CAVALEIROS DO NORTE!! Batalhão de Cavalaria 8423, última guarnição militar portuguesa nas terras uíjanas de Quitexe, Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange, Songo e Carmona! Em Angola, anos de 1974 e 1975!

domingo, 16 de agosto de 2015

3 223 - O (iminente) ataque aéreo da FNLA a Luanda


Cavaleiros do Norte. Um grupo de furriéis milicianos da 3ª. CCAV. 8423, a de 
Santa Isabel: José Querido, Victor Guedes (falecido a 16 de Abril de 1998, de 
doença), António Fernandes, Agostinho Belo e Ângelo Rabiço


Diário de Lisboa de 16 de Agosto de 1975,
A primeira página, com a notícia do (iminente)
ataque aéreo da FNLA a Luanbda

A 16 de Agosto de 1975, um sábado, Luanda fervilhava de boatos. Nada simpáticos, ou prometedores: a crer neles, a FNLA iria atacar a capital, envolvendo meios aéreos.
O dia, por mim e pelo Neto, foi passado na ilha, com jantar marcado com o conterrâneo Albano Resende. Iríamos (e fomos) ao bacalhau do Vilela, no bairro da Cuca, mas antes passámos pelo restaurante onde trabalhava outro conterrâneo, o Neca Reis (Taipeiro) - que estava extremamente preocupado, ele que já tinha«fugido» de Úcua, quando por lá as «coisas» se precipitaram. Com a mulher e a filha.
As «notícias» davam conta que a FNLA preparava o ataque a partir do norte e que, na base aérea do Negage, já estariam vários aviões de combate os caça-bombardeiros Mirage. E alguns Skymaster, que transportariam material de guerra. Tudo para apoiar as suas forças terrestres que, há semanas, se encontravam no Caxito, a poucos quilómetros de Luanda.
A base, recordemos, tinha sido abandonada a 4 de Agosto, o dia em que todas as guarnições militares portuguesas abandonaram o Uíge, na coluna dos Cavaleiros do Norte.
Luanda era, todavia, uma cidade estranhamente calma - num tempo em que a população, no geral, era também estranhamente indiferente aos incidentes com armas de guerra que se repetiam. O mesmo acontecia no restante território. «Os confrontos armados que ainda decorrem caracterizam-se por uma possível vitória do MPLA na cidade do Lobito, depois de já ter assegurado o controlo de Benguela», noticiava o Diário de Lisboa desse dia de há 40 anos.
Um comunicado do MPLA, de 14 de Agosto, referia que «ao ataque traiçoeiro da UNITA/UPA/FNLA, perpretado na madrugada de ontem, tentando destruir o MPLA e as FAPLA, estas responderam com violência revolucionária, derrotando os inimigos do povo». Sublinhava o documento que «a partir de hoje, a gloriosa bandeira do MPLA flutua no quartel general da UNITA. O ELNA/UPA/FNLA foi destroçado e a respectiva delegação ocupada pela braço armado do povo angolano - as FAPLA».
Tal vitória, porém, não era confirmada pelas autoridades portuguesas.
Da «nossa» Carmona, a 30 e poucos quilómetros da base do Negage, nada se sabia, para além de relatos avulsos. Sabia-se, porém, que a FNLA impedia a remessa, para Luanda. de fundos das agências bancárias - o que levou (como ontem vimos) o ministro Saidy Mingas a «nacionalizar» a banca.

sábado, 15 de agosto de 2015

3 222 - O capitão do MPLA que foi GE do Quitexe

Cavaleiros do Norte na baixa de Luanda, há 40 anos. Os furriéis milicianos 
atiradores de cavalaria João Aldeagas (de pêra e bigode) e Plácido Queirós (1ª. CCAV. 
8423) e sapadores Cândido Pires (de pêra e bigode) e Luís Mosteias (CCS). 
O homem de óculos, pêra e bigode, atrás e entre Pires e Mosteias, é um civil 

Pinto e Eusébio, Cavaleiros do Norte de
Zalala que faziam anos a 15 de Agosto,
nascidos em 1952. Eusébio faleceu, de doença,
 a 16 de Abril de 2014





Os dias de Luanda, há precisamente 40 anos,  continuavam a passar e os Cavaleiros do Norte a riscá-los no calendário. Quando seria o dia do regresso? Era esta a pergunta de todos os dias, de todas as horas, enquanto, na cidade que fervilhava de vida e de incidentes, tudo parecia ser normal: até os ditos incidentes e as perseguições, o  sangue que jorrava a cada esquina de morte, os medos que se semeavam a cada momento do dia, principalmente durante as noites que escondiam traições.
Por um destes dias de Agosto de há 40 anos, achámos (eu e o Neto) um ex-comandante de um dos Grupos de GE do Quitexe. Foi na avenida D. João II, onde a FRAL (a fábrica da Família Neto, em Viana) tinha escritório e o nosso ex-comandado era agora capitão do MPLA .
Alberto Ferreira, João Pinto, Francisco
Madaleno e João Marcos, Cavaleiros do
Norte do PELREC. O Pinto faz 63 anos a
15 de Agosto de 2015

«Subi nos vida!... Tás a ver, esfurrié...», contou-nos ele, com o sotaque tipicamente angolano, a ferver de orgulho e apontando-nos os galões de capitão, a brilhar de 
novos. Tinha subido, na verdade, mas não mais soubemos dele.
A cidade estava controlada pelo MPLA e as tropas portuguesas seguiam a sua missão de neutralidade. Queira isso, ao conhecimento de hoje, dizer o que queira dizer.
Nogueira, condutor
do Liberato, 64
anos a 15 de
Agosto
de 2015
Ao tempo, e com os dias a serem cortados no calendário - não tão rapidamente quanto nós desejaríamos... -, a vida ia relativamente calma entre os Cavaleiros do Norte. Três deles, pelo menos, fizeram 2 anos nesse agora distante 15 de Agosto de 1975: os furriéis milicianos atiradores da Cavalaria Manuel Pinto (de Penafiel e agora em Paredes do Porto) e Eusébio Manuel Martins, de Belmonte e falecido a 16 de Abril de 2014, vítima de doença. Ambos da 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala. E João Augusto Rei Pinto, atirador do PELREC e Cavaleiro do Norte do PELREC (no Quitexe), agora morador em Corroios. Da companhia do Liberato, o condutor José Luís Nogueira da Costa - um anoa mais velho, nascido em 1951.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

3 221 - Bichas nos bancos, restaurantes e postos de abastecimento

A capela católica do Campo Militar do Grafanil, nos
 arredores de Luanda. Foto de Jorge Oliveira (1973)

O MPLA foi convidado a retirar de Luanda,
há precisamente 40 anos para ali criar uma
zona de paz, que permitisse a recepção de
refugiados em melhores condições

A falta de alimentos era dramática por estes dias de Agosto de 1975, em Luanda. As bichas eram enormes, às portas dos restaurantes - que apenas serviam parte dos clientes. A rede de reabastecimentos não funcionava. Ou funcionava mal.
As bichas eram idênticas nos postos de abastecimento de combustíveis e às portas dos bancos, onde centenas (ou milhares) de pessoas tentativa levantar dinheiro. O ministro Saidy Mingas (das Finanças) tinha decretado o condicionamento de saques, para «evitar a fuga de capital».
Confirmava-se a notícia de que o MPLA tinha sido contactado no sentido de  «retirar de Luanda, com o intuito de ali criar uma zona de paz, que permitisse a recepção de refugiados em melhores condições».
A ideia era simpática, mas o movimento de Agostinho Neto não foi na «conversa», opondo-se e alegando que «os outros movimentos continuam a dominar várias cidades do país, sem que a sua retirada tenha ainda sido exigida». 
No Lobito, travavam-se combates desde as 5 horas da manhã e «as últimas informações indicavam que o resultado da luta parecia tender para o o lado das forças da FNLA e da UNITA», que combatiam o MPLA. A cidade estava «virtualmente paralisada, sem abastecimento de água e de luz».
Em Nova Lisboa, continuava «a retirada de 30 000 refugiados portugueses, completando-se também a evacuação dos membros das FAPLA, bem como cerca de 2000 militantes do MPLA». Um deles era o ministro Manuel Rui, que seguiu para Luanda. Outros, para Benguela, onde «após violentos combates entre o MPLA e a UNITA, o primeiro destes movimentos ficou em inteira posse da cidade».
Em Kinshasa, Luís Ranque Franque, presidente da FLEC - que tinha declarado a independência do Enclave a 1 de Agosto - nomeou um governo no exílio, formado por 17 elementos. Um mês antes, um Governo Revolucionário tinha sido anunciado por Nzita Henriques Tiago, que era vice-presidente da mesma FLEC. Não foi reconhecido por Luís Ranque Franque e Cabinda nunca chegou a ser independente.
Um ano antes, o comandante Carlos Almeida e Brito esteve no Comando do Sector do Uíge, em Carmona, para contactos operacionais, e «fizeram-se remodelações temporárias do dispositivo, com vista a garantir a eficiência das actuais missões primárias das NT»: a segurança dos centros urbanos e a liberdade dos itinerários.
No mesmo dia 14 de Agosto de 1974, no Quitexe, reuniu a Comissão Local de Contra-Subversão - repetindo as de 1 e 9 e antecedendo as de 21 e 29 de Agosto. Continuavam os arranjos da rede estradal, executados pela JAEA e com protecção de escoltas militares.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

3 220 - Colapso do Governo e independência unilateral de Angola

O capitão José Manuel Cruz (à esquerda) e o alferes António Albano Cruz 
com as famílias, em momentos de recreio, há 40 anos, numa praia de Luanda

O Diário de Lisboa de 13 de Agosto de
1975 anunciou, na última página,
o colapso do Governo de Transição
de Angola 


Dia 13 de Agosto de 1975, em Luanda: «O MPLA mantém o controlo total da cidade» e o seu presidente, Agostinho Neto, «está agora numa posição que lhe permite assumir o poder total no Governo Central e declarar unilateralmente a independência». A opinião não era uma qualquer: era de fontes militares portuguesas e nesse dia foi divulgada pela imprensa.
As forças da FNLA, por seu lado, «dispuseram-se em torno da capital, afim de pressionar o movimento rival a fazer concessões políticas», embora não fosse «previsível um contra-ataque»
No resto do território e com intensidades diferentes, continuavam combates, roubos, assaltos, mortes e deserções - em Nova Lisboa, Sá da Bandeira, Lobito, Benguela e Cabinda. Em Sá da Bandeira, por exemplo, estariam no quartel português «cerca de 7000 refugiados». Em Nova Lisboa, «30 000 pessoas aguardavam a evacuação» - ali refugiadas, a fugir dos combates do leste e sul do território. Mas apenas 700 podiam sair por dia, em avião. Em Cabinda, «a situação militar está(va) calma», depois da saída da FNLA, na sequência dos «últimos incidentes com o MPLA». Militares da UNITA, por sua vez, «continuavam refugiados nos quartéis das nossas tropas (...), de onde serão evacuados para o sul».
De Carmona e do Uíge por onde jornadearam os Cavaleiros do Norte, nada se sabia. Era um território controlado pela FNLA - tal qual a província (distrito) do Zaire.
Em Luanda faltava a gasolina e os transportes públicos estavam na iminência de paralisar. «Assiste-se a uma autentica corrida aos postos de abastecimento, dando origem a longas filas de automóveis», relatava a France Press.
As nossas tropas - os Cavaleiros do Norte - continuavam as suas rotinas do Grafanil e na situação de «unidade de reserva da RMA». Com «saídas» para os locais de culto da capital luandina. E para as suas praias, como se vê na imagem.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

3 219 - A ponte aérea e as últimas semanas de Luanda

Fátima e José Bernardino, com as filhas, Albano Resende, furriel miliciano 
Viegas e capitão Domingues, primo de Fátima e que esteve colocado no Comando 
de Sector do Uíge, no tempo dos Cavaleiros do Norte em
 Carmona. Em Luanda, há 40 anos!

O início da ponte aérea foi noticiado
na 1ª. página do Diário de Lisboa
de 12 de Agosto de 1975



Os Cavaleiros do Norte, por estes dias de há 40 anos, continuavam no Grafanil e aguardando o regresso a Lisboa. As comissões militares tinham sido reduzidas para 15 meses e nós já íamos precisamente nos... 15!! Faltava saber o dia do embarque e, até aí, esperar que tudo corresse sem problemas.
Por mim, o tempo livre era para «vadiar» pela cidade e achar-me com amigos civis que por lá faziam vida e se dividiam em dúvidas: ficar, ou regressar à Europa?   
O Diário de Lisboa de 12 de Agosto de 1975 noticiou, na primeira página, o início da ponte aérea - com a chegada, a Lisboa, de um avião de escala (de Luanda) e dois de Nova Lisboa. E um outro, ao princípio da tarde, «com gente a quem, muitas vezes, falta tudo, desde a roupa mais necessário, à comida e ao dinheiro para as primeiras voltas e a subsistência».
Em Luanda, seguindo o mesmo DL, «reina(va) a calma». Os últimos efectivos da FNLA foram desalojados do forte de S. Pedro da Barra e abandonaram Luanda por via marítima. O forte foi ocupado pelas tropa portuguesa. Os militares deste movimento que integravam as Forças Mistas estavam aquartelados no Grafanil e expectava-se a sua evacuação para o dia 12 de Setembro. 
A UNITA apenas lá tinha (em Luanda) um funcionário - que iria partir para Nova Lisboa. Aqui e «depois de violentas confrontações», era o MPLA que retirava. «As tropas da FNLA e da UNITA iniciaram uma verdadeira caça aos homens do MPLA», relatava o vespertino de Lisboa, sublinhando que havia «grande número de desaparecidos, saques e destruição de habitações».
Ao norte de Luanda, perto do Caxito, e em Moçâmedes (tal como em Nova Lisboa) «os três movimentos de libertação trava(va)m combates sobre combates, procurando alargar a sua zona de influência».
Instalados em Viana, na casa de Manuel Cruz (que já tinha voltado a Águeda e a deixara ao cuidado do amigo Gilberto Marques), saímos (eu e o Neto, que o Monteiro trabalhava na secretaria) em raides pela cidade, ao encontro dos prazeres e dos sonhos dos 22/23 anos. Por lá me encontrei com muitos conterrâneos: as famílias Resende (foto) e de José Martinho (PSP), Neca, Cândida e outras. 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

3 218 - MPLA admitiu declarar unilateralmente a independência!

Campo  Militar do Grafanil, em foto de Jorge Oliveira (1973). À direita, 
vê-se o anfiteatro do cinema ao ar livre. Por aqui passaram muitas vezes os 
Cavaleiros do Norte, nas últimas semanas da jornada africana
 de Angola

Notícia do Diário de Lisboa de 11 de
Agosto de 1975. O MPLA admita declarar unilateralmente
a independência de Angola, antes de 11 de Novembro - a
data prevista pelo Acordo do Alvor
O presidente do MPLA admitia a 11 de Agosto de 1975, a possibilidade de o seu movimento «declarar unilateralmente a independência de Angola, antes de 11 de Novembro, a data prevista no Acordo do Alvor». «Nunca se sabe, é uma hipótese», disse Agostinho Neto em Luanda, numa entrevista à AFP, acrescentando que «tudo depende do comportamento das forças em presença».
Em Abidjan, capital da Costa do Marfim, José Eduardo dos Santos e Victor Carvalho, delegados de Agostinho Neto, denunciaram «as violações sistemáticas dos Acordos do Alvor e de Nakuru, prepertadas pela FNLA» e deram conta da «situação de guerra que se generaliza» em Angola.
O presidente do MPLA, por sua vez e em Luanda, acrescentava «ser ainda muito cedo para se falar de paz em Angola», embora se declarasse «optimista quando à situação militar». E que «sempre fomos optimistas, mesmo quando nos julgavam desfeitos». 
«Há alguns recontros em Angola, mas para o MPLA tudo está a correr bem», sublinhou Agostinho Neto.
Ao mesmo tempo, Mobutu Sese Seko, presidente do Zaire, recebeu os presidentes da FNLA (Holden Roberto, seu cunhado) e da UNITA (Jonas Savimbi» - movimentos que estavam fora de Luanda. 
O líder da FNLA tentou até (sem conseguir) falar com Valery Giscard D´Estaing, presidente da França (em visita oficial ao Zaire), e Savimbi partiu dali para a Tanzânia, onde iria informar o presidente Julius Nyerere da situação angolana e pedir apoio para o seu movimento.
E os Cavaleiros do Norte?
Continuavam no Campo Militar do Grafanil como unidade de reserva do MFA e tinham ocorrido à emergência militar que, no Bairro do Saneamento, tinha confrontado o MPLA com a FNLA. Desta participação, não tenho grandes referências - nem mesmo da grandeza dessa intervenção, que coincidiu com a estreia de fogo de um batalhão português que por esses dias estava a chegar a Luanda, mais ou menos convencido que iria passar umas férias. Não foi assim!

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

3 217 - Cavaleiros num país sem Governo e com espectro da fome

Cavaleiros do Norte Neto (à direita) e Viegas (a seguir), com dois conterrâneos 
de Águeda, na casa de Viana, a 10 de Agosto de 1975: o Carlos
 Sucena (à esquerda) e o Gilberto Marques (de pé) 

«O Governo de Angola não funciomna»,
disse Vasco Vieira de Almeida, o ministro
da Economia. A imagem e da primeira
página do Diário de Lisboa de 11 de
Agosto de 1975. Há 40 anos!


A 10 de Agosto de 1975 juntaram-se na casa de Viana 4 amigos de Águeda: os Cavaleiros do Norte Neto e Viegas, o Carlos Sucena (também militar) e Gilberto Marques - o civil que nos cedeu a magnífica residência onde «aquartelámos» com o José Monteiro - o outro furriel miliciano «Ranger» -, até à véspera do regresso a Portugal.
A ementa, pelo que se vê, passou por marisco e cerveja, tudo bem aviado e em ambiente bem-disposto. No Grafanil, por ser domingo, boa parte dos Cavaleiros do Norte foram dispensados de serviços e muitos deles não desperdiçaram a oportunidade para uma saltada à cidade e às praias.
A cidade continuava em «pé de guerra» e os ministros da FNLA foram evacuados pela tropa portuguesa. «As violentas confrontações de sábado decorreram na maior parte na zona que se estende por detrás do Palácio do Governador e que, seguindo a denúncia do MPLA, tinha sido transformado pela FNLA num campo armado», reportava o Diário de Lisboa.
Especulava-se, por essa altura, que as autoridades portuguesas queriam «tirar da capital as tropas dos três movimentos e declararem Luanda como zona desmilitarizada». Ao tempo, recordemos, o MPLA controlava a capital, depois da saída da FNLA e da UNITA.
O português Vasco Vieira de Almeida, membro do Governo de Transição, admitia «não saber ainda se a acção envolvendo a evacuação dos ministros da FNLA (...) significaria a queda do Governo de Transição» - de que ele era Ministro da Economia. Uma certeza havia, como relatava o Diário de Lisboa: «Paira sobre Luanda o espectro da fome. Começa a rarear os combustíveis e a comida não tem chegado em reabastecimentos». Vasco Vieira de Almeida admitia mesmo que «um auxílio internacional talvez fosse preciso, para evitar que a sacrificada capital fosse assolada pela fome».
Era neste quadro que os Cavaleiros do Norte cumpriam as últimas semanas da sua jornada africana de Angola.
Ao tempo, eu não sabia mas, noutra Viana (a do Castelo, no Minho do Portugal Europeu), nesse mesmo dia fui tio pela terceira vez: nasceu a Marta, filha de minha irmã mas velha, a Ana Maria. Que, por tal, hoje mesmo faz 40 anos! A Marta!!!

domingo, 9 de agosto de 2015

3 216 - Cavaleiros no Grafanil e FNLA e UNITA fora de Luanda

Cavaleiros do Norte: Serra Mendes e Domingos Teixeira, o estofador (atrás), 
João Monteiro (o Gasolinas), Américo Gaiteiro e Porfírio Malheiro (sentados 
e ao meio); José Canhoto (de arma na mão direita e mão esquerda no quico) 
e António Pereira, ao lado direito e de pé (mecânico) 


O Diário de Lisboa de 9 de Agosto de 1975
noticiou, em primeira página, a saída da
UNITA de Luanda e a exigência, do MPLA,
de expulsão da FNLA do Governo
de Transição de Angola



Os Cavaleiros do Norte, pela primeira vez juntos destes os tempos de formação do Batalhão, no Campo Militar de Santa Margarida, e aquartelados no antigo Batalhão de Intendência de Angola (BIA), ao Grafanil, foram-se adaptando aos novos ambientes e desafios. Há 40 anos!
Colocado o BCAV. 8423 como unidade de reserva, tinha pequenas missões e as principais (quase únicas) no próprio BIA. Os incidentes na cidade, estranhamente, quase nos passavam ao lado. A 9 de Agosto de 1975, todavia, e logo pela manhã, fez-se ouvir «violento tiroteio com armas ligeiras e pesadas (...), à medida que se generalizava uma ofensiva desencadeada pelo MPLA (...) com intenção de desalojar os últimos militares e políticos da FNLA, que se encontravam instalados no luxuoso Bairro do Saneamento, por detrás do Palácio do Governo».
O MPLA considerava que a FNLA já não devia fazer parte do Governo de Angola, que, e cito o Diário de Lisboa, «perdeu o direito de participar no Governo de Transição». No mesmo dia 9 de Agosto de há 40 anos, um sábado, confirmou-se «a retirada total da forças da UNITA» de Luanda. Dirigiram para Lobito e Nova Lisboa.
O MPLA controlava a capital, restando apenas os elementos da FNLA acantonados no Forte de S. Pedro da Barra. A situação no Caxito continuava igual e em Henrique de Carvalho tinham-se confrontado MPLA e UNITA, na antevéspera (5ª.-feira. dia 7). Uma centena de homens do movimento de Jonas Savimbi pediu refúgio no quartel português - tendo as autoridades portuguesas decidido que fossem evacuados para o Luso ou Nova Lisboa. 
O comunicado do Alto Comissário Interino,
general Ferreira de Macedo, responsabilizando
os três movimentos pelo «momento gravíssimo 

da vida do país».  Publicado no Diário de Lisboa 
de 9 de Agosto de 1975. Há 40 anos! 
Clicar, para ampliar
Em Cabinda «continua(va) a ameaça de confronto entre MPLA e UNITA, uma altura em que a FNLA já abandonou o Enclave». E a UNITA pretendia que os seus 300 homens localizados a sul do território fossem evacuados para o quartel português.
Ferreira de Macedo, general e o Alto Comissário interno, emitiu um, comunicado em que, citando «o momento gravíssimo da vida do país» também «responsabiliza(ou) os movimentos de libertação pelo impasse político a que se chegou e pelo colapso económico que se verifica». Apelou à «necessidade de se sair desse impasse». Sem isso, frisou Ferreira de Macedo, «o Governo Português reserva-se ao direito de tomar as atitudes consideradas convenientes, enquanto esta situação se mantiver». 

sábado, 8 de agosto de 2015

3 215 - Cavaleiros no Grafanil e FNLA expulsa de Luanda

Cavaleiros do Norte do PELREC: Francisco (de braços cruzados), Madaleno 
e Alberto Ferreira (de cerveja na mão). Silvestre (à frente e de bigode, frente a 
Francisco), Aurélio, o Barbeiro (de mão no queixo), Florêncio (de bigode e a 
sorrir), 1ºs. cabos Soares e Vicente (ambos de bigode). Leal (de boina no ombro e 
1º. cabo Almeida (atrás deste). À frente e à direita, alferes Garcia e Armindo Gomes, 
1º. cabo Cordeiro (de bigode e a sorrir), Dionísio (?), NN e NN. E os três de lá atrás, à direita?


Notícia do Diário de Lisboa de 8 de Agosto
de 1975, sobre a expulsão da FNLA (de
Holden Roberto) de Luanda, pelo
MPLA (de Agostinho Neto)

A chegada dos Cavaleiros do Norte ao Grafanil, nesse meio dia e quarenta e cinco de 6 de Agosto de 1975, foi vivido com farta alegria pela guarnição - que rapidamente se agrupou nas instalações do já extinto Batalhão de Intendência de Angola, entretanto desinfestado e limpo pelo grupo da viagem aérea de domingo anterior (dia 3).
«Um curto período de repouso, o arranjo de viaturas, o ocupar das novas instalações e logo o BCAV. foi chamado a actuar, dado que fica/(rá) em Luanda a cumprir missões de unidade de reserva da RMA», leio no Livro da Unidade.
Luanda onde, por esse tempo - a 8 de Agosto de 1975, hoje se fazem 40 anos -, o MPLA neutralizou e evacuou «quase 300 militantes da FNLA», que, segundo Iko Carreira (comandante do MPLA), numa conferência de imprensa em Brazavville, «tinham sido introduzidos na capital angolana como o objectivo de ocuparem, pela força, o Poder, iniciando essa operação com a ocupação de pontos estratégicos».
Desmentiu, porém, que as tropas do FNLA tivessem avançado sobre Luanda, notando, como noticiava o Diário de Lisboa, que «a tomada eventual capital não se registará, porque nós vamos opor ao invasor a resistência popular generalizada». Denunciou, por outro lado, «que as tropas da FNLA traziam na vanguarda tanques de origem estrangeira, que nunca tinham sido vistos antes». 
«São tanques que não serviram na guerra colonial, mas que esperaram pela independência»,  observou Iko Carreira.
Diário de Lisboa de 8 de Agosto de 1975: a
primeira página com a notícia da posse do V
Governo Contitucional, presidido pelo
general Vasco Gonçalves
Vasco Gonçalves, em Lisboa e nesse 8 de Agosto de 1975, tomou posse como líder do V Governo Constitucional. Incluía dois vice-primeiros ministros (professor Teixeira Ribeiro e tenente coronel Arnão Metelo) e os ministros major campos Moura Administração Interna), desembargador Rocha e Cunha (Justiça), Mário Ruivo (Negócios Estrangeiros), Henrique Oliveira e Sá (Equipamento Social e   Ambiente e interino dos Transportes e Comunicações), Domingos Lopes (Comércio Externo), Macaístas Malheiros (Comércio Interno), Quitério de Brito (Indústria e Tecnologia) e Pereira de Moura (Assuntos Sociais), Mário Murteira (Planeamento e Coordenação Económica), José Joaquim Fragoso (Finanças), Oliveira Baptista (Agricultura e Pescas), major Costa Martins (Trabalho), capitão de mar e guerra Silvano Ribeiro (Defesa), major José Emídio Silva (Educação) e capitão de fragata Correia Jesuíno (Comunicação Social).

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

3 214 - A primeiro dia do Grafanil depois da coluna de Carmona!!!


Cavaleirosa do Norte da CCS, ainda no Quitexe: Madaleno, Soares, Mosteias, 
Neto, Gomes, Pires (Bragança), Florindo, Rocha, Pires (Montijo) Soares, Almeida, 
NN,Zambujo. Couto (?) e NN na fila do meio, NN, Tomás. NN, Pais, Cruz, NN, Cabrita, 
NN, NN, NN e NN. Sentados, ???? Quem são?

Vista parcial do Campo Militar do
Grafanil, a 7 quilómetros de Luanda

A coluna dos Cavaleiros do Norte chegou ao Grafanil e, se outra razão não houvesse - e muitas houve!!!.... -, um bastaria para que tivessem valido todos os sacrifícios dessas 58,45 horas da viagem, sob permanentes ameaças, ora da FNLA, ora  do MPLA: a salvação de milhares de civis que, por entre um mar de emoções que não vem ao caso, chegaram de Carmona ao Grafanil (a Luanda). E não foi empresa fácil: entre 700 e 800 viaturas (jamais alguém as poderia quantificar) e um mar de civis que, embora descrentes e desconfortáveis, passaram, em segurança, as fronteiras de morte criadas por FNLA e MPLA, na epopeica viagem de Carmona por Luanda.
«Teria sido a missão mais difícil do Batalhão de Cavalaria 8423 mas também aquela em que bem demonstrou seu «querer e saber querer», conduzindo uma operação que forçosamente terá de ser um pilar bem marcante da sua história", regista o Livro da Unidade, pela pena do comandante Almeida e Brito.
O percurso dos Cavaleiros do Norte (a
vermelho), de Carmona até Luanda, 5780
quilómetros em 58,45 horas. O percurso mais
curto seria o indicado a verde, mas não foi possível
devido à situação militar do Caxito
A imprensa do dia 7 de Agosto de 1975 dá conta da chegada os Cavaleiros do Norte ao Grafanil: «Ainda em relação a Luanda, referiremos que chegou hoje a esta cidade a coluna vinda de Carmona e do Negage, coluna que, como referimos ontem, era constituída por 650 viaturas civis, que transportavam cerca de de 3000 pessoas, e 150 viaturas militares, que transportavam a escolta ida de Luanda, afim de proteger a coluna de regresso a esta cidade (Luanda), e também as forças do batalhão que não tinham sido evacuadas por via aérea», referia o comunicado da 5ª. Divisão do Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas.
O Diário de Lisboa de 7 de Agosto de 1975 dá igualmente conta de «grandes recontros ao longo da estrada que, de Luanda a Malange, se dirige a Negage e Carmona». Fundamentava-se o DL em informações dos «elementos que retiraram de Carmona e ontem chegaram a Luanda» - precisamente os Cavaleiros do Norte.
As mesmas fontes citadas pelo DL (os Cavaleiros do Norte) referiram-se a «dezenas de mortos caídos ao longo das estradas» e afirmavam também que «o ELNA havia já sido expulso de Lucala e debandava em direcção a Samba Caju».
«As mesmas fontes dão ainda conta de notícias segundo as quais existem fortes suspeitas de que a FNLA teria introduzido aviões e helicópteros no Negage, a antiga base aérea portuguesa», noticiava o Diário de Lisboa.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

3 213 - Chegada ao Grafanil, 570 quilómetros e 58,45 horas depois...

O helicóptero da Força Aérea Portuguesa que foi atingido 
pelas forças do MPLA
(foto de Agostinho Belo, furriel da 3ª. CCAV. 8423)



A coluna dos Cavaleiros do Norte, algures
entre Carmona e Luanda. Foto do furriel
miliciano Agostinho Belo, da 3ª. CCAV. 8423


Quarta-feira, 6 de Agosto de 1975! A coluna dos Cavaleiros do Norte retomou a marcha às 7 horas da manhã, no Dondo - a 174 quilómetros de Luanda. Ali parara, seis horas antes, para repouso.
Transcrevo, do Livro da Unidade: 
«Às 10,20 horas, foi a coluna sobrevoada por dois aviões Fiat e um heli, com uma reportagem da BBC, para passar Catete às 11 horas e começar a chegar ao Grafanil às 12 horas, aqui com um tempo de escoamento de 45 minutos. Terminou, assim, às 12,45 horas de 6 de Agosto de 1975, o movimento do Batalhão de Cavalaria 8423 de Carmona para Luanda, nos 570 quilómetros de itinerário e no tempo de 58,45 horas, trazendo consigo cerca de 700 a 800 viaturas.
Terminou, assim, a odisseia de milhares de civis que, à chegada a Luanda, choravam por se sentirem salvos».
O último percurso da coluna dos Cavaleiros d
o Norte foi entre o Dondo e Luanda, de
174 quilómetros, feitos em 5 horas
Os companheiros desta histórica coluna foram recebidos com palmas, pelos Cavaleiros do Norte que tinham chegado ao Batalhão de Intendência de Angola, no domingo anterior. Palmas de alegria e felicitações, depois de três dias de sofrimento e coragem. 
O comunicado da 5ª. Divisão do Estado Maior General das Forças Armadas da véspera (dia 5 de Agosto de 1975), que só hoje se fazem 40 anos foi conhecido em Luanda, refere que «no cumprimento do plano de retracção das Forças Armadas Portuguesas, foram retiradas as tropas destas duas localidade» - Carmona e Negage. Era a primeira referência oficial ao movimento dos Cavaleiro do Norte e acrescenta(va) que «como é habitual, grande parte da população acompanha a tropa portuguesa».
«A coluna, constituída por centenas de viaturas e que se estende por vários quilómetros, saiu ontem de Carmona e Negage», acrescentava o comunicado. À hora em que foi conhecido em Luanda, já a coluna tinha chegado à capital angolana.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

3 212 - Helicóptero atingido, dificuldades e ameaça de força da UNITA

Cavaleiros do Norte na epopeica coluna de evacuação de Carmona para 
Luanda: NN, 1º. cabo Mendes, 1º. cabo Deus (3ª. CCAV. 8423), soldado Santos e furriel 
Artur Guedes, todas da 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa


A coluna dos Cavaleiros do Norte chegou ao
Dondo a 5 de Agosto de 1975, hoje se fazem 40 anos.
Tinha sa+id de Carmona (Uíge), passando pelo Negage,
Samba Caju e Ndatalando (Salazar)
Dia 5 de Agosto de 1975, o segundo da rotação dos Cavaleiros do Norte para Luanda. A coluna retomou a marcha, eram 5,30 horas da madrugada, em Samba Caju - onde pernoitou. Uma hora depois, já no controlo desta localidade, «surgiram novas dificuldades, novamente torneadas, mas que conduziram a que só pelas 8,30 horas se retomasse a marcha»A guerra psicológica travada no Negage «fôra esgotante para os nervos», segundo o Livro da Unidade, mas «estavam vencidas as primeiras dificuldades». Às 11 horas dessa manhã, atingiu-se Vila Flor, onde «mais viaturas se juntaram» às 700 da coluna dos Cavaleiros do Norte. A marcha prosseguiu e «entrou-se em terra de ninguém», fazendo-se nova paragem pelas 13 horas, para «juntar todas as viaturas e refazer a coluna».
«Ia-se entrar em terra do MPLA, havia que reconhecer o itinerário e, para tal, recorreu-se aos helis que, em Salazar, estavam à ordem da coluna», relata o Livro da Unidade, recordando que «feito o reconhecimento aéreo, em que um héli foi alvejado, contactou-se via terrestre o MPLA, cerca das 13,30 horas».
A marcha reiniciou-se e «atravessou-se Lucala, às 14 horas, onde se abandonou outra viatura». Depois, Salazar (actual Dalatando), «cidade que levou a atravessar cerca de 4 horas, dado terem de se resolver inúmeras avarias». Uma outra viatura foi abandonada e a marcha foi retomada «incorporando na testa da coluna uma Companhia de Paraquedistas, que se encontrava de reserva no CTSAL»
O Dondo foi passado às 23,30 horas, com «nova interrupção de marcha».
Em Luanda e neste dia «milhares de colonos portugueses manifestaram-se (...), pedindo o aceleramento da ponte aérea que deverá evacuar para Lisboa cerca de 300 000 mil brancos, antes da independência». No Caxito, não havia evolução. Em Malanje foi «negociado o acordo de cessar fogo». Da Gabela «saiu a quase totalidade da população, tendo cessado o conflito». Na Lucala, registaram-se «conflitos armados entre FNLA e MPLA». No Lobito e Benguela foi «acordado o cessar fogo e a troca de prisioneiros e viaturas apreendidas».
Notícia do Diário de Lisboa, de 5 de
Agosto de 1975, sobre a posição de força da UNITA, na
guerra pré-independência de Angola
A UNITA, entretanto e «perante a grave conjuntura política e militar de Angola» e o que classificou de «constantes provocações contra militantes e simpatizantes e mesmo às suas tropas» (...) que já provocaram mortes em Luanda, Henrique de Carvalho, Teixeira de Sousa Novo Redondo, Malanje, Serpa Pinto, Lobito, etc.», entre outros graves incidentes, decidiu «tomar posição consentânea com o  momento grave que se vive».

Assim, ordenou às suas tropas que «respondam a partir de hoje às provocações, utilizando a sua capacidade máxima». «Todas as acções em áreas controladas pela UNITA - concluía o comunicado - serão consideradas, a partir de hoje como ataques directos contra a UNITA, cujas forças responderão em consequência».
Mais uma enorme acha para a fogueira fratricida que crescia em Angola.
 - Ver AQUI o noticiário do dia,
sobre a situação em Angola

terça-feira, 4 de agosto de 2015

3 211 - A coluna de 4 de Agosto, de Carmona para Luanda


Cavaleiros do Norte na coluna de Carmona por Luanda, há
40 anos. Quem os pode identificar?

A parada do BC 12 nos últimos tempos da presença
dos Cavaleiros do Norte e das Forças Armadas
Portuguesas em Carmona. A foto é do capitão José Paulo
Falcão, tirada da varanda do edifício do comando


O 4 de Agosto de 1975 foi o último dia da presença militar portuguesa em Carmona e no Uíge. A partida da histórica coluna estava prevista para as cinco horas da manhã, mas, lê-se no Livro da Unidade, «pode dizer-se que, a partir das duas (horas da madrugada) tudo se pôs a postos para que o horário fosse cumprido, e foi».
«Efectivamente, a essa hora, toda a máquina se moveu, mas a incompreensão dos civis gerou o primeiro problema coma  FNLA que, bloqueando-os na cidade, não os quis deixar sair», dá conta o Livro da Unidade, frisando que «assim. às 5,15 horas, resolveu-se o primeiro incidente e esta resolução iria dar azo ao segundo e mais grave incidente, pois que todos fugiram para o Negage, onde finalmente foram impedidos de partir, situação que iria atrasar em cerca de 8 horas a marcha da coluna».
A coluna, com uma companhia de comandos na rectaguarda e uma de paraquedistas à frente, «passou o controlo da FNLA do Candombe com 210 viaturas e em cerca de meia hora escoamento». Um acidente, «devido ao cerrado nevoeiro», pouco depois e cerca das 7,30 horas, «fez com que fossem abandonadas na estrada duas viaturas médias e fosse rebocada e abandonada no Negage uma viatura pesada».
O Posto do Candombe, em foto de Luís Fernando
e relativamente recente (tirada da net).
Fica(va) entre Carmona e o Negage
Cito, textualmente. o Livro da Unidade, sobre a coluna e nesse 4 de Agosto de há 40 anos: «Aqui (no Negage) toda a cidade estava pejada de viaturas. A FNLA, em peso, proíbe a sua saída, excepção feita às viaturas privadas da coluna militar, Realizadas conversações, estas foram improfíquas; tentadas plataformas várias, bateu-se sempre em falso. Começou a odisseia dos civis, sentindo-se abandonados e entregues à sorte do querer da FNLA, convencidos que as NT os abandonariam.
Assim não sucedeu, procurou-se uma última solução e, efectivamente, após uma reunião às 16 horas, com Daniel Chipenda, obteve-se a permissão para o trânsito da  quase totalidade dos civis. Foi o renascer da esperança para essa gente, foi o acreditar na missão das NT. Efectivamente, não fora tal determinação e todos ficariam; assim, só uma pequena parte de camionistas não conseguiu resolver o seu problema.
Reorganizada a coluna, agora com cerca de 700 viaturas, retomou a marcha às 18 horas, para às 19 atravessar o controlo de Camabatela e incorporar mais uns tantos civis. Cerca das 20,30 horas, à entrada de Samba Caju, parou-se a coluna para pernoitar».
Enquanto isso, no Batalhão de Intendência de Angola, no Grafanil, os Cavaleiros do Norte que na véspera tinha viajado de avião, fadigavam-se na recuperação sanitária das degradadas instalações. Em Luanda. FNLA e UNITA defendiam a continuidade do Alto Comissário Silva Cardoso - muito contestado pelo MPLA. Na véspera, di 3 e por volta das 22 horas, depois do recolher obrigatório (21), registou-se «intenso tiroteio, em pleno centro. A polícia e o Exército cercaram de imediato a zona e não se verificaram detenções. A situação no Caxito «mantinha-se estacionária», segundo o Diário de Lisboa. No Luso,tinha sido «conseguido o cessar fogo às 23,40 horas de ontem». Na Quibala e Gabela, tinham «diminuído as acções de fogo», mas para a Gabela foi «uma companhia de tropas portuguesas, para ar protecção às populações» destas duas regiões. No Lobito e Benguela também se registaram acções de fogo.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

3 210 - O dia da rotação de Carmona para Luandal! Há 40 anos!!!

Aeroporto de Carmona, de onde, há precisamente 40 anos, saíram a CCS e
a 1ª. CCAV. 8423 dos Cavaleiros do Norte, em rotação militar para Luanda

Nort Atlas, ou Noratlas, ou «barriga de jindungo».
Foi em dois aviões deste tipo, e dois DC6, que
a CCS e a 1ª. CCAV. 8423 voaram de Carmona para
Luanda, a 3 de Agosto de 1975. Há 40 anos!!!



Domingo, 3 de Agosto de 1975. A alvorada no BC12 é mais madrugada que o costume. Desde a véspera, os Cavaleiros do Norte da CCS (e da 1ª. CCAV. 8423) estão prontos para a rotação luandina. Muitos, nem dormiram, entre muitos tragos de cucas frescas (de nocais, de ekas e de n´golas), ou de vinho branco arrefecido nas arcas do BC12. 
«(...) em 3 de Agosto, em duas levas de um DC6 e dois NORATLAS foi transportada a CCS e a 1ª. CCAV. 8423 para o aquartelamento do Batalhão de Intendência de Angola, no Grafanil», historia o Livro da Unidade. 
Às 8 horas dessa manhã de há 40 anos, já estávamos no aeroporto de Carmona. A viagem aérea foi rápida e grande a decepção ao chegar ao Batalhão de Intendência - que estava em estado muito degradado, sujo, indigno de receber militares que chegavam de onde chegavam. Almoço, nem vê-lo. Cada um teve de se desenrascar como pôde. A maioria dos furriéis milicianos deslocou-se a Luanda, para comer na messe de sargentos, na Avenida dos Combatentes, já passava das duas horas da tarde. Foi a primeira vez que comi em self-service.
Batalhão de Intendência de Angola,
no Grafanil (foto da net)
Luanda, nesse primeiro domingo de Agosto de 1975, continuava sob a ameaça da FNLA, estacionada no Caxito. «Evidentemente, o objectivo da FNLA é apanhar militarmente posições estratégicas que lhe possibilitem dar um golpe de força sobre Luanda», admitia Lopo do Nascimento, alto quadro do MPLA e membro do Governo Provisório, apelidando o movimento de Holden Roberto como sendo de «ideologia fascista», que, sublinhou, «tem exercido forte repressão e cometido verdadeiras atrocidades sobre as populações».
Sobre o Uíge e Zaire, províncias do norte angolano, dizia Lopo do Nascimento que «foram ocupadas militarmente pela FNLA, que delas expulsou todos os elementos do MPLA e desmantelando a sua administração». A FNLA, como ontem aqui lembrámos, quereria dividir Angola em duas - juntando Uíje e Zaire.
«A situação dessas duas províncias - asseverou Lopo do Nascimento - caracteriza-se  por uma paralização total da sua administração pública e da actividade económica, na sua grande maioria, afirmando-se mesmo que os circuitos económicos que se faziam pelo porto de Luanda para o resto do território são agora efectuados pelo porto de Matadi».
O resto da tarde desse 3 de Agosto domingueiro de 1975 trouxe-nos sorte - a mim ao Neto e ao Monteiro. Na verdade, encontrámos o aguedense Gilberto Marques, civil qaue por lá laborava, que nos disponibilizou uma casa em Viana. Nela vivemos, até 7 de Setembro. 
- MATADI. Porto do Rio Congo, localizado 
no Zaire de Mobutu Sese Seko, cunhado de 
Holden Roberto, líder da FNLA. 
Zaire é a actual República Democrática 
do Congo.

domingo, 2 de agosto de 2015

3 209 - A saída do BCAV. 8423 e Angola dividida em duas!|

PELREC: 1º. cabo Almeida (falecido a 28022009), Messejana, Neves, 1º. cabo Soares, 
Florêncio. Silvestre, Marcos, 1º. cabo Pinto, Caixarias e 1º. Florindo (enfermeiro). Em 
baixo, 1º. cabo Vicente (falecido a 21 de Janeiro de 1997), furriel Viegas, Francisco, 
Leal (falecido a 18/06/2007) 1º. cabo Oliveira (transmissões), 1º. cabo Hipólito, Aurélio 
(Barbeiro), Madaleno e furriel Neto


Furriéis milicianos Mosteias, Viegas, Bento. Cruz
e José Pires, Cavaleiros do Norte que, como toda a guarnição 
do BCAV. 8423, há precisamente 40 anos fecharam
 malas para a rodagem de Carmona para Luanda 
A 2 de Agosto de 1975, um sábado..., estávamos mesmo a fechar as malas para a viagem aérea para Luanda, dizendo adeus a Carmona. Mal me recordo de uma última viagem, à noite e em jeep militar, pela cidade, como que a dizer-lhe adeus. Os cheiros e as cores do farto Uíge iam ficar para trás e, com eles, ficavam enterrados dias de sofrimento e dor, momentos trágicos e violentos, regados a sangue de muita gente inocente. Nem tanto, de outra... 
Há, na alma dos Cavaleiros do Norte, sentires diferentes e antagónicos. Por um lado, o de alívio - porque vamos embora e mais perto ficariam as nossas casas e os cheiros das terras que nos derem berço. Por outro, o de preocupação: o que vai ser desta gente, num futuro mais ou menos próximo?
A guerra civil alastrava-se por Angola, embora em Carmona e no Uíge, depois da dramática primeira semana de Junho e da expulsão do MPLA, a situação fosse controlado pelas NT, mesmo com as ameaças e mudanças de humores dos homens da FNLA - e das exigências que faziam, para que lhes fossem dadas armas.
Notícia do Diário de Lisboa de 2 de
Agosto de 1975. A FNLA queria cortar
Angola em duas partes?
Ao tempo, Lopo do Nascimento, alto dirigente do MPLA, a falar em Lourenço Marques, afirmou que as províncias nortenhas de Angola - o Uíge e o Zaire - «estão  militarmente ocupadas pela FNLA». O alto dirigente do MPLA e também membro do Governo Provisório de Angola acrescentou que «as forças ligadas ao imperialismo, estão neste momento a tentar levar a divisão de Angola». Sublinhou que «em Angola, trava-se uma luta entre as forças do progresso e forças de reacção», referindo-se, respectivamente, ao MPLA e à FNLA - esta acusada de «verdadeiros massacres» e de ser «um movimento de ideologia fascista».
Cabinda continuava a ser um problema. A 25 de Julho, tinha sido anunciada a constituição de «um Governo Provisório Revolucionário cabindense, presidido por Francisco Tiago», que era o vice-presidente da FLEC. Mas o presidente Ranque Franque «desmentiu a legitimidade e a representatividade de um pretenso Governo Provisório». Proclamaria ele mesmo «a independência completamente teórica do enclave», como se lê no Diário de Lisboa de 2 de Agosto de 1975 e em Kampala, mas sem ser ouvido pelos conferencistas da Cimeira da OUA, ali reunidos. Apenas o presidente Mobutu (Zaire) tentou que «prevalecesse o princípio da auto-determinação de Cabinda», mas sem sucesso. Até hoje.

sábado, 1 de agosto de 2015

3 208 - Povo uigense a preparar o êxodo de Carmona


Parada do BC12, nos últimos tempos dos Cavaleiros do Norte
em Carmona, capital do Uíge angolano

Comando de Sector do Uíge, onde também
funcionou a Zona Militar Norte, na
 praça principal de Carmona


Agosto de 1975, dia 1! É 6ª.-feira e o dia da rotação para Luanda está cada vez mas próximo! Será no domingo seguinte e a comunidade civil de Carmona (e do Uíge, no geral) «conhecedora do movimento das NT, insegura no seu dia a dia, descrente futuro e receosa de quaisquer represálias, resolveu-se pelo êxodo», como se lê no Livro da Unidade.
Muitos civis se aproximaram dos militares, pedindo apoio e socorro, transporte de bens e «trocando» isto por favores. A mim. por exemplo ofereceram-me cartas de condução e certificados de habilitações. O mesmo a muitos outros. E dinheiro, angolares - os escudos angolanos!
Ao mesmo tempo, e cito o Diário de Lisboa desse dia, «à guerra total anunciada pela FNLA de Holden Roberto, vem respondendo o MPLA com a resistência popular generalizada». Um comunicado do Estado Maior General das Forças Armadas, em Lisboa - que passou a controlar as noticías sobre Angola - dava conta de «acções de fogo a norte do Caxito (a caminho do Uige) e em Malanje, Luso, Quimbala, Gabela, Cacuso, Duque de Bragança, Porto Amboim e Novo Redondo». Aqui, e continuamos a citar o Diário de Lisboa, «granadas de bazuca atingiram uma traineira e uma lancha da Armada foi alvo de figo de bazuca e de canhões sem recuo». 
A FNLA, em Nova Lisboa (actual Huambo) atacou um posto da PSP e deteve o comandante, o capitão Faria. «Montou um dispositivo de grade aparato, para retirar material de guerra diverso», disse este oficial do Exército. 
Notícia do Diário de Lisboa de 1 de Agosto
de 1975, sobre o assalto da FNLA ao posto
da PSP de Nova Lisboa - actual Huambo
No Luso, MPLA e UNITA continuavam os combates e as acções de fogo «impediram que aterrasse ali um avião da Força Aérea». Em Luanda, o MPLA continuava o cerco aos 600 homens da FNLA no Forte de S. Pedro da Barra e, no Caxito, mantinha-se a situação: ocupação da FNLA e MPLA a formar cerco à vila.
A situação era grave, de tal forma que, nesse mesmo dia 1 de Agosto de 1975, a Organização de Unidade Africana (OUA), reunida em Kampala, no Quénia, decidiu «enviar imediatamente uma comissão a Angola para actuar como medianeira entre os três movimentos de libertação em disputa». A hipótese de a mesma OUA mandar uma força de intervenção, sugerida por Idi Amin (presidente do Uganda), foi rejeitada por MPLA, FNLA e UNITA. A mesma OUA que, também nessa data, se recusou a receber Luís Ranque Franque, presidente da FLEC - que reivindicava a independência do Enclave de Cabinda. Era, porém, apoiada, por Idi Amin.