este ano, quase na porta dele (em Paredes) por uma razão bem ponderosa: uma delicada operação cirúrgica a que foi sujeita a sua (dele) «mais que tudo». Também ela habitual amazona dos encontros dos Cavaleiros do Norte. Foi operada precisamente a 2 de Junho deste ano, mas já se reestabelece em casa, aos cuidados e preocupações do Tomás. Pois que recupere totalmente!
E o Ferreira? Ó Alberto, o que é feito de ti?
- FERREIRA. Alberto dos Santos Ferreira, soldado atirador 
de cavalaria e quarteleiro do depósito de géneros da CCS. 
- Tomás. Rodolfo Hernâni Tavares Tomás, 1º. cabo 
rádio-montador, morador em Lousada.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

1 352 - Mortos em Luanda e em Quivuenga, bem perto do Quitexe

A viatura alvo da mina anti-carro, perto da Fazenda 
de Santa Leocádia, de que resultou um morto e 6 feridos

A partir de 17 de Julho de 1974, o BCAV. 8423 assumiu a responsabilidade operacional de Luísa Maria (fazenda onde durante meses estiveram grupos de combate da 2ª. CCAV., a de Aldeia Viçosa) e de Vista Alegre. No dia seguinte, foi a vez da 1ª. Companhia de Artilharia do Batalhão de Artilharia 6322, do COTI 2 - esta a operar na área dos «quartéis» de Camabatela e Quiculungo.
Os Cavaleiros do Norte tinham o Sub-Sector do Uíge como Zona de Acção (ZA) e tal movimentação militar, completou «o esforço operacional do Subsector, em procurar actuar sobre os refúgios», do IN. Fosse lá pelo que fosse, esta 1ª. CART «foi retirada ao Subsector a 28 de Julho» - apenas dez dias depois. O Livro da Unidade não explica porquê.
Luanda já então fervia de incidentes. A situação era tensa e tais «macas», a 15 de Julho, uma segunda-feira, resultaram em 12 mortos e 60 feridos. A 16 de Julho, o dia seguinte, registaram-se mais16 mortes e 63 feridos. A 19, hoje de completam 38 anos, mais três mortos e sabe-se lá quantos mais e mais feridos. Nem todos terão sido registados pelas autoridades, que gradualmente iam perdendo o controlo dos acontecimentos. Neste mesmo dia, o general Silvino Silvério Marques, governador-geral de Angola, foi chamado a Lisboa, devido à forte contestação das estruturas do MFA local e aos graves confrontos dos últimos dias.
Era acusado de estar implicado num golpe de Estado na colónia para a proclamação de uma «independência branca». Viria a ser exonerado, no dia 22 de Julho - dia em que, em Luanda, se realizou uma Assembleia Geral do MFA de Angola e o major Pedro Pezarat Correia acusou oficiosamente os capitães José Clementino Pais e Pedro Caçorino Dias e os alferes miliciano Alfredo Marques Aparício e Nuno Cardoso da Silva de organizarem células de sabotagem e contra-resistência.
A 20, mais dois mortos na capital angolana. Já a 23, a Junta de Salvação Nacional resolveu criar uma Junta Governativa de Angola, que viria a ser liderada pelo vice-almirante António Rosa Coutinho, acumulando o cargo com o de Comandante-Chefe das Forças Armadas. No terreno e bem perto de nós, nesse mesmo dia 23 e em Quivuenga-Senguele, o Exército Português sofreu um morto (da incorporação local) e 6 feridos, em ataques da FNLA, em resultado de uma mina anti-carro, perto da fazenda de Santa Leocádia. Eram do BCAÇ. 5015.
Como se vê, não ia fácil a vida da tropa portuguesa por terras de Angola. Em Carmona, a cidade mais próxima e capital do Uíge, a situação levou à mobilização de um grupo de combate da 2ª. CCAV., a de Aldeia Viçosa, para patrulhamentos na área suburbana da cidade.
Vida fácil? Ai, ai, vida fácil!!!...

terça-feira, 17 de julho de 2012

1 351 - O exército angolano que, afinal, não chegou a ser...

A foto foi enviada pelo Tomás e é das raras que o blogue tem para mostrar aquele que era para ser o Exército de Angola e estes militares eram a 1ª. Companhia da Forças Militares Mistas (1ª. FMM), formada por elementos da FNLA e da UNITA. O MPLA tinha sido «corrido» de Carmona, nos incidentes dos primeiros dias de Junho.
A foto vem aqui, hoje, por hoje se fazerem 37 anos depois da cerimónia de entrega de galões e divisas aos seus graduados. «Irão ser os pilares do Exército Angolano», refere o Livro da Unidade.
Os militares da 1ª. FMM receberam instrução das NT, cada especialidade na sua área - cabendo ao alferes Garcia a instrução de tiro, monitorada por mim (Viegas) e pelo Neto, ambos furriéis do PELREC. Na carreira do BC12, aconteceram cenas meio patéticas, resultantes da inabilidade dos «recrutas». Casos houve, em que, em sessões de 100 tiros (20, cada militar), as linhas de fogo não acertavam um tiro no alvo, a 60, a 70 ou 80 metros. Demorou tempo a perceber o porquê e tal só foi descoberto quando verificámos que, no momento do disparo, os nossos homens não faziam o ponto de mira - assim atirando praticamente às cegas.
Não lhe faltava vontade, é justo dizer, e até se lhes medrava o garbo quando, por exemplo, imitavam o «marchar à Ranger´s», que, tanto o Neto como eu, tanto gostávamos de exibir, na ordem unida. Ou a palada, vibrante, com que fazíamos continência.
A 17 de Julho de 1975, na cerimónia de entrega dos galões e divisas, foi «aproveitada a ocasião para explorar os deveres militares e as responsabilidades» dos chefes militares, em «acção orientadora» destes oficiais e sargentos que «embora desejando fazer algo por Angola, se sentem submergir e deixar de ver a aceitação e a autoridade que se pretendeu imprimir-lhes».
O Exército Angolano, na forma que então se ensaiava, nunca chegou a ser formado.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

1 350 - Uma das noites em que fomos provocados por civis..

O BC12, cercado a negro, e o bloco residencial militar, a amarelo (em cima). 
Mosteias e Viegas e, sentados, Bento, Cruz e Pires de Bragança (em baixo). 
Em primeiro plano, vê-se a estrada de Carmona para o Songo e que passava em frente ao BC12
Clicar nas imagens, para as ampliar



A meados de Julho de 1975, abandonámos a messe do bairro Montanha Pinto e fomos instalar-nos no bloco residencial militar que ficava a uma centena da metros do BC12, à esquerda, antes de chegarmos ao quartel, indo de Carmona para o Songo.
Faziam-se dias de véspera da saída para Luanda e este passo era um mais, nessa rota ambicionada.
As patrulhas, as escoltas, os serviços, tudo continuava - acumulando eu (e quero lembrar-me que) também o Guedes (da 2ª. CCAV.) e o Carvalho (3º. CCAV.) o serviço de Polícia de Unidade, criada no espírito da Polícia Militar (lá inexistente) e por em Março, à nossa chegada a Carmona, ter sido considerada necessário. Chegados à cidade, no dia 2, logo foi oportuna «a promulgação de novas NEP, ou alteração das mesmas», sobretudo aprudentando «a resolução das muitas quezílias entre a população civil e as NT, devido à animosidade que aquela tem a esta». E citei o LU.
Uma noite, daquelas noites d´Angola, fartas de calor e passadas nas imensas esplanadas da cidade, estávamos vários militares a matar a sede quando começaram a «chover» insultos, de gente nova, atrevida, azougada e mal-educada. Seríamos nós, na boca deles, uns garotos, uns traidores, uns cobardes, uns filhos desta e daquela. Fomos ouvindo, remoendo e enchendo o saco, procurando não reagir às provocações. Assim éramos instruídos.
Até que não deu para mais.
O Mosteias, grandalhão e forte como é (olhem a foto: está sentado e é da minha altura e eu tenho 1,80!), levantou-se decidido, firme, sem nada temer, olhou o grupo provocador e siderou o espaço e as almas daquela gente que nos invectivava. Estariam ali, a desfrutar a noite, perto de uma centena de pessoas.
«Saiam, avancem, um por um...», gritou ele, com o sangue a subir-lhe nas veias e a engrossar-lhe o pescoço, de rosto avermelhado e punhos fechados. E não estava para brincadeiras. Era o estavas...
Eu, o Pires, o Rocha (e quem mais?) pusemo-nos em guarda. Levantados, de mãos caídas mas prontas a tudo. Estávamos para que desse e viesse! Viveram-se momentos tensos.
Felizmente, os jovens civis (e os mais maduros, que os incentivavam e protegiam) tiveram o bom-senso de se calarem. Mas esteve para o torto, a coisa! E o Mosteias a protestar, a gritar, a apontar de dedo em riste e a acusar quem nos maltratava. Viessem todos, «um a um!...».

- BC12. Batalhão de Caçadores 12, onde, em Carmona, 
se aquartelaram os Cavaleiros do Norte.
- NEP. Normas de Execução Permanente.
- PM. Polícia Militar.
- LU. Livro da Unidade.

domingo, 15 de julho de 2012

1 349 - A primeira ida a Santa Isabel...

Fazenda e aquartelamento de Santa Isabel, onde esteve a 3ª. CCAV. 8423


O dia 15 de Julho terá sido o da primeira ida do PELREC a Santa Isabel, onde jornadeava a 3ª. CCV. 8423, sob comando do capitão miliciano Fernandes. Saía-se do Quitexe, na estrada asfaltada para Aldeia Viçosa (e Luanda, a estrada do café) e, por altura do Dambi Angola, cortava-se à direita para Santa Isabel, já em picada que nos pregava sustos. 
Tenha sido neste dia, ou não, para o caso pouco importa:  íamos avisados de que poderia haver problemas. E porquê? O alferes Garcia explicou aos homens formados na parada do Quitexe: «Vamos escoltar o comandante!...». E escoltar o comandante era fazer segurança à nossa maior riqueza: quem nos orientava, nos dirigia e era o nosso líder, nosso «pai» militar, o alvo mais fácil e desejado do IN. 
Almeida e Brito, o tenente coronel que nos comandava, tinha passado pelo Quitexe anos anos, como oficial de operações, e deixara fama de homem de poucas cedências. Era o «cavalo branco», assim o baptizou a lenda local, por ser de cavalaria e, já de apoucado cabelo, o ter branco, assim como a pêra e o bigode.
Lá fomos nós, de olhos abertos e unigog´s cheios, a galgar a picada, engolindo pó e sentindo no corpo os frios de quem sabe que evolui em zona de perigo. Íamos com a curiosidade de conhecer as instalações dos companheiros da mata, assim pensávamos nós que era Santa Isabel. Que seriam um sítio no meio da floresta densa e perigosa, infestada de feras e uivos amedrontadores. Mas não era nada disso, como mostra a foto: as instalações eram muito boas e lá achámos os nossos amigos no bar A Cubata, que servia de pouso aos furriéis.
O comandante Almeida e Brito ia visitar a guarnição, em contactos operacionais. Tal qual tinha estado já em Aldeia Viçosa (2ª. CCAV.) e no Destacamento da Fazenda Negrão (a 7 de Julho). Íamos nós na quinta para sexta semana do Quitexe.

sábado, 14 de julho de 2012

1 348 - O (furriel) Farinhas morreu há 7 anos!

Farinhas Neto e Viegas, no Quitexe(1974), 
com o Agostinho Papelino a engraxar os sapatos deste

O Farinhas faleceu há precisamente 7 anos, em Amarante, a sua terra natal, vítima de doença cancerosa.
Chegou a Santa Margarida, por Janeiro/Fevereiro de 1974, com o Mosteias e o Pires, do Montijo, como 1º.s cabos milicianos do pelotão de sapadores, comandado pelo (futuro) alferes Ribeiro. Por lá fizemos (todos) a formação do batalhão e de lá partimos para Angola.
O Farinhas não era homem de muitas falas, era até algo circunspecto, sorumbático, mas de ideias firmes sobre os seus princípios e seguramente um excelente camarada. Um problema disciplinar afastou-o do nosso convívio em Março de 1975. 

Não recordo qual problema foi, mas tenho dele a imagem do companheiro introspecto e melancólico, que de nós escondeu segredos que não nos ajudaram a ajudá-lo, quando terá precisado.
Ao tempo dos últimos tempo do Quitexe, dele recordo uma noite algo constrangida para ambos, estava eu de sargento de dia, matando horas pela madrugada fora. O Farinhas falou da vida dele, muito nervoso e revoltado, fumando, fumando, fumando... e parecia não querer sair de si e do seu constrangimento, fechando os ouvidos ao que lhe dizia, querendo ajudar.
A última vez que falei com ele, ao telefone, foi em 1996, creio eu..., para que participasse no encontro do batalhão. Trabalhava nos Serviços Florestais e, salvo erro, tinha então recentemente voltado dos Estados Unidos. Não participou no encontro. Não quis, dizendo-me que a tropa não lhe dizia nada. «Desculpa lá, ó Viegas..., desculpa, pá... és um gajo porreiro!!!...».
Eu desculpei. Obviamente!

Morreu a 14 de Julho de 2005, hoje se passam 7 anos.
Até um dia, caro Farinhas!
- FARINHAS. Joaquim Augusto Loio Farinhas,
furriel miliciano sapador, natural de Amarante.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

1 347 - Três 1ºs. cabos escriturários à mesa de restaurante

Miguel, Pires e Jorge (já falecido), três escriturários 
da CCS dos Cavaleiros do Norte, o BCAV. 8423, no Quitexe (1974)

Três escriturários a darem ao dedo no... Topete! Será no Topete, o restaurante ao fundo da rua/avenida de baixo do Quitexe? Será? É?! Assim parece. Na secretaria, não é. E o bife com ovo a cavalo não tem nada  a ver com as papeladas do 1º. sargento Luzia.
A foto, sem data, mostra a «boa vai ela» como se passaram muitos momentos da jornada africana dos Cavaleiros do Norte. Ai não sabia bem a ementa do refeitório? Pois há que ir ali ao lado, ao lado de fora do aquartelamento, e dar meia dúzia de passos, passar à frente da casa do Guedes e pedir umas Cucas enquanto o bife ia à frigideira e se fritavam as batatas. Ou ao Rocha, ao Pacheco, lembro-me destes.
Disse Cucas, mas reparo que são Nocais, outra boa cerveja angolana, que tantas sedes nos matou pelo jornadear do Quitexe, de Carmona, de :Luanda - ou por Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Luísa Maria, Songo e todos os sítios por onde «viveram« os Cavaleiros do Norte. Já não falando da também muito tropical, mas muito mais cosmopolita Luanda de tantas noites de borga, à cata de momentos de cio, tão à moda e desejo da idade!
A foto, no Quitexe, mostra momentos descontraídos de alguns de nós - como todos nós folgávamos das situações menos doces da guarnição. Que os houve, e muitos, nos 15 meses da jornada de Angola, que nos fez actores do país novo que nascia.
- MIGUEL. Miguel Soares Teixeira, 1º. cabo 
escriturário. Residente na Senhora da Hora, aposentado.
- PIRES. João Manuel Martins Pires, 1º. cabo 
escriturário, de Lisboa.
- JORGE. Jorge Manuel de Sousa Pinho, 1º. cabo 
escriturário, do Porto. Faleceu a 10 de Abril de 
2003, aos 51 anos e vítima de doença.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

1 346 - Os tensos dias que se faziam vésperas da saída de Carmona

Hotel Apolo, o edifício ao fundo, na Rua do 
Comércio da cidade de Carmona (Uíge) da Angola de 1975

A decisão de os Cavaleiros do Norte saírem de Carmona, rumo a Luanda, marcada para 3 de Agosto de 1975, foi naturalmente recebida com hossanas e muitas aleluias, pela comunidade militar. Não tanto pela civil e nomeadamente pela europeia.
Mas era inevitável: «Havia que encontrar uma opção para os dias futuros. Ficar em Carmona, com total descrédito das NT e perigosamente alvo das queixas e ataques da FNLA, nomeadamente reivindicando os desequilíbrios doutros locais, ou sair, antecipando um regresso a Luanda, num salvar de face e tentando evitar males futuros», lê-se no Livro da Unidade.
A decisão foi sair - o que, de resto, era inevitável, mais dia menos dia, nos termos do processo de independência (descolonização) então em curso.
A verdade é se repetiam incidentes entre as NT e os FNLA´s, os senhores locais da guerra entre irmãos angolanos. E com os civis, mais os europeus que os africanos. Aqueles, rapidamente perceberam que iriam perder o forro das costas - que era esse o papel das tropas: salvar vidas, evitar a destruição de bens e delapidação de património, garantir a segurança dos serviços nucleares da cidade (o hospital, as comunicações, o abastecimento de água e a energia eléctrica, os itinerários e as escolas, por exemplo) e pacificar o que era (im)possível.
A Rua do Comércio, que se vê na foto, foi palco de muitos desses incidentes e AQUI é narrado um deles. Mas muitos se anteciparam e somaram a este.
A 12 de Julho de 1975, hoje se passam 37 anos, iniciou-se um período (até ao dia 18) em que «em permanente situação de prevenção simples» na guarnição militar portuguesa, «houve que aguentar a provável ressaca da FNLA, face aos seus desaires (militares) em Luanda, Salazar e Malange».
Não foram fáceis os nossos dias de vésperas de sair de Carmona. Foram até muitos tensos e dramáticos.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

1 345 - O furriel das FAP com apelido (Neto) de líder do MPLA

Tenente Mora e furriéis Neto e Viegas 
na avenida (rua de baixo) do Quitexe, em 1974

Ontem, foi dia de eu e o Neto darmos ao dente e à palavra, e à saudade!!!...,  com o Quitexe na ementa e um mar de histórias na sobremesa. Veio à baila, o impagável tenente Mora, de quem podíamos contar mil e uma histórias, mas que deixaremos para outro tempo. Recordou o Neto uma ida dele à sanzala do Canzenza, a convite do Bernardo, que era chefe de GE´s e homem de fartas farras.
O Neto lá foi e, entre cerveja refrescada no frigorífico a petróleo, umas marufadas das boas e moambada de galinha, por lá se entreve, pela noite dentro mas sempre de olho desconfiado num grupo de homens, que por ali andavam no adro da sanzala e por nada, e nunca, se aproximavam da quitanga do Bernardo.
A noite foi crescendo, mais acalorada pelos vapores do marufo e as garfadas da moamba carregada de piri-piri, enquanto, por ali, se saracoteavam jovens meio desnudas, bombaleando o corpo em ritmos sensuais e  despreconceituados.
Chegou o tempo do «vou embora que são horas» e despediu-se o Neto, curioso, todavia, por saber quem eram aqueles homens negros e de olhar desconfiado. «Quem são aqueles?!...», perguntou ele ao Bernardo. 
«Eh, não sabes esfurrié...., são esturras, pá!...», disse-lhe o Bernardo, rasgando sorriso farto, nos lábios grossos que lhe desenhavam a boca.
O Neto fixou-os melhor e voltou a ouvir o Bernardo: «Tavam a ver se és gajo porêro, pá!!!...». E voltou a rir-se, como quem dizia para estar o Neto descansado.
Sabíamos nós que era vulgar os «turras» dormirem nas sanzalas, nas cubatas da família, e até de frequentarem cafés, bares e restaurantes do Quitexe. Saber, sabíamos..., ou meramente desconfiávamos, mas ali era estar em frente a eles. A diferença principal, porém, era o... apelido do furriel, que era (e é) Neto, como o líder (Agostinho) do MPLA. E nós estávamos em terra da FNLA, onde falar de Neto não era a coisa mais saudável e pacífica.
O Neto, furriel das FAP, lá veio embora, sem problemas, mas a pensar como um simples apelido pode atrapalhar quem o tem, em terra de guerra e onde rivalidades eram muitas vezes medidas a tiro.
- FAP. Forças Armadas Portuguesas.
- GE. Grupos Especiais. Força para-militar, formada por voluntários civis, ao serviço das FAP.
- BERNARDO. Chefe de um dos Grupos de GE do 
Quitexe, dependentes do BCAV. 8423. 
- TURRAS. Forma abreviada de terroristas, como 
eram apelidados os homens armados dos movimentos de libertação.

terça-feira, 10 de julho de 2012

1 344 - A 10 de Julho de 1974 e a recordar 1961

Mulher angolana com um filho nas costas (em cima) 
e mapa da zona do Quitexe, de João Garcia (em baixo, clicar na imagem)



A 10 de Julho de 1974, o comandante Almeida e Brito reuniu com os povos do Quitoque e do Quimassabi, mesmo à saída do Quitexe, na estrada para Carmona.
Terá sido numa destas aldeias (a memória já não lembra tudo) que pela primeira vez vimos mulheres negras de peitos nus, o que nos encheu os olhos e a alma de desejos. Éramos rapazes novos, insaciados e muito enciados. O que para aquela gente era muito natural, era para nós cousa bem diferente. Adiante. 

A reunião era uma das muitas que então se faziam, com os povos indígenas, comerciantes e fazendeiros, autoridades tradicionais e população, no geral, mentalizando-as para os novos tempos, os nascidos da revolução que se fizera em Lisboa. 
Já com mais de um mês do Quitexe e algumas operações, patrulhamentos e escoltas no nosso diário de guerra, a terra angolana ainda era para nós um mistério e todos os dias uma surpresa. E também um medo, que sobrevoava nas memórias, recordando a terra vermelha e ensaguentada pelos massacres de 1961, que nós tão bem víramos em imagens de homens esquartejados, serrados e incendiados, mulheres e crianças violadas, bens destruídos e sabe-se lá o que mais, emergido a (e depois de) 15 de Março. E era nessas terras que estávamos, armados, em missão deferente, de paz!, mas sujeitos aos perigos de uma guerra subversiva e de inimigo que não mostrava a cara.
Cito José Freire Antunes, sobre os incidentes de Março de 1961, de 15 a 18, e no seu livro «A guerra de África - 1961 - 1974»: «O Norte de Angola é avassalado por uma onda de brutalidade tribal, assassínios em massa, incêndios, destruição e rapina de haveres, violações de mulheres e crianças. Os tumultos espalham-se às plantações de café isoladas, aos postos de abastecimento e às vias de transporte».
Era nessa terra, mas 13 anos depois, que os Cavaleiros do Norte faziam o se «debute» de guerra. Há precisamente 38 anos!

segunda-feira, 9 de julho de 2012

1 343 - Jovens Cavaleiros do Norte na noite de Luanda

Estrela, Medeiros (já falecido), Miguel, Damião e 
Vasco, 5 Cavaleiros do Norte há 38 anos, em Luanda!

O que fariam 5 jovens Cavaleiros do Norte, na noite de 2 de Junho de 1974, em Luanda? Gozavam a vida, certamente, em vésperas da partida para o Quitexe desconhecido e que já sabiam ser a vila-mártir de 1961!!! Olhem a sorte!!! A deles e a nossa, a de todos os outros Cavaleiros do Norte!
Os mancebos eram todos 1º. cabos e de boas especialidades, das que não batiam com o cabedal no mato. Gente boa, como se veria por toda a comissão. Operadores criptos, eram o Estrela e o Medeiros -  ali os dois do lado esquerdo. Escriturários, o Miguel, o Damião e o Vasco, us outros três.
O Miguel, registando o momento e em carta para a família, dá conta que os bem dispostos mancebos estão «num restaurante a comer búzios, arroz de marisco e camarão e a beber umas cervejas da ordem». Assim mesmo, sem tirar nem pôr. Acrescenta o Miguel que tal comezaina decorria «às 3 horas da manhã, no inverno e com um calor medonho». Inverno d´Angola, bem entendido!
A rapaziada tinha chegado a Luanda no dia 30 de Maio e «acampado« no Grafanil, onde fazíamos vésperas de partir para o desconhecido Quitexe, lá do norte de Angola. E, então, melhor vida não podia deixar de ser este forrobodó gastronómico, bem disposto, descontraído e até irreverente. Ou não fossem jovens de 21 para 22 anos, com a alegria e espontaneidade de quem tem toda a vida pela frente e a sonha venturosa.
- ESTRELA. João Francisco Lavadinho Estrela, 1º. cabo operador-cripto. Trabalha na Amadora, no ramo imobiliário.  
- MEDEIROS. António Carlos Fernandes de Medeiros, 1º. cabo operador-cripto. Já falecido, a 10 de Abril de 2003, vítima de doença.
- MIGUEL. Miguel Soares Teixeira, 1º. cabo escriturário. Aposentado e residente na Senhora da Hora, trabalhou na Siderurgia e na Ambar.
- DAMIÃO. Damião Augusto das Neves Viana, 1º. cabo escriturário. É de Gondomar.
- VASCO. Vasco de Araújo de Sousa Vieira, 1º. cabo escriturário. Comercial na área dos acessórios de automóvel, no Porto. 

domingo, 8 de julho de 2012

1 342 - Cavaleiros do Norte abandonam definitivamente o Quitexe

Capitão miliciano Fernandes (1º. plano) e 1º. sargento
 Marchã, 
chefe da secretaria da 1ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel (1974/75)


A saída da 3ª. CCAV. 8423 do Quitexe concluiu-se a 8 de Julho de 1975, hoje se completam 37 anos. Ali tinha chegado a 10 de Dezembro de 1974, vindos da fazenda Santa Isabel - onde se tinha instalado a 11 de Junho do mesmo ano. Foram a última guarnição militar portuguesa nestes dois pontos do Uíge angolano.
A saída da CCS (a 2 de Março de 1975) coincidiu com graves problemas entre os elementos da FNLA e do MPLA, depois também da UNITA, e a guarnição comandada pelo capitão José Paulo Fernandes por lá passou momentos menos agradáveis, servindo de mediador entre os movimentos - que mais facilmente davam ao gatilho que à palavra. Mais rapidamente disparavam que discutiam ideias, disputando palmo a palmo a sua eventual superioridade militar.
A acção do capitão Fernandes viria a ser sublinhada no louvor final de campanha, publicado na Ordem de Serviço nº. 174, dando conta do período da «eclosão dos graves acontecimentos de confronto armado entre os movimentos de libertação, na área do Quitexe».
A esse tempo, «o desequilíbrio» de forças era notório, mas os bravos cavaleiros de Santa Isabel, sob comando do capitão miliciano José Paulo Fernandes, «garantiram o cabal cumprimento da missão» que lhe estava atribuída. Até 8 de Julho de 1975, quando disseram adeus definitivo ao Quitexe.

- «O Quitexe a ferro e fogo»,
ver AQUI e AQUI

sábado, 7 de julho de 2012

1 341 - Uma aparelhagem de som e duros combates em Luanda

Fátima e José Bernardino Resende (com as filhas), Albano
 Resende, furriel Viegas (à civil) e capitão Domingues (primo e Fátima) em Luanda (1975)


O Julho de 1975 não foi nada fácil por Carmona (como por aqui tem sido lembrado), mas muito mais dramático foi por Luanda - onde, durante semanas, se travaram intensos combates entre os três movimentos. Falava-se, avulsamente, da chegada de milhares de cubanos, para apoiar o MPLA e a cidade esvaziava-se.
É dos primeiros dias do mês um desenfianço meu a Luanda, onde queria entregar a Fátima Resende a aparelhagem de som, que ainda hoje adorna a minha sala de estar, sem, já funcionar. Ela vinha a Portugal e dispunha-se a ser portadora da «encomenda». Tinha de a lá ir levar e, por via terrestre, era (quase) impossível, devido às barricadas da estrada do café, principalmente no Caxito (onde se sabia haver garvíssimos combates) e no Cacuaco. Ora não deixava passar a FNLA, porque íamos para uma zona do MPLA; ora este, porque íamos de zona da FNLA. A solução foi arranjar boleia aérea e assim foi. Já em Luanda, não seria fácil sair do aeroporto, mas enganei-me. Os graves incidentes da capital tornavam o tráfego inseguro e perigoso e a minha habitual boleia local, não pôde ir. E os taxistas, cadé? Não arriscavam atravessar a zona do Prenda, até à Maianga, de onde facilmente se chegava à baixa.
A ponte aérea assoberbava o aeroporto, onde milhares de pessoas esperavam viagem para Lisboa, havia menos gente nas ruas e até as casas nocturnas se esvaziavam. Haviam medos na gravidez das noites luandinas, restaurantes a fechar por falta de alimentos, prateleiras vazias nas lojas - antes cheias de tudo. A inflação estava cada vez mais incontrolável e «vendiam» escudos europeus a 100, 500, 1000%. mos mercados (negros, ilegais e avulsos) das ruas de Luanda.
Lá cheguei a casa dos Resendes, perto da praça de touros - onde se dizia que, todos os dias, se assassinavam dezenas, centenas ou milhares de pessoas. A aparelhagem lá veio para Portugal, embalando algumas garrafas de wiskyie.
Depois de várias semanas de combates, Luanda ficou controlada por forças do MPLA, a 15 de Julho de 1975. Já eu estava em Carmona, em patrulhas, escoltas, serviços e instrução de tiro aos militares que formariam o futuro exército angolano. Exército que nunca chegou a ser.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

1 340 - O transporte de valores do Banco de Portugal

Delegação do Banco de Portugal em Carmona (foto de Jorge Oliveira)


Os dias de Julho foram quentes, por Carmona. E não só pelo calor africano que nos abria os poros de suor e escaldava os quicos da cabeça e a pele descoberta dos camuflados. Era crescente a instabilidade e repetidas e perigosas as escaramuças. 
A FNLA, senhora da guerra da zona, «vencedora» dos incidentes dos primeiros 6 dias de Junho, fazia questão de conflituar a paz que se desejava. A tropa portuguesa, e cito do Livro da Unidade, era «perigosamente alvo das queixas e dos ataques da FNLA».
Os patrulhamentos urbanos, eram uma inquietação. Eram um perigo latente, a cada vez que saíamos do BC12, e, por horas da noite adentro - noites cheias de sombras e de alguns medos! -, acautelávamos a segurança das populações, até que a madrugada nascesse. 
A comunidade civil, apupava-nos, vaiava o nosso esforço e até a nossa dignidade. Criticava, principalmente a população branca. Cuspia, quando passávamos!
A um qualquer dia que a memória não retém (nem dele tenho apontamentos) fomos chamados para uma escolta muito especial: o transporte de valores da delegação uígense do Banco de Portugal. E não foi só o PELREC. Outros grupos de combate foram chamados e posicionados ao longo do percurso, até ao aeroporto. Aprudentou-se segurança e mais segurança, para se evitar um assalto. Dizia-se, à boca fechada, que os malões levavam milhões de contos - em dinheiro, ouro, diamantes, peças raras, objectos e documentos! Não sei, nunca saberemos.  
A carrinha blindada chegou, de não sei onde! O carregamento foi rápido e rápida foi a saída em direcção ao aeroporto. Aqui, entrou na pista e gente que nunca víramos carregou os malões para um avião, que voou para Luanda. Porventura, nunca nós, Cavaleiros do Norte, estivemos tão próximos de tão grande fortuna!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

1 339 - O país que ia mudando e se fazia novo...

Sanza Pombo, aquartelamento do BCAV. 8324

O que teve de extraordinário o dia 5 de Julho de 1974, na guarnição quitexana dos Cavaleiros do Norte? Nada de especial, a não ser uma decepção pessoal - que teve a ver com a ida do comandante a Sanza Pombo, a uma reunião dos Comandos do Comando de Sector do Uíge, e que se ia realizar no quartel do Batalhão de Cavalaria 8324 (não o 8423, o nosso).Sanza Pombo era um destino que eu procurava, por lá viver um conterrâneo, Adolfo Pires dos Reis - funcionário do Ministério da Agricultura, irmão de minha vizinha Celeste. Conhecia-o das férias dele e família e lá queria ir visitá-los. Fiquei danado, quando soube que a escolta ao comandante Almeida e Brito e capitão Falcão (o oficial adjunto) seria feita por outra gente, suponho que por um grupo de sapadores.
Dito isto, chegavam notícias de Portugal:
1 - Um decreto-lei de 1 de Julho (1974) garantia a remuneração horária mínima de 17$50 aos funcionários públicos.
2 - Estes, passava, a ter direito a receber abono de família.

3 - Os professores passavam a ganhar os meses de Agosto e Setembro.
4 - Era criado o Movimento Popular Português (MPP).
5 - O Partido Liberal considerava que «urge relançar a economia nacional».
6 - O 1º. Ministro Palma Carlos congelou preços e salários por mais 10 dias - DL 217/74.
7 - Caçadores pediam a revisão da lei da caça.
8 - Aerograma de casa dava-me conta que, no dia 23 de Junho, se tinha realizado a comunhão solene, que, escrevia minha mãe, «perdeu o seu tradicionalismo», embora tal não explicasse.
Revisto isto, à distância de 38 anos, até parece risível. Mas era um país que mudava, connosco (Cavaleiros do Norte e muitos outros portugueses) a milhares de quilómetros do chão natal.
- SANZA POMBO, AQUI

quarta-feira, 4 de julho de 2012

1 338 - Liberdade de movimentos na estrada do café...

Estrada do café, nos arredores do Quitexe. Liga(va)  Carmona a Luanda

O quadro orgânico da Polícia de Informação Militar (PIM) do Quitexe completou-se a 4 de Julho de 1974. Neste dia, apresentou-se o chefe do posto da vila. Não me lembro de alguma vez lhe ter posto os olhos em cima, embora se soubesse que era a PIM sucedânea da PIDE/DGS, com funções por lá muito específicas. De tal modo que, saneada a PIDE/DGS, reorganizou-se  esta no ultramar para «quando as operações militares o exigirem».
O conhecimento já é posterior, para se dizer que prestavam informações o exército - sendo sequente considerar que seriam importantes para o delineamento das operações militares - no Sub-Sector do Quitexe, como nos outros.
O comandante Almeida e Brito, com oficiais do batalhão, continuava por esta altura a sua acção de mentalização das populações e, depois de reuniões no Clube do Quitexe, esteve em 6 de Julho nos povos de Aldeia e Luege. E, como se lê no Livro da Unidade, «também com os camionistas que servem o poderio económico da área» - essencialmente encontrada no café, agro-pecuária e madeiras.
Pretendiam os camionistas obter, como é (era) expectável, «maior liberdade de movimentos na chamada estrada do café» - a que, ainda hoje, liga Carmona (agora cidade do Uíge) a Luanda.

terça-feira, 3 de julho de 2012

1 337 - O que se se fazia em Carmona, em Julho de 1975?

Messe de sargentos (antes de oficiais) da CCS, no 
bairro Montanha Pinto (casa azul), em cima). 
Carta de Alberto Ferreira, recebida faz hoje 37 anos (em baixo) 


O que se fazia em Carmona, a 3 de Julho de 1975? A resposta vem-me na carta de Alberto Ferreira, que fazia comissão na base aérea de Luanda e se aprontava para regressar a Portugal: esperavámos ir para Luanda e depois, loguinho, loguinho..., para Lisboa e as nossas casas e famílias! É isso, pelo menos, o que deduzo da epístola dele, datada da véspera, que agora releio e na qual me dava conta que por Luanda «isto está uma santidade, mas só aparente».
Dias antes, a 16 de Junho, narrava que «isto por cá, está mais calmo, deve ser por pouco tempo mas enfim..., temos que aguentar a «m...», que os impõem».
Emociono-me, ao real isso. O Alberto era amigo íntimo, companheiro de escola e das noitadas de Luanda, onde quantas vezes nos fizemos passar por irmãos gémeos, engendrando histórias que nos aproximavam dos nossos objectivos mais lúdicos e ciosos! Prazerosos, dir-se-ia agora! E já faleceu.
O Alberto dava-me conta de estar surpreendido com o meu silêncio - não o deveria contactar há algum tempo (não me lembro) - e perguntava-me, com preocupação que fazia notar na carta: «Essa «m...» por aí, está melhor ou quê?!». Com ponto de exclamação! Não estava, ainda ontem aqui falámos disso.
Outra nota de Alberto, sobra a situação política nacional: «Hoje, na rádio, ouvi uma boca do c..... No noticiário de Lisboa, numa entrevista, o oficial que acompanha Spínola disse aos jornalistas que hoje falam com o ex-general, mas amanhã falam com o Presidente da República Portuguesa».
Spínola, ao tempo, estava fugido de Portugal, depois da sua (dada como certa) envolvência no golpe de Estado de 11 de Março de 1975. Tinha sido presidente da Junta de Salvação Nacional e Presidente da República, cargo de que se demitira a 30 de Setembro de 1974, com um dramático discurso que nós ouvíramos em Luanda, via rádio, e na qual se manifestou com o rumo de Portugal, com a viragem à esquerda. Era dado como líder do ELP e, em Março, fugira para Espanha e depois para o Brasil. As declarações do oficial eram entendidas como uma ameaça de regresso a Portugal. «Aquilo vai ser uma instabilidade f...., o homem tem muitos adeptos e há muita malta lá no puto anda descontente...», dizia-me o Alberto.
Li isto na messe do Bairro Montanha Pinto e o tema foi alvo de farta conversa entre a «furrielada» da CCS. «Ainda vamos ter uma guerra civil...», prenunciou o Machado, talvez o mais politizado de nós e que, de Portugal, tinha emoções recentes (das férias que por cá gozou).
- FERREIRA. Alberto Fernando Dias Ferreira, 1º. cabo especialista da Força Aérea, de Fermentelos (Águeda). Foi quadro superior da Segurança Social, licenciou-se em economia e exerceu funções superiores na administração fiscal. Já falecido, foi vereador e candidato a presidente da Câmara de Águeda.
- ELP. Exército de Libertação de Portugal, organização acusada de ser de teor terrorista e de extrema-direita. Foi autor do livro «Portugal e o futuro» e morreu aos 86 anos, a 13 de Agosto de 1996.
- PUTO. Forma de chamar Portugal, na gíria militar e angolana.
- CARTA. Carta de Alberto Ferreira, recebida a 3 de Julho de 1975. Tem o nº. 44. Eu numerava o correio que recebia e pelo número se pode ver da regularidadade da nossa correspondência: 44 cartas (ou aerogramas) em 12 meses.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

1 336 - Cavaleiros de Santa Isabel a abandonar o Quitexe...

Localidades onde aquartelou o Batalhão de Cavalaria 8423. Aldeia Viçosa, aqui em baixo (meio rectângulo em branco), Santa Isabel (círculo roxo), Quitexe (amarelo e verde), Zalala (rectângulo verde, à esquerda), Carmona (a vermelho e amarelo) e Songo (em cima)

A 1 de Julho de 1975 (ontem, precisamente, se fizeram 37 anos), um grupo de combate da 3ª. CCAV. 8423 abandonou o Quitexe, em rotação para Carmona. Foi a primeira parte da operação de retirada definitiva das Forças Armadas Portuguesas da vila-mártir de 1961. 
A rotação da Companhia de Santa Isabel concluiu-se a 8 do mesmo mês - quando toda a guarnição se juntou na capital provincial.
Os Cavaleiros do Norte de Santa Isabel tinham saído desta fazenda (assinalada a roxo no mapa, à esquerda e em baixo) a 10 de Dezembro de 1974 e lá chegaram a 11 de Junho do mesmo ano. Eram comandados pelo capitão miliciano José Paulo Fernandes.
A instalação em Carmona correspondia à necessidade de reforço da guarnição, então já muito reduzida na cidade, para as tarefas que lhe estavam incumbidas e numa altura em que era cada vez mais latente a insegurança urbana e frágil a relação dos Cavaleiros do Norte com a comunidade civil. 
As Forças Armadas Portuguesas, na verdade e lá principalmente corporizadas no Batalhão de Cavalaria 8423, eram «permanente alvo de crítica das populações brancas», lê-se no Livro da Unidade.
Os pequenos incidentes repetiam-se diariamente, com afrontações que passavam muito além do razoável e exigiam muita ponderação, equilíbrio emocional e, digamos, elevados índices de maturidade psicológica. De tudo isso se podem orgulhar os Cavaleiros do Norte de terem sido capazes. E muitas vidas tal sortilégio, racionalismo e assumpção de responsabilidades salvaram os homens do BCAV. 8423!

domingo, 1 de julho de 2012

1 335 - O Encontro de prata dos Cavaleiros do Norte em 1999


Os 25 anos do partida para Angola foram comemorados na Estalagem da Pateira, a 29 de Maio de 1999



Ao reler documentos guardados no sotão, dei com uma carta/convite para um encontro de 1999. Pus-me a basculhar, a basculhar... e, imaginem só, comemorámos os 25 anos de partida para Angola a 29 de Maio de 1999. Nesse mesmo dia, tínhamos partido em 1974 - CCS! Como é possível uma data destas ter passado despercebida no blogue, por este tempo todo?
Passou mas já não passa.
E vamos lá, então, a algumas memórias desse dia 29 de Maio de há 13 anos:
1 -  Realizou-se na Estalagem da Pateira, em Águeda. 
2 - Foi principalmente da CCS, a ele se juntando alguns quadros das três companhias operacionais.
3 - Dele saiu a ideia, lançada pelo comandante Almeida e Brito, de, no ano seguinte, se realizar um encontro do batalhão, em Santa Margarida. Para comemorar os 25 anos do regresso de Angola. Encontro que não se chegou a realizar.
4 - Foi o último encontro em que participaram o comandante Almeida e Brito (que faleceu a 20 de Junho de 2003), o Leal (a 18 de Junho de 2007) e o Coelho (a13 de Maio de 2007). E o Pinto (que respondeu ao convite, como se pode ver na imagem - clicar, para a ampliar), o Cabrita, o Breda e o Luciano. E talvez outros, lembro-me destes.
5 - Retenho um comentário (pouco simpático) da esposa de um dos participantes, que insinuou que a organização (eu e o Neto) estaríamos a ganhar dinheiro com a realização dos almoços de convívio.

sábado, 30 de junho de 2012

1 334 - O Encontro das 4 Companhias dos Cavaleiros do Norte

Madaleno, Monteiro, Viegas, Neto, Caixarias, Pinto e Cordeiro,
todos do PELREC da CCS do BCAV. 8423, no encontro de Barracão (1996)

A ideia do reunir as 4 companhias dos Cavaleiros do Norte tem muitos adeptos e é manifestamente interessante. Tem absoluta viabilidade, carecendo, todavia, de mobilizar bastantes recursos. Do encontro de 1996, o último que as juntou, recordo os almoços preparatórios no restaurante S. Sebastião, em Pombal - que juntaram com (o capitão Castro Dias e o (furriel) Dias, da 1ª. Companhia, eu mesmo (da CCS), o Matos (furriel) e o Carvalho (alferes), da 2ª. CCAV, com (os alferes) Pedrosa de Oliveira  e Mário Simões (de Santa Isabel). 
Apanhou-me (e ao Matos) Castro Dias na entrada da auto-estrada da Mealhada e aí fomos nós,  por aí abaixo, até ao S. Sebastião, onde almoçámos e delineámos ideias - cabendo ao Carvalho e ao Pedrosa, o trabalho local de negociação do restaurante.
Um outro almoço, mo mesmo S. Sebastião (pelo menos mais um), estabeleceu a ementa final e tudo avançou para a dia 1 de Junho desse 1996 - quando, entre Cavaleiros do Norte e famílias, se juntaram mais de 400 pessoas. Um número realmente extraordinário!
Olho aqui para a listagem e dou conta de que já faleceram, pelo menos e dos que participaram, o comandante Almeida e Brito, os sapadores José Louro e José Coelho, os atiradores Leal e Vicente, o carpinteiro Marques, todos da CCS e do Quitexe. Também também o 1º. sargento Norte (2ª. CCAV.) e o furriel Capitão (3ª.  CCAV.). Outros terão falecido e para eles (todos) vai o nosso até já de saudade.

1 333 - O futebol de Carmona na 2ª. divisão de Angola

Estádio 4 de Janeiro, antigo campo 
do Clube Recreativo do Uíge, em Carmona (Uíge)


O que aqui venho falar nada tem a ver com os Cavaleiros do Norte, mas com futebol e a antiga Carmona: dois clubes da cidade (agora chamada Uíge) iniciam amanhã a disputa do Torneio de Apuramento para a próxima época do Girabola: o União Sport do Uíge e União Stade do Uíge.
A jornada, aliás, começa já hoje, com dois na Série A - Domang do Bengo-Benfica de Cabinda e Pekendek de Malange-Polivalentes FC - e dois da série B - o Petro do Huambp-Ecale do Cunene e Dragões de Kuando Kubango-Benfica do Huambo.
Jogos de amanhã:
- Grupo A: Ritondo de Malange-Stad do Uíge, União Sport do Uíge-Baixa de Cassange (Malange), Norberto de Castro-Porcelana do Kwanza Norte e FC Cabinda-S. Salvador do Zaire.
- Grupo B: ARA da Gabela-Desportivo da Huíla, Benfica do Lubango-Académica do Lobito, União da Catumbela-Desportivo do Chingo e 1º. de Maio de Benguela-17 de Maio de Benguela.
Sobem os vencedores dos grupos e os segundos jogarão, entre si, a terceira vaga no Girabola (a nossa Super Liga Sagres, ou 1ª. divisão)



sexta-feira, 29 de junho de 2012

1 332 - Reunir as 4 companhias do Batalhão...


A ideia foi (re)lançada no Encontro de Paredes, pelo engº. (ex-alferes) Cruz, que agora goza os privilégios da reforma e será, em 2013, o mordomo da CCS: reunir o batalhão. As 4 companhias! Sem tirar nem pôr!
Não seria inédito: o primeiro encontro, em 1994 (a 9 de Setembro), reuniu na volta das 200 pessoas, na Estalagem da Pateira, em Águeda, e bem me lembro das dezenas de hora que,  então, passei ao telefone, procurando localizar gente espalhada pelo país e que fui descobrir aos mais inusitados e inesperados sítios. Mais avantajado foi o segundo, já em 1996, no Barracão (Leiria), onde se juntaram na ordem das 400 pessoas, mas então com uma equipa organizadora bem mais alargada e dividida pelas 4 companhias.
Deste encontro, entre outros episódios mais ou menos emotivos, recordo a epopeica viagem de um companheiro do Quitexe que, de motorizada, se fez à estrada com a mulher e mais de 200 quilómetros pela frente e para cada lado. E a presença do Leal, já, surpreendentemente, com vários netos pela mão - ele que tinha 42 para 43 anos mas já era pai quando jornadeámos por Angola. 
E, desfiado em memórias de tempo mais recente,  ocorre-me a viagem do (alferes) Almeida, em 2010, que veio de Marraquexe (em Marrocos), directamente para o encontro desse ano - de novo na estalagem da Pateira.
Agora, foi o Guedes a lançar o que ele pensa de melhor para estes "velhotes", antigos expedicionários de uma guerra a que "fechámos portas": reunir o batalhão!!! Reunir, reunir, reunir..., reunir as 4 companhias!!!
Reunir o batalhão, essa tanta e saudosa gente, parece-me algo ousado, na verdade quase, quase um atrevimento - mesmo embora com as facilidades de comunicação de hoje e as acessibilidades imensamente mais fáceis e rápidas, quando comparadas com as de há 18 anos! Mas não será por isso (pelo que eu penso) que não se fará o encontro. E dou as mãos com uma data: Maio de 2014, quando 40 anos se passarem da nossa partida para Angola.
Eu estou nessa!!

quinta-feira, 28 de junho de 2012

1 331 - O corajoso depoimento do (furriel) Guedes






O Guedes nasceu pelas arribas do Douro, na aldeia de Moura Morta do Peso da Régua. Fez-se à vida por escolas e seminários e chegou aos Cavaleiros do Norte como furriel miliciano da 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa. A tropa o levou à jornada de África e a tropa o trouxe a Lisboa, voando de Luanda a 10 de Setembro de 1975.
Entrou para a GNR e fez carreira nas Brigadas de Trânsito, chegando a sargento-mor. Algumas vezes a vida nos encontrou, pelos anos 80, patrulhava ele a EN1 e, sabendo-me de Águeda, aqui me procurando. E nos encontros dos Cavaleiros do Norte dos anos 90.
Acha-se agora reformado e as curvas da vida apanharam este companheiro com um problema prostático. Operado em Janeiro de 2011, a um cancro nesta magna e sensível zona do corpo masculino, resultou bem a tarefa e recupera tranquilo.
Ele mesmo, em depoimento de coragem, nos dá conta de como, sem tabus mas serenamente, foi «matando» a doença: «Creio que o problema está sanado, os níveis do PSA não evoluíram, até ao momento, tenho feito análises trimestrais e sinto-me tranquilo».
Os finais de 2011 voltaram a ser-lhe tensos, quanto teve «um ameaço de AVC», com a tensão a disparar para valores proibitivos. «Verdadeiramente, nunca me senti mal. Apenas senti, durante o dia, o entorpecimento do braço direito, o que aconteceu várias vezes, servindo de aviso, claro...», conta ele, sem complexos mas com coragem de quem sabe enfrentar perigos, há distância de meses e sossegado sobre a sua saúde, mas sabendo que a tensão alta tem agora de ser controlada.
«Temos de ir aprendendo a viver com estas nuances. De resto, está tudo bem, continuando a dedicar-me à agro-pecuária, à segurança privada e a uns almoços com os amigos, o que de algum modo me mantém "vivo". Estou bem, nada de preocupante...», sossega-nos o Guedes, sobre o que ele próprio considerou «a realidade muito difícil de aceitar» com que se confrontou vai para ano e meio, mas assumindo, de corpo e alma inteiros, que «temos de ser fortes e perseverantes».
E o blogue pode falar disso, ó Guedes?, perguntei-lhe eu.
«Claro que podes, não sentirei qualquer constrangimentos. Isto, não há segredos. É a realidade nua e crua e é a falar das coisas que nos podemos alertar para elas».
Aqui fica, Guedes, o teu exemplo de alma e luta.
Não é dos fracos que reza a história!!!
- GUEDES. António Artur César Monteiro Guedes, furriel
miliciano atirador de cavalaria. Natural de Moura Morta 

(Peso da Régua), sargento-mor da GNR, aposentado e 
residente em Foros de Salvaterra.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

1 330 - Não dêem a independência a Angola!

Algumas das primeiras notícias que me chegaram ao Quitexe (nas primeiras semanas de Junho de 1974)  foram em forma de jornal. Uma delas, assaz surpreendente e curiosa, retirada da boca de uma portuguesa em Londres, nas comemorações do dia 10: «Não dêem a independência a Angola! Não dêem a independência a Angola! Não dêem a independência a Angola!».
Exactamente 3 vezes, assim falou a compatriota, aos microfones da RTP.
As coisa não iriam bem por Portugal, embora as labaredas revolucionárias continuassem a entusiasmar o povo. Mas era também por 10 desse Junho que o General Spínola, então Presidente da República, dava alertas para reflexão: «Nesta hora confusa, nesta hora mista, em que a traição campeia com o autêntico patriotismo (...)», disse o general, nas comemorações da base aérea da Ota.
O jornal semanário chegava-me às terça-feiras (o 10 de Junho foi a uma segunda e te-lo-ei lido, pois, a 18 de Junho) e relatava incidentes em Lisboa, com manifestações, cartazes  rasgados e comícios improvisados e com polémicas. E nós no Quitexe, a pensar nestas coisas e na independência de Angola, de onde (apenas lá chegados há menos de mês) queríamos era vir embora.
Galvão de Melo, general da Junta de Salvação Nacional e ainda nós em Santa Margarida (a 27 de Maio), alertara para «o mau uso que se vem fazendo da liberdade ao povo de Portugal». Os enxovalhos a que muitos portugueses foram sujeitos, a falta de autoridade, os excessos do caldo revolucionário que se vivia, a indisciplina que medrava nos quartéis, alguma (ou muita) violência nas ruas, tudo isso dava que pensar.
«A anarquia acabará, fatalmente, por abrir a porta a novas ditaduras», avisa (e avisava-se) o general Spínola.
E nós, no Quitexe?
«Isto, mais mês menos mês vamos embora...», dizia o Neto, menos dado a leituras que eu, menos reflexivo e mais pragmático na hora das convicções e quando no quarto falávamos destas coisas. 
«Mais menos menos mês, vamos embora...», persistia ele.
A verdade é que houve independência, mas os Cavaleiros do Norte por Angola ficaram até Setembro de 1975. 

terça-feira, 26 de junho de 2012

1 329 - Visitas militares e convidados da administração civil...

Administração do Concelho do Dange, no Quitexe (à direita) e residência
do administrador, na foto de baixo. Em cima, o edifício, em 2012


A 26 de Junho de 1974, hoje se fazem 38 anos, os comandantes da ZMN e CSU - respectivamente, brigadeiro Altino de Magalhães e coronel tirocinado Bastos Carreiras - visitaram Aldeia Viçosa e Santa Isabel, onde se aquartelavam a 2ª. CCAV. e a 3ª. CCAV. 8423 - e Vista Alegre, onde jornadeava a CCAÇ. 4145, «encostada» aos Cavaleiros do Norte. 
Altino de Magalhães acumulava funções com as de Governador do Distrito do Uíge e, nesta qualidade, fez-se acompanhar pelo administrador do concelho do Dange. O objectivo era «o estreitamento de relações entre as autoridades civil e militar».
O concelho do Dange foi criado em1961, com sede na vila do Quitexe, tendo Rodrigo José Baião como primeiro administrador (vindo de Chefe do Posto de 31 de Janeiro), seguindo-se Meneses e Pereira, João Nunes de Matos, Raúl Teixeira (interino) e Octávio Pimental Teixeira - que suponho ser o do tempo dos Cavaleiros do Norte, a ele se sucedendo Galina (interino). Dados DAQUI.
A delegação militar era acompanhada por Almeida e Brito, o tenente-coronel que comandava o Batalhão de Cavalaria 8423, e pelo administrador do Quitexe,  participou «em todas as reuniões de mentalização realizadas no decorrer do mês» e, inclusivé, se deslocou a Aldeia Viçosa, Vista Alegre e ao Destacamento de Luísa Maria.
Almeida e Brito tinha alguma «vantagem» nestes contactos. Já tinha passado pelo Quitexe, enquanto major de operações do Batalhão de Cavalaria 1917 - 5 anos antes.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

1 328 - O Eusébio de Zalala...

Pinto, Eusébio, Mota Viana e Rodrigues (em cima), 
Dias, Queirós e Barreto em Belmonte (a 23 de Junho de 2012)


Eusébio foi furriel miliciano atirador de cavalaria na épica Zalala, na guarnição comandada pelo (capitão miliciano) Castro Dias, a última que por lá ergueu e arreou a bandeira de Portugal, a 25 de Novembro de 1974.
A primeira memória mais segura que tenho de Eusébio, já em Angola, foi pelos algures de Julho ou Agosto de 1974, quando o pelotão que integrava (suponho que o do alferes Sampaio) esteve de reforço ao Quitexe e, na casa dos furriéis, o vi febril de paludismo. Eu mesmo, semanas antes, tinha sido «salvo» dos calores da doença - da qual tínhamos muitos avisos, já desde o Portugal Europeu. Que seria até mortal, se de carácter agudo; ou crónico, igualmente podendo levar à morte.
Meu pai tinha tido experiência curta no pelo Hospital de Águeda, sabia da doença e eu crescera na adolescência ouvindo-o falar de paludismo, de que um primo dele tinha sido vítima em Nova Lisboa, pelos anos 40 do século XX.
Sendo iminente a guerra que estaria no meu destino, lá me ele foi aprudentando contra tal doença infecciosa e endémica, característica das regiões tropicais.
Os acessos febris que senti, pouco espaçados no tempo, levaram-me à consulta do dr. Leal, que me receitou e defendeu. E dele guardei a medicação de sobra, não fosse voltar a precisar. Precisou o Eusébio, que, em estado febril adiantado, deambulava uma noite da casa dos furriéis e a quem, na urgência, dei parte dos compridos e levei a acordar o Lopes, para a injecção da ordem e o pontapé no tal paludismo.
Perdi-me nesta lembrança, a relembrar o Eusébio palúdico, quando venho aqui hoje mas para falar do Eusébio sexagenário, que na sexta-feira foi anfitrião emocionado de 6 zalalas: o Pinto, o Mota Viana, o Rodrigues, o Dias, o Queirós e o Barreto, todos (menos o Mota Viana) já aposentados e, logo por isso, prontos e sempre disponíveis para estas jornadas de afecto e de saudade. Está-lhes no sangue!
O Eusébio, a quem a vida não facilitou (roubando-lhe a perna direita), foi companheiro e amigo da jornada angolana e posso imaginar a emoção que lhe varreu a alma ao abraçar, neste sábado 23 de Junho de 2012, aqueles «ganda malucos» de Zalala. 
Grande abraço, Eusébio!!!
- EUSÉBIO. Eusébio Manuel Martins, furriel miliciano atirador de cavalaria. Aposentado da função pública e residente em Belmonte.
- PINTO. Manuel Moreira Pinto, furriel miliciano de Operações Especiais (Rangers). Empresário, residente em Paredes.
- MOTA VIANA. Fernando Manuel da Mota Viana, furriel miliciano atirador de cavalaria. Comercial de artes gráficas, residente em Braga.
- RODRIGUES. Américo Joaquim da Silva Rodrigues, furriel miliciano atirador de cavalaria. Aposentado e residente em Vila Nova de Famalicão.
- DIAS. João Custódio Dias, furriel miliciano de Transmissões. Aposentado da Polícia Judiciária, residente em Tomar.
- QUEIRÓS. Plácido Jorge de Oliveira Guimarães Queirós, furriel miliciano atirador de cavalaria. Aposentado do sector comercial automóvel, de Braga.
- BARRETO. Jorge Manuel Martins Barreto, furriel miliciano enfermeiro. Aposentado da função pública, residente no Porto.