CAVALEIROS DO NORTE!! Batalhão de Cavalaria 8423, última guarnição militar portuguesa nas terras uíjanas de Quitexe, Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange, Songo e Carmona! Em Angola, anos de 1974 e 1975!

domingo, 7 de outubro de 2012

1 433 - Dois mortos numa emboscada a civis europeus


Uma picada para as fazendas de café da zona do Quitexe 
Foto de Luís Fernando, de 2007 (net)


A 10 de Outubro de 1974, em Luanda, começaram as conversações com a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) - facto que, na altura e no Quitexe, nos passou despercebido - a não ser por um aerograma do Ferreira, dias depois recebido. «Parece que a coisa vai...», dizia ele, muito esperançado mas, todavia, dando conta, também, de alguns incidentes na capital angolana.
A 11 e 12, realizaram-se encontros em Kinshasa, primeiramente entre uma delegação portuguesa e o Presidente Mobutu (do Zaire) e, mais tarde, já envolvendo uma delegação da FNLA. Foi decidida a cessação de hostilidades, a partir de 15 de Outubro.
O cessar fogo não evitou, todavia, que a 14 do mesmo mês, na picada entre as fazendas Alegria II e Ana Maria, no limite nordeste da zona de acção do BCAV. 8423, e lemos do Livro da Unidade, «um grupo do IN realizou uma emboscada a uma viatura civil, com êxito da sua parte, pois que obteve dois mortos civis europeus».
Confiar, mas não tanto, pensou-se na altura. Mas havia, naturalmente, que garantir a segurança e a confiança da população - que vivia despreocupada da guerra que se travava nas matas, trilhos e picadas e mal imaginava os tempos de  drama e dor que estavam para vir. Ninguém imaginava. 


Negociações em Lusaka entre a delegação portuguesa chefiada por Mário Soares e constituída por Almeida Santos e Melo Antunes com a FRELIMO, sendo acordado o cessar-fogo e a data da independência de Moçambique
037313

(e 06) Mário Soares encontra-se de novo em Lusaka, chefiando uma delegação portuguesa constituída por Almeida Santos e Melo Antunes negoceia e assina o acordo de cessar-fogo com a FRELIMO e fixa em 25 de Junho de 1975 a data da proclamação da independência da República Popular de Moçambique. A transição será assegurada por um governo provisório presidido por um Alto Comissário português.

sábado, 6 de outubro de 2012

1 432 - A saída da 3ª. CCAV. 8423 de Santa isabel

Chegada dos Cavaleiros do Norte a Santa Isabel, a 11 de Junho de 1974
Foto de Agostinho Belo

Os Cavaleiros do Norte de Santa Isabel chegaram a Santa Isabel no dia 11 de Junho e de lá saíram a 10 de Dezembro de 1974. Para trás, ficaram 13 anos de presença de uma guarnição militar portuguesa, como sinal da sua soberania.

Não ficava longe do Quitexe, a uns 15 quilómetros, quase metade em estrada de asfalto (a do café, que ligava(va) Carmona a Luanda). Saía-se da vila-sede do batalhão, em direcção à capital angolana, e cortava-se na aldeia do Dambi Angola, de que Santa Isabel distava uma meia dúzia de milhares de metros, em picada ora aberta, ora com pontos fechados de mata verde e espessa, por onde saltitavam macacos e de onde se ouviam ruídos da natureza, que assustavam.
A CCAV. 8423 teve dois mortos, mas nenhum em combate. O BCAV., aliás, não teve qualquer morto em situação decorrente de qualquer operação militar. A 2 de Julho de 1975 e já em Carmona, vítima de acidente de viação, faleceu o soldado atirador Jorge Custódio Grácio, mais conhecido como Spínola e que foi vencedor da prova de S. Silvestre do Quitexe. Era natural do Casal das Raposas, em Vieira de Leiria (na Marinha Grande). Agosto de 1975, já em Luanda e em data desconhecida, faleceu o soldado Manuel Barreiros, vítima de doença.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

1 431 - O Pires e o Flora no Clube dos 60 anos!!!


Flora, em cima à direita, a 1 de Janeiro de 1975 - dia de ano novo. Atrás, o Ribeiro, com uma garrafa na mão. Depois, da esquerda, Viegas, Bento e Flora. À frente, o Rocha. Em baixo, Viegas (de arma na mão) e Pires, com um combatente da FNLA, na aldeia do Dambi Angola, a 4 de Novembro de 1974



O Pires e o Flora são dois Cavaleiros do Norte que hoje, quando se passam102 anos da implantação da República, entram no Clube dos 60!!! Fazem 60 anos, são sexiiiiiigenários e bons praças!!! Ambos de bom aspecto, actual, como se os anos não tivessem passado por eles.
O Pires era da CCS do BCAV. 8423 e mais próximo, portanto. Não muito menos o Flora, que cirandou entre Santa Isabel e Quitexe, onde a 3ª. CCAV. chegou de vez em Dezembro de 1974. 
O Pires viveu comigo, provavelmente, um dos mais emocionantes dias da vida - quando a 4 de Novembro de 1974, nos encontrámos (os homens do PELREC) com um grupo de combatentes da FNLA - memória de combatente de que ele ainda hoje fala com pormenor e recapitulando momentos que poderiam ser de tragédia. Foi, para ele, o dia da estreia operacional, saindo do «arame farpado» para uma operação de horas, que fartos amargos de boca nos poderia trazer. Não trouxe, felizmente. Transmontano, fixou-se em Bragança, depois de um périplo nas BT da GNR que o fez correr Portugal. Tem um casal de filhos: ele engenheiro informático na Gulbenkian, ela professora em Valpaços.
O Flora ultrapassou, recentemente, um momento menos bom de saúde e aposentou-se da Caixa Geral de Depósitos - onde fez carreira profissional, depois de, após a jornada angolana, fazer estúdios superiores - ido de Alcains para Lisboa. Tem três filhos, o mais velho recém-emigrado na Alemanha, como quadro superior.
Abraços, ó malta da minha idade. Um destes dias, apanho-vos e entro, também, para o Clube dos 60!!! 
- PIRES. José dos Santos Pires, furriel miliciano de 
transmissões, da CCS do BCAV. 8423. Aposentado 
da GNR, mora em Bragança.
- FLORA. António Pires Flora, furriel 
miliciano atirador de cavalaria, da 3ª. CCAV. 8423. 
Bancário aposentado, mora em Odivelas.
PIRES, ver AQUI
FLORA, ver AQUI

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

1 430 - Cavaleiros de Aldeia Viçosa vão parar ao Fundão

O  Pisco e o Rito (à esquerda. De pé, à direita Carmo 
(de óculos) e Ramalho. O Ramalho a passar o testemunho ao Carmo

A «função» cavaleira da Vila Viçosa, embalada nas saudades sempre renovadas e nos bons-grandes momentos de partilha de afectos que sempre se avivam e sentem nestes momentos, já tem mordomo para o ano: o Carmo, que faz vida pelo Fundão.  
O ritmo (e o ritual) não se pode perder e só se tem a ganhar com esta envolvente emocional que cataliza tantos entusiasmos, durante tantos e tantos anos - desde há 37!!!
O almoço de Vila Viçosa, depois da visita ao monumental paço ducal, provou também (se fosse preciso) como um encontro de ex-combatentes do ex-ultramar pode dinamizar (e assim faz) o turismo social, cultural e histórico português. E tantas maravilhas monumentais e paisagísticas há, por esse Portugal desconhecido que espera por nós - como sugeria um velho slogan da praça publicitária de há uns 2 e alguns anos.
O Guedes, que fez o favor de mandar ao blog as imagens que temos publicado, deu conta disso mesmo e da emoção com que muitos dos Cavaleiros do Norte de Aldeia Viçosa se surpreenderam com a riqueza monumental da outra Viçosa - a que é Vila no chão alentejano de Portugal.
A tarde teve ainda uma merenda, a bucha para o regresso, e lá se fizeram os «adeus até pró ano!»
O Carmo, entretanto, assumiu o novo pouso - no roteiro de emoções da 2ª. CCAV. 8423. Será no Fundão, lá para os fins de Setembro de 2013, que os Cavaleiros do Norte do capitão Cruz se encontrarão. Certamente com mais gente, pois não é tão longe para muitos e a vida está difícil e as algibeiras muito leves para alguns. 
- RAMALHO. Rafael António Pimenta Ramalho, furriel miliciano atirador de cavalaria, comercial na área de distribuição de bebidas, natural e residente em Évora.
- PISCO. Francisco de Jesus Pisco, 1º. cabo atirador de cavalaria, natural de Proença-a-Nova e residente em S. João da Talha.
- RITO. João Jerónimo Rito, atirador de cavalaria.
- CARMO. Eugénio Gonçalves do Carmo, 1º. cabo atirador de cavalaria. Natural e residente no Fundão.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

1 429 - O Ramalho de boina na «formatura» de Vila Viçosa

    Quaresma, o organizador Ramalho (de boina), Palongo, Martins e Teodósio

Os aldeia-viçosenses foram até Vila Viçosa veranear ideias e saborear, com farto prazer, a apetitosa gastronomia alentejana. Outra coisa não podia deixar de ser. Todos muito bem dispostos e com o co-organizador Ramalho a não dispensar a boina militar, que lhe deu sombra em terras angolanas do Uíge. E garbo, desde a Escola Prática de Cavalaria, em Santarém.
Reparem bem como está igualzinho, igualzinho ao que era há... 37 anos. Sem uma pontinha de barriga, de corpo esgalgado, atlético e bem saudável. A vida, e a idade, parece quer não passaram por ele. Ele que, pelo Alentejo, faz vida a distribuir bebidas,
O mesmo não se aplica tão bem aos outros cavaleiros. O Quaresma, que por Aldeia Viçosa foi atirador, tem mesmo jeito de quem se atira bem ao... prato. O Palongo radiotelagrafou-se e escondeu-se na foto. Mas reparem bem no «bem estar na vida» do Martins, que foi mecânico por terras d´África e se apresentou na «formatura» de Vila Viçosa razoavelmente anafado e com corpo de quem diz bem da mulher e da cozinha lá de casa. Melhor ainda, outro mecânico, o Teodósio. Tudo gente bem tratada.
Esta malta nem parece que é sexagenária. Sexigenária, inventou-se há pouco, para disfarçar estados de alma.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

1 428 - Os Cavaleiros do Norte da 2ª. CCAV. em Vila Viçosa

Palongo, Martins, Teodósio, um amigo deste, Quaresma,
Neto e Guedes, Cavaleiros do Norte de Aldeia Viçosa em Vila... Viçosa

O que é prometido é devido e aqui está uma primeira imagem dos Cavaleiros do Norte de Aldeia Viçosa que, a Vila Vilosa, foram matar saudades e cultivar afectos, 37 anos depois de terem regressado aos seus lares europeus, cumprida a jornada de África, por terras de Angola.
O abraço «cavaleiro» aldeia-viçosense juntou 62 pessoas, a 29 de Setembro de 2012, com o selo organizador do Mourato e do Ramalho. Outros não puderam ir, por isto ou por aquilo, mas não faltou a irradiante alegria de quem, pelo chão uíjano, foi companheiro, camarada e irmão, ao longo de 15 meses. 
Não pôde estar, por exemplo, o comandante da companhia (a 2ª. CCAV. 8423), capitão miliciano José Manuel Cruz - retido na sua Esmoriz natal, com problemas físicos de ocasião. Nada de preocupante. Mas lá estiveram o Machado, o Capela e o Carvalho - ao tempo angolano, garbosos alferes milicianos. E os furriéis Martins, Ramalho, Mourato e Guedes, para além de muitos praças. E famílias.
O cozido à portuguesa da terra alentejana de Vila Viçosa caiu que nem canja, bem saboreada e melhor regada com o precioso néctar que aconhega os estomâgos, bem tinto e de grau quanto baste. Tudo foi preparado a preceito, num sítio magnífico e retemperador das almas dos sexIgenários de Aldeia Viçosa, todas eles saudosos dos tempos africanos e da juventude que por lá (n)os fez mais fortes e mais homens. 
Falou o (ex-alferes) Machado e disso tudo sobre «a alegria de estarmos em convívio», 37 anos depois do momento em que disseram adeus no aeroporto e foram, todos, pela estrada fora da vida. Até hoje e para o futuro!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

1 427 - Os 65 anos do (ex-capitão) engº. JP Fernandes


Capitão miliciano José Paulo Fernandes, comandante
da 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel. Aqui, com o 1º. sargento Marchã


O capitão miliciano José Paulo Fernandes comandou a 3ª. CCAV. 8423 e completa 65 anos a 4 de Outubro de 2012. Dentro de uns diazinhos, poucos!!!
A 3ª. CCAV. 8423 chegou a Santa Isabel no dia 11 de Junho de 1974 e por lá esteve até que rodou para o Quitexe (a 10 de Dezembro do mesmo) e, mais tarde, para Carmona - a 8 de Julho de 1975.
Ao tempo, fazendo caminho pelos seus 27 para 28 anos e licenciado em engenharia, foi louvado pelo comando do Batalhão e a Ordem de Serviço nº. 174, destaca-lhe a-lhe «a acção desenvolvida no comando da subunidade», no Quitexe, funções em que «soube tirar partido das possibilidades logísticas» e, assim, «garantindo o verdadeiro cumprimento da missão que lhe foi determinada».
O louvor destaca, também, o período da «eclosão dos graves acontecimentos de confronto armado entre os movimentos de libertação, na área do Quitexe» - onde «o desequilíbrio» de forças era notório, mas os bravos Cavaleiros do Norte de Santa Isabel, sob o seu comando, «garantiram o cabal cumprimento da missão» que lhe estava atribuída. 
Estes anos todos depois, e já gozando as delícias da reforma, o (ex-capitão miliciano) engenheiro F Torres Vedras. É para lá que vai um grande abraço de parabéns, embrulhado no desejo de que o possamos fazer por muitos e bons anos 

domingo, 30 de setembro de 2012

1 426 - Novidades do Quitexe setembrino..

A estrada do café, algures entre Carmona e Luanda, na zona do Quitexe

A 30 de Setembro de 1974, aí estava eu a regressar ao Quitexe, depois da boa-vai-ela de um mês de férias pelo chão d´Angola e com o Neto mortinho por eu chegar, para vir ele até Águeda, para os sabores da família e os gostos de paixão de quem, enamorado, de longe namorava.
Voei de Luanda para Carmona e daqui segui para a vila quitexana, em boleia  da viatura do SPM - como era habitual. «Tava a ver que não chegavas», disse-me o Neto, para quem eu trazia, de Luanda uma «encomenda» chegada da casa de Águeda e guardada nos escritórios da FRAL, em Luanda.
O tempo do meu laréu turístico acabara e muita coisa se tinha passado nesse Setembro, na zona de acção dos Cavaleiros do Norte, o que foi motivo de apalavrada conversa no jantar desse dia, no Pacheco - onde abancámos o inevitável camarão d´entrada e bifes com batatas fitas e ovo a cavalo!!! 
A rotação do BCAV., os problemas disciplinares da companhia do Liberato (e nem imaginávamos os sustos que iríamos passar, pro causa de uma insurrecção dos militares naturais do território angolano...), a entrada disfarçada de alguns IN´s no Quitexe, em Aldeia Viçosa e Vista Alegre, o castigo ao Albino (1º. cabo atirador do nosso PELREC, que o levaria para Zalala), os ataques a madeireiros europeus (na zona do Liberato), a viatura da JAEA flagelada na Quinta das Arcas, disto tudo se falou - sem esquecer as operações de stop na estrada do café.


A liberdade de trânsito, realmente,começaa a ter condicionamentos, principalmente na estrada do café - de Carmona a Luanda (foto) -, mas repetindo-se com alguma gravidade em muitos outros itinerários, nomeadamente os que, em terra batida, ligavam aos principais centros urbanos e às maiores fazendas de café da região uígense -, o que implicou «maior atenção».
«Não sei o que esta merda vai dar... mas vê lá se te pões aqui, para ir eu de férias», reclamava o Neto, no aerograma que, por estes dias de Setembro de 1974 recebi em Nova Lisboa.

sábado, 29 de setembro de 2012

1 425 - O último dia do curso de Operações Especiais


Ordem de serviço com as classificações do curso de Operações Especiais (em cima). Eu 
mesmo, em foto de dias depois, no primeiro serviço de sargento de dia no CIOE (em Outubro de 1973)

A 29 de Setembro de 1973, hoje se completam 39 anos, concluiu-se o curso de Operações Especiais, do 2º. turno do ano, com uma cerimónia  e almoço, para a qual foram convidadas as famílias de cadetes e instruendos. E muitas lá estavam. Não a minha, que para tal não tinha meios.
Concluía-se, assim, uma fase de instrução que viria a ser decisiva no nosso futuro militar, em termos físicos e técnicos, também psicológicos. Por mim, fui 16º. classificado, com 15,33 de média final  - numa classificação (publicada na Ordem de Serviço nº. 234, do CIOE, de 4 de Outubro desse ano) que punha o Cristovão como primeiro (média de 16,58). Da futura CCS dos Cavaleiros do Norte foram quinto o Monteiro (16,05) e 26º. o Neto (14,68%) - todos furriéis milicianos. O Garcia ganhava os (futuros)  galões de alferes com 14,70 (26º.). Outros Cavaleiros do Norte foram os alferes Sousa (da 1ª. CCAV., a de Zalala, 25º. lugar de cadetes, com 14,73), Machado (da 2ª. CCAV., a de Aldeia Viçosa, 24º,. com 14,75) e Rodrigues (da 3ª. CCAV., a de Santa Isabel , com 14,78). E os futuros furriéis Pinto (da 1ª. CCAV., 40º. classificado, com 14,23) e Letras (da 2ª. CCAV., que foi 60º., com 13,25). O Reino, da 3ª. CCAV.,  foi instruendo do curso seguinte.
O dia era sábado, como hoje, e da memória puxo a minha chegada a Águeda, na boleia do SIMCA 1100 do Neto, já a meio da tarde, e de termos parado na esplanada do Zip-Zip (junto ao rio) para bebermos uns finos e ter subido, eu, a então EN1 até à estação dos caminhos de ferro, onde apanhei o comboio para a casa. De camuflado vestido (o que na altura era pouquíssimo vulgar fora dos quartéis) e muito ufano, mostrando as divisas novísimas em folha e vendo a  chapa e o crachat dos Rangers a brilhar nos olhos que quem nos via. Naqueles 1000 metros de rua, no comboio e até chegar a casa.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

1 424 - O encontro dos Cavaleiros de Aldeia Viçosa em Vila... Viçosa


O grupo de Cavaleiros do Norte da 2ª. CCAV. 8423 que se reuniu em Leiria, 
a 4 de Setembro de 2011 (em cima). A ementa de 2012, em Vila Viçosa (2012)


Amanhã, dia 29 deste Setembro de 2012 que está a acabar, é sábado e dia de os Cavaleiros do Norte de Aldeia Viçosa se encontrarem em... Vila Viçosa, no encontro de 2012 e 37 anos depois do regresso de Angola. 
A organização tem carimbo pessoal do Ramalho e do Mourato, dois furriéis que por lá jornadearam com garbo e grande companheirismo. 
O programa, logo a partir das 10 horas da manhã, prevê uma visita ao passo e castelo dos Duques de Bragança (uma oportunidade a não perder, por nada...) e a parte gastronómica e confraternizante decorrerá no restaurante Os Cucos.
Há um ano, por esta altura (a 4 de Setembro), foi a vez de se encontrarem em Leiria - como se vê na imagem. E quantas saudades mataram os garbosos e valorosos antigos combatentes da 2ª. Companhia do BCAV. 8423, que por Angola foram gente do comando do então capitão miliciano Cruz!!!
E o que é o blogue aqui deseja?! Pois que tudo corra na maior, aqui ficando à espera que nos cheguem os registos fotográficos do encontro, para os levarmos ao mundo inteiro. Estão pedidos, com a devida continência, a dois dos Cavaleiros de Aldeia Viçosa. Ai se eles falham!!!

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

1 423 - Os «olímpicos» da mítica Zalala...

«Olímpicos» da mítica de Zalala, em pose de olhar para o amanhã
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AMÉRICO RODRIGUES

A imagem mostra atletas de Zalala em preparação para os «jogos olímpicos» de 1974/75. E que atletas!!!
O Rodrigues (em baixo, do lado esquerdo), está em farda de trabalho, mas já com o braço «esquerdo» sem qualquer hipótese de competir, porque, segundo o regulamento,  «quando a direita cansa, logo a esquerda avança».
O Louro, logo a seguir, com os punhos à espera das luvas de boxe, como quem diz “venham eles, venham eles...».
E o saudoso Barata, que perguntava «contra quem vamos jogar?». Mais à direita, o Dias (o mecânico), com um movimento de mãos que mais parece estar a dar voltas aos pistões, para «afinar» a equipa.  
O Barreto, enfermeiro, está em cima, à esquerda, com as mãos nos ombros dos melhores atletas e a pensar, talvez, no que lhes devia injectar. Doping, do mais reles da enfermaria, ou wiskhye ? Ou a água destilada faria o mesmo efeito?
O Queirós está depois, vestido à moda da máfia dos apostadores. Só queria “massa”!!! Finalmente, o Victor Costa, este sim, como mandam as regras, fardado e com o seu perfil garboso (nesta foto), em pose de «não às baldas para ninguém”. Toca a dormir  cedinho e nas casernas,  ninguém durante a noite nos «tascos» do quartel, ou, fora dele, outros sítios do género, durante o estágio. 
Claro que todas a regras foram quebradas, foram bebedeiras umas em cima das outras, fora ou dentro do quartel.
Os treinos no mato (de 4 ou cinco dias a ração de combate e água do cantil), para defrontar e vencer as picadas de Zalala, entre outros milhares de acontecimentos indetermináveis e indiscritíveis, maturaram estes atletas que, no seu conjunto e cada um na sua “modalidade”, deram o seu melhor e o resultado é que foram todos medalhados, no fim da comissão. Porém, melhor que as medalhas, foi a amizade que se cimentou nesta equipa e com todos os restantes atletas da 1ª.  Companhia e outros camaradas do BCAV. 8423. E que, felizmente, perdura nos dias de hoje
- AMÉRICO RODRIGUES
Zalala - ex-furriel miliciano
- BARATA. Jorge António Eanes Barata, furriel 
miliciano atirador de cavalaria, da 1ª. CCAV. 8423. 
 Natural de Alcains. Falecido a 11 de Outubro de 1997.
Ver AQUI

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

1 422 - O curso de Rangers que nos preparou para a guerra



O tempo passa e já lá vão 39 anos desde que, pelo Setembro de 1973 que então findava, acabava também o curso de Operações Especiais que frequentei no CIOE de Lamego. Era o 2º. turno do ano, dos Rangers, que começou a 16 de Julho e nos levedou instrução e desenvoltura que nos tornou mais fortes e militarmente mais preparados, para o que desse e viesse. Até ao dia 29. O curso envolveu cadetes (futuros oficiais milicianos) e instruendos (que viriam a ser furriéis) e, desde uns dias depois do 16 de Julho, também um pelotão de tenentes e sargentos do quadro permanente. Foi duro, o curso. «Temos exigido de ti! Tens correspondido! Vamos exigir-te mais», pode ler-se no panfleto de acção psicológica que pela altura nos foi distribuído. E se pode ver na imagem.
Dizia mais: «És capaz de forçar os nervos, os músculos, o coração, quando já nada há em ti, a não ser a vontade que diz aguenta?... Se a tua resposta é sim!... Por actos... Não por palavras... Então consideramos-te já um verdadeiro Ranger».
Lido isto, e relido, 39 anos depois (como eu guardo tantos papéis, meu Deus!!!!) não deixa de ser nostálgico imaginar a força que então nos tornava fortes, invulneráveis e invencíveis à dor, ao sofrimento e a tudo o que nos preparava para uma guerra que se fazia a mais de 5000 quilómetros de casa. E não evito mesmo deixar cair breves sorrisos, sentidos e contemplativos da nossa juventude! Não sei se a de hoje se daria em sacrifício e generosidade para assumir qualquer paradigma da pátria. Entendesse-mo-lo, ou não!
Companheiros dessa jornada e depois Cavaleiros do Norte, foram os futuros alferes Garcia (da CCS, falecido a 2 de Novembro de 1979), Sousa (1ª. CCAV.), Machado (2ª.) e Rodrigues (3ª.) e os furriéis Monteiro e Neto (CCS), Pinto (1ª.) e Letras (2ª.). Do curso seguinte, foi o Reina (3ª.)!
- CIOE. Centro de Instrução de Operações Especiais. 
O quartel-sede era em Lamego e em Penude o de instrução.
Ver AQUI

terça-feira, 25 de setembro de 2012

1 421 - As portas de Zalala...

A foto apareceu-me pela frente e eu a puxar pela cabeça: mas onde e isto? Já passei por aqui!!! Enviou-ma o Queirós e, com o indicador direito a rapar a cabeça, lá me veio à ideia: são as Portas de Zalala!!!
Zalala, por onde jornadeou a 1ª. CCAV. 8423, era conhecida como «a mais dura escola de guerra» e assim se mostrava a quem se aproximava da fazenda de Ricardo Guerra - que foi chão mártir logo em 1961, quando rebentou a guerra e por lá passou José Martinho, mau vizinho de aqui a uns 60 metros.
Outros eram esses tempos, de muitos dramas e tragédias que a memória vai encostando no sótão.
«Tivemos de fazer e desfazer 14 pontes, desde o Quitexe. Levamos 9 dias para fazer aqueles 40 quilómetros», recorda José Martinho, também evocando «os nossos soldados que morreram, parece que 9, já não me lembro bem»
As memórias de Zalala são memórias que fazem doer e os Cavaleiros do Norte bem se lembram dos pós de medo que engoliram, quando galgavam a perigosa e lendária picada, que se não nos matou, e não matou!!!, nos armadilhou muitas emoções e castrou entusiasmos. 
Os tempos de 61 foram bem mais trágicos e mortais. «O encarregado da fazenda conseguiu safar-se do ataque e fugiu, já com um braço cortado, decepado. E sabes como se aguentou, como o segurou? Olha, só visto..., embrulhando o côto num pano e folhas de árvores. Fugiu para a mata e por lá andou aqueles dias todos, sabe Deus como, com fome e dores para matar, ate que a tropa apareceu», diz-me José Martinho.
Esqueçamos isso, por momentos. E contemplemos as Portas de Zalala, esta magnífica obra da natureza, que nenhuma guerra destruiu.  

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

1 420 - O Morais das mecânicas já está nos 62 anos

Morais e Lopes, mecânico e enfermeiro do Quitexe. Atrás, 
a casa que era messe e bar de sargentos. Em baixo, o Morais, a 2 de Junho de 2012

O Morais veio de Niza e era furriel mecânico, um bocadinho mais velho que todos os outros sargentos milicianos. A mim, levava-me dois anos e dois meses de dianteira, mas, ao tempo, no tempo da nossa missão em terras uíjanas, não se dava por isso. Amanhã, faz 62 aninhos. Quem diria?!!
O Morais andou pelas engenharias e fez carreira profissional na Estação Nacional de Plantas, em Elvas - mas era nascido das berças da bem alentejana Niza, em família da nobreza tradicional. Tive o gosto de, nos anos 80, visitar e conhecer a mãe, na sua casa de lá.
O Morais quitexano não regateava a sua competência para, no pelotão-auto do alferes Cruz, afinar quaisquer viaturas que «gripassem» nas pesadas e poeirentas picadas da zona de acção dos Cavaleiros do Norte.
Era o companheiro que aligeirava conflitos, com a sua voz professoral, serena e descompressora, sempre muito ouvida - enquanto nos olhava sereno, de sorriso aberto e a fazer bolinhas de fumo do cigarro, debitando  razões sobre o que se conversava ou discutia. Sempre óbvio e esclarecido. 
Era um grade e bom companheiro, daqueles que ficam no rol da vida e guardados no baú da saudade de quem gosta. E aí aparece ele, a todos os encontros dos Cavaleiros do Norte, com a sua «mais que tudo», sempre com o mesmo olhar tranquilo e amigo.
Pois o Morais faz anos amanhã, dia 25 de Setembro de 2012: 62!!!
Grande abraço, amigo alentejano!! E muitos mais anos de vida, por esse mar de tranquilidade que soubeste criar e navegar na tua vida!
- MORAIS. Norberto António Ribeirinho 
Carita de Morais, furriel miliciano mecânico-auto. 
Natural de Niza, aposentado e residente em Elvas, 
onde foi quadro superior da Estação Nacional de Plantas
- O furriel Morais e os primeiros 
isqueiros BIC no Quitexe. Ver AQUI

domingo, 23 de setembro de 2012

1 419 - O dia de Natal de 2 Cavaleiros do Norte

Alferes Cruz (à direita) com o alferes Garcia, na 
Fazenda Vamba (1974), em cima; e furriel Rodrigues (em baixo)


O dia 24 de Setembro foi de natal para dois Cavaleiros do Norte: o alferes Cruz e o furriel Rodrigues, ambos do norte, quase vizinhos, de Santo Tirso aquele e este de Famalicão. Tal como no chão do Uíge angolano: oficial no Quitexe, furriel em Zalala! 
O alferes Cruz comandava o pelotão mecânico-auto rodas, citado, por proposta do comandante da CCS, como «equipa de trabalho com espírito de entre-ajuda e sacrifício, procurando tirar o maior rendimento do seu labor, ao mesmo tempo que torneando as dificuldades inerentes ao muito uso das viaturas e às faltas constantes de sobressalentes», conseguindo, mesmo assim, que «se obtivessem condições de utilização, em tempo oportuno e muito aceitáveis».
A proposta do capitão António Martins Oliveira, «não pretendendo distinguir uns, esquecendo outros», faz notar que «aqui fica o público agradecimento ao seu trabalho»
O furriel Rodrigues foi louvado pela «maneira eficiente e dedicada como desempenhou as funções de vagomestre», que não eram da sua especialidade, mas tarefa em que se impôs «à consideração da subunidade» de Zalala, o que, refere o documento oficial, «leva a afirmar ter sido preciosa a sua colaboração, pelo muito que contribuiu  para facilitar a acção do comando».
Aos dois Cavaleiros do Norte, aqui ficam dois abraços enormes. Do tamanho deste mundo que se fez comum desde Janeiro de 1974, em Santa Margarida, até ao Portugal de hoje.
- CRUZ. António Albano de Araújo Sousa Cruz, alferes 
miliciano mecânico auto. Nascido em 1945 e engenheiro 
de formação, é aposentado e residente em Santo Tirso.
- RODRIGUES. Américo Joaquim da Silva Rodrigues, furriel 
miliciano atirador de cavalaria. Nascido em 1952, aposentado 
e residente em Vila Nova de Famalicão. 

sábado, 22 de setembro de 2012

1 418 - A consciência do dever cumprido...

Parada do Quitexe e secretaria do comando (à esquerda), na esquina 
com a avenida. Ao cima da rua, junto às palmeiras, a administração civil. Almeida e Brito (em baixo)




O Livro da Unidade, referindo-se ao mês de Setembro de 1975, faz um exame de comissão e, frisando «não querer fazer doutrina sobre factos passados, mas ainda bem presentes», dá conta que «bastará sentir-se que se parte com a consciência de haver cumprido o dever que nos solicitaram e que nem sempre foi fácil de cumprir».
«Essa certeza existe?», interrogava-se o comandante Almeida e Brito, ele mesmo respondendo: «Julga-se que sim».
«Se foi bom ou o mau o tempo passado; se valeu ou não vale a pena estar separado da família; se a vinda a Angola deu, ou não, um panorama do que era Portugal; se contraíram, ou não, novos amigos; se os momentos menos agradáveis foram vencidos por momentos de euforia; se encontraram, ou não, no nosso BCAV. 8423, uma nova escola de aprendizagem», tudo isso, para Almeida e Brito, eram questões que ficavam para o nosso exame de consciência.
«Assim se pretendeu e todos nós quisemos que o BCAV. fosse um todo; todos nós desejamos que de nós falassem, sem ser por orgulho ou vaidade, mas pela certeza da compreensão do nosso trabalho; todos nós fizemos por honrar o lema da nossa unidade mobilizadora e todos nós praticámos o nosso querer e saber querer», escreveu o comandante
E o que podemos dizer nós, hoje? Quem lê este blogue sabe bem o que  vale, 37 anos depois, tantos de nós termos os Cavaleiros do Norte dentro da alma.
- ALMEIDA E BRITO. Carlos José Saraiva de Lima 
Almeida e Brito, tenente coronel e comandante do
 BCAV. 8423, Faleceu a 20 de Junho de 2003, 
vítima de doença súbita. Atingiu a patente de general.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

1 417 - O dia em que o Mosteias foi pai!!!

Mosteias e Viegas à porta da secretaria da CCS, no Quitexe (1974)

O 21 de Setembro de 1974 teve registo muito especial no Quitexe militar: o Mosteias foi pai. O comandante Almeida e Brito visitou a 3ª.. CCAV., em Santa Isabel, e ficou por lá, passando pela fazenda Minervina no dia seguinte. Nessa noite, os Cavaleiros do Norte isabelianos tiveram direito a filme. Eu, de férias angolanas, laureava o queijo e chegava a Luanda, onde m´espreitavam os calores e os cios das noite de borga.
Por lá, a essa altura, ouvi falar de um MRA, clandestino, que a surdina popular dava como estando a preparar um corpo de mercenários dispostos a estragar a intenção de independenciar Angola. E ali chegava eu,  galgados milhares de quilómetros do asfalto angolano, de Luanda à Gabela e a Nova Lisboa, pelo Lobito, Benguela e outras praças da terra africana que ia deixar de ser portuguesa.
Sentia-me forte e seguro para as novas (e mais épicas) aventuras!
De Lisboa, chegavam notícias de barricadas, greves e conflitos laborais, de crise política e de um Presidente Spínola cada vez mais isolado. Um jornal deixado por passageiro do dia, trazia notícias de convocação de uma manifestação de apoio ao PR: a da chamada maioria silenciosa, marcada para o dia 28. 
A política estrebuchava em Lisboa, a esquerda revolucionária dividia-se, a direita erguia o pescoço e em  Luanda continuava o período de recolher obrigatório decretado em Agosto. Em Lourenço Marques, na véspera (da 20) tomava posse o Governo de Transição e Moçambique passou a ser governado pela Frelimo, lia-se, mais palavra menos palavra, no Jornal Província de Angola. Luanda fervia e lavravam boatos sobre o alto-comissariado de Rosa Coutinho - de quem se dizia ir dormir a uma corveta da marinha, ao largo de Luanda.
Foi o dia em que Mosteias foi pai!!!
- O Mosteias que era casado e foi pai, AQUI
- O Mosteias não leva desaforo para casa, AQUI
- MRA. Moimento da Resistência de Angola, supostamente ligado à minoria barca.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

1 416 - Os que em Angola tombaram por Portugal !!!


Portugal, tanto quanto sei, sempre honrou aqueles que tombaram para sempre, no teatro de guerra. Seja onde for. Também em Angola. Pessoalmente, sempre me emocionei quando, por onde ia passando, encontrava marcos de homenagem aos que, por uma razão ou outra, ficaram para sempre no chão angolano.
Há poucos anos, profissionalmente viajando pela Guiné (ex-portuguesa), impressionou-me, negativamente, encontrar no cemitério central de Bissau, uma capela com urnas de militares portugueses, identificadas e violadas - a olho nu se vendo ossadas de quem, sem regatear, serviu os desígnios do país, por lá ficando para sempre. 
E sempre em emociona saber que, dos vários teatros de guerra, são trazidos os restos mortais de heróis desconhecidos, que deram a vida em continência à bandeira. É obrigação do país e de quem o governa(ou).
Aqui, deixem-me sublinhar, nada importa saber quais e a justiça dos desígnios patrióticos, de qualquer tempo ou regime. Cobardes, daqueles que fugiram e se (ou os) fizeram heróis, todos nós conhecemos alguns.
O Queirós, um os furriéis da mítica Zalala, mandou-me foto de Vista Alegre (por onde também jornadeou a 1ª. CCAV.), junto do monumento que lá homenageava aqueles que, naquela zona de acção militar dos Cavaleiros do Norte, «tombaram por Portugal».
Aqui fica a nossa continência de respeito e saudade!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

1 415 - Os 71 anos do Coronel Themudo

O capitão Themudo (à direita), na varanda do edifício 
do comando do BC12, com o alferes João Machado, 
da 2ª. CCAV., a de Aldeia Viçosa (à esquerda) e o capitão José Paulo Falcão

O 2º. comandante dos Cavaleiros do Norte completou 71 anos a 17 de Setembro deste 2012 que corre: o coronel Themudo. De boa saúde e pela Lisboa, a capital do ex-império.
O então capitão de cavalaria José Diogo da Mota e Silva Themudo chegou a Carmona em Março de 1975, substituindo o major José Luís J. Ornelas Monteiro - que se apresentara em Santa Margarida, a 4 de Fevereiro de 1974, mas que, nas vésperas do embarque da CCS para Luanda (a 29 de Maio), foi requisitado pelo MFA, «por motivos imperiosos de serviço» e por cá ficou.
O batalhão esteve «órfão» de 2º. comandante até que, contou-nos ele (o coronel Themudo) em Abril de 2010, por «um feliz ou infeliz acaso», foi num dia de Março de 1975 ao aeroporto de Luanda, despedir-se de um camarada de armas, e encontrou o então tenente-coronel Almeida e Brito, que o convidou para 2º. comandante do Batalhão de Cavalaria 8423.
José Diogo Themudo, que então se sentia já «farto de nada fazer» em Luanda, resolveu aceitar o convite, «apesar das funções serem de major e eu ainda ser capitão».
Sem demora, estava em Carmona e no Batalhão de Cavalaria 8423, e deixavam os Cavaleiros do Norte de estar órfãos do 2º. Comandante. A
 24 de Março de 1975, assumiu o comando interino, dado o tenente-coronel Almeida e Brito ter sido deslocado para o comando da ZMN.
Foi louvado, no final da comissão, pelas «elevadas qualidades militares demonstradas no desempenho das funções de 2º. comandante», dando, neste magistério,  «provas da sua já comprovada competência profissional».
O louvor exalta a sua «completa serenidade» durante «o grave conflito armado entre movimentos de libertação», quando, frisa, «soube obter o melhor rendimento do escasso pessoal de que dispunha e, ao mesmo tempo, assegurar a segurança a elevado número de refugiados que solicitaram a protecção das NT».
Ponderação, coragem espírito de missão e de sacrifício são virtudes sublinhadas no louvor proposto pelo comandante Almeida e Brito e atribuído pelo Comando Territorial de Carmona.
As nossas continências, coronel Themudo, pelos 71 anos que festeja! Hoje falei com ele e está em grande forma!

terça-feira, 18 de setembro de 2012

1 414 - O abraço à madrinha que era retornada de Angola


Nova Lisboa, férias militares em Abril de 1975. 
Um Cavaleiro do Norte (do Quitexe) com a madrinha Isolina

A minha chegada de Angola, muito desejada meses e meses seguidos, a fio..., veio ensombrada pelo não achamento de alguns familiares e amigos - que intensamente procurei no aeroporto e em Luanda, nos meus últimos dias de África. Vinha naquele luto, semeado na alma. Era o constrangimento e a decepção de nada poder dizer a quem por eles me perguntasse. E tanta gente seria. E foi!!!
Familiares e conterrâneos em Angola, eram mais de uma centena - muitos dos quais eu tinha visitado, ora nos desenfianços a Luanda, ora nos dois meses de férias que por lá vivi. Uma pessoa muito especial: minha madrinha Isolina, viúva de Arménio - o meu padrinho de baptismo, que em Angola morrera de acidente e estava enterrado no cemitério da Gabela. Aqui a reencontrei em Setembro de 1974, revendo-a em Abril de 1975, já em Nova Lisboa.
O que seria feito dela? E da filha Cecília e do genro Rafael, com quem vivia. E os 4 netos? E o Mário, o outro filho, e a Clarisse (a nora), que pela Gabela faziam vida em fazenda, com os 4 filhos?!
Ainda em Luanda, por todo o mês de Agosto e até 6 ou 7 de Setembro de 1975, procurei-os a todo o custo, pelo aeroporto e com o Albano Resende, entre os milhares de retornados que esperavam boleia aérea para Lisboa. Cheguei a ir à Emissora Oficial de Angola, que tinha um programa especial para localizar pessoas, cujo paradeiro se desconhecia, nesses amargos tempos de guerra. Mas sem conseguir. Nem as dezenas de telefonemas para o Hotel Bimbe, que a Cecília geria em Nova Lisboa. Tudo esbarrou no silêncio.
Imaginam a alegria quando, já na casa da aldeia e logo após a chegada, soube que chegara uns dias antes e estava com os netos numa casa de família. Lá fui rever e abraçar a minha madrinha, que deu notícias dos filhos, família e outros conterrâneos que faziam vida por Nova Lisboa e Gabela. Chegaram algumas semanas depois, na ponte aérea que os levou pelo Gabão, até Lisboa.
Também eles foram actores desse tempo da história.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

1 413 - Os dias de Angola lembrados no Portugal novo

Viegas, Mosteias e Neto em Julho/Agosto de 1975


A chegada a Portugal, para quem vinha de Angola e da guerra urbana que por lá matava gente todos os dias, era uma espécie de bálsamo. E na minha aldeia, ainda hoje tranquila, era como chegar ao paraíso - onde todos nos perguntavam tudo. 
Para nós, era um descoberta: a do Portugal novo.  
Par nós, era a descoberta de um novo vocabulário: o fascismo e a reacção, o colonialismo, a ditadura, a extrema direita e a estrema esquerda, a exploração dos trabalhadores, as intentonas e as barricadas, as revoluções, as manifestações, as greves, o gonçalvismo e muitos outros ismos que a memória foi deixando perder.
Por mim, aqui chegado a uma terça-feira (9 de Setembro de 1975), apenas no sábado (dia 13) me decidi por ir a Águeda - onde o mercado-feira semanal era (e é) ponto de encontro de muita gente. 
Estava no auge o ELF (Exército de Libertação de Fermentelos - a vila da Estalagem das Pateira, que os Cavaleiros do Norte bem conhecem -, de quem, por ser fartamente reaccionário, se diziam cobras e lagartos. Na verdade, vim a saber, tudo não passava de uma brincadeiras de um grupo de pessoas que, por altura das eleições do 25 de Abril desse ano (as Constituintes), andaram de carrinha e aparelhagem sonora a fazer propaganda dos partidos menos à esquerda (mesmo bem longe) do Portugal político que então levedava.
A brincadeira, porém, deu em coisa séria por muito tempo e não faltou quem, do dito ELF, malhasse com os ossos na prisão, já pelo 1976 dentro. Histórias que não vem muito a este cantinho dos Cavaleiros do Norte.
A 37 anos de distância, seguro da opinião, não tenho dúvidas em dizer que senti encontrar um Portugal inseguro, diria que à deriva, num Setembro quente de preocupações (que daria no 25 de Novembro) e que assemelhei às tragédias de nervos e de medos que deixáramos para trás, em Luanda.
Agora vos digo, e acreditem, emocionei-me ao rever-me no cidadão (ex-militar) que descobriu esse Portugal novo de 1975. O Portugal que nos trouxe aos dramáticos dias de hoje.

domingo, 16 de setembro de 2012

1 412 - Medalha comemorativa da campanha em Angola 74/75



Oficiais, sargentos e praças do Batalhão de Cavalaria 8423, todos eles, foram galardoados com a Medalha Comemorativa das Campanhas do Exército Português, com a legenda «Angola 74-75».
A medalha será idêntica à da imagem, mas receio que algum dos Cavaleiros do Norte a tenha recebido. Eu não recebi, nem nenhum dos companheiros que contactei - a maior parte deles, de resto, ignorando até tal condecoração.
A medalha foi criada em 30 de Novembro de 1916, pelo Decreto nº. 2870, em conjunto com a Cruz de Guerra, a Medalha Comemorativa de Campanhas comemora as campanhas das Forças Armada Portuguesas fora de Portugal metropolitano, principalmente face ao contexto da entrada portuguesa na 1ª. Guerra Mundial. 
A medalha é atribuída “aos militares que tenham servido em situação de campanha” (Art. 46.º do Regulamento de 2002). Funciona como medalha geral, sendo cada campanha específica indicada pela colocação de uma passadeira na fita, com a identificação da comissão militar.
O comandante Almeida e Brito, no Livro da Unidade, não se reportando directamente às medalhas, sugere aos Cavaleiros do Norte que «pela vida fora recordem esta vossa passagem pela vida militar, porquanto ela forçosamente terá deixado marcas positivas na vossa formação de homens de amanhã».
Passados exactamente 37 anos, aqui andamos nós - desde Abril de 2009 - a falar da nossa jornada em chão angolano do Uíge.

sábado, 15 de setembro de 2012

1 411 - Louvor oficial aos Cavaleiros do Norte

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O Batalhão de Cavalaria 8423 regressou a Portugal, com a certeza e o orgulho de missão cumprida, trazendo no bornal um louvor oficial da Região Militar de Angola, publicado na Ordem de <serviço nº. 68, de 26 de Agosto de 1975. «Para orgulho de todos nós, pois que tal se deve a oficiais, sargento e praças», como sublinha o Livro da Unidade.
Publicamo-lo na íntegra:

LOUVOR
Louvo o BCav 8423 porque durante o tempo em que prestou serviço no Norte de ANGOLA, nas áreas do QUITEXE e de CARMONÁ, manifestou sempre uma grande determinação, uma constante vontade de bem cumprir, um elevado espírito de disciplina e uma noção perfeita de como uma Unidade se deve adaptar às tarefas que haja que executar de perfeita harmonia com as determinações dos seus superiores hierárquicos.
Da sua acção muito beneficiaram as populações locais de todas as etnias pois pelo justo e equilibrado tratamento das missões que o BCav 8423 cumpriu ressaltaram, além das características já referidas, a aplicação de um espírito humanitário que o guindou a posição de grande admiração e respeito pela forma como conseguiu, em atitude de perfeita isenção, proteger todos os que às suas instalações se acolheram e posteriarmente manter a mesma atitude, para, finalmente, cumprir com brilhantismo uma das que certamente foi a sua mais delicada e difícil tarefa.
Da acção de todas as suas Praças, Sargentos e Oficiais se fica a dever, tanto na área do QUITEXE como na de CARMONA, o estabelecimento de um clima de segurança efectiva pelo que é com a maior justiça que em simples louvor se leva ao conhecimento de todos a forma como o BCav cumpriu a sua missão, dentro do maior espírito de disciplina, evidenciando qualidades hoje já muito raras, constituindo assim uma Unidade que mercê da acção do Comando e seus graduados nunca conheceu a chamada crise de disciplina, cumprindo exemplarmente todas as tarefas de que foi incumbido, grande parte delas em período muito sensível do processo de descolonização de ANGOLA.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

1 410 - Os Cavaleiros de Santa Isabel voltaram para Portugal

 Os Cavaleiros do Norte de Santa Isabel regressaram a Lisboa no dia 11 de Setembro de 1975, com o adeus à Luanda onde tinham chegado a 5 de Junho de 1974. Justamente, 15 meses antes e depois de uma  jornada que passou pelo Quitexe e Carmona.
O comandante era o capitão miliciano Fernandes e o corpo de oficiais milicianos era formado pelos alferes Rodrigues (que comigo concluiu o curso de Operações Especiais (os Rangers de Lamego, de Julho a Setembro de 1973) e os atiradores de cavalaria Barros Simões (agora nas Caldas da rainha), Pedrosa de Oliveira (em Leiria) e Carlos Silva (que goza as delícias da reforma por terras de Ferreira do Zêzere).
É dele a história mais bonita desta gente que, de missão cumprida, regressou a Portugal. É que, perdido de amores, a Portugal veio mas a Luanda voltou, para lá se casar com a mulher dos seus sonhos - com quem ainda hoje se perde e abraços e colo.
«Como sabes, o meu coração ficou em Luanda!  E naquele tempo, com tanta confusão a nível de guerra (guerrilha) por lá, a minha partida não foi fácil e j+a fazia contas ao regresso a Angola, o que aconteceu logo após a minha passagem à disponibilidade, a 26 de Setembro», recorda o próprio Carlos Silva.
O casamento foi em Luanda, a 18 de Outubro desse ano de 1975.
Ver AQUI

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

1 409 - O regresso dos Cavaleiros do Norte de Aldeia Viçosa

Letras, Costa, Guedes e Gomes, quatro Cavaleiros 
do Norte de Aldeia Viçosa. Em baixo, o 2º. sargento Eira

A 2ª. Companhia de Cavalaria 8423 voou de Luanda para Lisboa a 10 de Setembro de 1975. Para trás, ficaram 15 meses de comissão e um mar de emoções que ainda hoje não lhes esquecem - desde a chegada ao Grafanil, a 4 de Junho de 1974.
Os Cavaleiros do Norte eram comandados pelo capitão miliciano Cruz e saíram do Grafanil para Aldeia Viçosa (já com 36 militares angolanos, dos chamados  de mesclagem) no feriado nacional de 10 de Junho. Por lá ficaram até 11 de Março de 1975, quando rodaram para Carmona - numa operação que começara no dia 2 anterior. 
A chegada a Lisboa ocorreu por volta das 18 horas de 10 de Setembro de 1975, cada cavaleiro partindo para o seu chão natal, pelo melhor meio que pôde e o mais rápido possível, para matar as saudades que lhes engravidavam a alma.
O Guedes lembra-se que, com o Zé Gomes e o 2º. sargento Eira - e «outro companheiro, que agora não me recordo», diz ele - terem alugado um táxi, até ao Porto (Campanhã), onde apanhou o comboio para a Régua.
«Cheguei lá por volta das 5 da manhã e depois fui de carro de praça para Silvares, onde minha falecida mãe me abriu a porta de casa», conta o Guedes.
A caminho do Porto, pararam na Mealhada, mas, imagine-se, e cito o Guedes, «não comemos leitão, julgo que jantámos frango na caçarola»
Fosse o que fosse, já sabia à comida das mãezinhas de todos nós. E, para trás, ficavam os sons e os cheiros de uma guerra que nos meteu medos, embora nunca nos matasse a coragem. 
- EIRA. Manuel Alcides da Costa Eira, 2º. sargento enfermeiro. 
Chegou à 2ª. CCAV. 8423 em Abril de 1975, já em Carmona. 
Militar aposentado, reside em Vila Real. 
A foto é de 2 de Junho de 2012.