CAVALEIROS DO NORTE!! Batalhão de Cavalaria 8423, última guarnição militar portuguesa nas terras uíjanas de Quitexe, Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange, Songo e Carmona! Em Angola, anos de 1974 e 1975!

sábado, 25 de agosto de 2012

1 390 - Juramento de Bandeira na Escola Prática de Cavalaria

Aqui estão, com o garbo e a felicidade dos 22 anos, 4 Cavaleiros do Norte de Zalala: o Costa, o Queirós e o Costa e o João Dias (em cima), o Manuel Dias (em baixo).  
O Costa foi meu companheiro da recruta, na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, dando-se o caso de termos jurado bandeira mesmo ao lado um do outro, no meio de centenas de jovens militares que nesse 10 de Junho de 1973 formaram, perfilaram e apresentaram armas de testemunho de fidelidade à pátria. Muito provavelmente, (quase) todos os atiradores de cavalaria que viriam a ser Cavaleiros do Norte o mesmo fizeram nesse dia, mas o Costa era mesmo do meu pelotão e esquadrão.
O 10 de Junho, ao tempo, eram também de homenagem aos combatentes do ultramar - com entrega de medalhas a quem mais se notabilizava por feitos de heroicidade. Desse 10 de Junho de 1973, recordo a entrega de uma medalha à viúva de um jovem combatente, o que me impressionou fortemente. Mais emocionado fiquei quando foi chamado o pai de outro militar morto no ultramar, para receber a medalha e fazendo-se acompanhar de uma criança (julgo que uma menina), órfã de outro combatente, o filho dele.
A recruta da Escola Prática de Cavalaria acabou e segui eu para Lamego, para o curso de Operações Especiais (Ranger´s), ficando o Costa por lá, na especialidade.
Voltei a vê-lo já em Santa Margarida, na formação do batalhão, jornadeámos por Angola (eu no Quitexe, ele em Zalala) e não deixa de ser com emoção que agora recordo o seu rosto - que também me faz lembrar os meus verdes 22 anos!!
O que será feito do Costa?
- COSTA. Vitor Moreira Gomes da Costa, furriel miliciano 
atirador de Cavalaria, natural de Lisboa. Julgo que morá na Amadora.
- QUEIRÓS. Plácido Jorge de Oliveira Guimarães Queirós, furriel 
miliciano atirador de Cavalaria, aposentado e residente em Braga.
- DIAS. João Custódio Dias, furriel miliciano de transmissões. 
Aposentado da PJ e morador em Tomar.
- DIAS. Manuel Dinis Dias, furriel miliciano mecânico-auto. 
Supostamente, morador na zona de Lisboa. 

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

1 389 - O furriel Jesuíno Pinto, dos amigos que não mais esquecem...

Jesuíno Pinto, Gomes, Letras e Martins, furriéis de Aldeia Viçosa

Agosto de 1974 foi tempo de chegada do furriel miliciano Jesuíno Fernandes Pinto aos Cavaleiros do Norte de Aldeia Viçosa, onde se aquartelava a 2ª.. CCAV., comandada pelo capitão miliciano Cruz. Vinha de outra companhia, por razões de natureza disciplinar, e rapidamente se integrou no espírito cavaleiro.
«Foi daqueles amigos que ficaram para a vida, não sei explicar porquê...», considerou o Letras, ainda «embeiçado» pelo amigo ganho em Aldeia Viçosa, 38 anos depois. «Era como se fosse um irmão, daqueles amigos que ficam para o resto da vida...», sublinhou.
O Pinto foi pouco afortunado numa viagem para o Quitexe, transportando um civil, para o hospital. Vítima de um acidente, teve de suportar os danos físicos de centenas de pontos, espalhados por todo o corpo, espalhados da cabeça aos pés. 
«Levavam um civil com a cabeça aberta, era uma urgência, e ele ia com a perna de fora do unimog quando este se despistou... Ficou muito mal tratado», recorda-se o Ferreira, outro furriel de Aldeia Viçosa - que, de atirador, passou a amanuense, também na sequência de um (outro) acidente.
O Pinto fez carreira profissional na Rádio Voz do Neiva e está aposentado - dividindo-se entre uma clínica de Areias de Vilar e a sua residência de Parada de Gatim (Vila Verde).
Um abraço, ó Pinto!

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

1 388 - Cavaleiros do Norte na baixa de Luanda em Agosto de 1975

Aldeagas (de bigode e pêra) e Queirós (de óculos), da 1ª. CCAV., e Pires (de bigode e 
pêra) e Mosteias, sapadores da CCS, numa esplanada da baixa de Luanda, em Agosto de 1974

Os últimos dias de Agosto de 1975, em Luanda - há 37 anos!!!... -, eram contados ao segundo, no calendário do nosso adeus ao chão angolano. Já se conhecia a data de partida para Lisboa (8 de Setembro) e o meio de transporte: o navio Niassa. Não viria a ser pelo mar, mas pelo ar, o nosso regresso!
A guarnição dos Cavaleiros do Norte fazia escalas de serviço de rotina, no Campo Militar do Grafanil, e, no tempo que lhe sobrava (e era muito), algaraviava pela cidade luandana, em busca dos prazeres da vida. 
Os incidentes aconteciam todos os dias (e noites), incendiavam a cidade, periclitavam a segurança e eram campo maninho de muitas perseguições e algumas vinganças e não raro (de resto, bem frequentemente) o som de rajadas, de obuses, de morteiros e todo o tipo de bombas ecoava pela grande metrópole que era (é) a capital angolana. Nada disso atemorizava os Cavaleiros do Norte.
Comprava-se e vendia-se dinheiro nas ruas da cidade, com os civis a querem «trocar» escudos por angolares, para o seu pé-de-meia, que se lhes adivinhava necessário em Portugal. Florescia a «indústria dos caixotes», nos quais os (mais tarde denominados) retornados procuravam enviar tudo o mais possível para Portugal.
Os Cavaleiros do Norte, seguros e certos da sua missão cumprida, gozavam as delícias da grande capital - que tantas e tão boas coisas «oferecia» a quem a passeava, no calor dos seus dias quentes e bem africanos, ou no bulício frenético das noites que tantas surpresas mostrava.
-ALDEAGAS. João Matias Mota Aldeagas, furriel miliciano atirador de cavalaria, da 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala.  Empresário do sector agro-pecuário em Estremoz
- QUEIRÓS. Plácido Jorge de Oliveira Guimarães Queirós, furriel miliciano atirador de cavalaria, da 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala. Aposentado do sector comercial automóvel, residente em Braga.
- PIRES. Cândido Eduardo Lopes Pires, furriel miliciano sapador, da CCS do BCAV. 8423. Natural do Montijo e funcionário municipal, residente em Niza.
- MOSTEIAS. Luís João Ramalho Mosteias, furriel miliciano sapador, da CCS do BCAV. 8423. Quadro de empresa, residente em Vila Nova de Santo André.
- ANGOLARES: Escudos (moeda) de Angola.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

1 387 - Cavaleiros do Norte de Aldeia Viçosa...

Jesuíno Pinto, Freitas Ferreira, Gomes e Guedes, antigos furriéis de Vila Viçosa

Ontem, aqui demos «nove horas» de alguns Cavaleiros do Norte de Aldeia Viçosa, em foto do S. Martinho de 1974 -já lá vão quase 38 anos. Hoje, mostramos alguns deles, e outros, em retrato bem mais recente, embora eu mesmo não saiba datá-lo.
A gentileza é do Freitas Ferreira, furriel que de atirador foi feito amanuense, contra a vontade dele mas por  sequência de um acidente de viação. Ontem, quando lhe pedi uma imagem do Jesuíno Pinto, aprontou-se de imediato e enviar-me este alto relevo de saudades vivas que foi um recente encontro da 2ª. CCAV. 8423.
Os encontros de antigos militares da guerra colonial são um fenómeno que muita gente que actualmente ocupa lugares políticos deveria procurar entender melhor, espantando os seus fantasmas de um período da história de Portugal de que nos devemos orgulhar - e nunca desprezar e depreciar. 
A participação de dezenas, ou centenas de milhares de portugueses na guerra colonial não é razão de constrangimentos para quem, abnegada e generosamente, se deu ao paradigma da pátria - com ele se concordando, ou não.
Como sabemos - todos sabemos!... - boa parte dos heróis pós-25 de Abril foram (são) gente que se acobardou e nem nos palcos reais teve coragem para o dizer o que pensaria. Fugiram! Nós, que não fugimos, devemos ter orgulho de, num momento ímpar da pátria portuguesa, estarmos a honrar a sua bandeira.
Um abraço grande para todos os Cavaleiros do Norte!

terça-feira, 21 de agosto de 2012

1 386 - Sardinhada em Aldeia Viçosa no S. Martinho de 1974

Furriéis Guedes, Gomes, Letras e Jesuíno. Em baixo, Sebastião 
e Oliveira (cozinheiro), ambos de cigarro na boca, no S. Martinho de Aldeia Viçosa, em 1974


A noite de S. Martinho de 1974, em Aldeia Viçosa, não passou sem panqueca, com umas boas cervejolas e, imagine-se só, com... sardinha!! Sardinha ida de Setúbal, escochada e preparada para a assadela que tantas saudades de sabor e de terra natal matou aos Cavaleiros do Norte que por lá jornadeavam.
O «juiz» da surpreendente e saborosa sardinhada foi o Letras, que, ao vir de férias à sua Palmela europeia, foi desafiado a levar quantidade tal do apetecido peixe que desse para a festanga. E assim foi.
Não a podendo levar fresca, podia lá ser!!!..., arranjou-a já esconchada e, lá chegada, ó meus amigos, sardinha(da) para que vos quero. Foi um festão e daqueles que nunca mais esquecem...
O Letras recordou, agora, a folia da noite martinhiana em chão de calor angolano, muito longe do frio invernoso de Portugal. Noite que foi bem regada a cerveja e fez bem mais felizes os Cavaleiros de Aldeia Viçosa: «Levei uma caixa cheia, uma caixa grande..., e cheguei lá a 3 ou 4 de Novembro. O pessoal nem acreditava!!!».
O Letras tinha vindo de férias e embrulhou os seus cuidados na preparação da missão «sardinhal», de tal maneira que surpreendeu toda a gente. E pelas melhores e mais saborosas razões. 
«Foi porreiro, pá!!!... Muito porreiro! É daquelas coisas que nunca nos esquecem na vida...», disse-nos hoje mesmo, ao telefone.
Pudera, uma sardinhada em Aldeia Viçosa, lá no distante norte de Angola, foi mesmo um luxo de S. Martinho. Só para alguns «privilegiados»!!! Digo eu!
- LETRAS. António Carlos Dias Letras, furriel miliciano 
de Operações Especiais (Ranger´s). Empresário, residente em Palmela.
- GUEDES. António Artur César Monteiro Guedes, furriel miliciano 
atirador de cavalaria. Aposentado da GNR (sargento mor), natural 
de Moura Morta (Peso da Régua) e  residente em Foros de Salvaterra.
- MARTINS. Amorim António Barrela Martins, furriel miliciano 
mecânico-auto. Natural e residente em Pagões-Gare, onde é mecânico.
- JESUÍNO. Jesuíno Fernandes Pinto, furriel miliciano atirador 
de cavalaria. Aposentado e residente em Parada de Gatim (Vila Verde).
- GOMES. José da Silva Gomes, furriel miliciano atirador de 
cavalaria. Aposentado da Portugal Telecom, residente em Vila Verde.
- ESCOCHADA. Sardinha limpa de tripas e de cabeça cortada.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

1 385 - o governo de Carlos Fabião que não chegou a ser...

O discurso do general Vasco Gonçalves que ontem referimos, foi feito em Almada, a 18 de Agosto de 1974, com transmissão em directo pela rádio e televisão.
Um ano depois e no mesmo dia, em S. Julião da Barra, o Grupo do Nove pressionou o general Costa Gomes, Presidente da República, para demitir o demitir - o primeiro-ministro Vasco Gonçalves, que tal aceitava, mas alegando «precisar de alguns dias para preparar a queda do V Governo». Ficou decidido a formação de um governo provisório presidido pelo general Carlos Fabião. Que nunca se chegou a formar.
A 20 de Agosto de 1975, Carlos Fabião, porém, chegou a reuniu-se com os majores Vítor Alves e Melo Antunes e capitão Vasco Lourenço, tendo em vista organizar o novo governo, que era apoiado pelo general Costa Gomes. Foi mesmo constituída uma comissão para redigir o programa do governo Carlos Fabião, composta por Melo Antunes e Vítor Alves, comandante Vítor Crespo e capitão Vasco Lourenço. ´
O general Otelo Saraiva de Carvalho, no mesmo dia, dirigiu uma carta a Vasco Gonçalves, na qual lhe dizia «com mágoa e muita amizade» que «o companheiro Vasco tem de ser dispensado... é o MFA que tem de assumir as suas responsabilidades. Peço-lhe que descanse, repouse, serene, medite e leia».
É ainda do mesmo dia 20 de Agosto de 1975um comunicado do Secretariado do MFA da Armada manifestando o seu apoio ao V Governo, defendendo o “Documento-Guia da Aliança Povo-MFA” e o “Documento do COPCON”.
Vasco Gonçalves, na tomada de posse dos secretários de Estado, afirmou «ninguém aqui está agarrado ao lugar, mas todos estamos ligados a uma revolução que não queremos ver recuar e muito menos perder». O operário Armando Teixeira da Silva foi um dos secretários de Estado empossados - o da Segurança Social do V Governo.
Ainda a 20 de Agosto de 1975, Costa Gomes recebeu um caderno reivindicativo de uma comissão de retornados de Angola.
Carlos Fabião (foto) não chegou a para formar o VI Governo Provisório, no qual teria Melo Antunes como vice-primeiro-ministro. Recusou a proposta à última da hora, abrindo caminho ao prolongamento do V Governo, de Vasco Gonçalves.
E como é que os Cavaleiros do Norte reagiam a tudo isto, numa Luanda que fervia de incidentes e nós fazíamos vésperas de regressar a Lisboa? Indiferentes a tais movimentações, tanto quanto me lembro - embora aliciados para assinar o Documento dos Nove! Eu, fui um dos muitos (ou todos?!) que assinaram.

domingo, 19 de agosto de 2012

1 384 - Mina anti-carro e discurso de Vasco Gonçalves

Mina anti-carro levantada na picada do rio 
Calambinga, perto do aquartelamento de Zalala, em Agosto de 1974


O mês de Agosto de 1974, pela ZA dos Cavaleiros do Norte, foi de «actividade que não brilhou no campo dos feitos militares». E ainda bem. Era sinal, e leio do Livro da Unidade, que «de acordo com as directivas superiores, não se realizaram acções ofensivas». Deixaram mesmo de se «bater as áreas dos quartéis IN», como já foi lembrado neste blogue.
Embora fosse essa a nova política das NT, a verdade é que, em data indeterminada deste mês, houve «uma uma acção de levantamento de uma mina anti-carro, na picada da do rio Calambinga» - no grande círculo verde do mapa, do lado esquerdo -, perto da área de acção da 1ª. CCAV., a de Zalala (assinalada a rôxo).
Em Lisboa, Vasco Gonçalves, o 1º. Ministro (foto), dava conta que «o fim das guerras em África conduzirá, no futuro, a libertar verbas importantes», mas que «no entanto, devemos terem atenção que a guerra ainda não acabou, não obstante os nossos sinceros esforços para um cessar fogo» e que «temos de manter as tropas em África durante todo o processo de descolonização, despesas de transporte no regresso das tropas, despesas com a descolonização, pagamento de encomendas de material de guerra e de empréstimos contraídos para pagamento de material, pelo antigo regime».
«As vantagens económicas e financeiras do fim da guerra só deverão sentir-se dentro de 2 anos», dizia Vasco Gonçalves.
Isto foi comentado no Quitexe, em bravas discussões com o Machado, o Neto, o Mosteias, o Bento e o Fonseca - pelo menos esses. Passados 38 anos, não custa nada admitir que éramos todos muito, mas mesmo muito  ingénuos. Incluindo Vasco Gonçalves.

sábado, 18 de agosto de 2012

1 383 - Louvor ao capitão António Martins Oliveira

Capitão Oliveira (à esquerda) e alferes Cruz, 
Ribeiro e Garcia. Ao fundo, nota-se a igreja do Quitexe

O capitão Oliveira foi comandante da CCS do BCAV. 8423 e louvado pela «maneira eficiente e cuidada» como exerceu tal comando, «apesar da complexidade de uma subunidade deste tipo e da heterogeneidade do seu pessoal», como cito do Livro da Unidade.
O louvor foi proposto pelo comandante Almeida e Brito e dá conta que ««tirando umas vezes partido da experiência da sua já longa vida militar e outras aceitando o conselho necessário à constante evolução da função militar, conseguiu tornear tais dificuldades, obtendo um equilíbrio de actuação que permitiu sempre a resolução dos problemas surgidos».
O documento enfatiza o seu trabalho no período de rotação do batalhão para Carmona, que «pôs à prova as suas qualidade de trabalho», assim como «aquando da eclosão de graves acontecimentos de confronto entre os movimentos de libertação».
«Disciplinado, disciplinador, exigente por vezes, numa olhou a esforços para cumprir a sua missão, embora a sua frágil saúde disso se ressentisse, razões pelas quais os serviços por si prestados nesta comissão merecem ser realçados em público louvor», remata o Livro da Unidade, citando a Ordem de Serviço nº. 68 da Região Militar de Angola, datada de 26 de Agosto de 1975 - 37 anos se completam dentro de dias.
- OLIVEIRA. António Martins de Oliveira, capitão do SGE, 
natural de Viseu e comandante da CCS do BCAV. 8423. Atingiu 
a patente de major (pelo menos) e comandou o DRM de 
Aveiro - quando, nos anos 80, o vi pela última vez. Teve 
a última residência em Ovar.


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

1 382 - O Cruz está a fazer 61 aninhos de vida!!!

Cruz e Viegas, em cima, perto de Nova Lisboa (Abril de 1975) e Viegas e Cruz, no Quitexe (1974)

O Cruz faz amanhã 61 anos! 
O Cruz era furriel miliciano rádio-montador e, por mor da especialidade, um dos mais velhinhos de todos nós - os desta patente militar.  O mais velho mesmo, por registo de nascimento, era o Morais, o mecânico-auto, nascido em 1950. De 1951, ano do Cruz, eram o Lopes, furriel enfermeiro, e o Fonseca, furriel amanuense. 
O Cruz foi meu companheiro de férias, em Abril de 1975, quando, por um mês inteirinho de civis, laureámos o queijo por Luanda, Nova Lisboa, Benguela e Lobito - entre outras terras da grande Angola. Foi um fartar de viajar e conhecer terras e gentes, cheios de prazer e em constante movimento, cada qual reencontrando familiares e amigos.
Amigos ficámos nós, para toda a vida, e habitualmente nos fazemos comensais da mesa e dos prazeres de uma boa conversa de saudade da Angola por onde jornadeámos de Junho de 1974 a Setembro de 1975. Voltou a Lisboa, onde já trabalhava antes da tropa, e por lá arrumou a vida (com a Manuela),  sempre funcionário municipal - de que reformou em Dezembro de 2011.
Então, ó Cruz!!!, bons 61 anos!
E tem calma e fé: um dia voltaremos ao Quitexe!!!

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

1 381 - Angola e Portugal, há 38 anos...

Os tempos de Agosto de 1974, há precisamente 38 anos, foram de requalificação da estrada do café, entre Aldeia Viçosa e Vista Alegre (foto). E não só: também dos itinerários de Zalala e Liberato, onde se aquartelavam a 1ª. CCAV. 8423 (do capitão Castro Dias) e a CCAÇ. 209, do RI 21, respectivamente. Já agora, em Aldeia Viçosa  estava a 2ª. CCAV. 8423 (do capitão José Manuel Cruz) e em Vista Alegre a CCAÇ. 4145.
A nível militar, e na sequência  de «directivas superiores que impõem a não realização de acções ofensivas», a actividade operacional «foi completamente modificada, deixando de se bater as áreas aos quartéis IN e passando-se a apertar a malha dos patrulhamentos ao longo de toda a ZA, com inúmeras visitas a povos e fazendas, em apoio à vida de todos estes»
De Portugal, chegavam notícias:
- O vencimento mínimo do funcionalismo público passou para 3 800$00. Ou 19 euros.
- As pensões mínimas passaram para 1 650$00. Ou 8,35 euros. Eram de 900$00. Ou 4,5 euros.
O 1º. Ministro Vasco Gonçalves dava conta que «não podemos convencer-nos que o 25 de Abril tenha gerado a prosperidade e a abastança onde a miséria grassava».
«Não se passa de um momento para o outro de país dos mais atrasados da Europa para o nível de uma França ou de uma Itália», acrescentava Vasco Gonçalves.
Tais declarações, lidas 38 anos depois, não deixam de ser uma ironia.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

1 380 - Eusébio e Pinto, dois Cavaleiros sexiiiiigenários!...

O Pinto e o Eusébio, furriéis de Zalala, aos 60 anos, em 2012!!!

O Pinto e o Eusébio fazem hoje 60 anos, entrando no encantador  Clube dos Sexigenários!!! Repare-se bem: se-xiiiiii-ge-ná-ri-os!!!! Aos 15 dias de Agosto de 2012. O dia é também de anos da amazona cá de casa, mas dela não vou dizer quantos. Não se dizem (nem se perguntam) os anos de uma senhora!
O Pinto é de Penafiel e vive feliz em Paredes. Dele fui (sou) mais próximo que do Eusébio, pois fomos companheiros do 2º. curso de Operações Especiais de 1973í- os Rangers de Lamego. Continuámos por  Santa Margarida (na formação do BCAV. 8423) e continuámos por Angola e depois, já civis, pela vida fora. Até hoje! De quando em vez, tagarelamos sobre a vida e nunca fica esquecida a jornada africana. Foi  da 1ª. CCAV., a de Zalala, mas esteve connosco no encontro de Paredes, a 2 de Junho deste ano.
O Eusébio também foi da 1ª. CCAV. e, regressado a Portugal, voltou à sua Belmonte, onde fez vida como colaborador da escola secundária. Dele recordo, aí por Julho de 1975, o «ataque» de paludismo que, no Quitexe, o atirou para a cama, com desesperada temperatura a arder-lhe o corpo.
Entram ambos no Clube dos 60 e, para eles, aqui registada, em acta de amizade, o protesto de elevadas felicitações. Já hoje, pela hora do almoço, no tempo da festa da amazona aqui de casa, foram elevadas taças que não esquecerem estes dois Cavaleiros do Norte: o Pinto e o Eusébio! 
- PINTO. Manuel Moreira Pinto, furriel miliciano 
de Operações Especiais (Rangers). Empresário do sector 
automóvel, residente em Paredes (Porto).
- EUSÉBIO. Eusébio Manuel Martins, furriel miliciano 
atirador de cavalaria. Aposentado da função pública, 
natural e residente em Belmonte.


terça-feira, 14 de agosto de 2012

1 379 - A casa de Viana, em Agosto de 1975!

Os tempos de Agosto de 1975, entre o cumprimento das obrigações militares que nos retiam no Grafanil e a localização de civis amigos no aeroporto de Luanda - na boleia para Lisboa, através da (que se tornou) famosa ponte aérea -, foram também de convívio aberto.
A casa de Viana, de Manuel Cruz - onde nos alojávamos eu, o Neto e o Monteiro -  foi espaço para boas noitadas, entre jogos de cartas, boa conversa e cervejas e camarão. A foto, de uma qualquer noite de Agosto desse ano de 1975, junta 4 amigos de Águeda: o Carlos Sucena, o Gilberto (civil), o Viegas e o Neto. Falou-se de Águeda, do futuro (de então), do quê? Não me consigo recordar, exactamente, por muito que olhe para a foto. E a legenda que tenho apenas indica, com a minha letra de então, um recado para minha mãe: «Como vê, boa disposição não falta por aqui. Come-se e bebe-se do melhor que há. Agora estou em Luanda e estive ontem com o Albano e os irmãos. Estão todos bem».
Infelizmente, e contra o meu costume, não datei a foto, apenas lhe atribuindo o mês. Mas reconheço o local: a sala da casa de Viana e é notória a atenção que todos estamos a dar ao que diz o Neto (o primeiro da direita). Assim se iam vivendo os últimos dias de Angola, entre os cartuchos de guerra que atribulavam a cidade de Luanda e o nosso desejo de regressar «sãos e salvos» a nossas casas, ao chão das nossas terras e ao colo dos nossos afectos maiores.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

1 378 - O «sô» Cabrita...

O «sô» Cabrita foi aquela figura inimitável da CCS dos Cavaleiros do Norte de quem nunca nos esquecemos: é inesquecível. E encontrá-lo e falar-lhe, tornou-se um «vício». Como agora voltou a acontecer, na sexta-feira, dia 11 de Agosto de 2012.
O Cabrita faz vida de pescador, com arrais em Cascais, onde é mestre de um barco e dono de um outro. Ali nos vêem (na foto), diante para a baía e porto de pesca da vila cascaense. «Vou morrer nisto...», disse-me ele, nem sequer querendo ouvir falar em reforma. É dali que parte para a faina todos os princípios de noite, menos ao sábado e domingo, para o largo da costa, embora  sabendo que «há cada vez menos peixe». 
Foi peixe que almoçámos (logo se via...) e a conversa andou por largos quilómetros, a muitas e muitas milhas de Cascais: pelo Quitexe e Carmona, por Luanda, pela Angola da nossa saudade. 
Um a um, o «sô» Cabrita lembrou-se daquela malta (quase) toda da tropa e das manhãs de domingo, quando nos levava (a mim e ao Neto) saborosos e bem piripizados  pregos no pão e sumos ao quarto do Quitexe. Mas que luxo! 
Ao desfiar a conversa, vieram à baila nomes de amigos que já partiram, o Carpinteiro foi o último... «O Carpinteiro morreu? Eeeeehhhh..., era um gajo porreiro...», reagiu o Cabrita, depois de me ouvir a narrar o pormenor do passamento, a 1 de Novembro de 2011. 
O Cabrita não foi aos dois últimos encontros da CCS, por razões de saúde da mulher. «Tenho de ir pró ano, para ver aquela malta», disse-me ele, entuasiasmado e de sorriso rasgado de felicidade. 
Vai, por certo! O Cabrita não é homem de falhar.
- CABRITA. António Santana Cabrita, soldado da 
CCS do BCAV. 8423. Pescador, residente em Cascais.

domingo, 12 de agosto de 2012

1 377 - Zalalas na Capital Europeia da Cultura de Guimarães 2012

Queirós, Rodrigues, Aldeagas e Mota 
Viana, quatro Zalala´s na Guimarães - Capital Europeia da Cultura 2012

O Aldeagas, que ontem fez 60 anos!!!! - como o tempo passa, compadriii!... -, jornadeou por Zalala, Vista Alegre e Carmona, foi forcado em Estremoz e ganha a vida na agro-pecuária. E está fortezinho, como se vê na foto! 
Veio ao Norte e os seus companheiros de Zalala fizeram-lhe uma «pega», de caras e em Guimarães, a Capital Europeia da Cultura. «Desta vez, foram os forcados do norte que o apanharam e o levaram a passar um dia porreiro», conta o Rodrigues.
O encanto destes momentos tem a ver com afectos que nasceram e se multiplicaram na tropa, principalmente nas comissões que levaram milhares e milhares de portugueses para frentes de guerra tão diferentes como a Guiné, Angola e Moçambique. E, vistos e sentidos quase 37 anos depois de separação física, têm uma carga emocional muito maior, mais transcendente, mais viva!
A esta «pega» faltou o Pinto, que não pede uma mas teve de perder esta, por razões de força maior
Ver AQUI
 Pinto Manuel Ainda bem que assim aconteceu! Pelo 
meu lado, lamento, mas como já disse não deu!! Imprevistos.

sábado, 11 de agosto de 2012

1 376 - «Éramos todos muito amigos», diz o Picote...

Picote e Viegas, a 11 de Agosto de 2012. A casa e 
carro do antigo condutor dos Cavaleiros do Norte vêem-se à esquerda (atrás).


Hoje mesmo, nas andanças e araganças da vida, viajava eu de regresso ao lar natal (vindo de Lisboa, a capital do ex-império), quando foi sugerido almoço em restaurante amigo, na Foz do Arelho. Para lá rodei e lá me lembrei que destas bandas era o Picote.
O Picote, ora bem, deixa cá pensar... é do Casal de qualquer coisa, de Á de não sei bem o quê. Chegado a esta dúvida, nada melhor que perguntar ao velho conhecido do restaurante, primo de cardeal patriarca. «Só se for A-dos-Negros...», disse-me ele. «Vá por aqui, por ali e por acolá...». E lá fui eu.
Já em Á-dos-Negros, sabia que havia de procurar o Casal de qualquer coisa e, neste, a rua do Picote (não era difícil fixar o nome, pois é o do apelido dele mesmo, o Picote...). Foi facílimo, desci e lá estava o nº. 7. E apareceu  Picote, tal qual se vê na foto.
O Picote continua solteiro: «A vida não deu para outra coisa....», disse-me ele, de sorriso largo, ar maroto, a piscar-me o olho. 
Chegado a Portugal, a 8 de Setembro de 1975, voltou à arte de carpinteirar, na empresa onde já trabalhava antes da tropa. Mudou depois, e depois: «Faliu a firma e fui trabalhar para S. Martinho do Porto, eram 30 quilómetros para cada lado, que eu fazia de motorizada até às Caldas».
Um dia, por volta 1980, um amigo perguntou-lhe se não queria ir trabalhar para a Câmara de Óbidos, a do seu concelho. Claro que queria e foi. «Fui para lá com 28 anos e saí 28 anos depois, reformado...», contou-me o Picote, sempre a sorrir, da vida que lhe correu bem.
O Picote vive com o pai, de 99 anos! A mãe faleceu há 32 e um irmão (mais velho (o da casa da direita) quis deixar de viver há 8! Uma irmã, também mais velha, está nos Estados Unidos, onde trabalha na Embaixada de Espanha.
Quanto a ele, está para as curvas. Reformado, vai dando conta da horta e «a beber uns copos com os amigos». Por falar em amigos, lembrou-se do alferes Cruz, do furriel Morais, dos condutores Silva, Breda, Serra, Gomes, o Gaiteiro. E do estofador Teixeira, o carpinteiro Marques,  o pintor Teixeira, o Cabrita... e tantos outros «da nossa gente do Quitexe e de Carmona».
«Se houve coisa boa na nossa malta, é que éramos todos muito amigos...», disse o Picote, antes do abraço do adeus e de saber os alguns de nós que já partiram.
- PICOTE. António do Rosário Picote, soldado condutor. 
Aposentado da Câmara Municipal de Óbidos, residente 
em Casal do Chão, Á-dos-Negros (Óbidos).

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

1 375 - O 1º. cabo Pires, o Fecho Eclair...

Pires, o Fecho Eclair, o Miguel (com o x na cabeça), à esquerda. À direita, o Jorge Pinho (de pé, já falecido), o Esteves e o Damião Viana (foto do Miguel Teixeira). Mais à direita, de bigodes parece ser o Aldeagas (1ª. CCAV.)

Vem hoje, aqui, imagem do Natal de 1974, no Quitexe. E uma das figuras inimitáveis e míticas do dia-a-dia quitexano: o 1º. cabo Pires, o Fecho-Eclair. Aqui, o primeiro da esquerda, na foto.
O Fecho-Eclair, ele que me perdõe, se me lê (ou não), era inconfundível, na comunidade militar do Quitexe. Cheio de hábitos nobres, ele seria 1º. cabo por acaso, pois deveria ser general. Posava, como se fosse para retrato de Prémio Nobel. Tinha forma de estar que passava além da, digo eu, boçalidade tradicional da maioria dos militares: ele mais em jeito que em força, nós mais abrutalhados que subtis. Para mais, o Pires (o Fecho Eclair) fazia questão de marcar diferenças entre nós - o que levava que que, na família militar, fosse alvo de certo gáudio e galhofa.
Mão tenho história particular com o Pires - com o 1º. cabo Fecho Eclair -, nem sequer consigo recordar a razão que levou a este epíteto. Mas não tenho dúvidas: a haver um livro do Batalhão de Cavalaria 8423, um capítulo seria sobre o Fecho Eclair.
E o que será feito dele? Morava por Lisboa, ao tempo, e nenhum contacto nos leva a saber por onde actualmente parará. Alguém poderá ajudar?

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

1 374 - Mortos do Batalhão de Cavalaria 8423



O soldado Manuel Barreiros, da 3ª. CCAV. 8423, faleceu em Agosto de 1975, vítima de doença. Foi um dos poucos Cavaleiros do Norte que faleceram durante a nossa comissão de 15 meses e nenhum deles em combate. Faleceram por acidente, ou por doença.
Por acidente, ainda em Julho e também a 3ª. CCAV. 8423, faleceu o Spínola, como era chamado Jorge Custódio Grácio, soldado atirador. Era natural do Casal das Raposas, em Vieira de Leiria (município da Marinha Grande). A morte ocorreu a 2 de Julho de 1975, na sequência de um acidente de viação em viatura civil.
O (furriel) Belo, com quem falei há momentos, tem memória de ele mesmo ter ido identificar um corpo, em Luanda - sem recordar o nome. Muito possivelmente, terá sido Manuel Barreiros - cujo corpo veio para Lisboa no mesmo avião de regresso da 3ª. CCAV. 8423.
O primeiro morto do batalhão, assinalado no Livro da Unidade, é também da 3ª. CCAV. 8423 -  Bernardo Oliveira, da incorporação local (grupos de mesclagem), também de acidente de viação mas em Julho de 1974. 
Joaquim M. D. Henriques, soldado da 1ª. CCAV., faleceu em Setembro de 1974, vítima de doença. Se outras mortes houve, delas não há registo, nem memória alguma.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

1 373 - Cavaleiros do Norte na Luanda de Agosto de 1975

Instalações do Campo Militar do Grafanil, à 
saída de Luanda (não as que foram ocupadas pelos Cavaleiros do Norte)


Os Cavaleiros do Norte «assentaram arrais» no BIA do Grafanil, em Agosto de 1975, e, tanto quanto cada um podia, iam-se desenfiando pela cidade, em busca dos prazeres disponíveis na grande metrópole luandana. Com avisos especiais: sempre em grupos e com (alguns) meios para resistir a quaisquer problemas.
Após o curto repouso dos guerreiros da coluna que chegou do Uíge, recuperaram viaturas e ficaram com o estatuto de «unidade de reserva da RMA».
Da coluna, veio o Guedes comentar que «indubitavelmente que cumprimos a missão que nos foi confiada». «Uma missão árdua, mas concretizada, com a qual conseguimos levar a carta a Garcia», acrescentou o agora sargento-mor na reforma, ao tempo furriel-miliciano de cavalaria, da 2ª. CCAV., a de Aldeia Viçosa.
O período luandano não era nada fácil: para além das permanentes escaramuças e perseguições entre elementos dos movimentos e destes para com a população civil, não abundava a comida - o que nos levava (militares) a constante «caça ao restaurante». Tudo era difícil, embora «aliviado» pela generosidade (e irresponsabilidade, diria...) com que encarávamos a situação - turbulenta e perigosa. Uma situação ainda hoje de alguma maneira inexplicável, para um tempo em que se criava um país novo, após os 500 anos de presença portuguesa.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

1 372 - Missão cumprida, a mais difícil de todas...

Civis que se incorporaram na coluna de Carmona para Luanda, com militares do BCAV. 8423. Da esquerda para a direita, NN, 1º. cabo Mendes (2ª. CCAV.), NN, soldado Santos e furriel Guedes (2ª. CCAV.).  Alguém pode identificar os  outros elementos da foto?


Os bravos Cavaleiros do Norte compensaram energias após a desgastante viagem desde Carmona ao Grafanil e os «CCS´s», já «amadurecidos» na capital angolana, cumpriam tarefas de ordem e folgavam na imensa Luanda, desfrutando os prazeres da ilha, na Restinga e no Mussulo, nos bares e esplanadas onde de matavam sedes e ganhavam curtos amores de ocasião.  
A guarnição sentia, e sabia (tinha a certeza) - e cito o Livro da Unidade - que cumprira «a missão mais difícil, mas também aquela que  demonstrou o seu «querer e saber querer», conduzindo uma operação que, forçosamente, terá de ser um pilar bem marcante da sua história»
Honráramos a farda, a bandeira e a missão que nos levara a Angola. Muitas vidas foram salvas pela coragem dos Cavaleiros do Norte e é justo sublinhar a generosidade e valentia da 2ª. e da 3ª. CCAV.´s 8423, comandadas pelos capitães Cruz e Paulo Fernandes. E a de Paraquedistas (que fechou a coluna) e a de Comandos (que abriu o epopeico itinerário). 
Nunca é excessivo prestar-lhe o justo tributo à missão que lhe confiada e cumpriram exemplarmente. E corajosamente!

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

1 371 - Chegada a Luanda, há 37 precisamente anos!!!

 O último troço da epopeica viagem dos Cavaleiros do Norte, de Carmona para Luanda. Entre o Dondo e Luanda. Faz hoje 37 anos. Em baixo, o último aerograma de Alberto Ferreira, com carimbo SPM de 4 de Agosto de 1975, já nem está numerado (como era meu hábito)



A mudança de Carmona para o Grafanil (Luanda) implicou algum  atraso no correio e só dias depois recebi um aerograma de Alberto Ferreira, o meu amigo especialista da Força Aérea, com data de 3 de Agosto (o da minha saída do Uige) e carimbo SPM de 4. «Devo ir embora por todo este mês. Se vieres antes, procura-me», dizia-me ele. Procurei, a 6 de Agosto, mas já tinha vindo para Lisboa.
As últimas notícias dele, não era nada encorajadoras: «No que respeita à guerra (...), esteve e está muito feio o caso (...). O Silva Cardoso já se foi. Veio o Fabião e o Vermelho buscá-lo. São assim os intelectuais (!!!) do MFA. Não era pró-MPLA, já não interessa. É uma tristeza. Quando a mim, será difícil arranjar um substituto igual, ou parecido. Mas eles lá sabem», concluía o Alberto Ferreira.
Não me valeu de nada, pois, procurá-lo na Base Aérea, onde semanas antes me fora muito útil, para tentar localizar conterrâneos que por lá poderiam estar à espera de «boleia» para Lisboa, na célebre ponte aérea que trouxe centenas de milhares de pessoas para a a Europa, no, provavelmente, maior exôdo de toda a história mundial do século XX.
A este dia 6 de Agosto de 1975, as instalações do BIA no Grafanil, já estavam "perfumadas" e dignas, para receber os companheiros que desde dois dias e tal antes vinham de Carmona, por estrada e entre um mar de perigos.
Chegaram!! Às 12,45 horas de faz hoje 37 anos.
«Terminou assim a odisseia de milhares de civis que, +a nossa chegada a Luanda, choravam por se sentirem salvos», lê-se no Livro da Unidade.
1 - Ver «A chegada ao Grafanil, com reportagem da BBC» -  AQUI

domingo, 5 de agosto de 2012

1 370 - Incidentes e Rosa Coutinho em Luanda

Incidentes em Luanda, na Rua Paiva Couceiro, numa noite de 1975 


A mudança de Carmona para o Grafanil atrasou o correio e só a 4 ou 5 de Agosto, de Portugal, soube de incidentes políticos em Águeda, a capital do meu concelho: o Sindicato dos Metalúrgicos (de que  eu conhecia o dirigente José Canas e de lá ir pagar cotas dos seus associados da Grésil) exigia, a 28 de Julho, a demissão da direcção; a assembleia geral da Misericórdia reunia-se na mesma 2ª. feira e «milhares de pessoas do concelho, em representação dos utentes do hospital, concentraram-se dentro e fora do recinto e exigia o saneamento dos médicos comunistas Manuel Louceiro e Luís Santo Amaro».
O que tem isto a ver com  os Cavaleiros do Norte? Nada! Apenas aqui quis dar uma pincelada histórica e breve do que, em Portugal, se passava no verão que aquecia nos primeiros dias de Agosto de 1975 - «casando-os» com a realidade que vivíamos em Angola.
Em Luanda, na véspera (2 de Agosto) da nossa chegada, o então alto-comissário Silva Cardoso não se entendeu com o que por lá se passava e veio embora, demitindo-se de Presidente da Junta Governativa. E, a 3 de Agosto, chegou Rosa Coutinho, que tão poucas boas recordações viria a deixar aos portugueses brancos de Angola - que lhe atribuíam pesadas responsabilidades no momento de incertezas, ódios e mortes que se multiplicavam pela capital. Ao regressar, na sequência da demissão de Silva Cardoso, ia  acompanhado de Carlos Fabião e demitiu o major Mariz Fernandes da Secretaria de Estado da Comunicação Social e Turismo. O militar até era do MFA, mas substitui-o por Correia Jesuíno.
A instabilidade e insegurança na cidade eram enormes. Por mim, fora das horas de limpeza do aquartelamento do BIA (onde se iriam instalar os Cavaleiros do Norte que desde a véspera se faziam em coluna de estrada cheia de incidentes e perigos, desde Carmona), procurava localizar conterrâneos meus, de quem correio de Portugal pedia novidades. Por onde andariam os Resendes, as famílias do Zé Marinho, do Neca, da Cândida, do Mário e da Benedita, da Cecília, o Mário, o Clemente e o Anacleto, o Higino e outros?  
Imagem recolhida DAQUI

sábado, 4 de agosto de 2012

1 369 - O adeus definitivo a Carmona...



Parada do BC12, nos últimos dias dos Cavaleiros do Norte em Carmona. O
Malheiro, a esquerda, e o Serra, em cima do carro de combate. Ao fundo, o edifício do comando

A 4 de Agosto de 1975, «a partir as 4 horas da madrugada», a guarnição militar portuguesa já estava de olhos esfregados e bem abertos, «a postos para que o horário fosse cumprido», o da partida para Luanda. A situação já aqui foi amplamente narrada, podendo-se, a partir desta postagem, reler outras que dessa epopeia falam.
«A essa hora, toda a máquina se moveu, mas a incompreensão dos civis gerou o primeiro problema com a FNLA, que, bloqueando-os na cidade, não os quis deixar sair», relata o Livro da Unidades. Só a partir das 5.15 horas tal de resolveu, mas os problemas na heróica coluna continuariam até à chegada ao Grafanil (Luanda), a 6 de Agosto, pelas 12,45 horas 58,45 horas de 57 quilómetros depois a saída de Carmona.
O trio de furriéis do PELREC (Monteiro, Neto e Viegas) bem instalados em Viana, levantaram-se cedo, bem dormidos, e cedo se dirigiram ao Grafanil, onde nos esperava (entre outras tarefas) a limpeza das «miseráveis» instalações que tinham, sido destinadas aos Cavaleiros do Norte. Foi um «ver-se-te-avias» de limpezas, pois era importante criar razoáveis condições de descanso para os nossos companheiros que, por essas horas de 4 de Agosto de 1975, vinham a caminho de Luanda.
- MALHEIRO. Porfírio Tomaz Malheiro de Jesus, 1º. cabo de
manutenção de material. Era o benjamim do Batalhão, então 
com apenas 19 anos (era voluntário. Reside em Santo Tirso.
- MENDES. Carlos Alberto da Serra Mendes, 1º. cabo bate-chapas. 
Morará em Ponte de Sor, ou Abrantes.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

1 368 - De Carmona, até Luanda e ao Grafanil, há 37 anos...

GRAFANIL. Entrada do Campo Militar, em 1974 (foto de Jorge Oliveira). 
Aqui chegámos a 3 de Agosto de 1975, jum domingo, hoje de completam 37anos


A 3 de Agosto de 1975, voámos de Carmona para Luanda e do aeroporto para o campo militar do Grafanil, onde  nos esperavam instalações imundas, até aí ocupadas pela guarnição do Batalhão de Intendência de Angola - o BIA. Abandonadas, sujas, sem condições mínimas de higiene... 
Chegámos lá por volta do meio dia e, quanto a almoço, cada qual que se desenrascasse. E houve ordem para, «despejando» as nossas coisas ao cuidado de já não sei quem, se poder ir para a cidade. Avisado, o Neto providenciara um mini-Honda da FRAL (fábrica do pai que se instalava em Viana), que tinha escritório na Alameda D. João II, e acabámos (nós e outros furriéis) por, já ao princípio da tarde, irmos comer à messe de sargentos, na Avenida dos Combatentes.
Foi primeira vez que comi em self-service, serviço que era grande novidade para mim e (quase) todos. E novidade foi também o ar de espanto com que éramos olhados  pelos militares (furriéis e sargentos) que por lá estavam. Como se fossemos bichos. Éramos «os homens do cavaleiro branco, os gajos de Carmona...» e fomos inquiridos, apontados e «acusados», em tão confrangedora situação que o Mosteias, se ia exaltando com os punhos, para pôr em ordem alguns dos residentes.
Almoçados, voltámos ao Grafanil e o Neto levou-nos  Viana, logo à frente, na estrada de Catete - onde a FRAL se construía - e encontrámos um conterrâneo aguedense, o Gilberto. E, sorte nossa - do Meto, minha e do Monteiro, fomos viver para a casa de outro conterrâneo (Manuel Cruz), então regressado já a Portugal e que a tinha deixado ao cuidado do Gilberto. Por lá ficámos até 7 de Setembro de 1975.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

1 367 - A última noite de Carmona...

Avião Noratlas, modelo que transportou 
a CCS dos Cavaleiros do Norte para Luanda, há 37 anos


Talvez corra o risco de me repetir, nesta longa evocação da passagem dos Cavaleiros do Norte por Angola - que já vai em 1367 postagens - , mas valerá a pena recordar algumas peripécias da última noite da CCS, em Carmona, de 2 para 3 de Agosto de 1975. 
Ao outro dia, um domingo, iríamos nós para o aeroporto uíjano e voar para Luanda, em  duas levas de um DC6 e dois Noratlas (foto). 
Não me falhará a memória se der conta que eu e o Neto comensámos com o PELREC, na refeição nocturna do BC12. E pelas mesas do PELREC passámos, dando algumas indicações à rapaziada - tão mortinha, como nós, para voar para Luanda. Havia grande intimidade e partilha  entre soldados, cabos e furriéis, sempre sob o sorriso franco do alferes Garcia que, a esse tempo, se fez voluntário para a coluna terrestre (com ele querendo arrastar o PELREC), a que nos opusemos).
Malas prontas? Não falta nada, tudo ok? As armas? Atenção, toda a gente bem ataviada, sem abusos. Alguém tem alguma coisa para resolver? Estas mensagens circularam rapidamente entre os «pelrec´s» e não foi surpreendente que, com o ok superior, muitos se aprontassem para a sua última noite de Carmona. 
Para onde fora ou não foram, eu não sei. Ou não me lembro. A verdade é que na noite de hoje para amanhã se fazem 37 anos, os «pelrecs´s andaram por onde lhes apeteceu, mas às 8 horas da manhã de 3 de Agosto  de 1975, da garbo bem alto, lá estiveram eles 100% operacionais para a o adeus a Carmona.


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

1 366 - Os dias 1 de Agosto, de 1974 e 1975, no Uíge

Parada do BC 12, em Carmona (foto Jorge Oliveira)


A 1 de Agosto de 1974, no Quitexe, reuniu a Comissão Local de Contra-Subversão (CLCS) e «as directivas superiores» impuseram «a não realização de acções ofensivas (...), deixando-se de bater as áreas dos «quartéis» IN e passando-se a apertar a malha de patrulhamentos ao longo de toda a ZA».
Um ano depois, uma sexta-feira e em Carmona, fazia-se mais uma véspera do adeus final ao chão uíjano. Recebidas na véspera (31 de Julho) e no próprio dia 1 de Agosto de 1975, as viaturas que ajudariam a transportar o BCAV. 8423 foram sendo preparadas e carregadas. «Houve que preparar o movimento, com os cuidados que tal requeria, dado saber-se da oposição que a FNLA dizia ir fazer», lê-se no Livro da Unidade.
A tropa, até pouco antes torpedeada de «bocas» mais ou menos depreciativas, passou a estar no céu dos deuses, para muitos dos civis: queriam ajuda, pediam apoio e, sabendo da nossa iminente saída, afinal queriam acompanhar-nos. Já abundantemente por aqui falámos disso.
A tropa, tanto quanto a algibeira podia, farrava nos restaurantes, cafés e bares da cidade. O Diamante Negro, perto do campo de futebol do Recreativo do Uíge, era um dos locais preferidos. Por lá se bailava e bebia, dando-se prazeres à vida e aos apetites de quem, aos 22 anos, sonha com o mundo nas mãos e vive amores fugazes.
Mantinham-se os níveis de segurança (e desconfiança), mas a malta, de juventude na guelra, pouco se cuidava de medos e deixava-se medrar os entusiasmos.

terça-feira, 31 de julho de 2012

1 365 - A chegada da Companhia de Comandos a Carmona

Vista aérea do BC12, quartel militar de Carmona


A 31 de Julho de 1975, chegaram a Carmona e ao BC12 viaturas e tropas de reforço para a rotação dos BCAV.8423 para Luanda - onde os esperava o Campo Militar do Grafanil e umas semanas de espera, antes da partida para Lisboa e o adeus à guerra que fazia arder Angola. 
A CCS e a 1ª. Companhia iriam de avião, a 3 de Agosto. Per terra, e para uma evacuação que viria a ser épica, iriam a 2ª. e a 3ª. CCAV., as de Aldeia Viçosa e Santa Isabel, o tempo aquarteladas em Carmona, Com apoio de uma companhia de Comandos e outra de Paraquedistas. E Fiat´s, heli-canhões e heli-macas. 
O momento, à distância de 37 anos, não pode deixar de ser lembrado com emoção. Pela tensão e ansiedade que se viviam, pelo evocar dos constrangimentos que se sentiam, provocados - essencialmente, pela levedada pressão da FNLA , que por lá era senhora da guerra (entre movimentos emancipalistas) e a tropa portuguesa conflituava permanentemente, com repetidas exigências.
A chegada da Companhia de Comandos (instalada no BC12) levou-nos a procurar alguém conhecido, para saber novas de Luanda,. Foi o alferes Infante que encontrámos e dele soubemos o que era o «poder popular» que se multiplicava pela capital e arredores. Tínhamos sido contemporâneos em Lamego, dois anos antes, era ele furriel miliciano, meu conhecido por ser da Companhia do Alferes Ferreira (aqui meu vizinho de aldeia). E eu, instruendo do 2º. curso de Operações Especiais - os Rangers de 1973.
A tropa portuguesa dava as últimas voltas à cidade, em serviços ou turismo, no adeus que ia ser definitivo a capital do Uíge e os «comandos», bem à sua maneira, criaram alguns problemas. Até no BC12, onde o capitão comandante da Companhia, a reuniu para um chá de boca e castigos físicos na parada.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

1 364 - A tropa anunciou, oficialmente, que ia sair...

Rotunda Rimaga, em Carmona. Por aqui passámos 
várias vezes há precisamente 37 anos, em «pic-nic» militar

Aos 30 dias de Julho de 1975 passei eu algum tempo no torreão frontal do BC12, do lado de Carmona, a «cortar na casaca» de um sargento por quem não nutria afeição especial. Eu  e o Pires, o de Bragança, que me ouvia sempre muito preocupado pelo eco da minha voz, que por certo chegaria ao gabinete de operações - lá mesmo abaixo.
O pormenor, que vou dar de barato, só aqui vem ao blogue porque, nesse entretém de «costura» verbal, andaram a procurar-me na quartel, sem me verem por lado nenhum. Nem no bar, que era um pouso certo; nem nas camaratas do PELREC, por onde passava muito do meu tempo. 
O que se passava, então? Foi o alferes Garcia quem narrou, porque o pelotão ia entrar de prevenção: o comandante Almeida e Brito, acompanhado de alguns oficiais, ia formalizar a comunicação de saída dos Cavaleiros do Norte, no Estado Maior Unificado, que incluía oficiais da FNLA.
O que o alferes Garcia nos disse, com aquele ar por vezes enigmático que o caracterizava, sempre sorridente, era que, aprudentando qualquer situação menos agradável, parte da guarnição entrava de prevenção. E que o nosso grupo de combate (o PELREC) ia «passear para a cidade». Estou certo que usou expressão do género: «Vamos dar um passeio e fazer um pic-nic...».
E que pic-nic!!
Passámos pelo (nosso) Bairro Montanha Pinto (onde morámos, na antiga messe de oficiais), no Popular, pelos lados de piscina, bairro industrial, ruas do Comércio e Capitão Pereira, com várias voltas à rotunda da Rimaga. Sempre de arma com bala na câmara, alguns com dilagramas e sem faltarem granadas defensivas. Nada de especial aconteceu e voltámos ao BC12!

Sabíamos que no dia seguinte chegaria tropa de Luanda, para apoiar a retirada para Luanda.

domingo, 29 de julho de 2012

1 363 - Os incêndios das ruas de Julho de 1975!


Quartel do BC12, na saída de Carmona para o Songo. A amarelo, o bloco onde 
os furriéis viveram os últimos dias. A roxo, nota-se o depósito de água da parada


As malas faziam-se e fechavam-se, por Carmona, aos 29 para 30 e dias seguintes de Julho de 1975. De Portugal, chegam notícias de incidentes em Águeda, a 26: decorria o mercado-feira desse sábado e «um grupo de centenas de manifestantes assaltaram a sede do PCP», partindo vidros, forçando portas e entrado nas instalações, «onde se encontravam 15 militantes».
A GNR, comandada por um capitão, «foi impotente para impedir que se concretizasse a vontade dos manifestantes». Não houve confrontos físicos de gravidade, mas «mobiliário, fotocopiadores, camas, máquinas de escrever, ficheiros, arquivos, etc., foram arremessados para a rua e consumidos pelo fogo». E foram encontradas armas, entregues aos militares.
Os acontecimentos de Águeda (que agora reli, refrescando a memória num aerograma do amigo Fernando de Almeida, de 27 de Julho, que me chegou a 29 - faz hoje 37 anos, uma 3ª.-feira) eram a amostra do Portugal que medrava para o Verão Quente de 1975! O Portugal para que nós queríamos regressar, tão já quando possível. Na véspera, 2 de Julho, o general Costa Gomes presidira à abertura da Assembleia do MFA e afirmava que «as revoluções são um momento histórico que se aplica a um momento concreto, que é como é e não como sonhamos que deva ser».
O confuso momento que então se vivia - por Portugal e Angola -, num lado a revolução a procurar-se a si mesma; noutro, a querer construir-se um país mergulhado em guerra civil -, constrangia, de alguma maneira, a alma de alguns, na guarnição uíjana.
O Portugal livre e democrático crescia em manifestações de violência, cavando fosso enorme entre os sonhos dos cravos de Abril de 1974 e os incêndios das ruas de Julho de 1975! Ainda bem que, ao tempo, a verdura da idade não nos deixou ver (com olhos de ver e alma de sentir) a verdadeira gravidade da situação. Fomos evitados a algumas amarguras.

sábado, 28 de julho de 2012

1 362 - A operação de saída de Carmona para Luanda

Bar Gomes, à direita, a cobertura sob a árvore


A rotação do BCAV. 8423 para Luanda, no adeus definitivo ao Uíge, foi anunciada para 3 de Agosto e envolveu «a esquematização e montagem de uma operação para esta saída, que não se anunciava fácil».
A 28 de Julho (hoje se fazem 37 anos) - como a 23 e 29 -, realizaram-se reuniões de trabalho com elementos do QG/RMA, de modo «a obter os meios necessários à execução de tal operação».
O ambiente na guarnição era de crescente descompressão e nem nos atemorizavam as notícias que nos chegavam de Luanda - onde se multiplicavam incidentes e à boca cheia se constava que militares cubanos estavam no terreno, em auxílio do MPLA. Por mim, nunca dei por eles.
Os últimos serviços faziam-se e também as últimas refeições na cidade - no Escape (o meu preferido e ao tempo muito modernaço e de inauguração recente) no Shop-Shop, no Chave de Ouro, no restaurante do aeroporto ou no das piscinas, ou umas petiscadelas no Bar do Eugénio, ou no Gomes, por aí fora.
De Portugal chegavam notícias: por exemplo, uma «manifestação reaccionária» em Aveiro (nas barbas da minha Águeda),
com padres, bispos e povo em defesa da Rádio Renascença .
«Uma ampla margem de segredo e ininteligibilidade afasta da maioria dos portugueses a possibilidade de perfeitamente compreenderem o processo revolucionário em curso», escrevia Vitor Cepeda Mangerão, amigo que ao tempo acabava o curso de Direito em Coimbra.
E o que quer isso dizer?, perguntei eu, com resposta dias depois:
«Há perguntas sem resposta clara, apesar da presença repetida de de altos responsáveis do MFA frente às câmaras de televisão. Há dúvidas que permanecem e se avolumam; há, sobretudo (o que é tão grave, que é o pior...), um crescente sentimento, e generalizado, de instabilidade íntima que leva, até, à não aceitação de verdades porventura evidentes e razoáveis».

Victor Cepeda Mangerão acrescentava pormenores que, lidos agora (35 anos depois), deixam concluir quanto certo estava o então jovem advogado quanto ao Verão Quente de 1975 que se levedava em Portugal.