CAVALEIROS DO NORTE!! Batalhão de Cavalaria 8423, última guarnição militar portuguesa nas terras uíjanas de Quitexe, Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange, Songo e Carmona! Em Angola, anos de 1974 e 1975!

sexta-feira, 15 de maio de 2015

3 120 - A morte do alferes Meneses e a cimeira dos 3 movimentos

Cavaleiros do Norte de Zalala, jogadores de futebol. De pé, Fião, Barreto, Alegre (?), 
Ferreira e NN. Em baixo, Almeida, Tarciso, NN (atirador?), Famalicão, Alfama 
e Nascimento. Quem confirma os nomes ou identifica os (des)conhecidos?





O dia 15 de Mato está «associado» a pelo menos três Cavaleiros do Norte: a morte do alferes miliciano Meneses (em 2013) e os nascimentos do sargento ajudante Machado (em 1920) e do soldado sapador Baltazar (1952).
Manuel Meneses Alves (foto acima, de pouco tempo antes da sua morte) tornou-se oficial da 2ª. CCAV. 8423 em Fevereiro de 1975, quando rodou de uma companhia estacionada em Cabinda. Veio a ser louvado, pela sua decisiva acção num incidente em Carmona, quando, a 13 de Abril do mesmo ano, interveio «de forma rápida, decidida e enérgica» para acabar um confronto entre elementos da FNLA e do MPLA.
Empresário do sector alimentar (talhos em Leiria) faleceu a 15 de Maio de 2013, vítima de doença. Tempos antes, sabendo do seu estado de saúde, organizou um jantar de despedida dos amigos e familiares.  Que repetiu, quando o estado de saúde se agravou. Ver AQUI
O sargento ajudante Luís Ferreira Leite Machado (foto ao lado) trabalhava na secretaria do comando do Batalhão, com o (então) tenente Luz e faleceu em Évora, a 12 de Julho de 2000, com 80 anos. Mais nada sabemos da sua carreira militar e vida pessoal, desde 8 de Setembro de 1975 - dia da nossa chegada a Lisboa e final da nossa jornada africana de Angola. 
O soldado Baltazar Serafim Brites, do Pelotão de Sapadores (comandado pelo alferes Ribeiro) faz hoje 63 anos e reside em Sarzedinho, freguesia de Ervedosas do Douro, concelho de S. João da Pesqueira. Trabalha na área da construção civil.
Em Luanda e no mesmo dia de 1975, soube-se que, afinal, a cimeira entre MPLA, FNLA e UNITA, ainda sem data marcada, não teria participação de Portugal. O Ministro Melo Antunes regressou a Lisboa nesse mesmo dia, adiantando que o Governo só entraria nas negociações numa fase posterior. Tinha reunido com o Governo de Transição e com delegações dos três movimentos de libertação - a do MPLA liderada por Agostinho Neto, a da UNITA por Jonas Savimbi e a da FNLA por Johny Eduardo (representando Holden Roberto).
«Continuam a registar-se alguns incidentes esporádicos, nomeadamente devido a buscas mas em situações perfeitamente calmas», noticiava o Diário de Lisboa desse dia de há 40 anos.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

3 119 - O problema angolano, o MODU e militares para o Norte

Cavaleiros do Norte da 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel: furriéis milicianos José 
Querido (Odivelas), Vitor Guedes (falecido a 16/04/1998), António Fernandes (Braga), 
Agostinho Belo (Retaxo, Castelo Branco, de óculos) e Ângelo Rabiço (de Vila Real, mas 
em Guimarães). Em baixo, algumas localidades do Uíje angolano. por onde 
passaram os Cavaleiros do Norte


A 14 de Maio de 1975, em Luanda, o ministro Melo Antunes (dos Negócios Estrangeiros) iniciou negociações com os três movimentos de libertação: MPLA, FNLA e UNITA. O objectivo era «encontrar uma solução para o problema de Angola».
Incidentes entre MPLA e FNLA, em Luanda, reporta(va) o Diário de Lisboa desse dia que «continuam a registar-se alguns, embora de pouca gravidade». Em Nova Lisboa, a segunda cidade de Angola, «a situação está normalizada». Os recontros entre as forças dos dois movimentos teriam «provocado  4 mortos do lado do MPLA e 14 do lado da FNLA»
O dia foi tempo para incidentes em Teixeira de Sousa (onde as forças da FNLA «retiraram para o Zaire») e Vila Nova, Cuína e Caala (ou Roberto Williams, perto de Nova Lisboa).
Um ano antes, em Carmona, foi criado o Movimento Democrático do Uíge (MODU). Anunciou «total adesão ao MFA» e o seu objectivo passava pela «restituição das liberdades cívicas ao país e pela restauração, em Portugal, de um regime democrático».
A ANI, em despacho desse dia, dava conta que «cerca de 20 organizações políticas foram criadas em Angola, desde que eclodiu o Movimento das Forças Armadas» e o manifesto do MODU apontava para «colaborar activamente nas intenções e objectivos já proclamados pela Junta de Salvação Nacional» e, em particular, na «missão que se propõe de consciencialização política para uma solução justa e pacífica do problema ultramarino».
Do que foi feio do MODU, não sei. Nem mesmo no tempo da passagem dos Cavaleiros do Norte tenho memória de ouvir falar de tal partido. Os seus dinamizadores, há 41 anos, também propunham  criar um jornal independente.
Ao mesmo tempo, e ainda segundo a ANI, «milhares de soldados foram transferidos para o norte de Angola, a fim de enfrentarem uma prevista ofensiva de guerrilheiros». Isto porque o Alto Comando previa que os cerca de 4000 combatentes  da FNLA «iniciem os seus ataques no fim deste mês, numa tentativa de destruírem a colheita do café e para intimidar os trabalhadores negros assalariados pelos colonos brancos daquela área».
Outro motivo desta transferência de militares era «convencer os colonos brancos de que a Junta de Salvação Nacional não tenciona por ter à guerra contra os cerca de 4000 membros da FNLA».

quarta-feira, 13 de maio de 2015

3 118 - Cimeira dos movimentos e Luanda sem incidentes

Palácio da Justiça de Carmona (Uíge) em 2008 (foto da net). Notícia do Diário de 
Lisboa. sobre a visita  de Melo Antunes a Luanda. Há 40 anos!



A 13 de Maio de 1975, Melo Antunes chegou a Luanda, numa deslocação, noticiava o Diário de Lisboa, «ligada com a realização da próxima cimeira com os três movimentos de libertação e Portugal, que algumas agências internacionais anunciaram para Lusaka».
A cidade capital de Angola, a esse tempo, não registou «novos incidentes», mas, por outro lado, assistiu-se a «uma fuga desordenada dos técnicos europeus, devido à instabilidade da situação e aos acontecimentos sangrentos das últimas semanas».
A presença de Melo Antunes em Luanda - era ele o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal -, «prosseguia a intenção de o Governo de Lisboa a intervir mais directamente no processo angolano».  O MPLA aceitava participar na cimeira, mas FNLA e UNITA não entendiam tanto assim. Na verdade, entendia o movimento de Agostinho Neto que «a revisão do acordo de Penina (ou Alvor) não poderia dispensar a presença portuguesa».
Os três movimentos, argumentou o MPLA, «não podem decidir sobre um documento assinado por quatro partes». As negociações iriam continuar..

terça-feira, 12 de maio de 2015

3 117 - Quatro aniversários e uma morte de Cavaleiros do Norte

José Coelho é o «sapador» da direita, em baixo. Faleceu há precisamente 8 anos. 
O Calçada e o Grácio são o segundo e o terceiro. De pé, reconheço o Afonso 
Henriques (o segundo, da esquerda para a direita).  Quem ajuda a identificar os
 restantes? Em baixo, o José Mendes, em 2013, em Lisboa



O dia 13 de Maio foi de festa de anos, em 1975, para pelo menos três Cavaleiros do Norte: o José Mendes, o José Neves e o Manuel Costa. Hoje, ano de 2015, fazem 63!!!  Também, é dia de anos de um antigo vencedor da Volta a Portugal em Bicicleta, que integrou o PELREC, embora se desobrigasse da jornada africana do Uíge angolano: o Francisco Miranda.
O José Coutinho das Neves foi atirador de cavalaria e mora em Sintra, na Travessa da Lapa (Cabriz). O José da Fonseca Mendes foi 1º. cabo de transmissões e é empresário de restauração em  Lisboa. O (ex-soldado) condutor  Manuel Brites da Costa mora na Atouguia, em Torres Novas. Em Torres Vedras, lugar de Á-dos-Cunhados, mora o antigo ciclista.
O dia, mas de 2007, assinala a morte do ex-sapador José Gomes Coelho, vítima de doença. Morava em Galegos, de Penafiel. Ver AQUI. Já lá vão 8 anos!!! RIP!!!
Há 40 anos, em Carmona, continuavam a levedar incertezas. E a guarnição precisava de reforços. «Disse-se ter-se feito no mês anterior uma remodelação de dispositivo, que se admitiu como sendo a última, mas o galopar desenfreado dos acontecimentos leva a admitir a necessidade de , pelo menos, fazer vir a 1ª. CCAV. para Carmona, abandonando Songo e Cachalonde, porquanto se interpretam como desnecessárias, senão inconvenientes, tais guarnições militares», reporta o livro.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

3 116 - Patrulhamentos mistos e cimeira com movimentos

Cavaleiros do Norte do Parque-Auto, no Quitexe. Na frente, reconhecem-se, da esquerda 
para a direita, Pereira (condutor?, o primeiro), 1ºs. cabos Breda (3º.) e Domingos 
Teixeira (4º.), alferes Cruz (5º., de óculos), 1º. cabo Agostinho Teixeira), Américo 
Gaiteiro (?, o 7º.) e 1º. cabo Malheiro (?), o primeiro, à direita. E os outros? Quem ajuda 
a identificá-los?  Em baixo, notícia do Diário de Lisboa, de 
há precisamente 40 anos


Carmona, 11 de Maio de há 40 anos, em 1975! «Procurando incrementar as Forças Mistas e as suas actividades, manteve-se permanente patrulhamento os centros urbanos e nos itinerários, especialmente na cidade, considerada a área mais fulcral do Distrito», lê-se no livro «História da Unidade».
O sacrifício da guarnição é (era) enorme. Os movimentos, nomeadamente a FNLA, começou a manifestar «a intenção de controlar itinerários, com sacrifício do pequeno efectivo existente, também as NT colaboraram nessas «barreiras», com vista a salvaguardarem a sua liberdade e a sua razão de estar na zona de acção, como única autoridade militar constituída».
A 10 de Maio de 1975, em Lisboa, o Governo Português encetava «esforços no sentido de realizar nova cimeira entre os três movimentos», na sequência dos «incidentes entre o MPLA e a FNLA (...), sob pena de se assistir ao desencadear de uma guerra civil ou até internacionalização do conflito».
A «nova atitude do Governo Português - segundo o Diário de Lisboa desse dia - parece retomar o seu papel activo de descolonizador», sendo por isso possível que «a próxima cimeira, entre MPLA, FNLA e UNITA  e o Governo Português, possa corrigir o processo de descolonização de Angola».
Que assim ia, há precisamente 40 anos!

domingo, 10 de maio de 2015

3 115 - Último dia, há 41 anos, do IAO em Santa Margarida

Cavaleiros do Norte no Quitexe, em Setembro 1974. Em baixo, Nelson Rocha, 
Francisco Dias e Manuel Machado, três ex-furriéis milicianos da CCS, 
em 1997 (encontro de Penafiel)



Sexta-feira, 10 de Maio de 1974, Destacamento do RC4 no Campo Militar de Santa Margarida. Há precisamente 41 anos! É o último dia do IAO dos futuros Cavaleiros do Norte - que se separam para a última visita às famílias. Para uma espécie de segunda Licença de Normas. A primeira e a oficial, fora de 18 a 28 de Março.
A CCS tinha viagem marcada para 27 de Maio (afinal, adiada para dois dias depois, a 29) e  estavam «mortas» as (in)fundadas esperanças de já não irmos para a jornada africana de Angola - muito badalada, por esse tempo imediatamente pós-revolução. 
«A licença é um período de repouso dado a todos os que vão combater no ultramar (...), não é mais que um período de transição entre o soldado na prestação normal do serviço militar e aquele em que esse mesmo soldado ultima a sua preparação para o combate», era, sumariamente, a mensagem do comandante Almeida e Brito.
«Recorda-te de tudo o que pedimos sobre aprumo e atavio, pontualidade e vontade firme, dedicação e interesse, disciplina e respeito total», acrescentava o comandante na nota entregue aos soldados, lembrando também que «as exigências, ensinamentos e exemplos dos teus superiores são princípios que de tens de seguir, de compreender, pois são essas afirmações que te levarão a, como já um dia te disse, querer e saber e vencer».
Foi neste clima, reporto do livro «História da Unidade», que o BCAV. 8423 «se preparou para desembarcar em Angola, para rumar ao subsector que lhe foi destinado e no qual irá procurar a «querer e saber vencer» cumprir a sua missão». Ainda não sabíamos que o Quitexe seria o nosso destino angolano. E Zalala! E Aldeia Viçosa. E Santa Isabel.

sábado, 9 de maio de 2015

3 114 - A «psico» de 1974 e «Perguntai ao Inimigo Quem Somos»

O PELREC já em Angola: 1º. cabo Almeida (já falecido). Neves. Messejana, Florêncio, 
António (?), furriel Viegas, Marcos. Dionísio, Caixarias e alferes Garcia (falecido). Em 
baixo, 1ºs. cabos Vicente (falecido) e Soares, Francisco, Leal (falecido), 1º. cabo 
Oliveira (transmissões), Hipólito, Aurélio,  Madaleno e furriel Neto. Em baixo, 
capa do livro «História da Unidade».




O Serviço de Informação Pública (SIP) das Forças Armadas deu conta, a 9 de Maio de 1974, do falecimento, em combate, de vários militares, nas três frentes ultramarinas de combate: Guiné, Moçambique e Angola. Neste caso, aquele que na verdade mais nos interessa(va) - por estarmos para lá mobilizados -, o dos soldados atiradores José Francisco Barros Marques, de Baiões (S. Pedro do Sul), e Manuel Jorge da Silva Heleno, de Vagos. Para além de Venâncio Dinis Albano, de Malanje e do recrutamento local.
Os Cavaleiros do Norte estavam na véspera do final da instrução operacional e eram mentalizados para a missão que os levaria a Angola. «Soldado, vais para Angola, onde irás encontrar populações negras e mestiças, que são portuguesas como tu. Têm usos diferentes e religião que pode não ser a tua, falam ou não a tua língua e tem os seus dialectos próprios. Embora com estas possíveis diferenças, mantêm-se unidos a Portugal e como Portugueses querem viver», recordo do livro «História da Unidade, que acrescentava: «Vais ajudá-los nos seus problemas, como tal respeita-os e aos seus costumes. Lembra-te que são seres como tu, a sua família é como a tua».
O lema do Batalhão era o do RC4: «Perguntai ao inimigo quem somos.
Era esse e a «psico» lembrava aos mobilizados do BCAV. 8423 que « ser-se de cavalaria não ser-se melhor nem pior, é ser-se diferente». Para tal, sublinhava que é necessário «ter aprumo permanente, asseio irrepreensível pontualidade em extremo dedicação até ao sacrifício, interesse total educação forte, valentia até ao destemor».
«Então, será soldado dos  BCAV. 8423 e daqueles a quem o inimigo, ao perguntar quem  és, te acha diferente», concluía a «psico» de há 41 anos

sexta-feira, 8 de maio de 2015

3 113 - Assassínios a norte e internacionalização do conflito

Cavaleiros do Norte, há 40 anos: Serra Mendes e Domingos Teixeira (atrás), João 
Monteiro (Gasolinas), Américo Gaiteiro e Porfírio Malheiro (sentados). Alípio 
Canhoto (de arma na mão e mão no quico) e António Pereira, mecânico auto 
(ao lado direito). Notícia do Diário de Lisboa, de há 40 anos



As coisas lá iam indo, por Carmona, a capital do «nosso» Uíge -, e no Songo (onde estavam os zalalas) com mais ou menos incidentes, no essencial controlados pelos Cavaleiros do Norte -, mas por lá perto, no chamado Norte de Angola, a situação complicava-se. 
A 8 de Maio de 1975, o Diário de Lisboa dava conta de um comunicado do MPLA, noticiando que «na noite de 2 para 3 de Maio, as delegações e aquartelamentos do MPLA em S. Salvador, Sanza Pombo e Ambrizete foram atacadas por forças do ELNA» - o exército da FNLA.
«Centenas de civis foram barbaramente assassinados, feridos ou mutilados e, no dia 4, um destacamento do MPLA, enquadrando numeroso elementos do movimento, foram obrigados a abandonar Sanza Pombo e Ambrizete», referia o movimento presidido por Agostinho Neto.
A FNLA, também em comunicado, não desmentiu os incidentes mas explicou que eram «consequência das confrontações armadas em Luanda». O MPLA, por seu lado, referia que o «clima de intimidação» que se vivia no norte de Angola» (...) «fazia prever a chegada de refugiados a Luanda».
MPLA que, na mesma data de há 40 anos, desmentia que fosse «desencadear quaisquer acções contra brancos, no próximo dia 11». O movimento liderado por Agostinho Neto considerou que «essas notícias falsas representam uma tentativa de agudização dos conflitos raciais» e, acrescentou, «uma manobra para internacionalizar pequenos problemas internos porque passa o país, no intuito de fomentar a intervenção de forças externas e inimigas».

quinta-feira, 7 de maio de 2015

3 112 - Instrução Operacional e novos partidos em Angola

Cavaleiros do Norte, em grupo. Reconhecem-se, de pé, os 1ºs. cabos Breda (?), Vicente (?, o 
segundo, já falecido), Miguel Teixeira (terceiro) e Grácio (5º.). Depois, o Messejana, 
já falecido (7º.), alferes Ribeiro (8º. de braços cruzados) e furriel José Pires (10º.). 
O Florindo está à frente do Grácio. Apoiado nos braços e de corpo estendido, está o 1º. cabo 
Marques (Carpinteiro), seguindo-se o furriel Mosteias - ambos já falecidos. Sentado,
do lado direito, parece ser o Emanuel. Quem identifica os outros? 
Em baixo, marco geodésico da Mata do Soares



Os Cavaleiros do Norte, a 7 de Maio de 1974, ultimavam os exercícios de Instrução Altamente Operacional (IAO) na Mata do Soares (de 3 a 10), fazendo vésperas preparatórias da anunciada partida para a jornada angolana (marcada para o dia 27, seguinte, e depois adiada para 29). O dia registou a posse do novo comandante do Regimento de Cavalaria 4 (RC4), no Campo Militar de Santa Margarida.
A cerimónia de há 41 anos «foi muito simples» e nela tomou parte, dos Cavaleiros do Norte, apenas o comandante Almeida e Brito. O coronel Campeão Gouveia era o novo comandante do RC4.
A Mata do Soares era o cenário que nos «antecipava» o que seria a nossa vida ultramarina e é desse tempo uma célebre dor de cabeça (das raras que senti em toda a vida) e que foi curada com massagens às pernas, na enfermaria do RC4, receitadas por um velho médico militar. Receita estranha, mas que deu efeito quase imediato. E tempo, também, de acidente que envolveu um militar em instrução, que se furtou a um «ataque» do PERLREC e, escondendo-se do grupo «flagelado», foi projectado no ar, depois de tropeçar no arame de uma armadilha com granada de instrução.
Angola, assistia ao nascimento do Movimento Popular Unido de Angola, - o MOPUA -, de tendência social-democrata e formado por personalidades africanas e europeias de variadas actividades e já com núcleos nas principais cidades. A iniciativa partira da Associação de Antigos Estudantes de Sá da Bandeira, com propósitos de «criação de uma sociedade multi-racial» . Em Luanda, uma outra comissão projectava «a fundação de um partido cristão-democrata». A PSPA e a OPVDCA passaram a estar dependentes do comando das Forças Armadas. Assim ia a Angola para onde íamos partir!
- PSPA. Polícia de Segurança Pública de Angola.
- OPVDCA. Organização provincial de Voluntários 
e Defesa Civil de Angola.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

3 111 - Reencontro com o Jacinto e expulsão dos PIDE/DGS

O 1º. cabo Jacinto (da ZMN) e o furriel Viegas (dos Cavaleiros do Norte), 40 anos 
depois de se conhecerem em Carmona. Notícia do Diário de Lisboa de 6 de 
Maio de 1975, há 40 anos. Mais abaixo, o Jacinto e a esposa com o 1º. ministro Passos Coelho



O Jacinto foi 1º. cabo escriturário da ZMN e companheiro dos Cavaleiros do Norte, a partir de 2 de Março de 1975. É empresário de restauração na Quarteira, empresário de sucesso - até com visita (ver foto) do 1º. ministro Passos Coellho -, e meu anfitrião habitual, sempre que a vida me leva a terras do Algarve. Assim aconteceu há dias.
A conversa andava interrompida de alguns anos e levou-nos aos dias amargos da primeira semana de Junho de 1975, quando, pela Carmona da nossa saudade, troaram os morteiros e se multiplicaram os sons e os cheiros de morte que enlutaram muita gente civil.  «As casernas eram de chapa de zinco e tivemos medo que nos atacassem directamente», recordou-me ele, o Jacinto, desses dias dramáticos, os primeiros de Junho de 1975.
Semanas antes, já todos por lá jornadeávamos, era 6 de Maio desse mesmo ano de 1975, e sabia-se, pela leitura da imprensa, que a morgue de Luanda tinha «recolhido 500 cadáveres, dos quais só 16 não eram negros». mas receava-se que «hajam, outras 500 vítimas, cujos corpos não deram entrada na casa mortuária».
O dia foi igualmente assinalado pela expulsão dos agentes da PIDE/DGS que operavam em Angola, por decisão do Conselho de Ministros. O MPLA, mais rigoroso, exigia mesmo que fossem «imediatamente detidos, afim de não tentarem a fuga».
Assim iam, há 40 anos, os dias da pré-independência de Angola, numa altura, 6 de Maio de 1975, em que «cessou o tiroteio na zona dos musseques» de Luanda, que estava «fortemente policiada por forças mistas portuguesas e angolanas». «Desde sábado que não se registam incidentes de vulto», noticiava a imprensa do dia, referindo-se a 3 de Maio desse ano, sublinhando que «a imediata reconciliação» entre MPLA e FNLA «parece existir, a avaliar pela grande manifestação de domingo, nas ruas de Luanda, em que militares de MPLA, FNLA e UNITA desfilaram com bandeiras desfraldadas, entrelaçadas com slogans, manifestando propósitos de colaboração pacífica»
Assim não viria a ser.
- JACINTO. Jacinto Sebastião Gomes 
Diogo, 1º. cabo escriturário da ZMN. Natural de 
Odeleite (Castro Marim) e empresário (Restaurante
O Jacinto, na Quarteira), 
Foto com Passos Coelho DAQUI 

terça-feira, 5 de maio de 2015

3 110 - Cavaleiros acusados em Carmona, calma em Luanda

O edifício do Comando da Zona Militar Norte (ZMN), em Carmona, nos dias de 
hoje. Em baixo, cinco furriéis Cavaleiros do Norte: António Flora (3ª. CCAV. 8423), 
Luís Filipe Costa (Morteiros). Agostinho Belo (3ª.) , Francisco Bento (CCS) e 
Joaquim Abrantes (adido)



Os dias de Carmona, que, com maior ou menor dificuldade, se iam galgando com suficiente segurança, começaram a ganhar outros contornos nos primeiros dias de Maio de 1975. 
«Por vezes - relata o Livro da Unidade, o do Batalhão de Cavalaria 8423 -, não se conhecendo nem as razões, ou sequer não se conseguindo distinguir a origem das situações, parece serem passíveis de entendimento fácil tais questões mas, em verdade verifica-se uma enorme dificuldade  em fazer vingar o papel de árbitro atribuído às NT como prioritária missão».
A missão das NT era sucessiva e progressivamente apelidada de «partidária e, consequentemente, viu as suas actividades mal aceites, ainda que não suscitem quaisquer dúvidas quanto à sua isenção». Como por aqui já foi dito, não rareavam, bem pelo contrário, os insultos às Forças Armadas Portuguesas, mimoseadas como fascistas, ou colonialistas, ou, mais grave e inesperado (por compatriotas europeus) de cobardes e traidores. 
A 5 de Maio de 1975, hoje se fazem 40 anos, e em Luanda, «a situação encontra(va)-se praticamente normalizada». «Durante a noite passada e a  manhã de hoje não se registaram incidentes. Também se tornaram raros os actos de banditismo, como buscas ilegais a casas de europeus, ou violências contra pessoas», relatava o enviado especial do Diário de Lisboa, acrescentando que «no entanto, o recolher obrigatório deve manter-se até amanhã».
O recolher obrigatório tinha sido decretado nos últimos dias de Abril (anda eu e o Cruz por lá andávamos, de férias) e, segundo Alexandra Marques («Segredos da Descolonização de Angola», da D. Quixote, 2014), «em 5 de Maio, passou a vigorar som,ente das 23 horas às 6 horas da manhã»
- COSTA. Luís Filipe dos Santos Costa, furriel miliciano 
do Pelotão de Morteiros 4281. Aposentado da 
SONAE, residente no Estoril.
-ABRANTES. Joaquim Cardoso Abrantes, furriel miliciano 
colocado na CCS do BCAV. 8423. Professor aposentado, 
residente em Castelo Branco.
- Foto actual da (antiga) ZMN, DAQUI

segunda-feira, 4 de maio de 2015

3 109 - Quezílas em Carmona e 500 a 1000 mortos em Luanda

Cavaleiros do Norte, há pouco mais de 40 anos, na jornada africana de Angola. Furriéis 
Capitão e Cardoso, 1º. cabo Almeida (cozinheiro), Lajes (do bar de sargentos) e furriel 
Flora (apoiado na perna direita). na fila do meio e sentados, furriéis Cruz, Costa, Reino 
e Carvalho (de bigode). À frente, Bento (de bigode), Grenha Lopes (de perfil), Fonseca (de 
bigode e a rir) e Rocha. Em baixo, a administração municipal de Carmona no tempo dos 
Cavaleiros do Norte





A 4 de Maio de 1974, os Cavaleiros do Norte continuavam os «exercícios da Instrução Operacional» na Mata do Soares, arredores do Campo Militar de Santa Margarida. Era um sábado e, de Lisboa, soube-se que um grupo de soldados se recusara a partir para Angola, para uma comissão em Cabinda. 
Pertenciam à Companhia de Caçadores 45/20 e, na véspera, assumiram a palavra de ordem: «Nem mais um embarque». Seriam, 10, seriam 52?! Parece que 10, segundo a Cova da Moura. E o próprio general António Spínola estava na Base Aérea nº. 1, na Portela, por se tratar do primeiro embarque de tropas para Angola, depois do 25 de Abril. Vários deles, apresentaram-se pouco depois.
Um ano depois, em Carmona e considerando que «o Uíge, a bem ou mal, terá de ser terra da FNLA», este movimento, e cito do Livro de Unidade, não aceitava bem «qualquer outra opção política no seu solo». Disso resultavam «permanentes quezílias entre movimentos, as quais dia a ia vão tendendo a aumentar, complicando, e de que maneira, a missão arbitral que era atribuída às Forças Armadas Portuguesas».
As ruas da cidade eram patrulhadas a toda a hora e respirava-se um ar tenso, de insegurança e de medos. A tropa portuguesa operacional tinha dias e dias de serviços, sem descanso. Mesmo que insultada pela comunidade europeia. Principalmente por esta, havendo excepções.
Piores iam as coisas por Luanda, onde «centenas de refugiados estão abrigados em liceus e estabelecimentos de ensino superior, onde foram organizados centros de socorro». A Força Aérea Portuguesa, por sua vez, estava «a transportar para Luanda alimentos provenientes de outras regiões de Angola».
Até esse dia 4 de Maio de 1975, e cito o Diário de Lisboa, «tinham entrado 500 cadáveres na morgue». Mas julgava-se, ainda segundo o mesmo jornal, que «o número total de vítimas dos últimos acontecimentos deve elevar-se a cerca de um milhar».

domingo, 3 de maio de 2015

3 108 - Cavaleiros em instrução operacional na Mata do Soares

Cavaleiros do Norte de Zalala: Eusébio, Queirós e Victor Costa (de pé), Rodrigues, 
Louro, Barata e Manuel Dias. Em baixo, Mota Viana, Rodrigues, Agra (Famalicão), 
Carneiro, Pimenta e Queirós, homens de Zalala, reunidos em 9 de Setembro de 2014, 
a recordar os 39 anos da sua jornada angolana



A 3 de Maio, a partir do Destacamento do Regimento de Cavalaria 4, em Santa Margarida, começaram os Cavaleiros do Norte «os exercícios de instrução operacional», até ao dia 10 e na Mata do Soares, «já com a autonomia das diversas companhias».
As três companhias operacionais (as fotos são de Cavaleiros do Norte da 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala) eram «flageladas» pelo PELREC, o pelotão operacional da CCS, e nisso andámos essa semana de instrução.
O objectivo era «pô-las a viver à semelhança, embora ténue, daquilo que ir ser a sua vida no Ultramar». A preocupação do comandante Almeida e Brito, como leio no Livro da Unidade, era sempre «a instrução e mentalização de todo o pessoal, embora  nem sempre o RC4 tenha podido  dispor dos materiais necessários à realização de uma instrução perfeita». Porém, sublinha o mesmo LU, «julga-se poder afirmar que a instrução de todo o pessoal decorreu e, bom nível, porquanto foram envidados todos os esforços no sentido de melhor tornear as dificuldades existentes».
No mesmo dia, mas em Londres, Mário Soares (secretário geral do PS e futuro Ministro dos Negócios Estrangeiros), afirmou aos jornalistas da capital inglesa «esperar o mais cedo possível o cessar fogo entre as forças armadas (portuguesas) e os movimentos nacionalistas de libertação de África».
«Devemos negociar o mais depressa possível», observou o dirigente socialista, declarando-se «firmemente contra qualquer declaração unilateral de independência nos territórios portugueses em África, semelhante à da Rodésia».
Muita água iria passar debaixo da ponte, muitas palavras atiradas ao vento e um processo revolucionário que ainda hoje, 41 anos depois, poucos entendem bem. Mas isso é outra conversa. Que não é para aqui chamada.
- BARATA. Jorge António Eanes Barata, furriel 
miliciano atirador de cavalaria, da 1. CCAV. 8423. 
Faleceu a 11 de Outubro de 1997, vítima de doença, 
em Alcains, de onde era natural e residia.
- DIAS. Manuel Dinis Dias, furriel miliciano mecânico, 
da 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala. Faleceu, vítima de doença, 
a 20 de Outubro de 2011, em Lisboa, onde residia.
-  EUSÉBIO. Eusébio Manuel Martins, furriel miliciano
atirador de cavalaria, da 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala.
Faleceu a 16 de Abril de 2014, em Belmonte, vítima de doença.

sábado, 2 de maio de 2015

3 107 - Os primeiros dias de Maio de há 40 anos, em 1975!!!

Cavaleiros do Norte em pose fotográfica: António Cruz (residente na Póvoa de Santo 
Adrião), Cândido Pires, o do Montijo (em Nisa), Luís Mosteias (falecido a 5 de Fevereiro 
de 2013), Francisco Neto (Águeda), José Pires (Bragança) e Nelson Rocha (em Valadares, 
Gaia). Em baixo, à esquerda e há 40 anos, Viegas na Ilha de 
Luanda, com o conterrâneo Albano Resende (civil)



Os dias de férias tinham acabado e Carmona recebeu-nos para «os serviços de ordem». Menos para o Cruz, que era o furriel rádio-montador, e mais para mim: sargento de dia, sargento da guarda, patrulhamentos de 24 horas e a recém-criada Polícia de Unidade (PU), uma adaptação local da Polícia Militar (PM).  E, inevitavelmente, a formação das Forças Mistas.
Bem piores iam (continuavam) as coisas por Luanda.
Os «mais de 100 mortos» aqui ontem lembrados, levaram as autoridades partidárias a tomar posições públicas. A FNLA, e cito do Diário de Lisboa de 2 de Maio de 1975 (há precisamente 40 anos!!!), «pediu aos seus partidários que cessem imediatamente todas as hostilidades» e ordenou às suas tropas que «regresse, aos respectivos aquartelamentos».
O presidente Agostinho Neto, do MPLA, «aconselhou os militantes do seu movimento a evitarem quaisquer acções ofensivas». Jonas Savimbi, líder da UNITA, e continuo a citar o Diário de Lisboa, «insistiu em que o seu movimento não esteve envolvido na luta» e pediu aos seus partidários que «mantenham a disciplina».
A verdade, porém, é que até pelo menos 2 de Maio, os céus de Luanda continuaram cheios de fogo das balas que os tracejavam e semeavam medos, sangue e mortes pela cidade. No dia feriado (1 de Maio), centenas de populares brancos manifestaram-se em frente ao Palácio do Governador, exigindo meios para deixar Angola, fosse para onde fosse - preferencialmente para Lisboa.
Os saques seguiam-se aos bombardeamentos, nos bairros suburbanos. E, citando o livro «Segredos da Descolonização de Angola» (Alexandra Marques, 2014, da D. Quixote), também «agressões,violações de mulheres e a prisão indiscriminada de cidadãos». O número de mortos, afinal, seria outro e bem maior. A autora escreve: «Calculava-se que, em menos de uma semana, tenham sido mortas 300 pessoas e feridas 600, a quase totalidade civis»

sexta-feira, 1 de maio de 2015

3 106 - Mais de uma centena de mortos em Luanda

A baía de Luanda, no tempo dos Cavaleiros do Norte.
 Notícia do Diário de Lisboa sobre os «mais de 100 mortos em Luanda»



A 1 de Maio de 1975, já em Carmona e depois das férias angolanas que nos levaram pelos cenários paisagísticos da imensa e apetecível Angola, eu e o Cruz «redescobrimos» a cidade e os seus problemas. Pequenos problemas, comparando-os com os de Luanda. De onde íamos.
Lá por Luanda, na verdade e «após dois dias de lutas entre movimentos de libertação rivais», o número de mortos já eram segundo se julgava, «mais de uma centena», incluindo feridos. O recolher obrigatório - que dois dias antes nos causara alguns problemas, logo depois do abortado voo de Luanda para Carmona -, «o recolher obrigatório foi mantido durante a noite e a cidade continua a viver num clima de tensão, embora o tiroteio tenha acabado durante a tarde», já do dia 2 de Maio de 1975.
«Uma multidão de residentes nos bairros mais atingidos pela luta, na sua maioria brancos mas incluindo alguns negros, dirigiu-se ao Palácio do Governador para protestar contra a destruição das suas casas», relatava o Diário de Lisboa, lembrando «homens de olhar desvairado», que «contavam cenas de violência, durante os incidentes».
O 1 de Maio de 1975 foi ainda tempo, em Luanda, para as autoridades portuguesas «transmitirem apelos à ordem, após dois dias de lutas entre movimentos de libertação rivais, as quais causaram, segundo se julga, mais de uma centena de mortos e feridos». Os apelos, segundo o Diário de Lisboa, de que nos socorremos, «seguem-se a reuniões de emergência entre as autoridades portuguesas e os três movimentos de libertação».
Mais tranquilas, apesar de tudo, iam as coisas por Carmona. Ainda bem!
O 1 de Maio de 1975 ficou marcado por dois significativos resultados futebolísticos da selecção nacional. Os AA foram goleados (0-5) em Praga, pela Checoslováquia. O seleccionador era José Maria Pedroto e jogaram  (com 0-3 ao intervalo): Damas; Rebelo, Humberto, Alhinho e Barros; Toni (Pietra, aos 49 ms), Octávio, Alves e Fraguito; Marinho e Nené (Gomes, 76ms).
Mais felizes foram os «Esperanças», em Faro, vencedores (2-0) mas mesma Checoslováquia. Jogaram: Bento (Benfica); Ramalho (V. Guimarães), Guilherme (Barreirense, depois Amílcar, do Oriental)), Amândio (Boavista)  e Gabriel (FC Porto); Rodolfo (FC Porto), Victor Pereira (CUF) e Abreu (Guimarães); Manuel Fernandes (CUF), Romeu (Guimarães) e Ibraim (Benfica).

quinta-feira, 30 de abril de 2015

3 105 - Incidentes em Luanda e viagem aérea para Carmona

Carmona, a estrada da cidade para o BC12 (em cima). Em baixo, notícia 
de 30 de Abril de 1975, no Diário de Lisboa, sobre os incidentes de Luanda. Mais  abaixo, 
o advogado e professor Custódio Pereira Gomes, contemporâneo dos 
Cavaleiros do Norte em Carmona




O dia 30 de Abril de 1975 foi o do regresso a Carmona,  meu e do Cruz, depois das férias angolanas. A gorada partida aérea da véspera, quando os céus de Luanda faiscavam de morteiros, tiros de canhão e rajadas de armas automática e metralhadoras pesadas, tornou-se possível nesse dia, depois de uma noite de  sobressaltos e quando reencontrei o o dr. Custódio Pereira Gomes - professor e advogado em Carmona, que era viúvo da professora Maria Augusta Tavares, uma minha conterrânea que tinha leccionado na capital do Uíge.
A imprensa do dia, que agora revisito (através das páginas do Diário de Lisboa), dá conta que «ocorreu um reencontro entre forças da FNLA e das UNITA». Os incidentes vinham já desde segunda-feira, dia 28 de Abril. «Não estão determinadas as forças envolvidas nos recontros, que se reiniciaram na segunda-feira. Os primeiros incidentes registaram-se entre o MPLA e a FNLA, mas ontem à noite ocorreu um recontro entre as forças deste movimento e as da UNITA», reporta(va) o DL de 30 de Abril de 1975, acrescentando que «(...) as ambulâncias percorriam a cidade em direcção aos estabelecimentos hospitalares, desconhecendo-se no momento o número de mortos e feridos, não sendo de excluir que andem já penas dezenas».
Já na manhã de 30 de Abril - ainda eu e o Cruz estávamos em Luanda -, «registaram-se alguns incidentes, que ultrapassaram já os limites dos musseques». Na Avenida do Brasil, «onde está instalada a sede da FNLA, e na Avenida dos Combatentes», acrescentava o DL, «observava-se também tiroteio». Luanda acordara «ao som do tiroteio» (...) e «pode dizer-se que não dormiu». Os disparos das armas de guerra dos vários calibres «perturbaram a serenidade e o sono dos habitantes da capital angolana».
O avião da TAAG levantou voo, sobrevoámos a cidade - onde se viam pontos de fumos, a sair da zona de musseques - , e lá fomos até Carmona. Onde esperávamos uma cidade mais calma e controlada pelos Cavaleiros do Norte. Assim foi!
Ver AQUI

quarta-feira, 29 de abril de 2015

3 104 - Cavaleiros reforçados e serviços em Carmona

Cavaleiros do Norte do Parque-Auto. Atrás, NN, Canhoto, Miguel, NN (mecânico), Gaiteiro e NN. A seguir, Picote (de mãos nas ancas e a rir), Teixeira (pintor), NN (mais atrás), Serra (mãos no cinto), Pereira (mecânico), 1º. sargento Aires (de óculos), alferes miliciano Cruz (de branco), Frangãos (o Cuba). furriel Morais (de óculos), Joaquim, Celestino (condutor, a rir), NN (condutor, mais atrás),  (condutor, de braços cruzados) e Vicente (de mãos nas ancas). À frente, Domingos Teixeira (estofador), Marques (o Carpinteiro), Madaleno (condutor) e Esgueira. O 2º. sargento miliciano Costa Eira (foto de baixo)
Quem ajuda a identificar os NN?


Os tempos de Abril de 1975, há 40 anos!!!, foram tempos de reforço dos Cavaleiros do Norte. À CCS, chegou o alferes miliciano João Carlos Lima Curral, oficial que substituiu José Leonel Pinto de Aragão Hermida, com a mesma patente e responsabilidade, na área das transmissões. Suponho que será de Espinho. À 2ª. CCAV. 8423, chegou o 2º. sargento miliciano Manuel Alcides da Costa Eira, que era enfermeiro e de Vila Real. E a companhia de Aldeia Viçosa, na altura já no BC12, não tinha enfermeiro desta patente (nem furriel).
Os serviços dos Cavaleiros do Norte estavam principalmente localizados no BC12, o quartel situado à saída da cidade de Carmona, na estrada para o Songo: o Comando, os serviços administrativos e de saúde, camaratas, depósitos de material e de géneros, cozinha e refeitório, as oficinas-auto - que eram comandadas pelo alferes miliciano António Albano Cruz e que, na maioria, se podem ver na foto deste post.
As messes de oficiais e sargentos ficavam na cidade, para além da Zona Militar Norte (ZMN), onde se viria a instalar a 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala - depois das suas passagens aquarteladas por Vista Alegre e Ponte do Dange - de onde, a 24 de Abril desse mesmo ano, rodaram para o Songo. De onde, para Carmona, saiu a 6 de Junho desse mesmo ano de 1975.

terça-feira, 28 de abril de 2015

3 103 - Embarque dos Cavaleiros e Savimbi em Luanda


Capitães José Manuel Cruz (2ª. CCAV. 8423) e José Paulo Fernandes 
(3ª. CCAV. 8423), com o comandante Bundula (FNLA) e o alferes 
João Machado, em Aldeia Viçosa (há 40 anos). O comandante Almeida 
e Brito, Cruz, Rocha (furriéis) e Tomás, em Penafiel, a 27 de Setembro de 1997



Por esta altura de 1974, já depois do 25 de Abril e  regressados a Santa Margarida, os Cavaleiros do Norte souberam que «foram marcadas as datas de embarque do Batalhão para os fins de Maio e princípios de Junho», muito embora «desconhecendo-se  ainda qual o o destino da RMA».
De Angola, chegavam notícias - que avidamente procurávamos no Diário de Lisboa. A 28 de Abril, por exemplo e por despacho do general Rafael Alves, comandante-chefe-interino das Forças Armadas, «foi extinta a Direcção Geral de Segurança». Parte das tarefas que lhe estavam incumbidas «irão em breve ser atribuídas ao Comando-Chefe das Forças Armadas e a órgãos civis dependentes do Governo Geral», reportava o jornal, citando a ANI. 
Um ano depois, em 1975,  já a 1ª. CCAV. 8423 tinha «azimutado» para o Songo, mas, e cito o Livro da Unidade, «com um destacamento temporário em Cachalonde». Assim, iniciada a 24 de Abril, se tinha feito «a desactivação de Vista Alegre e Ponte do Dange», tal como, no dia 26, a de Aldeia Viçosa - estes Cavaleiros do Norte para o BC12.
Lê-se no Livro da Unidade que «só a partir desta data se completa  remodelação do dispositivo, que se julga ser a última até ao terminar da comissão».  Restava a 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel, que já estava aquartelada no Quitexe desde 10 de Dezembro de 1974.
Ao Quitexe, a 28 de Abril de 1975 - hoje se fazem 40 anos!!! -, foi o comandante Almeida e Brito. Já lá tinha estado a 26, neste caso com o oficial adjunto, o capitão José Paulo Falcão. Em Luanda, eu e o Cruz fazíamos vésperas do fim das nossas férias angolanas. Lá tinha chegado. no sábado anterior (dia 26), o dr. Jonas Savimbi, presidente da UNITA, «acolhido por uma multidão entusiástica e ruidosa, não se tendo registas quaisquer distúrbios» - segundo os despachos noticiosos da ANI, AP e Reuters. O líder do Galo Negro «pediu todo o apoio para o Governo de Transição» e, sobre os três movimentos de libertação, afirmou que «é imperioso que coexistam pacificamente».

segunda-feira, 27 de abril de 2015

3 102 - Cavaleiros de Aldeia Viçosa e assentamento de praça

Cavaleiros do Norte de Aldeia Viçosa, da 2ª. CCAV. 8423 (em cima). Em baixo, 
o futuro furriel miliciano Viegas, em foto de meados de 1973, há quase 42 anos


Os Cavaleiros do Norte da 2ª. CCAV. 8423 abandonaram Aldeia Viçosa a 26 de Abril de 1974, rodando para Carmona. Lá tinham chegado a 10 de Junho anterior, idos do Campo Militar do Grafanil, nos arredores de Luanda. Aonde, por sua vez e idos de Lisboa, tinham aquartelado  no anterior dia 4. 
Um ano antes, eu mesmo assentei praça, para a recruta que terminei na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, a 16 de Julho, quando passei para o Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOE), em Lamego.
Ao tempo, ficar apurado para o serviço militar e assentar praça significava «ir para a guerra».   Era o estigma dos jovens da época e não fugi a ele. Convinha, pois, estar o melhor preparado possível. Creio ter sido isso que aconteceu, no exigente curso de Operações Especiais (os Rangers), depois da difícil recruta da Escola Prática de Cavalaria.
Foi isso do dia 26 de Abril, até 8 de Outubro de 1973, quando, concluído o curso do aquartelamento de Penude, nos arredores de Lamego, recebi as divisas de 1º. cabo miliciano!!!
Os Cavaleiros do Norte da 2ª. CCAV. 8423 eram comandados pelo capitão miliciano José Manuel Cruz e tinham os alferes milicianos João Machado (Operações Especiais), Domingos Carvalho, João Periquito e Jorge Capela, mais tarde Manuel Meneses Alves (em Fevereiro de 1975) e Fernando Ramos (Maio de 1975), todos atiradores. Também o 1º. sargento Fernando Norte e os furriéis milicianos António Carlos Letras (Operações Especiais), António Cruz, José Feitas Ferreira, Amorim Martins, Mário Matos (o primeiro, à esquerda, de pé, na foto), João Brejo, José Fernando Melo, Rafael Ramalho, José Manuel Costa, José Gomes e António Artur Guedes (todos Atiradores de Cavalaria), António Chitas (Armamento Pesado), António Rebelo (Transmissões) e Abel Mourato (Vagomestre).
Outros furriéis milicianos, de complemento: Jesuíno Pinto (em Agosto de 1974) e Mário Soares (Novembro), ambos atiradores. E um 2º. sargento miliciano: Manuel Alcides Eira (Abril de 1975). A sub-unidade incluía 94 praças - entre 1º.s cabos e soldados.

domingo, 26 de abril de 2015

3 101 - O dia da oitava do 25 de Abril de 1974


CAVALEIROS DO NORTE do PELREC, no Quitexe, em 1974. Francisco (de braços 
cruzados) e Madaleno, à esquerda. De frente e de bigode, o Silvestre e depois o Aurélio 
Barbeiro (com a mão no queixo), Florêncio (de bigode), Messejana, 1ºs. cabos 
Soares (de bigode) e Vicente (de bigode). Atrás destes e de cerveja na mão, o Ferreira. À esquerda
 deles, lá atrás, o 1º. cabo  Almeida. À frente dele, o Leal (de boina no ombro). 
Aqui à frente,mo alferes Garcia e o Gomes (a rir). Atrás deste, o 1º. cabo Cordeiro (de bigode 
e boina no ombro). Depois e de bigode, o 1º. cabo Ezequiel. A seguir a ele e a espreitar, 
será o Dionísio? E a seguir, que é o que está a olhar para a direita?» E quem são os do trio 
da direita, lá atrás? Alguém pode ajudar? Em baixo, capa da 3ª. edição do Diário Popular de 25/4/1974 


O 25 de Abril de 1974 suspendeu as actividades de instrução dos (então futuros) Cavaleiros do Norte, que estavam aquartelados no Destacamento do RC4, no Campo Militar de Santa Margarida. Os futuros furriéis  milicianos da CCS (estes, pelo menos) estavam num dos vários pavilhões habitacionais do RC4 e foram, impedidos de sair do quartel, «até novas ordens». O RC4, recordemos, aquartelava uma unidade de carros de combate e tinha aderido ao 25A.
A 26 de Abril, hoje se fazem 41 anos, «não estando o BCAV. contactado para a efectivação do movimento, nem tão pouco algum ou alguns dos seus oficiais, de imediato, após o triunfo do MFA, logo todo o Batalhão se sentou como parte integrante do referido Movimento». E de tal forma, sublinha o Livro de Unidade, que «nessa mesma data e e pelo Exmº. Comandante, do BCAV., foi explicado a todo o pessoal o que o MFA pretendia, em palestras orientadas especificamente para oficiais, sargentos e praças».
Ao meio dia, depois de almoço, fomos todos dispensados e viemos - eu, o Matos (da 2ª. CCAV., de Anadia) e o Alberto Oliveira (aguedense de outro batalhão) em viagem para Águeda, no SIMCA 1100 branco do Neto, que conduzia. Em Coimbra, decorria uma manifestação de milhares de pessoas, entre a estão e a ponte, apoiando o 25 de Abril e, ao passarmos, imaginem, até o carro nos levantaram ao ar.
Chegados a Águeda, cada um seguiu para suas casas e lembro-me subir a então EN1, dentro da cidade, fardado e com o velho saco TAP aos ombros, e ser aplaudido pelas centenas de pessoas por quem passei, até à estação do comboio. Já na minha aldeia e ficando a saber onde estava minha mãe, fui ter com ela a uma terra junto à pateira - que hoje é minha.
«Então , já não vão para fora?», perguntou-me ela, referindo-se, naturalmente, à ida para Angola.
«Vamos, vamos na mesma...», disse-lhe. E desiludi-a.
Assim foi: parti a 29 de Maio de 1974 (era para ter sido a 27) e regressei a 8 de Setembro de 1975. Eu e toda a CCS dos Cavaleiros do Norte.
- PELREC. Cavaleiros do Norte do PELREC, na foto, já faleceram o alferes 
miliciano Garcia (a 2 de Novembro de 1979,m vítima de acidente), os 1º.s cabos 
Almeida, em Penamacor (a 28/02/2009) e Vicente, em Vila Moreira, de 
Alcanede (a 21/01/1997), ambos vítimas de doença); e os soldados Manuel 
Leal, de doença e no Pombal (a 18/06/2007) e Messejana,  também de doença,
 em Lisboa (a 27/11/2009).
- Ver capas de jornais do dia 25/04/1974,  AQUI