CAVALEIROS DO NORTE!! Batalhão de Cavalaria 8423, última guarnição militar portuguesa nas terras uíjanas de Quitexe, Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange, Songo e Carmona! Em Angola, anos de 1974 e 1975!

domingo, 19 de julho de 2015

3 195 - Cavaleiros em Carmona e MPLA a cercar a FNLA em Luanda

Elementos das Forças Militares em Carmona, numa altura em que, com as NT, 
patrulhavam as ruas da cidade. Há 40 anos, os seus graduados receberam galões e 
divisas do que seria ( e não foi) o Exército Nacional de Angola




Alferes miliciano Domingos Carvalho
de Sousa, da 2ª. CCAV. 8423, que há
40 anos foi para Carmona e agora,
promotor comercial, reside nos (seus)
Marrazes de Leiria

Os acontecimentos de Luanda (que aqui sumariamente temos relatado) levaram a que, a 17 de Julho de 1974, a 2ª. CCAV. 8423 (a de Aldeia Viçosa, comandada pelo capitão miliciano José Manuel Cruz), cedesse, em dilgência, «um grupo de combate para patrulhamentos na área suburbana de Carmona». 
Era o grupo comandado pelo alferes miliciano Domingos Carvalho de Sousa.
Ao mesmo tempo, em Luanda, a capital, as Associações Económicas de Angola (AEA) condenaram «a vaga de incidentes nos musseques» e contestaram «a legitimidade do Governo local», por, nomeadamente e como acentuavam, «não representar as correntes políticas angolanas», e informando que iriam  mandar a Lisboa «uma delegação. em busca de soluções urgentes».
As diligências não foram bem sucedidas, tanto quanto se sabe.
Notícia do Diário de Lisboa de 19
de Julho de 1975, sobre o cerco
do MPLA à FNLA, em Luanda
Um ano depois, «registavam-se rebentamento de morteiros e intenso tiroteio junto à Fortaleza de S. Pedro da Barra», a 7 quilómetros de Luanda e onde se «acantonaram 600 militares da FNLA». A fortaleza era, leio no Diário de Lisboa desse dia, «o único ponto de Luanda que ainda se encontra em poder deste movimento» - a FNLA. E já desde há alguma dias que estava cercado por forças do MPLA.
Carmona, por essa altura e com os Cavaleiros do Norte aquartelados no BC12, assistiu, no dia 17 de Julho desse 1975 (há 40 anos!!!...), à cerimónia de «entrega de galões e divisas aos graduados da subunidade»  - a Companhia das Forças Integradas -, que iriam formar o futuro Exército Nacional de Angola. O momento, segundo o Livro da Unidade, foi aproveitado para «explorar os deveres militares e as responsabilidades dos chefes, em acção orientadora destes elementos que, embora desejando fazer algo por Angola, se sentem submergir e deixar de ver a aceitação e autoridade que se pretendeu imprimir-lhes».
Não faltavam boas intenções!!!

sábado, 18 de julho de 2015

3 194 - Luísa Maria e Vista Alegre, incidentes e mortes em Luanda


Vista Alegre, a entrada do lado de Carmona, com o aquartelamento lá em 
cima. Aqui estava, há 41 anos, a CCAÇ. 4145 e, a partir de 21 de Novembro de 
1974, a 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala, até 24 de Abril de 1975


O antigo aquartelamento português de
Vista Alegre, em Dezembro de 2012. Foto
de Carlos Ferreira, que foi 1º. cabo da Zalala






A 17 de Julho de 1974, terminou a Operação Turbilhão - de que não encontrei registo de início -, e, por via disso, retornaram «à responsabilidade operacional do BCAV. 8423 as ZA de Luísa Maria e Vista Alegre». Isto, como refere o Livro da Unidade, «dada a necessidade do Sector CN orientar a sua actividade noutro sentido, em virtude dos acontecimentos de Luanda que, de certo modo, poderiam vir a influenciar aquela ZA».
O final da Operação Turbilhão levou também a que, já a 18 de Julho de 1974 - hoje se completam 41 anos -  a 1ª. CART. do BART. 6322/COTI passasse «à dependência operacional do BCAV. 8423» - os Cavaleiros do Norte. Continua(va), porém (a 1ª. CART. 6322) a «trabalhar a área dos «quartéis» de Camabatela e Quiculungo», o que, na prática «completa(va) o esforço operacional do Subsector em procurar actuar sobre todos os refúgios da ZA».
Notícia do Diário de Lisboa de 18 de
Julho de 1974, sobre a situação em Angola 
E por Luanda? Diminuía o número de incidentes, mas «continua(va)m a ser assaltados estabelecimentos comerciais e troca de tiros esporádicos». Até às 20 horas da véspera (dia 17) «tinham entrado 4 mortos e 16 feridos nos hospitais». «Parte da população branca dos bairros negros está(va) a refugiar-se na cidade, onde a vida é (era) quase inteiramente normal», noticiava o Diário de Lisboa.
A cidade era policiada pela PSP e os musseques pelas Forças Armadas» - em patrulhas constituídas por «soldados brancos e negros, frequentemente comandados por oficiais negros ou mestiços». Foram apreendidas 9 pistolas de vários calibres (a europeus), uma pistola na posse de um africano, 4 granadas de mão na posse de europeus e africanos e duas espingardas caçadeiras (a dois europeus). Um europeu foi detido (na posse de uma caçadeira e três granadas) e 17 africanos foram presos (por roubos).
O comunicado das Forças Armadas dava igualmente conta de «depradações de casas comerciais do bairro da Lixeira» e também de «actos de violência nos bairros Mota, Sambizanga, Rangel e Bungo» - este muito perto do porto de Luanda. No Sambizanga, foram detidas 30 pessoas «por falta de documentos e em posse de armamento».

sexta-feira, 17 de julho de 2015

3 193 - Oficial de reabastecimentos no Quitexe e tensão em Luanda

Alferes milicianos Jaime Ribeiro, António Garcia e José Alberto Almeida, no «adro» 
da igreja do Quitexe. À esquerda, a caserna dos atiradores e a dos sapadores; depois, o 
edifício do comando do BCAV. 8423


Notícia do Diário de Lisboa de
17 de Julho de 1974, há 41 anos 

A meados de Julho de 1974, chegou ao Quitexe o alferes miliciano José Alberto Almeida, oficial de reabastecimentos, que faltava na guarnição - desde que, ainda em Santa Margarida, outro miliciano fora dado como «incapaz para o serviço  militar», o também alferes miliciano Gaspar José F. Carmo Reis (de quem não tenho nenhuma memória).
A 17 de Julho desse mesmo 1974, fazia 33 anos o (nosso) capitão José Paulo Falcão e o comandante Almeida e Brito deslocou-se ao Comando do Sector do Uíge (onde já tinha estado a 14 e voltou a 31) para «contactos operacionais». Em Luanda, a população (especialmente a africana) e alguns jornais acusavam as autoridades civis e militares de culpas nos incidentes dos dias a anteriores, denunciando-lhe «ausência de capacidade de previsão e falta de espírito de decisão». E exigiam a demissão do governador geral (general Silvino Silvério Marques) e do comandante-chefe das forças armadas.
O número de mortos subira para 16, com 63 feridos e 16 pessoas detidas pelo Exército. O campeonato de futebol foi suspenso e proibida a circulação de viaturas ligeiras particulares durante a noite. A Universidade de Luanda interrompeu as suas actividades, em «posição de luto e solidariedade para com os trabalhadores negros» - que, da parte deles, voltaram ao trabalho.
«O ambiente de tensão estabelecido na área suburbana deu origem a algumas manifestação de solidariedade entre as comunidades de raças diferente», noticiava o Diário de Lisboa desse dia.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

3 192 - O dia (marcado) da rotação do BCAV. para Luanda



Carmona, bairro Montanha Pinto. A Messe de Oficiais que se «transformou» 
em Messe de Sargentos da CCS dos Cavaleiros do Norte, 
de 2 de Março aos 
primeiros dias de Agosto de 1975. Há 40 anos!



A Zona Militar Norte (ZMN), em Carmona
e em foto relativamente recente. tirada da net



Há precisamente 40 anos, dia 16 de Julho de 1975, já os Cavaleiros do Norte sabiam da sua desejada saída para Luanda. Era «a melhor opção», segundo relata o comandante Almeida e Brito, no Livro da Unidade. «(...) Expôs-se o assunto ao QG/RMA, obtendo-se a  certeza da rotação do BCAV. 8423 para Luanda, a partir de 3 de Agosto, esquematizando-se a montando-se uma operação para essa saída, que não se adivinhava fácil», historia o LU.
Em Luanda, sucediam-se os problemas. Na véspera, de manhã e segundo o Diário de Lisboa, «registaram-se graves incidentes, com as forças da ordem a abrir fogo sobre manifestantes negros», falando-se de inúmeros feridos e pelo menos 20 mortos. A tarde foi tempo para o funeral de 4 vítimas de incidentes nos musseques, funeral que envolveu 30 000 pessoas e decorreu sem problemas. Registou-se, até, um facto inédito: «Pela primeira vez, segundo observadores locais, as bandeiras dos dois movimentos de libertação rivais - MPLA e FNLA - esvoaçavam lado a lado, com os seus cartazes e os seus slogans».
Notícia do Diário de Lisboa de 16 de Julho
de 1975, sobre os incidentes em Luanda
Eis alguns deles: «Não à auto-determinação», «O que queremos é a independência», «Abaixo o  Comando-Chefe das Forças Armadas em Angola», «Independência total», «O futuro de Angola pertence aos africanos» e «Os representantes de Angola são o MPLA e a FNLA». Repare-se que não se fala na UNITA.
Era para esta Luanda que, em Carmona e por esse tempo de 1975, se preparava a retirada dos Cavaleiros do Norte. A guarnição continuava em «permanente situação de prevenção simples» - que já vinha desde o dia 12 e se prolongaria até 18 de Julho de 1975. Mas estava, no meio desta «picada» de problemas, a esfregar as mãos de contentamento. Aproximava-se cada vez mais o final da nossa jornada africana do Uíge angolano!

quarta-feira, 15 de julho de 2015

3 191 - FNLA a ocupar Uíge e pedido de armas às NT

Quartel do BC12, em Carmona, onde esteva instalado o Batalhão de Cavalaria
8423. Ficava à saída da cidade, na estrada para o Songo

Fazenda Santa Isabel, onde esteve
aquartelada a 3ª. CCAV. 8423, do capitão
miliciano José Paulo Fernandes

A 3ª. CCAV. 8423, a do capitão miliciano José Paulo Fernandes e aquartelada na Fazenda Santa Isabel, recebeu o comandante Almeida e Brito a 15 de Julho de 1974. 
O dia foi tristemente assinalado pela morte, devido a um acidente de viação, do soldado Bernardo Oliveira, de 26 anos, da incorporação local (angolana) e elemento do respectivo Grupo de Mesclagem. Era natural de Caiango, no Alto Canale.
Exactamente um ano depois, já com todo o BCAV. em Carmona, a FNLA fez-lhe «pedido de armas retidas no quartel». Que foram recusadas.
Viviam-se tensos momentos, por estes meados de Julho de 1975. Na véspera, a capital Luanda fora cenário de violentos combates (de que resultaram pelo menos 12 mortos e 60 feridos e refugiados). Em Carmona, com os Cavaleiros do Norte em «permanente situação de prevenção simples», patrulhavam-se a cidade e os principais itinerários.
Os comandos militares, em Luanda, pouca atenção davam ao Uíge, onde a FNLA cada vez mais queria ocupar posições e controlar pontos estratégicos - depois de, na primeira semana de Junho, ter expulsado o MPLA. «No terreno, assiste-se a uma ocupação de parte do distrito do Uíge, por tropas da FNLA», referia o Diário de Lisboa de 15 de Julho de 1975.
A fuga das populações (à guerra) «mais flagrante torna a divisão do país em zonas de influência que poderão conduzir a uma guerra de secessão e, por outro,lado, isolam mas a norte Cabinda, que se encontra sob controle do MPLA», comentava o DL. O jornal de Lisboa sublinhava também que «ontem circulavam notícias de que uma coluna da FNLA, incluindo blindados, se encaminharia para Luanda» - notícias que o mesmo DL não conseguiu confirmar.
Notícia do Diário de Lisboa, sobre
o Uíge, a 15 de Julho de 1975
Melo Antunes, ministro português dos Negócios Estrangeiros, encontrou-se com Agostinho Neto, presidente do MPLA, numa tentativa de «acabar com os conflitos com os movimentos rivais» e círculos diplomáticos luandenses admitiam que «haver ainda um possibilidade real de um confrontação em grande escala entre MPLA e FNLA». E, acrescentava o jornal, citando as mesmas fontes diplomáticas, «se tal acontecesse, as consequências para a capital poderiam ser catastróficas».
Um oficial de alta patente da Força Aérea Portuguesa, citado pela Reuters, afirmou que «a FNLA prepara-se, aparentemente, para reforçaras suas tropas em Luanda, ou mesmo cercar a cidade, que é extremamente vulnerável».

terça-feira, 14 de julho de 2015

3 190 - Cerco ao quartel e pedido de armas, MVL impedido de seguir...


Parada do BC 12, num dos dias difíceis de Carmona, em 
1975. Muitos refugiados
foram então apoiados pelos Cavaleiros do Norte

Diário de Lisboa. A 1ª. página da edição
de 14 de Julho de 1975, há 40 anos!!!, sobre
os incidentes de Luanda e expulsão da
FNLA, pelo MPLA



A Fazenda Rio Duízo, nos arredores do Quitexe, recebeu uma delegação dos Cavaleiros do Norte a 14 de Julho de 1974. O comandante Almeida e Brito fez-se acompanhar das autoridades administrativas e eclesiásticas da vila quitexana e lá deu esclarecimentos sobre a situação política e militar decorrente do 25 de Abril.
Era domingo e, em Luanda, a população dos musseques preparava uma greve, em luto pelas vítimas do Bairro Cazenga. Preparava-se para, no dia seguinte, segunda-feira, não comparecer ao trabalho e «vivia-se um clima de instabilidade, registando-se alguns pequenos incidentes, sem consequências graves».
Quartel do Negage, onde estava a
CCAÇ. 4741/74. Foi cercado pela FNLA
a 13 de Julho de 1975. Queria armas
Um ano depois, e com os Cavaleiros do Norte já todos concentrados em Carmona, vivia-se, já desde o dia 12 de Julho (de 1975), «em permanente situação de prevenção simples», para, nomeadamente, e cito o Livro da Unidade, «aguentar a provável ressaca da FNLA, face aos desaires de Luanda, Salazar e Malange». Na véspera, dia 13 de Julho, registara-se «cerco ao quartel das NT no Negage e pedido de armas pertença da CCAÇ. 4741» - companhia que estava a adida ao BCAV. 8423.
O dia 13 de Julho de 1975 foi também de comício da FNLA e do ELNA (o seu exército) e do primeiro impedimento da saída dos MVL para Luanda. O dia seguinte (14 de Julho, hoje se fazem 40 anos) foi de «constante afluxo de refugiados da FNLA a Carmona».
«Havia que encontrar uma opção para os dias futuros. Ficar em Carmona, com o total descrédito das NT e perigosamente alvo das queixas e ataques da FNLA, nomeadamente reivindicando o desequilíbrio doutros locais, ou sair, antecipando o regresso a Luanda, num salvar de face e tentando evitar males futuros», reflectia o comandante Almeida e Brito, como se lê no Livro da Unidade.
Dias difíceis se viviam em Carmona e região, ante as ameaças e actos da FNLA e do seu Exército Nacional de Libertação de Angola - o ELNA. Em Luanda, o MPLA «correra» com a FNLA e dominava a situação - o que, conjugado com muitos outros factores (muitos deles desconhecidos, ao tempo), nomeadamente a conquista e domínio militar de outras regiões, fazia admitir, como relatava o Diário de Lisboa desse dia, «colocar em risco algumas unidades portuguesas estacionadas, nomeadamente no Uíge, com efectivos relativamente pequenos, no caso de virem a ser acusados de darem apoio ao MPLA - como de resto, já tem sido feito».
Bem sentimos, na pele e na alma, as dores desses difíceis e arriscados tempos!

segunda-feira, 13 de julho de 2015

3 189 - O Gaiteiro, reuniões no Quitexe e problemas em Luanda

O Gaiteiro, à direita, com Agostinho Teixeira, 1º. cabo pintor (à esquerda) e
o (alferes) António A. Cruz, em Julho de 2013, no Freixieiro (Matosinhos)

Américo Gaiteiro em Paredes (Maio de
2012), com a companheira Maria Eduarda
Teixeira Cardoso, falecida em Abril de 2015,
vítima de doença cancerosa


A 13 de Julho de 1974, o comandante Almeida e Brito (e o seu estado maior) «reuniu com as autoridades tradicionais, com os comerciantes e elevado número de fazendeiros». O encontro decorreu no Clube do Quitexe e inseria-se no plano de «mentalização das populações» para o que seria o futuro próximo do processo de descolonização, decorrente da revolução de 25 de Abril anterior.
O dia era sábado e, em Luanda, as coisas não iam lá muito bem. «Receamos o pior. A situação é gravíssima e tememos que alastre a outras cidades», alertava Diógenes Boavida, que integrava a comissão representativa de vários movimentos políticos angolanos, que nesse dia chegava a Lisboa, onde também afirmou que «o pânico lavra em Luanda». Acrescentava que «as confrontações podem agravar-se nos próximos dias» e que «vamos pedir providências ao general Spínola».
Notícia do Diário de Lisboa de 13
de Julho de 1974
As confrontações da antevéspera já tinham provocado «10 mortos negros confirmados e 65 feridos» e estes números, segundo Diógenes Boavida, «podem estar muito aquém da realidade».
Agora, 41 anos depois, chegam-nos notícias pouco agradáveis, relativamente a um Cavaleiro do Norte - o condutor Gaiteiro. A sua companheira Eduarda Cardoso faleceu em Abril deste ano, vítima de doença cancerosa, no intestino. E ele restabelece-se de problemas de saúde, que o levaram já à extracção da bexiga e a problemas na próstata.
«Ainda  não morri, eu; mas já esteve por um triz...». narrou-nos ele, recordando, com uma gargalhada e no seu estilo sempre divertido, que «ia batendo a bota há 8 meses, durante a operação à bexiga». É apoiado pela ex-mulher e filhos, de 38 (o rapaz) e 31 anos (a rapariga). Tem quatro netos, mora em Leça da Palmeira e para lá vão os nossos desejos de melhoras. Desejos que sabemos serem de todos os Cavaleiros do Norte. Força, Gaiteiro!
- GAITEIRO. Américo Manuel Costa Nunes Gaiteiro, soldado 
condutor. Morou em Perafita e Rio Tinto, agora em Leça da Palmeira.

domingo, 12 de julho de 2015

3 188 - Aulas regimentais nos Cavaleiros e incidentes de Luanda

O telheiro do Quitexe onde eram dadas as aulas regimentais (seta a verde). O bar
dos soldados era ao lado (seta vermelha), mesmo em frente à messe de oficiais e
na avenida (ou Rua de Baixo). Sentados no ajardinado que separava as suas faixas
da avenida, estão os furriéis milicianos Cruz e Viegas. Atrás, parece ser o alferes Ribeiro
O Diário de Lisboa de 12 de Julho de 1974,
uma sexta-feira, noticiava «Terror branco em
Luanda: 3 mortos, 27 feridos»

A meados de Julho de 1974 «começaram as aulas regimentais em todas as subunidades» do Batalhão de Cavalaria 8423 - no Quitexe (onde se aquartelava a CCS, comandada pelo capitão SGE António Martins de Oliveira), em Zalala (a 1ª. CCAV. 8423, do capitão miliciano Davide Castro Dias), Aldeia Viçosa (a 2ª. CCAV. 8423, de José Manuel Cruz) e Santa Isabel (a 3ª. CCAV. 84233, de José Paulo Fernandes). 
A actividade incluía-se no «campo da acção psicológica» e pretendia essencialmente dotar os militares com o exame da 4ª. classe. Note-se que, ao tempo, muitos deles não tinham a escolaridade básica e, sem esta e por exemplo, não poderiam tentar tirar a carta de condução. Por isso, as aulas regimentais, ministradas por graduados do batalhão, assumiam importante papel na vida de guarnição e dos próprios alunos/formandos. 
A 12 de Julho de 1974, há 41 anos, soube-se que o taxista assassinado em Luanda (aqui ontem evocado) era António Salgado, natural de Bragança. O corpo apresentava sinais de estrangulamento e foi encontrado dentro do táxi, junto da cápsula de uma bala, a carteira, documentos e dinheiro. A ideia de assalto foi posta fora de causa.
A reacção e indignação dos profissionais da classe e, segundo o DL, «extremistas brancos enfurecidos provocaram ontem, (dia 11) a morte de três pessoas, todas africanas, e 27 feridos, 12 dos quais em estado grave». No mesmo dia 11, de manhã, protestaram junto do Governo Geral e pediram protecção e, durante o dia, sucederam-se vários incidentes, manifestações junto de estações de rádio, comunicados do Governo Geral e do Comando das Forças Armadas.
O ambiente na manhã de 12 de Julho de 1974, porém, «era de sossego e a maioria da população só tornou conhecimento destes casos pela leitura dos jornais». A Polícia e o Exército, relata(va) o Diário de Lisboa, «tomaram imediatamente rigorosas medidas de segurança nalguns bairros do subúrbio, para evitar actos de retaliação».

sábado, 11 de julho de 2015

3 187 - Reuniões com os povos do Quitexe e incidentes e mortos em Luanda

Quitexe, a avenida (ou Rua de Baixo), com a secretaria da CCS (assinalada com
a seta encarnada), a casa dos furriéis (verde) e messe de oficiais (amarelo)


Mapa (manual e de João Garcia) da
área do Quitexe (assinalado a laranja), com,
entre outras,  as sanzalas do Quimassabi
 e Quitoque (a vermelho)



A noite de 10 para 11 de Julho de 1974, em Luanda, foi tempo para «violentos incidentes». Um taxista branco apareceu morto (degolado) no musseque do Rangel e o facto «fez explodir raivas e retaliações»., como relata o blogue de Carlos Las Heras, de que nos socorremos. «Desencadeou um grande burburinho, tiros para um lado, tiros para o outro, expulsão violenta dos comerciantes brancos, roubos, saques e incêndios dos seus estabelecimentos», acrescenta o blogue .
Poucas horas depois e na avenida do Brasil, local de entrada habitual dos negros que trabalhavam na cidade mais «europeia», relata Carlos Las Heras que «grupos de brancos tresloucados, assim o exprimem algumas das suas atitudes, desde as sensatas às desvairadas, concentram-se e agridem, insultam e ameaçam quem por ali passasse».
A 10 de Julho desse mesmo 1974, e agora cito o Livro da Unidade, o comandante Almeida e Brito reuniu com os povos do Quitoque e Quimassabi, em reuniões de «mentalização das populações» - o que vinha a ser feiro com vários agentes regionais, ora comerciantes, ora populares, ora camionistas e fazendeiros.  
Um ano depois, e de
novo em Luanda, relata o Diário de Lisboa que «a situação agravou-se nas últimas horas, continuando a ouvir-se o rebentamento de armas pesadas e o matraquear de metralhadoras». 
Os incidentes alargaram-e ao Bairro do Marçal e, segundo o DL, «embora sem confirmação oficial, o número de mortos e feridos é elevado». Na véspera e junto ao supermercado Pão de Açúcar, na estrada de Catete, «uma bazuca rebentou junto de um automóvel estacionado, ferindo gravemente um homem que estava lá dentro».
«A tensão na cidade é cada vez maior e a população branca pede a intervenção da forças portuguesas, que continuam alheias mas atentas aos acontecimentos», reportava o Diário de Lisboa.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

3 186 - Daniel Chipenda em Carmona e tiros em Luanda


Estádio 4 de Maio, ao tempo do Clube Recreativo do Uíge. Foi aqui que, há 40 
anos, Daniel Chipenda fez um comício - o da sua visita de vários dias 
a Carmona. Quase em frente, ficava o Diamante Negro. 
Lembram-se?


Daniel Chipenda

A 10 de Julho de 1975, Daniel Chipenda deslocou-se a Carmona e Uíge, numa visita que, segundo a imprensa do dia, «poderia ser significativa». A falta de pormenores, referia o Diário de Lisboa dessa tarde, devia-se ao «não funcionamento do sistema de comunicações com aquela zona. afectado desde os últimos incidentes e não mais reconstruído».
Daniel Chipenda, ao longo dos vários dias em que lá esteve, visitou várias fazendas (estava-se na altura da apanha do café) e fez um comício no campo de futebol, com segurança feita pelas NT e alguns elementos das Forças Militares Mistas. Na altura, recordemos, promovia-se a criação do Exército Unificado de Angola, com elementos dos três movimentos.
A manhã desse 10 de Julho de 1975, registou mais incidentes em Luanda, «com tiros de certa intensidade», no Bairro da Cuca e Avenida do Brasil. Já durante a noite. relata(va) o Diário de Lisboa desse dia, «já se tinha feito sentir o disparo de armas automáticas». «Este recrudescimento de violência - acrescenta(va) o vespertino da capital portuguesa - deve estar relacionado com uma forte onde de boatos que nos últimos dias tem circulado em Luanda, anunciando para muito breve o recomeço das hostilidades entre os movimentos de libertação angolanos».
A guerra de comunicados de MPLA, FNLA e UNITA também ressurgiu, com ataques recíprocos e ao Governo Provisório. O Comando Operacional de Luanda (COPLAD). por seu lado, denunciou «uma nova vaga de prisões arbitrárias operadas em Luanda, nomeadamente pelo MPLA e FNLA» e lamentava «o completo alheamento» dos acordos firmados. Entre 4 e 29 de Junho, segundo o COPLAD, «a FNLA fez 132 prisões em Luanda e 100 o MPLA». A UNITA, apenas quatro. Na semana que na véspera se concluíra, fizera 6 a FNLA, 8 o MPLA e nenhuma a UNITA.
Notícia do Diário de Lisboa
de 10 de Julho de 1975.
Há 40 anos!
Um ano antes, a 10 de Julho de 1974, o MPLA, pela voz de Lúcio Lara, anunciou que «não está disposto a negociar com a FNLA». O dirigente do partido de Agostinho Neto falava em Brazaville e salientou que «enquanto a FNLA não libertar 200 elementos da FNLA «detidos» em Kinshasa, são impossíveis reuniões conciliatórias entre os dois movimentos».
A FNLA já tinha libertado três oficiais do MPLA, detidos em Junho de 1973 (em Kinshasa e onde tentavam a conciliação entre os dois movimentos) e que na altura (há 41 anos) já estavam em Lusaka. 

quinta-feira, 9 de julho de 2015

3 185 - Comandos do BCAV. 8423 reunidos no Quitexe e FLEC em Lisboa

Cavaleiros do Norte no Quitexe. Furriéis milicianos à porta da messe: Fernando Pires e Luís Costa (Morteiros), Graciano 
Silva, António Fernandes (de bigode e quico), José F. Carvalho (bigode e boina) e Nelson Rocha (CCS). Depois, João 
Cardoso (de bigode e a rir), Grenha Lopes, António Flora (de boca tapada pelo Fernandes) e Viegas (CCS), Joaquim Abrantes, 
adido à CCS (de cachimbo), Armindo Reino (tapado pela mão direita do Bento) e Francisco Bento, de bigode e mãos no ar (CCS). Á 
frente Ângelo Rabiço (de bigode) e Delmiro Ribeiro. Exceptuando os indicados, são todos da 3ª. CCAV. 8423



Edifício do Comando do Batalhão de Cavalaria
8423, na Avenida do Quitexe - ou Rua de
Baixo. Ao fundo, seguia-se para o cemitério e
estrada (picada) de Camabatela 
A reunião mensal do Batalhão de Cavalaria 8423 realizou-se a 8 de Junho, novamente no Quitexe, «mercê de ainda não existirem estruturas nas restantes subunidades, que permitissem a sua realização nas suas sedes» - subunidades que estavam aquarteladas em Zalala (1ª. CCAV. 8423), Aldeia Viçosa (2ª.) e Santa Isabel (3ª.). Ou as adidas, em Vista Alegre (CCAÇ. 4145) e Fazenda Liberato (CCAÇ. 209/RI).


A primeira reunião de comandos dos Cavaleiros do Norte ocorrera a 15 de Junho, também no Quitexe, quando, recordo do Livro da Unidade, «além de uma troca de impressões entre todos os comandos e o dar a conhecer as linhas directrizes das actividades futuras, foi procurado encontrar uma melhor solução para o dispositivo do BCAV., de modo a que permitissem um maior aproveitamento de todas as suas forças».
Tinha isso a ver com o facto de estarem os Cavaleiros do Norte «numa zona onde se encontram sediados vários «quartéis» IN», o que tornou óbvio que a actividade estivesse «sempre orientada sobre esses refúgios, dando-se paralelamente apoio a todos os fazendeiros e à cobertura económica das actividades do Subsector, que neste mês decorrem sobre a apanha do café».
Ao mesmo tempo, uma delegação da Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) viajou para Lisboa «para conversações com o Governo Provisório». A FLEC, segundo o Diário de Lisboa de 9 de Julho de 1974, «é muito contestada no enclave norte, por pretender a separação do resto do território angolano». O jornal recordava que «em Cabinda se encontram os enormes jazigos de petróleo explorados pelos americanos».

quarta-feira, 8 de julho de 2015

3 184 - Cavaleiros de Santa Isabel no adeus ao Quitexe!

Quartel dos Cavaleiros do Norte no Quitexe, em imagem colhida do lado da capela. Daqui 
saíram os Cavaleiros do Norte de Santa Isabel a 8 de Julho de 1975. Há 40 anos!!!


O furriel Viegas a registar, por escrito,
as suas notas da jornada africana do
 Uíge angolano. Que tantas recordações
têm trazido a este blogue

Aos oito dias do mês de Julho de 1975, hoje se fazem 40 anos, a 3ª. CCAV. 8423 «fez a rotação para o aquartelamento de Carmona», o BC12 - onde já estava a CCS, desde 2 de Março. «Completando-se, totalmente, a retracção do dispositivo do Uíge», como leio no Livro da Unidade.
Ao tempo, e com as escaramuças que se repetiam na cidade e nos itinerários que os Cavaleiros do Norte controlavam, vivia-se um ar de tensão permanente. Também consequente do facto de o comando do BCAV. 8423 «não ter obtido do comando do QG/RMA a solução pretendida para a melhor solução do BCAV. na cidade», onde sistematicamente era alvo dos apontados dedos da comunidade civil. 
A 1 de Julho, já tinha saído do Quitexe  um grupo de combate dos Cavaleiros do Norte da 3ª. CCAV. A rotação do resto da Companhia «completou totalmente a retracção do dispositivo do Uíge». A nova situação, porém, segundo o Livro da Unidade, não se previa que resultasse em «solução para os problemas existentes, como efectivamente se veio a verificar».
Desse dia, e dos meus apontamentos pessoais, noto eu: «Vem hoje a malta de Santa Isabel, já não era sem tempo, o que nos vai da algum descanso e alguma confiança, nestes tempos em que continuamos sem saber qual é o nosso futuro próximo, qual é sequer o nosso futuro e que papel vamos ter até ao fim da nossa jornada». 
De Luanda, chegava-me correio do meu amigo Alberto Ferreira, lá cabo especialista da Força Aérea, em serviço na Base Aérea nº. 9: «Essa m... por aí está melhor, ou quê? Aqui está uma santidade. Mas é só aparente...». Adiantava-me a probabilidade de regressar a Portugal: «Com um pouco de sorte, talvez vá em Agosto. Mas não é nada de concreto», explicava. Concreto acabaria por ser, para sorte dele. «E tu, quando vens para Luanda?», perguntava-me o Alberto Ferreira, sem eu saber como responder-lhe.

terça-feira, 7 de julho de 2015

3 183 - Mentalização das populações e camionistas do Quitexe

A Igreja do Quitexe (a amarelo) e o que sobrou, em data
 desconhecida, do quartel dos Cavaleiros do Norte (a vermelho)


Furriéis milicianos à porta da residência do
Quitexe: João Aldeagas (de Estremoz). António Cruz (Póvoa
de Santo Adrião). Graciano (Lamego). Nelson Rocha (VN de
Gaia), António Letras )Palmela) e José Carvalho
 (Entroncamento). À frente, José Pires (Bragança)

O dia 6 de Julho de 1974 foi tempo para «mentalização das populações» e, por isso, «o comandante do BCAV. fez nova série de reuniões (...) nos povos de Aldeia e Luege e também com os camionistas que servem o poderia económico da área». Pretendiam os camionistas «obter maior liberdade de movimentos na chamada estrada do café», como se lê no Livro da Unidade.
A 7 de Julho do mesmo ano, a visita do comandante Almeida e Brito foi à 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa (do capitão miliciano José Manuel Cruz), e ao Destacamento da Fazenda Negrão - neste caso com participação do padre Albino Capela. 
Os Cavaleiros do Norte faziam (ainda) a sua crescente adaptação à ZA, com múltiplos contactos, patrulhamentos e escoltas, concluíam a Operação Castigo DIH - que, recordo do Livro da Unidade, registou «novo contacto com o IN» - e, por outro lado, «desenvolveu elevado número de acções e operações em toda a ZA, mas nomeadamente sobre Mungage, Negage, Aldeia e Tabi».

segunda-feira, 6 de julho de 2015

3 182 - Batuques dos bailundos no Destacamento de Santa Isabel

Alferes miliciano João Machado, o primeiro oficial dos Cavaleiros do Norte a 
comandar o Destacamento de Luísa Maria, a 10 de Junho de 1974

O alferes miliciano João Machado foi comandante interino da 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa - nas ausências do capitão miliciano José Manuel Cruz, e o primeiro oficial a comandar os Cavaleiros do Norte, no Destacamento da Fazenda Luísa Maria. Lá chegou, com o 1º. Pelotão, a 10 de Junho de 1974.
Há dias, porque o blogue falou de Luísa Maria, enviou-nos fotos das instalações militares (já aqui editadas) e também as de um batuque que os contratados da fazenda faziam nas suas horas livres - principalmente aos domingos. Por vezes, também aos sábados à noite.
Contratados eram os bailundos que, da zona de Nova Lisboa, vinham para o norte de Angola,expressamente para as colheitas do café. «Eram muitos, autenticas populações de mais de 100 pessoas, entre homens, mulheres e crianças», lembra João Machado - oficial miliciano que, de Luísa Maria, tem «muito boas recordações».
As danças (batuques) teriam «inspiração em crenças religiosas próprias» e tinham sentida e emotiva participação dos bailundos.
A Fazenda Luísa Maria era propriedade do empresário José do Patrocínio Alves, que tinha interesses em outros sectores económicos, nomeadamente na construção civil, em Luanda. Era gerida por Eduardo Bento da Silva e tinha José Dias Craveiro como encarregado.
Ver AQUI

domingo, 5 de julho de 2015

3 181 - As questões operacionais e a reparação de itinerários


Oficiais do Quitexe: tenente Luz, alferes milicianos Ribeiro e Hermida, tenente 
Mora, alferes miliciano Cruz, capitão Oliveira, alferes miliciano médico 
Honório Campos e capitão miliciano médico Leal

 Ponte do Dange vista do Destacamento Militar

Os comandantes das unidades do Comando de Sector do Uíge (CSU) reuniram-se a 5 de Julho de 1974, na sede do BCAV. 8324, em Sanza Pombo, para tratar de questões operacionais. 
O tempo, para além das tarefas normais da guarnição - serviços internos, escoltas, patrulhas e operações... -, era também de protecção aos trabalhos de reparação de picadas e, em particular, dos «trabalhos da Junta Autónoma de Estradas de Angola (JAEA) da estrada Vista Alegre-Ponte do Dange» - um dos troços da ZA dos Cavaleiros do Norte na chamada Estrada do Café, que liga(va) Carmona a Luanda.
Ponte do Dange era espaço de um Destacamento dos Cavaleiros do Norte e fazia «fronteira» entre os Dembos e o Uíge. A ponte era de passagem obrigatória da Estrada do café - toda em asfalto, de Carmona a Luanda.
Por algum tempo, a guarnição (sempre rotativa) pertencia à CCAÇ. 4145/72 - que de lá saiu a 21 de Novembro de 1974, sendo substituída pela CCAÇ. 4145/74 (outra 4145), por poucos dias - já que rodou para Luanda, sendo substituída (em Vista Alegre e Ponte do Dange) pela 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala.
O mês de Julho de 1974 foi também tempo, em data indeterminada, do falecimento do soldado Bernardo Oliveira. do Grupo de Mesclagem da 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel, Foi vítima de acidente de viação e era originário do RI20, de Luanda.
Um ano depois e como ainda há dias aqui evocámos, faleceu outro militar da 3ª. CCAV. 8423, também vítima de acidente de viação: o Spínola, Jorge Custódio Grácio de seu nome, que era do Casal das Raposas, em Leiria.

sábado, 4 de julho de 2015

3 180 - Polícia de Informação Militar e Cavaleiros de Santa Isabel

Cavaleiros do Norte da 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel, em imagem captada no
Quitexe. Os furriéis milicianos António Flora (de Alcains), Agostinho Belo (Retaxo de
Castelo Branco), António Fernandes (Braga) e Alcides Ricardo (Odivelas)
 


Avenida do Quitexe, em foto retirada da net. A
vermelho, está o edifício do bar dos praças (mesmo em
frente à messe de oficiais). Ao fundo e a amarelo,
a enfermaria militar dos Cavaleiros do Norte


Aos quatro dias de Junho de 1974, «completou-se o quadro orgânico da Polícia de Informação Militar (PIM), com a apresentação do Chefe de Posto daquela polícia no Quitexe», lê-se no Livro de Unidade. Pouco posso acrescentar sobre a PIM, para além do que é público: sucedeu à PIDE/DGS que, de resto, no ultramar tinha tarefas diferentes da metrópole e que, já em Agosto de 1974, segundo leio no mesmo Livro da Unidade, «na sequência da remodelação imposta pelo MFA (...), passou a ter a designação de Gabinete Especial de Informações (GEI)»
A tempo, e no que aos Cavaleiros do Norte diz respeito, «dentro do espírito pretendido, de conseguir liberdade de acção na ZA, fizeram-se rotações dos Destacamentos», como se lê no Livro da Unidade, onde se acrescenta que tal «permitiu obter maior número de disponibilidade de forças, para a realização da actividade operacional».
Isto, em Julho de 1974. Um ano depois e ainda a ressaca dos trágicos acontecimentos da primeira semana de Junho, continuavam a aplastar-se dúvidas da comunidade civil europeia sobre a missão dos Cavaleiros do Norte e o seu papel no processo de descolonização. O que levou à necessidade de se reforçar a guarnição da cidade de Carmona. 
O Quartel General da Região Militar de Angola não deu solução ao pretendido pelo comandante Almeida e Brito, «para melhorar a situação do BCAV. 8423 em Carmona», pelo que «dada a necessidade de se preparar uma maior presença na cidade» se começou a preparar a rotação da 3ª. CCAV. para o aquartelamento de Carmona». A 1 de Julho, já saíra «um seu grupo de combate». 
A 3*. CCAV. era comandada pelo capitão miliciano Jose Paulo Fernandes e estava aquartelada no Quitexe desde 10 de Dezembro de 1974, data em que, saída da Fazenda Santa Isabel, se juntou à CCS. E lá estava, só, desde que a CCS rodou para o BC12, abandonando a vila-mártir de 1961 a 2 de Março de 1975.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

3 179 - A PSPA/GR do Quitexe e o Enclave de Cabinda

Grupo de Furriéis dos Cavaleiros do Norte, à porta da sua residência, na avenida  do Quitexe: Cândido Pires, 
António José Cruz, José Pires, Armindo Reino, José Avelino  Lopes. Norberto Morais e Agostinho Belo, 
com António Maria Lopes (sentado). Em baixo, a  avenida do Quitexe, vendo-se, à direita, a Casa dos Furriéis, 
Messe de Oficiais (cobertura clara) depósito de géneros e Messe e Bar de Sargentos (casa branca) e 
residência do comandante (a seguir)




Julho de 1974, dia 3. No Quitexe, o comandante Almeida e Brito esteve na 3ª. Companhia da Polícia de Segurança Pública de Angola / Guarda Rural (PSPA/GR), que estava aquartelada na vila-mártir de 1961 e passara a estar sob responsabilidade operacional dos Cavaleiros do Norte.
O comandante tinha, pela frente, um mês de intensa actividade - em sucessivos contactos com autoridades locais e tradicionais, povos e fazendeiros e comerciantes da região. Um destes, viemos a saber, era conterrâneo de Águeda - o sr. José Morais (foto), que também era empresário do sector dos transportes e, suponho, dono de uma pequena fazenda nos arredores da vila. 
O comerciante quitexano
José Morais, que era
de Águeda
Um ano depois e em Brazaville, o presidente Agostinho Neto (MPLA) afirmava que «para nós, não há Angola e Cabinda; há simplesmente Angola, pois Cabinda faz parte integrante do território angolano». 
Na então recente Cimeira do Quénia, já os três movimentos angolamos, segundo Agostinho Neto, «tinham registado nas suas decisões a observação de que Cabinda não era parte separada de Angola». A independência do território era, recordemos, reivindicada pela Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC).

quinta-feira, 2 de julho de 2015

3 178 - Uma morte e um acidente nos Cavaleiros do Norte

O que sobrou do edifício do Comando do BCAV. 8423, no Quitexe. 
Foto da net, de data não conhecida. Em baixo, o mesmo espaço visto da Igreja



O furriel miliciano Freitas Ferreira,
da 2ª. CCAV. 8423, ficou ferido num
acidente, há 41 anos!
O dia 2 de Julho de 1975, há precisamente 40 anos, foi tragicamente assinalado pela morte do Spínola - o Jorge Custódio Grácio -, vítima de um acidente de viação. Era soldado da 3ª. CCAV. 8423, na altura em vésperas de sair do Quitexe para Carmona.
O Spínola era natural de Casal da Raposa, em Leiria, e afamou-se entre a guarnição por, na noite de passagem de ano de 1974 para 1975, ter ganho a prova de S. Silvestre do Quitexe. Ao tempo do trágico acidente e morte deste companheiro, os Cavaleiros do Norte continuavam a sua missão de segurança na cidade de Carmona e região e, segundo o Livro da Unidade, «permanentemente alvo da crítica das populações brancas», as quais, sublinha(va), «se sentem marginalizadas e sem receberem quaisquer apoios ou segurança daqueles que ainda são, como afirmam, representantes da Autoridade Portuguesa».
Um ano antes, a 1 de Julho de
Jorge Custódio Grácio, o Spínola.
Faleceu há precisamente 40 anos,
vítima de acidente de viação
1974, deu-se o acidente com o furriel Freitas Ferreira, da 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa, num patrulhamento em que se despistou um Unimog, numa curva do Quibaxe. A viatura saiu da estrada e caiu numa ravina, bem alta. O Freitas Ferreira e o condutor rebolaram por ela abaixo, ficando ambos feridos - o furriel com uma perna e clavículas partidas.
Furriel que viria a ser reclassificado com amanuense e colocado em Luanda - embora contra a sua vontade, como nos contou há algum (pouco) tempo. Vive em Costa (Guimarães), onde é profissional da área da auditoria, consultadoria fiscal e contabilidade.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

3 177 - Cavaleiros em conhecimento e Savimbi feito profeta

Cavaleiros do Norte no Quitexe, todos furriéis milicianos: Francisco Bento, Nelson 
 Rocha, Celestino Viegas, António Flora, António Lopes, Luís Capitão (já falecido) e 
Delmiro Ribeiro (atrás), José Fernando Carvalho, Agostinho Belo, José Avelino 
Lopes e Armindo Reino (sentados)


Os capitães milicianos José Manuel Cruz e José 
Paulo Fernandes, comandantes da 2ª. CCAV. 8423 
e 3ª. CCAV.  8423, com o alferes miliciano João
Machado - o primeiro comandante dos Cavaleiros
do Norte no Destacamento da Fazenda Luísa
Maria. Do 1º. Pelotão da 2ª. CCAV. 8423,
a de Aldeia Viçosa



A 1 de Julho de 1974, ainda mal os Cavaleiros do Norte conheciam a sua área de acção. O Destacamento de Luísa Maria (apesar de lá estar o 1º. Pelotão da 2ª. CCAV. 8423, dese 10 de Junho) ainda não estava sob sua responsabilidade operacional, tal qual Vista Alegre - onde se aquartelavam a CCAÇ. 4145 e o GE 208. Só a partir de 17 de Julho tal aconteceu.
O 1º. Pelotão era comandado pelo alferes miliciano João Machado, que tinha sido meu companheiro do 2º. Turno de 1973, do Curso de Operações Especiais, em Lamego. Ele e o furriel miliciano António Carlos Letras, também deste curso e morador em Palmela, ambos formados no Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOE), em Lamego - e com outro furriel, o Mário Matos, de Anadia e atirador de cavalaria, instruído na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém.
O mês de Julho de 1974 começou «com a atribuição da responsabilidade operacional da OPVDCA e das 3ª. e 4ª. Companhias da PSPA/GR, estas respectivamente sediadas no Quitexe e Vista Alegre», e que, segundo o Livro da Unidade, «passaram, mercê de determinações superiores, ao comando operacional das dos militares em subsector» - o do Quitexe.
Notícia do Diário de Lisboa
de 1 de Julho de 1974 
Enquanto isso e em declarações ao jornal «A Província de Angola», Jonas Savimbi, presidente da UNITA, declarava que «a descolonização de Angola só poderá ser feita ordeiramente com a consolidação da democracia em Portugal».
«Vamos aproveitar a liberdade que nos deram as Forças Armadas para aprofundarmos mais a nossa consciência política e para demonstrarmos ao mundo o nosso civismo e a nossa maturidade política. Angola merece a sua independência total. O nosso primeiro dever é termos a coragem de irmos ao encontro da paz», disse Jonas Savimbi, em declarações reproduzidas no jornal «A Província de Angola e na Emissora Oficial de Angola.
Bem pregou «frei» Jonas. A história não confirmaria tal profecia, mas isso só hoje se sabe. Ao tempo, semeavam-se esperanças numa descolonização exemplar.
- OPVDCA: Organização Provincial de Voluntários 
de Defesa Civil de Angola. Tinha um aquartelamento no 
Quitexe, na saída para Carmona. 
- PSPA/GR: Polícia de Segurança Pública de Angola / Guarda Rural.