CAVALEIROS DO NORTE!! Batalhão de Cavalaria 8423, última guarnição militar portuguesa nas terras uíjanas de Quitexe, Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange, Songo e Carmona! Em Angola, anos de 1974 e 1975!

domingo, 20 de setembro de 2015

3 258 - Aliciamento a trabalhadores do café e domínio do MPLA

Furriéis Viegas e Pires (do Montijo) na sanzala do Talambanza, à saída (direita) do 
Quitexe, na Estrada do Café, que liga as cidades de Luanda e 
Carmona. Há 41 anos!

Notícia do Diário de Lisboa sobre reunião,
em Campala, dos três movimentos de libertação de
Angola - MPLA, FNLA e UNITA: E da apreensão, pela
UNITA. de um avião da Força Aérea Portuguesa

Setembro de 1974 decorria tranquilo, pelas bandas do Quitexe e Zona de Acção dos Cavaleiros do Norte: Zalala, Aldeia Viçosa e Santa Isabel, onde, respectivamente, se aquartelavam a 1ª. CCAV. 8423, a 2. CCAV. 8423 e a 3ª. CCAV. 8423. A que se juntavam a CCAÇ. 209/RI 20 (a do Liberato) e a CCAÇ. 4145 (a de Vista Alegre).
Problema era o incremento «pelo IN e/ou por agitadores, propaganda aliciante dos trabalhadores das fazendas para fugirem ao contrato», como historia o Livro da Unidade, acrescentando que tal «forçosamente trará reflexos no panorama económico do concelho». A questão, que Almeida e Brito, no LU, considerava «meramente administrativo», não tinha «ainda o significado (nem paralelismo) do existente em concelhos limítrofes, no entanto começa a tomar volume que se pode considerar elevado e que trará forçosamente reflexos negativos no bom andamento do processo regressivo da presença das tropas e da descolonização». Bem avisado deveria andar o comandante dos Cavaleiros do Norte.
Um ano depois, o MPLA, a meia centena de dias da independência (11 de Novembro de 1975) anunciava «a consolidação das posições obtidas anteriormente, assim como uma tentativa de reorganização das forças invasoras, em consequência dos desaires sofridos ultimamente». O comunicado do MPLA dava conta de «uma estabilização das linhas ocupadas, tanto pelas FAPLA´s como pelo exército invasor, sendo que a terra de ninguém se situava mais ou menos na zona do Tabi, entre os Libongos e Ambriz».
O MPLA dizia controlar Cabinda (onde «a situação é de calma absoluta»), a frente leste (com Malanje, Lunda e Moxico, «na sua quase totalidade sob controlo das FAPLA´s») e a frente Sul (províncias da Huíla, Cunene e Moçâmedes, que era «a que se tem mostrado mais calma, do ponto  e vista militar»). No entanto, notava o documento do movimento de Agostinho Neto, havia «linhas de disputa em Malanje», com algumas acções militares a norte da zona de Marimba; Caconda (a norte) e Matala (a leste) eram «linhas de separação entre as FAPLA e as forças mistas do imperialismo». Mais a sul. não havia incidentes «embora continue a verificar-se a presença de forças sul-africanas na área da barragem de Ruacaná».
Presidente Idi Amin Dada, 
doUganda e da OUA

O dia 20 de Setembro de 1975 foi tempo, igualmente, para a notícia da apreensão, pela UNITA e em Nova Lisboa, de um avião da Força Aérea Portuguesa (que ali se deslocara para evacuar pessoa civil da Companhia Mineira do Lobito) e do convite de Idi Amin Dada (presidente do Uganda e da OUA) para uma reunião entre os três movimentos de libertação - «face à situação de guerra civil que se vive em Angola».

sábado, 19 de setembro de 2015

3 257 - Três Angola´s e MPLA a apenas 30 quilómetros de Carmona

Cavaleiros do Norte de Aldeia Viçosa, da 2ª. CCAV. 8423, em momento de 
eno-gastronómico convívio: José Gomes, NN (tapado), António Chitas, Mário 
Matos (de garrafão na mão), Amorim Martins e Alexandre 
Pereira (o Alex, soldado clarim



Notícia sobre a pressão armada do MPLA
sobre os redutos da FNLA (a norte) e
UNITA (a sul de Angola)
A 19 de Setembro de 1974, continuava eu de férias, galgando o chão enorme da Angola imensa, e, no Uíge, a norte, o comandante Almeida e Brito visitava a 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa, no âmbito dos «contactos necessários ao bom andamento dos trabalhos militares».
O mesmo dia foi igualmente tempo para deslocação a Vista Alegre, onde estava aquartelada a CCAÇ. 4145 (...), em ambos os casos «sempre acompanhado por oficiais da CCS do Batalhão de Cavalaria 8423». Isto, numa altura em que a ZA dos Cavaleiros do Norte continuava calma, «sendo permanentes os patrulhamentos, nomeadamente nos pontos críticos em redor dos centros urbanos e aquartelamentos», como se lê no Livro da Unidade. Ou ainda, como também leio no citado LU, «em apoio aos povos apresentados e às diversas fazendas».
Um ano depois, já com os Cavaleiros do Norte em Portugal - cumprida a jornada africana de Angola --  e a 52 dias da independência de Angola, o MPLA mantinha a pressão militar sobre os redutos da FNLA (a norte) e UNITA (a sul). A norte, segundo o Diário de Lisboa desse dia, «está a apenas 30 quilómetros de Carmona, uma das principais fortalezas» do movimento de Holden Roberto . E continuava a «reagrupar as suas forças para uma poderosa ofensiva, que visará também o porto de Ambriz».
O moral do MPLA era elevado, mas sobravam problemas, aos olhos dos seus dirigentes: a possibilidade de a FNLA, controlando as províncias do norte «poder declarar independentes de Angola as províncias do Uíge e do Zaire», O que, na prática, daria «nascimento a um novo Biafra». Duas Angola´s!!!
«Estamos firmemente dispostos a resistir a todas as tentativas do colonialismo atacar o nosso país. Não teremos medo», disse o presidente Agostinho Neto, numa entrevista à France Press.
Uma outra independência poderia ser (e foi) declarada: a sul, em Nova Lisboa, pela UNITA. Três Angolas!!! A 19 de Setembro de 1975, há 40 anos, «as forças do MPLA pressionam o caminho para Nova Lisboa, travando desde terça-feira combates com elementos da UNITA na Quibala, a meio do caminho entre Luanda e Nova Lisboa».
Os combates prosseguiam na 4ª.-feira (dia 17), podendo, reportava o Diário de Lisboa, «ser decisivos para qualquer dos movimentos».
Em Lisboa, Pinheiro de Azevedo tinha o VI Governo Provisório quase concluído e previa-se que pudesse tomar possa ao final da tarde desse distante (há 40 anos) dia 19 de Setembro de 1975. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

3 256 - O VI Governo Provisório e a independência de Angola

Cavaleiros do Norte no Quitexe, grupo de furriéis milicianos: Francisco Bento (de 
mão direita no ar), Nelson Rocha, CJ Viegas, António Flora, António Lopes, Luís 
Capitão (falecido a 05/01/2010) e Delmiro Ribeiro. Sentados; José Fernando Carvalho, 
Agostinho Belo, José Avelino Lopes e Armindo Reino


Notícia do Diário de >Lisboa sobre
a posição da FUA e a independência de
Angola, há precisamente 41 anos

Os dias de Setembro de 1975 iam sendo riscados no calendário e crescia, nos Cavaleiros do
O engº. Fernando Falcão,
dirigente da FUA
Norte recém-chegados de Angola, a expectativa sobre o que por lá se passava. Entre 8 e 11, tinham chegado as quatro companhias e, no confortos do seus lares, medrava a curiosidade: como irá o processo de descolonização e independência de Angola?

Ir, ia!!!
E o VI Governo Provisório de Portugal? O de Pinheiro de Azevedo?
A distribuição das pastas ministeriais era, desde há dias, um farto problema para o indigitado1º. Ministro, que não sabia bem como «satisfazer os três partidos maioritários»: o PS, o PPD (actual PSD(n e PCP. «Admite-se como muito provável que a composição do elenco ministerial seja anunciada amanhã», noticiava o Diário de Lisboa.
Expectava-se era já os ministros militares: Melo Antunes (Negócios Estrangeiros) e Almeida e Costa (Administração Interna). E especulava-se sobre a possibilidade de o capitão Almeida (Trabalho) e Loureiro dos Santos (Comunicação Social) também integrarem o Governo. Não viria a ser bem assim.
Um ano antes e em Angola, com os Cavaleiros do Norte na sua jornada uíjana, a Frente de Unidade Angolana (FUA) assumia-se como «ponto de encontro entre os angolanos de todas as tendências» e também «uma alternativa aos movimentos de libertação»
O seu dirigente Fernando Falcão foi nesse dia empossado como Secretário de Estado Adjunto (pr Rosa Coutinho) e considerou também ter «tido já contactos com a UNITA» e «contactos indirectos» com outro grupo, sem o nomear.
A FUA tinha sido fundada em 1961, dissolveu-se depois e, em 1974, batia-se «contra todas as formas de racismo» e, como referia Fernando Falcão, «pela independência, por etapas», aceitando «todas as ideologias», mas «excluindo, no entanto, o extremismo».
* Fernando Falcão.
Ver AQUI

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

3 255 - Calma em Luanda e grande ofensiva a norte de Angola

Holden Roberto a 32 quilómetros de Luanda, numa altura, há  40 anos, em que 
o MPLA preparava o assalto as posições da FNLA, em Carmona e no 
Ambriz. Os Cavaleiros do Norte já estavam em Portugal 

Notícia do Diário de Lisboa de 17 de Setembro
de 1975. A imagem é da primeira página e está
reproduzida acima (recolhida na net)


Há precisamente 40 anos, reportava o Diário de Lisboa que «em Luanda, a calma é total», assim como «nas frentes de combate angolanas». As agências internacionais, no entanto, davam conta  que «é provável que o MPLA esteja presentemente a reagrupar as suas forças para uma grande ofensiva na frente norte, contra Ambriz e Carmona, principais bastiões da FNLA» - que, frisava o jornal, estava «isolada e com grandes dificuldades de reabastecimento, dado que as principais vias utilizadas para o efeito se encontram sob controlo do MPLA».
O território angolano não registava confrontos importantes, desde o fim de semana anterior (dias 13 e 14) e «entre os três movimentos». «Esta calma poderá corresponder a uma reorganização militar dos diversos campos, antecedendo novas batalhas», relatava o vespertino da capital portuguesa - que eu, ao tempo, procurava em Águeda, aos fins de tarde, para ir sabendo notícias de Angola.
O Exército Português, ainda segundo o DL, «continua(va) a observar a neutralidade activa prevista nos Acordos do Alvor», essencialmente concentrado em Nova Lisboa e Luanda - as duas maiores cidades angolanas e onde se encontrava a maior parte dos portugueses que pretendia voar para Lisboa - os refugiados, ou retornados, como lhes chamavam.
«Este êxodo da população branca já há vários dias que vem enfraquecendo», reportava o DL da há 40 anos. Deu-se até o caso de, ma segunda-feira anterior (dia 15), um avião diário da UTA, fretado pelo Governo Francês, não ter qualquer passageiro para embarcar para Lisboa. Um «Boeing 707» da Força Aérea Alemã, e um «Iliiuchin» da Alemanha do Leste, «tinham já embarcado os «desalojados» inscritos nos seus voos».
Moçambique, Cabo Verde e S. Tomé e
Príncipe foram admitidos nas Nações Unidas há
precisamente 40 anos, como se lê na notícia do
Diário de Lisboa de 17 de Setembro de 2015
O dia, o da abertura da 30ª. sessão anual das Nações Unidas, assinala a entrada de três novos membros, precisamente três ex-colónias portuguesas: Moçambique, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe.
O representante de Portugal, António Costa Lobo, na oportunidade, leio no Diário de Lisboa desse dia, «prestou homenagem à inteligência e clarividência dos dirigentes das novas nações que, na sua atitude para com Portugal, souberam distinguir o temporário do permanente».
O diplomata afirmou-se também «convencido que, graças ao peso que a história sempre dá ao que é temporário, mais tarde ou mais cedo serão inevitáveis as relações entre Portugal e as suas ex-colónias».

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

3 254 - Férias por Angola fora e encontro de Cabo Verde

Cavaleiros do Norte à mesa da messe do Quitexe. À esquerda, Cândido Pires, Victor 
Velez e Miguel Peres (paraquedista), etc. À direita, Graciano Silva, José Pires, 
Viegas, Francisco Neto, Rebelo (de pé), Luís Mosteias e Nelson Rocha


O furriel Viegas de férias em Nova Lisboa,
com a madrinha Isolina e as suas netas Fátima e
Idalina, filhas de Cecília Neves e Rafael Polido

Setembro de 1974, para mim, foi tempo de férias. Que preferi gozar em Angola, descobrindo a imensidão das suas paisagens e a fibra e carácter das suas gentes, a vir a Portugal - onde teria o gosto e a alegria da chegada mas, depois, a tristeza de nova despedida! Não me arrependi!!!
Os primeiros dias foram vividos em Luanda, na descoberta da sua riqueza urbana e paisagística, os seus templos - os religiosos e os profanos, os turísticos! -, as suas praias e lazeres, as suas noites de feitiço, as esplanadas e os bares, os cinemas e as teenagers mais sedutoras que nos rasgavam apetites de toda a ordem. Ou as noites!!! Ai, as noites!!!... 
Meu companheiro desse tempo era o Alberto Ferreira, vizinho de Fermentelos e dos bancos da escola de Águeda, por lá cabo especialista da Força Aérea - cumprindo a sua missão na Base Aérea de Luanda.
Capa do Diário de Lisboa de 16 de Setembro
de 1974, uma segunda-feira. Noticiava o
encontro, em Cabo Verde, dos presidentes António
Spínola (Portugal) e Mobutu Sese Seko (Zaire), 

para discutirem o caso de Angola
A 16 de Setembro desse 1974 da nossa memória africana, o jornal A Província de Angola (que eu religiosamente lia logo pela manhã, no «mata-nicho» da Portugália) dava conta do encontro de António Spínola com Mobutu Sese Seko e dava eco da posição do Partido Cristão Democrático de Angola, lamentando que «essas conversações tenham sido efectuadas sem prévio conhecimento dos partidos e rodeadas de sigilo, o que significa, em linguagem simples, (...) serem todos ou parte dos movimentos políticos excluídos do conhecimento do conteúdo dessas conversações».
O PCDA, considerou-se «deplorado» e reafirmou «mais uma vez que a solução dos problemas políticos angolanos incumbe unicamente à população de Angola, por intermédio dos seus partidos políticos». Que eram, segundo o seu comunicado, ele próprio (PCDA), o MPLA, a FNLA e a UNITA.
  

terça-feira, 15 de setembro de 2015

3 253 - O capitão médico Leal, 41 anos depois do Quitexe!!!...

Alferes miliciano António Albano Cruz (à esquerda) e o capitão médico miliciano Manuel 
Soares Leal, com a sua «mais que tudo», na Póvoa do Varzim, 41 anos depois do louvor 
ao militar dos Cavaleiros do Norte e Delegado de Saúde do Quitexe

O capitão Manuel Leal (de cigarro na boca) há 41
anos, no Quitexe, com os alferes milicianos António
Manuel Garcia (falecido a 02/11/1979, de acidente) e 

Jaime RP Ribeira (ambos à esquerda) e o
tenente Acácio Carreira da Luz (à direita).

A vida tem destas coisas: há 41 anos, o capitão médico miliciano Manuel Leal era louvado pelo comando do BCAV. 8423 e condecorado com a Medalha Militar Comemorativa das Campanhas do Exército Português, com a legenda ANGOLA-73-74. Agora, 41 anos depois, ocasionalmente, encontrou-se, na Póvoa do Varzim, com (o nosso alferes) António Albano Cruz.
Um, era curador de corpos (e de almas) dos bravos Cavaleiros do Norte da jornada africana do Uíge angolano - o capitão médico Leal. Outro, «curava» as viaturas do batalhão - o alferes miliciano Cruz, mecânico-auto.
Nada destas coisas são por acaso, embora ocasionais: são duas figuras notáveis dos Cavaleiros do Norte e o destino pô-los em abraço amigo na vilegiatura da Póvoa do Varzim, onde o «nosso» capitão Leal, do alto dos seus (quase) 87 anos, que fará a 3 de Outubro próximo, dá o braço à sua «mais que tudo» e multiplica os seus dias com a família.
«Foi um curto encontro, mas que deu para recordar uns bons momentos», comentou o engº. António Albano Cruz, acrescentando que «ficou a promessa de nos voltarmos a encontrar».
Também há 41 anos, mas no dia 14 de Setembro, o general António Spínola esteve reunido com Mobutu Sese Seko (presidente do Zaire), em Cabo Verde, para analisarem a situação de Angola. «Se dependesse unicamente do general Spínola, a descolonização de Angola iria muito mais depressa», disse o presidente africano, porém adiantando que «os irmãos angolanos ainda estão divididos no seio do MPLA».
O encontro de
correu na Pousada de Santa Maria, na ilha cabo-verdeana do Sal, e Mobutu considerou também que «continuamos à espera de uma frente comum». Bem esperou!!!

Um ano depois (em 1975) e já 
Notícia do Diário de Lisboa de há precisamente 40 anos,
sobre os combates que o MPLA continuava em duas  

frentes - uma a norte, outra a sul de Angola
com os Cavaleiros do Norte em Portugal, finda a sua comissão angolana, MPLA e UNITA combatiam pela posse da cidade do Luso - ambas reclamando vitória -,  e a norte, pelos lados da «nossa» Carmona, prosseguiam os combates, um deles em Duque de Bragança, onde, segundo o MPLA, citado no Diário de Lisboa, «as forças rivais bateram em retirada». 
A ofensiva, ainda citando o vespertino de Lisboa, «inseria-se na progressão das suas forças, ruo a Ambriz e Carmona, iniciada após a expulsão da FNLA da Barra do Dande».

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

3 252 - Tempo de férias e abertura (total) da Estrada do Café!

José Lapa, furriel miliciano da CCS do BART. 786, no stop da Estrada do Café, no 
Quitexe e em 1965/66/67, muito antes da chegada dos Cavaleiros do Norte à vila

Notícias de há 41 anos: a normalização
do tráfego na estrada do Café, entre Luanda e
Carmona, passando pelo Quitexe, Aldeia Viçosa
e Vista Alegre


Setembro de 1974 foi o meu mês férias angolanas, as primeiras, vividas entre os prazeres  de uma Luanda de praias e de de mar, do colo dos amigos civis que por lá tinha e do cio das noites!!! Viajei para a Gabela e Nova Lisboa, andei por Porto Amboim, Novo Redondo, Silva Porto, Alto Hama, Lobito e Benguela, despertando-me para a imensidão de uma terra gigante e rica!
A 14, um sábado, soube-se na Gabela que a estrada do café, de Luanda a Carmona, «foi praticamente reaberta ao trânsito normal», depois de 13 anos em que a circulação foi condicionada - depois dos incidentes de 1961 e «em consequência da guerrilha que praticamente desde o sue início actuou sempre na zona».
A estrada, ainda no tempo dos Cavaleiros do Norte, era alvo de frequentes patrulhamentos e tinha alguns postes de controle. Não no Quitexe! Os camionistas, até aí, só podiam circular em determinadas horas e sempre sob escolta militar - o que obrigava a muitas mais horas de viagem.
A Estrada do Café, no troço entre Quitexe e
Carmona, em Dezembro de 2012 /(foto de Carlos
Ferreira, que foi 1º. cabo da 1ª. CCAV. 8423,
a de Zalala)
O troço entre o Quitexe e Carmona, porém e segundo o Livro da Unidade, passou a ter mais patrulhamentos, «variando-os no tempo e no espaço», para se garantir «liberdade de trânsito em todos os itinerários». Para o efeito, para «além de se aumentar o número de patrulhamentos (...), passaram a ser diariamente executadas operações «stop», com vista a efectivar o controlo dos passageiros e mercadorias em trânsito».
A 14 de Setembro, terminou a inspecção do Serviço de Material (que começara no dia 9), durante a qual o major Miranda (SM) visitou a CCAÇ. 4145 (a de Vista Alegre) e a CCAÇ. 209 (no Liberato), a CCS do BCAV. 8423 (no Quitexe) e a 2ª. CCAV. (em Aldeia Viçosa). 

domingo, 13 de setembro de 2015

3 251 - Cavaleiros do Norte em casa e (ainda) no chão do Uíge

Cavaleiros do Norte de Zalala: furriéis milicianos Manuel Dinis Dias (mecânico, falecido 
a 20 de Outubro de 2011, em Lisboa, de doença), José António Nascimento (nos Estados 
Unidos) e Plácido Jorge Queirós (residente em Braga), em momento de boa disposição

Uíge, o chão da jornada africana dos
Cavaleiros do Norte, ao lado do Zaire - as
províncias angolanas do norte controladas
pela FNLA, há 40 anos!


Setembro de 1975, dia 13! É sábado e os Cavaleiros do Norte, já na sua zona de conforto, nas suas casas e famílias, adaptam-se ao país novo que reencontram, nesse dia à espera de um novo Governo e com os SUV (Soldados Unidos Vencerão) a agitar os quartéis. 
Angola continuava o seu caminho para a independência, mergulhada em combates e sangue. O MPLA controlava 12 das 16 províncias e o Diário de Lisboa dava conta que «a sua influência faz-se sentir numa extensão de 200 quilómetros a partir da costa».
A UNITA, que o MPLA dizia «aliada da FNLA, segundo os acordos locais», estava confinada a espaços «à volta de Nova Lisboa e Silva Porto». A FNLA. já se sabia, controlava as províncias do Zaire e do (nosso) Uíge. Nada de novo, relativamente ao que já se sabia quando ainda o BCAV. 8423 era parte do quotidiano militar angolano.
Um ano antes, andando eu a laurear o queijo pela imensa terra d´Angola (em férias), a vida continuava no Quitexe, em Zalala, em Aldeia Viçosa e Santa Isabel - onde se localizavam os aquartelamentos dos Cavaleiros do Norte e onde, e cito o Livro da Unidade, «o IN (...) continuou apático em todo o mês, só realizando acções ofensivas na área do Subsector no dia 30 de Setembro, ao atacar madeireiros na área do Liberato a ao flagelar viaturas da JAEA na Quinta das Arcas».
A  Quinta das Arcas, uma das fazendas
de café dos arredores do Quitexe, há
41 anos visitada pelo comandante
Almeida e Brito
O comandante Almeida e Brito, no dia 13 desse Setembro de 1975 (hoje se passam 41 anos), visitou a 2ª. CCAV. (a de Aldeia Viçosa) e a 3ª. CAV. 8423 (a de Santa Isabel) no «campo dos contactos operacionais, necessários ao bom andamento dos trabalhos militares»
O tenente-coronel Carlos José Saraiva de Lima Almeida e Brito, nestas e outras visitas operacionais (de trabalho), era «sempre acompanhado por oficiais da CCS do BCAV.». Uma semana antes, no dia 7, «a usual reunião de Comandos do Subsector» realizou-se no Quitexe - como já era habitual e neste caso depois de, a 3, ter decorrido no BC12 «a reunião mensal do Comando do Sector».
Assim ia a nossa jornada angolana do Uíge africano!!!

sábado, 12 de setembro de 2015

3 250 - Cavaleiros em Portugal e MPLA a atacar sul e norte (Carmona)

Cavaleiros do Norte no bar de Sargentos do Quitexe: os furriéis milicianos António Lopes, C. Viegas, Nelson Rocha e 
Francisco Bento (todos da CCS). Atrás, de garrafa na mão, Delmiro Ribeiro (da 3ª. CCAV., a de Santa Isabel). Também da 
3ª. CCAV. 8423, António Flora (de pé, com garrafa na mão), Armindo Reino (de cócoras, bigode e copo na mão), José 
Fernando Carvalho (de bigode e boina), José Avelino Lopes e  Luís Capitão (falecido a 
5 de Janeiro de 2010)

Amazonas do Norte nos «chapéus» de Águeda.
As senhoras Belmira (esposa do ex-alferes Carlos
Silva), Hermínia  (do ex-furriel Viegas) e Maria da
Graça (do ex-capitão miliciano Castro Dias) 
Dia 12 de Setembro de 1975!!! Era 6ª.-feira e a 3ª. CCAV. 8423 desembarcou no aeroporto de Figo Maduro, em Lisboa. Completava-se a rotação dos Cavaleiros do Norte, depois da sua jornada africana do Uíge angolano. Cada qual, de alma a rebentar de alegria e o coração engravidado de saudades, galgou o Portugal europeu, a caminho de suas casas, do abraço de familiares, de mulheres, namoradas e amigos, dos cheiros dos seus chãos natais.
A imprensa do dia dava conta da iminente conclusão dos VI Governo e admitia mesmo que pudesse tomar posse no dia seguinte. O novo 1º. Ministro seria (e foi) o almirante Pinheiro de Azevedo - substituindo Vasco Gonçalves. Com um «aviso» do PCP: não caucionaria um governo a direita. «Uma viragem à direita», subtitulava o Diário de Lisboa. 
O Conselho da Revolução também «avisava»: O general Spínola «será preso», se entrar em Portugal. Tinha saído depois do 11 de Março. A NATO considerava-se satisfeita com «a situação portuguesa» e um assalto ao BPA de S. Sebastião da Pedreira, em Lisboa, «rendeu» 5 080 050$00. Uma fortuna!!! 
O MES assumia-se contra decisões do Conselho da Revolução e 40 comissões de trabalhadores preparavam «uma ofensiva popular (...) contra as forças reaccionárias». A FUR realizava um comício no Campo Pequeno e a UDP, na véspera, realizara outro, a favor do povo chileno.
Por Angola, o MPLA anunciava avanço militar em duas frentes: contra a UNITA, no sul - querendo desalojá-la de Nova Lisboa -, e contra a FNLA, a norte - no Ambriz (a ocidente) e na «nossa» Carmona (mais a leste). «A relativa facilidade com que tomou o Caxito - foi coisa de poucas horas - avivou o optimismo do MPLA», relatava o Diário de Lisboa, acrescentando que «a partir de 2ª.-feira, as suas tropas avançaram, estando agora a 90 quilómetros do Ambriz e a 100 de Carmona».
Sá da Bandeira, a 
Notícia do Diário de Lisboa de há
40 anos: o MPLA lançou ofensiva sobre
Nova Lisboa (a sul) e Ambriz e Carmona (a norte)
 sudoeste, já estava controlada pelo MPLA «há várias semanas» e a marcha era agora em direcção a Nova Lisboa, bastião da UNITA. 
Caconda, localidade entre Sá da Bandeira e a actual Huambo, já tinha sido tomada na antevéspera (dia 10). Mas a UNITA reagira fortemente e «atacou no Luso, com blindados» - segundo o MPLA. Os combates continuavam na tarde de 10 de Setembro de há 40 anos, com a cidade do leste controlada pelo movimento de Agostinho Neto.
A 10 de Setembro de 2015, como aqui já foi dito, três Cavaleiros do Norte «atacaram» a Festa do Leitão, em Águeda, e fizeram-se acompanhar pelas suas «mais que tudo» - as da imagem que se pode ver acima. A guerra, 40 anos depois, foi outra!

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

3 249 - Cavaleiros de Santa Isabel e MPLA a caminho de Carmona


O capitão miliciano José Paulo Fernandes (comandante) e o 1º. sargento Francisco 
Marchã. da 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel, que há precisamente 40 anos 
embarcou em Luanda, para Lisboa, concluindo a sua jornada
africana de Angola

Maria da Graça e Davide Castro Dias (a
preparar o lançamento de um «morteiro« bruto
e espumoso), Viegas e Carlos Silva, ontem em 

Águeda, na Festa do Leitão de 2015


Há precisamente 40 anos, a  3ª. CCAV. 8423, comandada pelo capitão miliciano José Paulo Fernandes, embarcou em Luanda e disse adeus, por concluída, à sua comissão de soberania em Angola. À jornada africana do Uíge, que a aquartelou em Santa Isabel (de 11 de Junho a 10 de Dezembro de 1975), no Quitexe (de 10 de Dezembro de 1974 a de Março a 8 de Julho de 1975) e em Carmona (até 4 de Agosto), finalmente em Luanda, no Grafanil, até ao embarque.
No mesmo dia, partiu de Luanda a Companhia de Santa Isabel (a 3ª. CCAV. 8423) e chegou a Lisboa a de Aldeia Viçosa, comandada pelo capitão miliciano José Manuel Cruz - que chegou a 11 de Setembro, hoje se completam 40 anos!!! O tempo passa!!! Eramos jovens e sonhadores, hoje somos «sexYenários» alimentadores de memórias.
Noticias de Angola, há 40 anos,
no vespertino Diário de Lisboa
Ao mesmo dia 11 de Setembro de 1975, em Angola, era confirmada «a libertação do Caxito, por forças do MPLA». Caxito que era, segundo o Diário de Lisboa desse dia, «importante posição estratégica, como nó rodoviário das ligações para o norte, sobretudo para Carmona». A «nossa» Carmona!!! E a sua importância estratégica, bem a conhecíamos nós, Cavaleiros do Norte. Que por lá passámos dezenas de vezes!
O MPLA, pela voz do presidente Agostinho neto, comenta que «nenhum angolano pode deixar de estar satisfeito» por mais esta vitória, já que, sublinhava, «ela marca mais uma importante etapa  «na difícil luta que os angolanos travam contra o imperialismo e os seus agentes internos».
O jornal, por sua vex, considerava que «a perda do Caxito significa ainda, para a FNLA, um desaire quase catastrófico pois, estrategicamente, aquela posição era fundamental para o tão falado e propagandeado avanço sobre Luanda», para além de ser «um grande abalo psicológico para as forças da FNLA».
De facto, adiantava o jornal, «a partir de agora abriu-se mais uma porta para a penetração das FAPLA, em direcção ao norte, ainda bastião das forças de Holden Roberto».
Ontem, dia 10 de Setembro de 1975 (e como ontem aqui já falámos) foi tempo de três Cavaleiros do Norte se reencontrarem em Águeda, lembrando o tempo e os modos de há 40 anos. A imagem é sugestiva: o ex-capitão miliciano Davide Castro Dias, que comandou a brava guarnição de Zalala - «a mais rude escola de guerra!»... - prepara o lançamento de um «morteiro» espumoso (bruto), sob o olhar atento da sua «mais que tudo», a doutora Maria da Graça (os nossos respeitos!!!), do (ex-furriel miliciano) Viegas e do (ex-alferes miliciano) Carlos Silva, da 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel, precisamente a que, hoje se fazem 40 anos, embarcou de Luanda para Lisboa.
O tempo voa!!!!

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

3 248 - Chegada da 2ª. CCAV. 8423, avanço do MPLA e leitão em Águeda

Carlos Silva (ex-alferes da 3ª. CCAV., a de Santa Isabel), Viegas (ex-furriel da CCS, a do Quitexe) e Davide Castro 
Dias (ex-comandante da 1ª. CCAV., a de Zalala), hoje, em Águeda e na festa do Leitão, fazendo memórias dos Cavaleiros do Norte
Cavaleiros do Norte da 2ª. CCAV. 8423, a de
Aldeia Viçosa: alferes miliciano Domingos Carvalho,
capitão José Manuel Cruz. alferes António Albano
Cruz (da CCS) e João Machado (de pé) e Jorge
Capela (em baixo) 

A 10 de Setembro de 2015, reunidos em Águeda na Festa do Leitão, três Cavaleiros do Norte saborearam o afamado pitéu (uma das sete maravilhas de Portugal!!!...) e fizeram memória da jornada africana do Uíge angolano: Davide Castro Dias (capitão miliciano e comandante da 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala), o alferes miliciano Carlos Silva (da 3ª.CCAV., a de Santa Isabel) e eu mesmo (furriel miliciano Viegas). O Neto, por razões particulares, estava ausente da região e «quebrou» a tradição. Foi pena!!!
Falar da jornada que nos levou à Angola que há 40 anos estava para nascer como país é sempre emocionante e não nos «fugiu» da alma o sentimento que nos encheu nesses 15 meses de 1974 e 1975. Com o final, seguro, de missão cumprida! E com honra!!! E orgulho!!!
Há 40 anos, precisamente, embarcava em Luanda a 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa, comandada pelo capitão miliciano José Manuel Cruz.  Cá chegou no dia 11 - quando de lá partiu o último grupo de Cavaleiros do Norte, a 3ª. CCAV. 8423, comandada pelo capitão  miliciano José Paulo Fernandes.
E por Angola?
A 10 de Setembro de 2015, o MPLA obrigou a FNLA a abandonar a Barra do Dande, na área do Caxito, e passou a controlar 12 das 16 províncias de Angola. As excepções eram o «nosso» Uíge e o Zaire (onde dominava a FNLA), Bié e Huambo (da UNITA).  
Notícia do Diário de Lisboa de 10 de
Setembro de 1975, sobre o avanço do MPLA
 para o norte de Angola
A ofensiva do MPLA na região do Caxito teria provocado à volta de 20 prisioneiros, entre eles alguns zairenses, a servir a FNLA como mercenários - segundo o MPLA, que também, anunciou a captura de material de guerra e alguns carros de combate. O MPLA, segundo o Diário de Lisboa - que temos vindo a citar - combateu com apoio de unidades motorizadas e artilharia pesada.
As forças da FNLA (o ELNA) recuaram e concentraram-se «encurraladas a norte do Caxito, entre Mabubas e Sassa», mas, segundo o DL (que citava o MPLA), «privadas de quaisquer abastecimentos». Expectava-se que por lá conseguissem estar pouco tempo.
O resto do território estava calmo, «apesar de alguns combates esporádicos, entre forças dos três movimentos».

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

3 247 - O primeiro dia em Portugal e a chegada dos «Zalala´s»

CAVALEIROS DO NORTE da 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala, que a Lisboa chegaram 
hoje se completam 40 anos: furriéis milicianos Américo Rodrigues, Jorge Barata (falecido 
a 11 de Outubro de 1997, de doença súbita), José Louro, José Nascimento, Eusébio 
Martins (falecido a 16 de Abril de 2014, de doença), Manuel Dias (falecido a 20 de 
Outubro de 2011, de doença), Victor Velez e Victor Costa

Jornal A Província de Angola, edição de um dos últimos 
dias (5 de Setembro de 1975?) da presença dos Cavaleiros 
do Norte em terras do país luso-africano que estava para 
nascer - a 11 de Novembro seguinte!
Terça-feira, 9 de Setembro de 1975! Chego a Ois da Ribeira, no SIMCA conduzido pelo Benício e dirigi-me a casa de minha irmã. Eram por aí umas duas horas da manhã, ninguém sabia que eu chegava e minha mãe - ao tempo, viúva de três anos e a sofrer de bicos de papagaio -, estava sozinha. Optei por ir acordar minha irmã, para ir a nossa casa, não fosse a minha chegada de surpresa criar algum embaraço emocional a minha mãe. Não era muito expectável, mas... Lá fomos e foi acordada, com toques na janela do quarto.
«Mãe!... Mããããeeee???!!!», chamou minha irmã Dulce.
«Quem é, o que é que queres?», perguntou, de dentro, a minha mãe, naturalmente conhecendo a voz da filha.
«Levante-se!!! Chegou o meu irmão!!!...». 
Acendeu a luz, abriu a porta da sala, a dar para a rua, viu-me e, tranquilamente, disse: «És tu, rapaz?! Já vieste?!!!!». Sorriam-se-lhe os olhos!
Tinha chegado, claro. O Benício bebeu um cálice de vinho do Porto, foi à vida dele e ali ficámos: a minha mãe, a minha irmã Dulce e o marido, meu cunhado José - com a filha de ambos, a Susana, que eu baptizara, como padrinho, antes de ir para Angola.
«Então, vens bem?...», perguntou-me a matriarca. Que sim, que vinha como tinha ido, só mais velho! «E não viste por lá os nossos?... Sabes da Maria Cecília, dos Resendes, dos Viegas??», perguntou-me.
Os «nossos» eram os familiares, amigos ou conterrâneos que ela recordava em cada aerograma que escrevia, sempre aos domingos, ou nalgum princípio de sesta da semana: «Vê lá se aí encontras... fulano, cicrano e beltrana. Diz-se por cá que está aí a morrer muita gente, andamos todos com o coração de preto».
Dormi depois, levantei-me, tomei o pequeno almoço de café de cevada, com migas de broa e açúcar amarelo, e foi ao pátio, para ver a vaca, os porcos, as galinhas, os coelhos, reachando cheiros da minha infância e adolescência, que tinha deixado 15 meses antes. Só depois saí à rua.
A esse tempo, saídos de Luanda por volta das 8 horas da noite da véspera, a 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala e do capitão miliciano Davide Castro Dias, sobrevoava os céus de África, em voo para Lisboa. Era mais uma «leva» (a segunda, de quatro) de Cavaleiros do Norte a dar por concluída a jornada africana de Angola. 
Por lá, segundo o Diário de Lisboa de há 40 anos, «a situação político militar não sofreu alterações assinaláveis, relativamente ao último fim de semana, caracterizado por uma calma geral» - que foi coincidente com os nossos últimos dias de comissão.
A FNLA, depois de «parada» pelo MPLA na zona do Caxito, estaria «a concentrar-se mais a norte», o que, segundo o DL, «se constata por notícias cada vez mais frequentes sobre a presença de mercenários estrangeiros, muitos deles brancos. junto à fronteira com o Zaire».
Angola, há precisamente 40 anos!

terça-feira, 8 de setembro de 2015

3 246 - O dia do regresso da CCS, da jornada africana de Angola!!!

Cavaleiros do Norte do PELREC: Almeida (1º. cabo, falecido a 28/02/2009), Messejana (falecido 27/11/09), Neves, 
Soares (1º. cabo), Florêncio,  Ezequiel, Marcos, Dionísio, Caixarias e Florindo (1º. cabo enfermeiro). Em baixo, 
Vicente (1º. cabo, falecido a 21/01/97), Viegas (furriel miliciano), Francisco, Leal (falecido a 18/06/2007), Oliveira 
(1º. cabo de transmissões), Hipólito, Aurélio (Barbeiro), Madaleno e Neto (furriel) 

Os furriéis milicianos Viegas, Mosteias
e Neto «trouxeram» militares algemados,
de Luanda para Lisboa, há precisamente 40
anos! Por ordem da PM!
O dia 8 de Setembro de 1975 chegou! Finalmente!!! A noite de domingo para 2ª.-feira foi passada quase toda em claro, no Grafanil, com jantar de pastéis e vinho branco. Que outra coisa não havia! Os pastéis foram dados por um familiar de um Cavaleiro do Norte (não me recordo quem!...) e aguentámo-nos como pudemos. Mas não havia fome que «matasse» a nossa ansiedade pela viagem de regresso. 
Às 8 horas da manhã já estávamos a caminho do aeroporto e fomos fazendo as despedidas dos cheiros e dos sabores da terra angolana, da sua gente, do seu chão!! E da sua guerra!!!
Já no aeroporto, notámos alguns protestos de civis brancos, que esperavam viajar para Portugal. Por mim, e rapidamente, ainda tentei uma última vez encontrar alguém conhecido, dos que procurava havia semanas, mas sem êxito. 
Eu, o Neto e o Mosteias (pelo menos nós...) fomos chamados pela Polícia Militar e, a cada um, incumbiram-nos de «trazer» um preso, um militar algemado. Que deveríamos entregar em Lisboa. Estaria a PM no aeroporto. Não esteve.
Entre as 10 e as 11 horas, subimos para o avião - que levantou voo e nos mostrou Luanda pela última vez. Os seus bairros populares, a cidade enorme, a baía, a ilha, o Mussulo!!! Parece, 40 anos depois, que ainda estamos a olhar o feitiço da cidade a que dissemos adeus. A CCS voou para Lisboa!!!
Notícia do Diário de Lisboa, sobre a
situação em Angola, há precisamente 40 anos,
8 de Setembro de 1975. O dia do regresso da CCS!
Luanda estava calma, nesse 8 de Setembro de 1975. Estranhamente calma!!! Lendo a imprensa da época, o DL referia não haver, nessa manhã de há 40 anos, «notícias de qualquer alteração significativa». Mesmo no Caxito, «alvo, desde há vários dias, de violentos confrontos entre as forças da FNLA e do MPLA, não se registaram, na últimas 48 horas».
Motivos operacionais tinham levado, nesse fim de semana, a reduzir as carreiras aéreas que faziam a evacuação de refugiados. Daí, o protesto dos civis. E, no aeroporto, estavam algumas centenas!
O voo para Lisboa decorreu calmamente e aterrámos por volta das 6 horas da tarde. A recolha de bagagens foi rápida e cada um correu para as suas terras. Eu, o Neto e o Mosteias esperámos que chegasse a PM, para levar os militares detidos. Em vão! Acabámos por os «despachar».
O Benício, motorista da fábrica do pai do Neto, estava à  nossa espera e... ala que se faz tarde. Estávamos mortinhos por chegar a casa. Na zona de Alcoentre, num restaurante de estrada, matámos saudades de bacalhau, comemos e seguimos viagem. Por volta da uma hora da manhã, estávamos em casa do Neto - ansiosamente esperado pela família e pela namorada Ni. Quase se esqueceram de mim, mas o Benício, menos de uma hora depois, já me deixava em Ois da Ribeira, a minha terra!!! Por essa noite fora, muitos Cavaleiros do Norte faziam viagem de regresso às suas terras, às suas famílias, aos ses «mais que tudo»!

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

3 245 - Véspera do embarque para Lisboa e notícias de Carmona

y
Os furriéis milicianos Neto, Viegas e Monteiro abandonaram a casa de Viana 
na manhã de 7 de Setembro de 1975. Há 40 anos!  Menos de 24 horas depois, 
embarcaram, com a CCS, em direcção a Lisboa, num voo dos Transportes 
Aéreos Militares - os TAM!

A primeira página do Anexo A da Ordem
de Serviço nº. 202 do Batalhão de
Cavalaria 8423, com a relação do pessoal
que iria embarcar para Lisboa a 8, 9, 10 e 11 de

 Setembro de 1975, depois de «ter terminado 
a sua comissão de serviço na RMA».
Clicar na imagem, para a ampliar
A Ordem de Serviço nº. 202 do Batalhão de Cavalaria 8423 publicou a relação do pessoal que iria embarcar em Luanda «a bordo dos aviões dos TAM, com destino a Lisboa, por ter terminado a sua comissão de serviço na RMA»
O documento, o Anexo A da OS desse dia (ver imagem ao lado, clivando nela, para a ampliar), estava classificado de «Reservado», foi publicado a 5 de Setembro de 1975 e era (é) de 9 páginas, dando conta dos Cavaleiros do Norte que regressariam a Portugal - os da CCS (dia 8 de Setembro), 1ª. CCAV. 8423 (9), 2ª. CCAV. (10) e 3ª. CCAV (11). 
A 7 de Setembro de 1975, um domingo e véspera do embarque da CCS - hoje, precisamente, se fazem 40 anos!!! -, eu, o Neto e Monteiro deixámos a casa de Viana pela manhã, ainda bem cedo, e deixámos as malas no Grafanil, seguindo para a cidade de Luanda - onde almoçámos e dissemos os últimos «adeuses» a amigos que por lá ainda estavam.
A cidade estava calma e não havia notícia de quaisquer combates ou incidentes no território. Tínhamos de regressar ao fim da tarde ao Grafanil, para nos juntarmos e ajudarmos a controlar o pessoal da CCS, e assim fizemos. No nosso caso, em particular para coordenar os bravos companheiros do PELREC - os «sem medo» Cavaleiros do Norte do Pelotão de Reconhecimento, Serviços e Informação.
O MPLA opôs-se a
intervenções estrangeiras 

no território angolano. 
Fossem quais fossem!!
O MPLA, entretanto, em Brazaville e através de comunicado divulgado pela Agência Reuters, opunha-se a qualquer intervenção estrangeira, fosse ela da ONU ou da OUA - a Organização da Unidade Africana. Tal intervenção, segundo o movimento de Agostinho Neto, daria à FNLA e UNITA «pretexto para solicitarem a intervenção de tropas estrangeiras, incluindo os especialistas de subversão da CIA».
O dia foi também de notícias de Carmona - finalmente, notícias de Carmona!!!... -, onde a Cruz Vermelha fez chegar uma equipa médica - formada por um médico cirurgião, um de clínica geral e um anestesista e duas enfermeiras. Tal como a Luanda e Nova Lisboa. 
A Cruz Vermelha e a ONU, na véspera (dia 6, sábado) tinham descarregado 10 toneladas de medicamentos em Luanda, por causa da «deterioração das condições sanitárias, num território onde, para 6 milhões de habitantes, existem, presentemente, apenas 250 médicos», como reportava o Diário de Lisboa.

domingo, 6 de setembro de 2015

3 244 - Último sábado de Angola, Estrangeiros e Alto Comissário


Cavaleiros do Norte no Quitexe. Homens das Transmissões: 1º. cabo José Mendes, 
António Soares, furriel José Pires, 1º. cabo Luís Oliveira e José António Costa. Em baixo, 
NN (será José Orlando Silva?), Humberto Zambujo e 1º. cabo Jorge Salgueiro). À 
esquerda, vê-se a torre da Igreja da vila


Diário de Lisboa de 6 de Setembro de
 1975: «Interferências estrangeiras impedem
solução para a crise», segundo o MPLA.
A crise angolana de há 40 anos!

Os primeiros dias de Setembro de 1975 iam-se passando e, com eles, estava cada vez mais próxima a mágica 2ª.-feira, 8!!! Dia 8!!! O dia do regresso da CCS do Batalhão de Cavalaria 8423. Em altura próxima (cuja data já se me varreu da memória), muito provavelmente nesse sábado de faz hoje 40 anos, levávamos, eu e o Neto, bagagem nossa (e do Monteiro) da casa de Viana para o Grafanil, quando fomos interpelados no posto da PSP, por homens armados do MPLA! Uns 7 ou 8 e até aos dentes! Alguns deles com duas e três armas.
Nem o facto de estarmos fardados, os impediu de tentarem fazer uma busca e manifestarem o desejo de ficaram com as garrafas de whisky (e outras) que levámos embaladas, para serem transportadas para o avião que no dia 8 nos traria para Lisboa. Foram momentos de frisson, pois o Neto reagiu de revólver em punho (que tinha comprado em Carmona) e por momentos sentimos a vida em perigo! Grito daqui e dali, dos homens do MPLA e do Neto, e lá fomos embora, em silêncio sepulcral até ao Grafanil. Eu arrepiado, ao lado do Neto - que conduzia o pequeno automóvel da empresa do pai, que tinha uma fábrica em Viana.
Já no Grafanil, perguntei ao Neto se sabia o que tinha feito. Mas ele reagiu sem medos: «Matava-os todos!!!! Ai se eles nos tentassem tirar as garrafas!...».
Ainda hoje, passados 40 anos, me arrepio quando, desfiando as nossas memórias da jornada africana, eu e o Neto nos sentamos à volta da mesa para falarmos desses tempos que não voltam. E ele continua a dizer que «matava-os todos!!!!».
Há 40 anos, dia 6 de Setembro de 1975, o MPLA continuava a denunciar «interferências estrangeiras» e admitia mesmo «a internacionalização do conflito» angolano. O almirante Leonel Cardoso, o novo Alto Comissário (chegado na véspera) afirmava ter saído de Lisboa «sem o conforto da presença no aeroporto de qualquer responsável político ou  militar, ou representantes, a levar-me uma palavra de despedida, de simpatia e de encorajamento», mas não seria isso que, acrescentou, «fará esmorecer a sede de venho animado e que me levou a aceitar a missão que ninguém queria».
A África do Sul admitira, na véspera, publicamente e pela primeira vez, que as suas tropas tinham entrado em Angola - para protegerem a central de bombagem de Calueque, como ontem aqui falámos... -, mas a verdade é que, citando o Diário de Lisboa de 8 de Setembro de 1975, «as tropas sul-africanas permanecem ali estacionadas, referindo uma nota do Governo da África do Sul que retirarão «logo que seja possível».
Há 40 anos, precisamente dois dias antes do começo dos voos de regresso dos Cavaleiros do Norte a Portugal!

sábado, 5 de setembro de 2015

3 243 - A última 6ª. feira dos Cavaleiros do Norte em Angola

Cavaleiros do Norte no Quitexe. De pé, 1ºs. cabos Fernando Soares, Luís Oliveira e António Pais, furriel Nelson 
Rocha, 1º. cabo João Estrela (de bigode e sem boina), António Silva, alferes José Leonel Hermida (de quico e bigode), 
Humberto Zambujo, furriel José Pires (de braços cruzados), Abel Felicíssimo (da 1ª. CCAV. 8423), José Mendes, António 
Soares (TRMS), NN (de mão no queixo, será o 1º. cabo Pires, da secretaria?) e Wilson Moreira. De cócoras. Jorge 
Silva (TRMS da 3ª. CCAV. 8423), José Costa, 1º. cabo Jorge Salgueiro (?), furriel António 
Cruz e 1º. cabo Rodolfo Tomaz 

Notícia do Diário de Lisboa sobre a chegada
do almirante Leonel Cardoso a Angola. O último
Alto Comssário de Portugal na ex-colónia


A primeira 6ª.-feira de Setembro de 1975 foi o dia 5 e, a Luanda, chegou o novo Alto Comissário, o almirante Leonel Cardoso. Ao jornal O Comércio, diária da capital angolana, disse que faria todo o possível para reestabelecer a paz no território e que, para tal e se necessário, «as tropas portuguesas estariam na disposição de intervir». Não estou certo que assim fosse,
À partida de Lisboa, Leonel Cardoso considerara prioritárias duas tarefas: «Estabelecer um clima de paz que permita a reabilitação da sua economia com uma transferência digna de poderes, a 11 de Novembro», por um lado, e, por outro, «o regresso aos seus postos de trabalho dos que presentemente se encontram desalojados evacuar todos que que  mesmo assim não desejam continuara em Angola mas pretendem regressar à suas regiões de origem».
Os Cavaleiros do Norte, como se imagina, passavam ao lado destas movimentações e, pela frente, já só tinham um fim de semana de intervalo para o dia (8) da partida apara Lisboa. Por mim, fiz as despedidas possíveis dos amigos que por lá iam ficar - enquanto chegavam notícias de mais combates entre MPLA e UNITA, nomeadamente em Chipaca (no leste), Cubal e Ganda. 
O dia foi assinalado por uma explicação da África do Sul sobre a (alegada) invasão do sul de Angola: a 12 de Agosto, teria informado o Governo de Portugal da entrada de um pelotão de 30 homens, para ir proteger os técnicos da estação de bombagem do Calueque, na fronteira de Angola com a Namíbia - nos «termos do acordo em vigor» entre os dois países, O Ministério dos Negócios Estrangeiros português, porém, em comunicado de faz ontem 40 anos, referiu que «desde logo foram postas reservas quando à acção, assim empreendida sem prévia conhecimento ou concordância das autoridades portuguesas». 
Os sul-africanos, quanto à infiltração de mercenários a partir do seu território, reiterou a sua «política de não ingerência», a de, segundo a sua embaixada em Lisboa, «não permitir que mercenários ou outras forças operem a partir do seu território, ou de território sob o seu controlo».