quinta-feira, 31 de março de 2016

3 352 - Luanda e telefonema para casa, medo da guerra civil!

Férias de há 41 anos. O furriel Viegas (segundo, do lado direito) com o capitão 
Domingues (da ZMN e familiar de Fátima) e a família Resende: Fátima e José 
Bernardino (com duas filhas) e Albano (ao centro)

A Estação dos Correios da baixa de Luanda (foto
da net). Olhando para os automóveis, é relativamente
recente. Daqui, telefonei para a minha vizinha, em
segunda-feira de Páscoa e de visita pascal de 1975, na
aldeia. Há precisamente 41 anos!

Segunda-feira, 31 de Março de 1975! Saímos do Katekero (eu e o Cruz) para o mata-bico na Portugália, ainda não eram 8 horas da manhã e fazia um calor intenso, quase sufocante. A leitura da imprensa do dia ocupou-nos o tempo de matabichar e fazer horas de espera para a chegada do conterrâneo Albano Resende (às 10). Depois, caminhámos pela marginal, embrulhados no bulício de uma baixa que estava longe dos incidentes entre os movimentos - que eram lá para a alta e para os bairros suburbanos. Passámos ao lendário Pólo Norte e, ao darmos de frente com os Correios, ocorre-me a loucura de telefonar a minha mãe, que por aqui (onde agora escrevo, em Ois da Ribeira, município de Águeda) fazia o luto da morte de meu pai (um ano e pouco antes) e da minha jornada africana de Angola, na guerra colonial. Era dia de visita pascal na aldeia!
Telefonar para a Europa, ao tempo, não era vulgar - era quase um atrevimento. Não era como agora, na era dos telemóveis, em que ligamos na hora e na hora falamos. 
Luanda e o Pólo Norte (à esquerda), «templo»
dos bons gelados e de boas e namoradeiras conversas,
lá pelos anos 70 do século XX!
Ao tempo, tínhamos de pedir a ligação à operadora de serviço e aguardar que tal acontecesse. O que poderia levar horas. No caso concreto, a «loucura» não foi bem sucedida, pois a chamada para a vizinha Celeste Tavares não apanhou a mãe em casa. Tinha ido beijar a cruz a casa de familiares. Falei com a vizinha, que me pediu notícias de uma irmã radicada em Luanda e quem fazia tempo não ter notícias - a Benedita (que faleceu já este ano, o de 2016). Naquele tempo, existiam 7 telefones na minha aldeia - público, um deles!
O jornal diário «Liberdade e Terra», afecto à FNLA, dava conta da visita do ministro Almeida Santos a Kinshasa, onde reuniu com Holden Roberto (FNLA) e, depois, com Mobutu, presidente do Zaire. 
A situação político-militar evoluía: «Nas últimas 48 horas, houve violação do acordo entre os três movimentos de libertação e o Governo português, mas estas ocorrências não prejudicam o regresso à normalidade, ou à quase normalidade, embora se pressinta um estado latente de tensão», reportava José António Salvador, o enviado especial do Diário de Lisboa, que citamos.
Almeida Santos, entretanto chegado a Lisboa, ido de Kinshasa, comentava «a possibilidade de novos incidentes» e de estes «degenerarem numa guerra civil» angolana. Admitiu a possibilidade mas manifestou a convicção de «não esperar tal probabilidade» e, por outro lado, «a certeza da neutralidade portuguesa».
O restaurante Floresta, na baixa de Luanda e bem
perto da Sé. Aqui almoçámos (eu, o Cruz e o civil e amigo
Albano Resende) a 31 de Março de 1975. Hoje se fazem 41
anos! Foto dos anos 70 (da net)
«Mas nem sempre a neutralidade é possível, mesmo quando a desejamos», disse Almeida Santos, sublinhando, da actualidade angolana, uma nota positiva: «O modo como, pela primeira vez, a ordem de recolher obrigatório foi prontamente acatada», revelando, assim, «uma escalada de civismo altamente positiva».
O almoço do dia, com o Cruz e o Albano Resende, foi no restaurante Floresta, bem perto da Sé de Luanda e regado de vários «canhangulos» - como por lá se chamava às canecas de cerveja, cada qual pr´aí com um litro da dita. Boas férias, bem começadas! O final da tarde e a noite iam ter o saudoso Alberto Ferreira com «anfitrião». Por Luanda jornadeava ele, com cabo especialista da Força Aérea. 

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