CAVALEIROS DO NORTE!! Batalhão de Cavalaria 8423, última guarnição militar portuguesa nas terras uíjanas de Quitexe, Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange, Songo e Carmona! Em Angola, anos de 1974 e 1975!

domingo, 16 de fevereiro de 2014

1 941 - O jornal de parede dos Cavaleiros do Norte

Estrela, Medeiros, Miguel Teixeira, Damião Viana e Vasco Vieira, Cavaleiros do Norte em folga. 
Capa do Jornal comemorativo ao 1º. aniversário do BCAV. 8423 e poema de João Estrela

Fevereiro de 1975 foi tempo de um jornal de parede no Batalhão de Cavalaria 8423, editado pelo gabinete de acção psicológica. 
«Teve a melhor adesão dos militares, seus únicos colaboradores e a maior aceitação da sua parte», sublinha o Livro da Unidade.
A primeira página que reproduzimos é já de Junho, da edição comemorativa do primeiro aniversário dos Cavaleiros do Norte em Angola. É dela que reproduzimos um poema de João Estrela, intitulado 

ORAÇÃO A ANGOLA

ANGOLA cheia de graça / a razão é convosco / a vontade não foi nossa / de manter a guerra colonial  /\  Esta terra que era vossa, bendita sejas como província / província do alvoroço / bendito o fruto do eu ventre / que luta por altos ideais, santificado seja a tua gente / que lutou contra animais  /\ Venha a vós... o vosso reino / seja feita a vossa vontade, perdoai-nos o desleixo /desleixo de verdade, por subjugar Angola / ao capricho da vaidade, mas... / livrai-nos do mal
ESTRELA
- ESTRELA. João Francisco Lavadinho Estrela, 1º. cabo 
operador-cripto, da CCS. Natural de Campo Maior,
 é quadro da REMAX. na Amadora.
  

sábado, 15 de fevereiro de 2014

1 940 - Fotos de Angola, Daniel Chipenda e futebol...

Grupo de Cavaleiros do Norte da Secção Auto - os «Ferrugens».
O Gasolinas, ali à esquerda, sentado. O Gateiro parece ser o 
de pernas esticadas. As outras caras são conhecidas, mas «falta»
lembrar os nomes. Quem pode ajudar? 
Daniel Chipenda, em baixo


A calmaria dos dias de Fevereiro de 1975, mesmo desconhecendo-se o seu destino próximo, foi, para os Cavaleiros do Norte, tempo de colher imagens para o futuro. Como a que aqui fica reproduzida, à porta da caserna e com oito homens do parque-auto. 
Estas fotos de circunstância - esta e milhares e milhares de outras -, foram embrulho de muitas promessas de amor enviadas em carta para Portugal. Ou como garantias de que, por lá, tudo ia bem, sem quaisquer problemas. Um familiar, uma mãe, um pai, uma namorada, uma esposa, um amigo, recebia(m) a(s) fotografia(s) e ficava(m) certo(s) que não havia mesmo problemas. 
A 15 de Fevereiro de 1975, Agostinho Neto foi a Cabinda fazer um comício do MPLA, que presidia. Em Luanda, estavam suavizados os embates armados entre militares do mesmo MPLA e da Facção Chipenda. Forças militares mistas (tropa portuguesa, do MPLA, da FNLA e da UNITA) ocuparam instalações da Facção Chipenda. O Hospital de S. Paulo, onde estavam internados homens de Chipenda, era guardado por FNLA e UNITA e desconhecia-se o paradeiro de Chipenda. Já teria abandonado Angola, segundo refere o Diário de Lisboa de há 39 anos.
Chipenda, expulso do MPLA, tinha entrado um mês antes em Angola e admitia-se que, em Luanda, teria 3000 homens armados. Luanda, onde «ocupou várias instalações».
O dia de sábado, o hoje de Fevereiro de 1975, era véspera de um FC Porto-Benfica, para o nacional de futebol da 1ª. divisão. Comandavam os encarnados, com 34 pontos, seguidos dos portistas, com 32 - ao fim de 21 jornadas e quando a vitória valia dois pontos, um o empate e zero a derrota. O relato foi ouvido através da onda média da Emissora Nacional, com golos de Victor Martins e Moínhos (2-0 ao intervalo) e Toni (no 3-0 final). 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

1 939 - Cavaleiros nas Quedas do Duque de Bragança

Almiro Maciel,  (furriel) João Dias, (alferes) José Lains, Évora Soares, Carlos Coelho e Famalicão (de pé), Carlos Costa e Fernando Sila, Cavaleiros do Norte de Santa Isabel. Em baixo, José Pires, da CCS, nas Quedas do Duque de Bragança

Os meados de Fevereiro de 1975, pela área operacional dos Cavaleiros do Norte, foram de tranquilidade, na fronteira do possível - entre a missão que por lá nos fazia jornadear e as tarefas políticas dos movimentos, que por lá se pretendiam politicamente implantar.
O facto de, a partir do dia 7, se terem deixado de fazer escoltas na estrada do café deu mais tempo para o lazer, o desporto e o recreio. Por exemplo, para passeios turísticos às Quedas do Duque de Bragança, local de notável beleza, para os lados de Malanje - bem perto do Quitexe, se pensarmos na dimensão territorial de Angola. Era como ir... ali e vir já.
Organizaram-se excursões, em viaturas militares (bem entendido), de que é exemplo o grupo da 3ª.- Companhia, a de Santa Isabel (na foto de cima) - por este tempo já aquartelada no Quitexe, onde dividia espaço e tarefas com os Cavaleiros da CCS.
A iniciativa estendeu-se por várias jornadas, normalmente de fins de semana - esticando, nalguns casos, para o Cacuso e até para Salazar - a actual Ndatalando. «Foi do maior agrado e teve extensão a todas as nossas subunidades, servindo de molde a outras unidades da ZMN», sublinha o Livro de Unidade.   

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

1 938 - Comando de Sector do Uíge, Neto e Savimbi...

Comando do Sector do Uíge, em Carmona. O (furriel) Rodrigues, na parada das traseiras 


A 13 de Fevereiro de 1975, foi extinto o Comando de Sector do Uíge (CSU), em Carmona, e o Batalhão de Cavalaria 8423 passou a depender directamente da Zona Militar Norte (ZMN). Nada que mudasse os procedimentos normais das suas guarnições. No Quitexe, em Aldeia Viçosa e Vista Alegre, mais o destacamento da Ponte do Dange.
A 1ª. Companhia, ao tempo aquartelada em Vista Alegre, para ali se mudaria entre os dias 6 e 12 de Junho - ida do Songo. Songo para onde fora a 24 de Abril anterior. A imagem, com o (furriel) Américo Rodrigues é da parada, situada na rectaguarda do CSU/ZMN.
O mesmo dia 13 de Fevereiro de 1975, em Luanda, foi o do regresso do director do jornal A Província de Angola, Rui Correia de Freitas, que em Outubro anterior fugira para a África do Sul, «escapando-se» de uma iminente prisão, que terá sido ordenada por Rosa Coutinho, o Alto Comissário. Na mesma Luanda e dia, Agostinho Neto, presidente do MPLA, admitia a integração dos irmãos Pinto de Andrade e Gentil Viana (da Revolta Activa), mas atacava a denominada Facção Chipenda (a Revolta do Leste) - por estar armada e «poder ser origem de conflitos armados».

E falou do Poder Popular e Comissões Populares de Bairro, que o seu movimento implantava em Luanda e outras cidades. «Para nós, com o povo no poder, é que pode haver verdadeira democracia. Se assim não for, será como no tempo do colonialismo», disse Agostinho Neto, acrescentando que «o povo angolano, que lutou de armas na mão durante 14 anos, não vai consentir agora mais qualquer tipo de opressão».
A sul, era Jonas Savimbi, presidente da UNITA que denunciava a presença de elementos políticos da Namíbia «activos na propaganda junto das populações» próximas da fronteira com a África do Sul. Igualmente denunciou o tráfico de armas e divisas na fronteira de Angola com o Sudoeste Africano, como divulgava a Agência France Press.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

1 937 - Alferes Meneses chega de Cabinda...

Daniel Chipenda (à esquerda) e Agostinho Neto (à direita) com um 
jornalista argelino (em cima). O alferes Manuel Menezes Alves (em baixo, foto recente)


O alferes Menezes chegou a Aldeia Viçosa por estes dias de Fevereiro de 1975. Vinha de Cabinda, do BCAÇ. 4519, e viria a destacar-se em Carmona, durante incidentes que envolveram MPLA e FNLA, de tal forma que foi louvado.
Oficial miliciano, regressou a Portugal e tornou-se empresário do sector das carnes, em Cortes (de Leiria), de onde era natural e onde residia e faleceu a 15 de Maio de 2013, vítima de doença
Ao dia 12 de Fevereiro de 1975, sabia-se por Angola que uma delegação da UNITA se deslocou a Ninda (no leste), onde Daniel Chipenda se aquartelava, na perspectiva de sanar as diferenças que tinha com o MPLA. Liderava uma das facções dissidentes, depois de contestar a liderança de Agostinho Neto e ser expulso do movimento. Em Luanda, e já desde o dia 4, estavam Mário Andrade, Joaquim Pinto de Andrade e Gentil Viana, da Revolta Activa - outra facção dissidente do MPLA, que também discordava da orientação de Agostinho Neto.
A conciliação, admitia-se na altura, segund a imprensa, era tida como «possível nos próximos dias» e saudada pelos meios políticos luandenses «como um factor positivo na etapa final que levará à independência de Angola, no próximo dia 11 de Novembro».
- O Adeus ao alferes miliciano Menezes

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

1 936 - O guião e o emblema dos Cavaleiros do Norte

O emblema do BCAV. 8423 e o autor, (alferes) Mário Simões (em baixo)


Há 39 anos, a 11 de Fevereiro de 1975, era dia de Carnaval. Por todo o mundo e também pelo Quitexe, por Aldeia Viçosa e Vista Alegre, no Uíge angolano, por onde, ao tempo, jornadeavam os Cavaleiros do Norte. Um ano antes, precisamente um ano antes, mas em Santa Margarida (Portugal), foram dados a conhecer o guião e o emblema do Batalhão de Cavalaria 8423, criado pelo talento do então aspirante a oficial miliciano Mário Simões.
«Sabia o comandante Almeida e Brito que eu estava ligado às artes gráficas, deu as ideias e desenhei-o», contou, agora, o (então futuro alferes) Mário Simões, dando conta que trabalhou algumas maquetes «a partir de um galhardete» mostrado por Almeida e Brito, com um cavalo em fuga.
O trabalho, feito em curtíssimo espaço de tempo, foi, disse, «exaustivo mas desafiante» e, aprovada a maquete, lá se mandaram fazer crachás, autocolantes e galhardetes. Creio que nunca o Batalhão chegou a ter estandarte e/ou guião. Não me lembro.
O trabalho de Mário Simões foi feito «em plena identificação com a unidade mobilizadora» - o Regimento de Cavalaria 4, de Santa Margarida, e, dentro desse contexto e servindo o lema «Perguntai ao Inimigo Quem Somos», assim «nasceu o guião e o emblema», em fundo preto (o do Batalhão), com outras cores para cada companhia operacional: a vermelha (para a 1ª. CCAV., que se iria a instalar em Zalala), a azul (para a 2ª. CCAV. , em Aldeia Viçosa) e a castanha (para a 3ª. CCAV., em Santa Isabel).
Foi isto há precisamente 40 anos, vejam lá como o tempo passa!
- SIMÕES. Mário José Barros Simões, alferes miliciano 
atiradr de cavalaria. Natural de Tomar e residente nas 
Caldas de Raíha, onde é professor.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

1 935 -O Peixoto, do Quitexe a Carmona e Cabinda...

Monteiro e Peixoto na rampa da Messe de Sargentos do Bairro Montanha Pinto, em Carmona (1975)

O Peixoto fez anos a 7 de Fevereiro (62!!! e vivó velho!!!!...) e, no dia, através destas modernidades que são os telemóveis, pusemo-nos à conversa. Olha lá, como vais, como não vais, como está a saúde e a família, então esses ossos, o reumatismo, os colesterol?!!! Essas coisas próprias de sexiiiiiiigenários.

O Peixoto, já vos digo, está avô e de boa saúde. Recém-aposentado, fez vida como professor, andou nas lides sindicais e lá continua por Braga, a pensar no que fazer quando se levanta, já com o dia ganho! E quem era o Peixoto da nossa jornada africana?
O Peixoto apareceu na CCS, no Quitexe, por transferência disciplinar, ido da CCAÇ. 4741/74, formada nos Açores, na Ilha Terceira. «Acampou» no meu quarto e do Neto.
 «Chegámos a Luanda a 3 de Agosto de 1974, depois de passar por Santa Margarida», lembra-se ele. 
Antes de chegar ao Quitexe, já tinha estado com o Mota Viana (de Zalala), em Sanza Pombo, transferido pelos mesmos motivos.
O Peixoto, que ali vemos (na foto) todo repimpado, na messe de sargentos (antiga messe de oficiais) do Bairro Montanha Pinto, em Carmona, foi depois transferido para um Batalhão de Artilharia, em Landana, no Enclave de Cabinda. 
«Passado um mês ou dois, já não me recordo bem, regressei a Luanda, a bordo de uma fragata da marinha, e a minha antiga companhia, a CCAÇ. 4741/74, embarcou em finais de Julho», contou o Peixoto.
- PEIXOTO. João Domingos Faria Taveira de Peixoto. 
Dos Taveira de Peixoto, de Braga. Furriel miliciano e, 
agora, professor aposentado. 

domingo, 9 de fevereiro de 2014

1 934 - Os amigos da tropa e o carnaval do Quitexe...

 Mortágua (CCS),  Jorge Pinho (Porto), Pagaimo (Morteiros) 
e Rocha, de Transmissões do Comando Sector Uíge (Arouca), em 1975

O Pelotão de Morteiros aquartelou com os Cavaleiros do Norte entre 6 de Junho de 1974 (dia da nossa chegada ao Quitexe) e os primeiros dias de Janeiro de 1975, quando partiu para Carmona - onde nos voltámos a cruzar. 
A imagem, enviada pelo Pagaimo, testemunha a partilha de espaços e emoções entre os militares das várias subunidades. É posterior a 2 de Março de 1975, quando nos deslocámos para o BC12, em Carmona, e, já nesta cidade, os Cavaleiros do Norte das transmissões se juntaram aos que operavam no comando do Sector do Uíge. Lá reencontraram o Pagaimo. E este Mortágua? Quem é mesmo? O Rocha, o da direita, também era de Transmissões, no Comando Sector do Uíge. «Provavelmente, após a sua extinção, esteve no BC12,  convosco, e era natural de Arouca», diz o Pagaimo.
Faz hoje 39 anos, era domingo de Carnaval e, no Quitexe, deu para ver como era a tradição, diferente do que era por cá. No Domingo Gordo, nem demos por ele, na vila. Demos, na 3ª. feira, quando o PELREC regressava dos lados de Camabatela e, já perto da aldeia do Cazenza, ouvimos batuques e alguns mascarados que dançava e gritavam (ou cantavam?), sacaroteando-se o(a)s mais novo(a)s, alguns de caras pintadas, outros(as) com máscaras muito simples, mas todos espelhando grande alegria.
Já na vila, ainda vimos alguns miúdos a correr pela avenida, com tambores e danças que faziam, parando das suas corridas,  e olhando para nós, que entrávamos de UNIMOG, devagar, devagarinho, a olhar para os pequenos entrudos e mortinhos pelo banho que nos retemperava a alma e limpava os corpos sujos do pó vermelho de Angola, suados na picada.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

1 933 - Medalha para o tenente Luz e espectáculo em Carmona

O tenente Luz, ladeado pelos alferes Ribeiro e Garcia (à esquerda) e tenente Mora, na avenida do Quitexe. Atrás, o edifício do comando do BCAV. 8423, vendo-se a bandeira portuguesa hasteada

A 8 de Fevereiro de 1975, um grupo de Cavaleiros do Norte assistiu, em Carmona a «um espectáculo de soldados e para soldados», na ZNM. «Causou impacto positivo no estado psicológico das tropas», nota o Livro de Unidade. 
Não tenho grande memória deste espectáculo, porventura por estar de serviço no Quitexe, ou porque não entrasse (não entrei) no grupo de «eleitos». Fosse lá pelo que fosse. Em Carmona, no pavilhão do FC do Uíge, recordo-me  de um espectáculo, participado por militares - sendo o capitão José Paulo Fernandes um deles, a tocar viola (ou guitarra). Mas isso foi, seguramente, depois de 2 de Março, pois os Cavaleiros do Norte já estavam aquartelados mo BC12, idos para Carmona precisamente nesse dia.
A Carmona, por estes dias de 1975, chegaram notícias de uma condecoração ao Tenente Luz, com a Medalha Comemorativa das Campanhas do Exército Português, com a legenda «Angola 1963-64-65». Foi publicada na Ordem de Serviço nº. 45..
- LUZ. Acácio Carreira da Luz, tenente do SGE e chefe da 
secretaria do Comando do BCAV. 8423. Aposentado, com a 
patente de capitão, faz 85 anos a 28 de Março e mora na Marinha Grande.
- MORA. João Eloy Borges da Cunha e Mora, tenente e adjunto do 
Comandante da CCS. Faleceu a 21 de Abril de 1993, com 67 anos.
- GARCIA. António Manuel Garcia, alferes miliciano de Operações 
Especiais (Rangers). Faleceu a 2 de Novembro de 1979, em acidente de 
viação, ao serviço da Polícia Judiciária.
- RIBEIRO. Jaime Rodrigues Picão Ribeiro, alferes miliciano sapador. 
Professor aposentado, mora no Tramagal.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

1 932 - Fim das escoltas e o acidente do Ferreira

Os patrulhamentos dos Cavaleiros do Norte chegavam ao
 Quibaxe e ao Piri, na estrada do Café, de Carmona para Luanda



Aos sete dias do mês de Fevereiro de 1975, os Cavaleiros do Norte deixaram de fazer patrulhamentos (ou escoltas) na Estrada do Café, serviço que desde toda a nossa comissão foi executado - às vezes a Úcua. Era um serviço «assaz desgastante», como sublinha o Livro da Unidade. E nós que o digamos, que quantas vezes galgámos aqueles todos quilómetros de alcatrão, foi parte rodeado de mata.
O Ferreira, furriel miliciano da 2ª. CCAV. 8423, feriu-se num desses patrulhamentos/escoltas, após despiste do UNIMOG , a 1 de Julho de 1974 - ainda todos nós éramos «maçaricos» na terra angolana. Despistou-se por volta do meio dia, numa curva do Quibaxe, onde se cortava para a fazenda/aquartelamento de Maria Fernanda.
«Atravessou a estrada e caiu por uma ravina, bem alta», recorda-se o Ferreira, que pela ravina rebolou, até ao fundo, tal qual o condutor do UNIMOG. Ambos ficaram bastante maltratados. Ele, com uma perna e uma clavículas partidas.
O fim das escoltas, há 39 anos, foi um alívio para a guarnição, nomeadamente para os operacionais, que as tinham de cumprir, por vezes em horas seguidas de tensão - ora de dia, ora de noite. Alívio para o pessoal e para as viaturas, sem que tal actividade operacional «conduzisse a qualquer finalidade prática».
- FERREIRA. José Maria Freitas Ferreira, furriel miliciano atirador de cavalaria, da 2ª. CCAV. 8423. Foi reclassificado como amanuense, na sequência deste acidente - embora contra o seu desejo. Vive em Costa (Guimarães), onde é profissional de contabilidade, consultadoria fiscal e auditoria.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

1 931 - O 2º. comandante e os mortos de Luanda

Porta d´armas dos Cavaleiros do Norte, no Quitexe (à direita). Vê-se 
a bandeira portuguesa no edifício do comando do Batalhão de Cavalaria 8423

A 4 de Fevereiro de 1974, em Santa Margarida, apresentou-se o major de cavalaria Ornelas Monteiro, que seria o 2º. comandante do Batalhão de Cavalria 8413. Seria, porém, por pouco tempo. Na verdade, «por motivos imperiosos de serviço» foi solicitado pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) e não seguiu para Angola. 
Acabou por ser «deslocado nas vésperas do embarque» para o Comando Chefe das Forças Armadas de Guiné (Bisau). 
Um ano depois, a 6 de Fevereiro e no Quitexe, sabíamos que o Alto-Comissário de Portugal em Angola, responsabilizou o MPLA pelos incidentes do bairro de S. Paulo, no dia 3 - nos quais morreram o capitão Rodrigo Pinheiro e o alferes José Santos.
“Um numeroso grupo de elementos da população pretendeu assaltar e saquear o estabelecimento de um comerciante, acusado de ter morto, na véspera, dois civis negros”, lê-se no comunicado, acrescentando que (o comerciante) foi retirado do local pelas FAP e FAPLA e que «um posterior  aglomerado de pessoas e concretização do assalto levou a nova intervenção das FAP e  das FAPLA mas também do ELNA, que contiveram os ânimos, com alguns disparos para o ar, sem consequências”.
O facto de “um civil ter sido retirado do local numa viatura das FAP levou a população a tomá-lo pelo comerciante, chegando a apedrejar os militares que o acompanhavam”, refere  o comunicado.
Foi nesta altura que “começaram os tiros, inicialmente para o ar e de seguida com pontaria baixa, atingindo mortalmente um capitão e um alferes das FAP, um sargento do ELNA e 5 elementos civis», ferindo ainda um capitão das FAP (Manuel Guilherme Figueiredo), dois militares do ELNA e 9 civis.
O comunicado do Alto Comissário Silva Cardoso cita o relatório da comissão de inquérito para concluir:
1 - Que se admite que os disparos que provocaram as baixas foram feitos por elementos das FAPLA.
2 - Que não ficou provada a intenção de provocar vítimas.
3 - Que não ficou provado que o desencadeamento da acção de fogo tenha sido ordenada.
O Comité Central do MPLA, sobre o incidente, ordenou à suas chefias militares a abertura de um inquérito para “esclarecer a verdadeira identidades dos autores dos disparos”.
- FAP. Forças Armadas Portuguesas.
- FAPLA. Forças Armadas Poplares de Libertação de Angola (MPLA).
- ELNA. Exército Nacional de Libertação de Angola (FNLA).

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

1 930 - O nosso amigo e saudoso Mosteias...

Mosteias e Viegas na avenida do Quitexe, em frente à secretaria da CCS (1974)

O Mosteias partiu há um ano, deixando dores que o tempo não cicatrizou. O Mosteias era daqueles que estão sempre e nunca se esquecem. Era homem grande e companheiro maior. Entre todos! Por todos e com todos. O Mosteias é nome e gente das nossas memórias de todo o tempo. 
Os Cavaleiros do Norte têm presente o seu (bom) humor, a sua sátira critica, a sua bondade, a partilha com que se dava, se dividia, se mostrava, se fazia templo de cumplicidades, sempre generoso nos dias em que connosco se deixou medrar para a vida e para os sonhos.  
O Mosteias morreu há já um ano, que hoje se passa!
Impossível, seria não lembrar como fomos cúmplices, solidários e amigos, no tempo que comungámos há 40/41 anos, desde logo pelas terras de Santa Margarida, depois pelo chão angolano do Uíge, onde fizemos comissão,  partilhámos mesa, palavra e sensibilidades, semeámos e cultivámos esperanças de um futuro melhor.
Interpreto fielmente a emoção dos Cavaleiros do Norte ao recordar, hoje - o dia em que se faz um ano da última viagem do Mosteias para o sítio de paz onde nos espera - recordar a sua proverbial calma, a sua imensa serenidade, o seu imortal talento para ser diferente e igual! Sempre amigo e sempre companheiro!
Até um destes dias, grande Mosteias!
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

1 929 - Dia do MPLA e oficiais portugueses mortos

A chegada de Agostinho Neto da Luanda, foto do jornal A Província de Angola. Em baixo, o capitão miliciano Ramiro Pinheiro, morro a 3 de Fevereiro de 1975, na praça de S. Paulo em Luanda, com o alferes Santos. 

A 4 de Fevereiro de 1985, Agostinho Neto chegou a Luanda. Era o Dia do MPLA  e ele o seu presidente. "Vamos o mais rapidamente possível construir a nossa Nação independente, construir a democracia para o povo e redistribuir as riquezas do País", disse ele, para quem o ouviu, em banho de enorme entusiasmo.
Entusiasmo que, em relação ao MPLA, não era igual pelas bandas do Quitexe e na generalidade do Uíge, onde predominava a FNLA. «Foi comemorado o 4 de Fevereiro, o feriado oficial do MPLA, sem grande expressão na área do Batalhão», lê-se no Livro da Unidade.
O Governo de Transição, em despacho assinado pelo Alto Comissário Silva Cardoso, deliberou que o dia era feriado nacional em Angola - o que, pelo Uíge, passou completamente despercebido. Mas era um dos três primeiros feriados nacionais angolanos, por, nesse dia de 1961, se ter realizado o ataque às prisões de Luanda, dirigido pelo MPLA. 
Os outros eram os dias 15 de Março - por, em 1961, se ter realizado o ataque generalizado da UPA (a futura FNLA, de Holden Roberto) às populações brancas do norte uíjano. E 25 de Dezembro - o dia de, em 1966, se ter realizado o ataque da UNITA (de Jonas Savimbi) a Teixeira de Sousa.
Na véspera, dia 3 e no bairro de S. Paulo, em Luanda, incidentes tinham provocado 10 mortos - entre eles um capitão e um alferes miliciano (foto ao lado) portugueses, para além de outro capitão português ferido. O Governo de Transição ordenou «um rigoroso inquérito».
O capitão miliciano era Ramiro José Amaro de Azevedo Pinheiro, assistente do Instituto Superior Técnico e jogador de andebol do Sporting. O alferes era José Domingos dos Santos. Ferido, gravemente, ficou o capitão miliciano Manuel Guilherme Carvalho Figueiredo - todos eles da 1ª. CART. 6323.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

1 928 - Dias de anos e luto nos Cavaleiros do Quitexe

O Madaleno, assinalado a  amarelo, do PELREC. Também, atrás, 
Viegas (furriel), Marcos, Pinto, Caixarias a e Garcia (alferes) e Oliveira, 
Hipólito, Aurélio (Barbeiro), o Madaleno e o Neto (furriel)


Quitexe, 3 de Fevereiro de 1975. O PELREC tem um companheiro de festa, o Madaleno, que faz 23 anos. E fez (o pelotão) uma escolta à Fazenda do Pumbaloge, na estrada para Carmona, pela manhã. Viemos carregados de cachos de bananas, dados pelo administrador da fazenda. Escapa-nos o nome, varrido na memória pelo tempo de 39 anos que passou, mas está bem presente a sua inquietação: «O quer é que vai ser disto?».
Isto, era... Angola! O futuro da Angola independente, com Governo de Transição empossado dias antes.
A tarde foi para outra escolta, a camiões de longo curso, até Aldeia Viçosa. Ao fim, banho tomado, foi tempo de fartas e frescas cervejas, a molhar o bife com batatas fritas e ovo a cavalo do Topete.
A graça dos anos do Madaleno é que os fez ( e faz) por duas vezes: nasceu a 1 de Janeiro, mas só foi registado a 3 de Fevereiro de 1952. Eram outros, os tempos! Pela sua Covilhã e Portugal! 
O dia, na guarnição, foi também de anos do Cardoso, 1º. cabo sapador. E do Mendes, 1º. cabo de transmissões. Cavaleiros do Norte de outros pelotões.
Em Lisboa, Rosa Coutinho dava extensa entrevista ao Diário de Lisboa e, entre outras coisas, afirmava que «Angola é o antigo território português com melhores condições económicas». «O que é preciso - sublinhou o ex-Alto Comissário - é que não se enfeude a um determinado grupo de interesses, mantendo a sua capacidade de país independente e negociar com todos eles para salvaguarda dos interesses do povo».
- MADALENO. Francisco José Matos Madaleno, 
soldado atirador do PELREC. Aposentado, mora na Covilhã.
- CARDOSO. Silvério Teixeira Cardoso, 1º. cabo sapador.
 Mora em Alfornelos, na Amadora.
- MENDES. Carlos Alberto de Jesus Mendes, 1º. cabo da 
CCS. Faleceu a 21 de Abril de 2010, nos Prazeres, em Lisboa.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

1 927 - Comício da FNLA em Aldeia Viçosa

Cavaleiros do Norte de Aldeia Viçosa: Rebelo, Martins, Mourato e Matos (furriéis milicianos). Em baixo, o comandante Bundula, da FNLA, no comício de há 39 anos (foto de António Letras)


Aldeia Viçosa, norte de Angola, província do Uíge, 2 de Fevereiro de 1975. A 2ª. CCAV. 8423 dos Cavaleiros do Norte está ali aquartelada desde 10 de Junho de 1974 e é dia de um comício da FNLA - o que implicou naturais medidas de segurança preventiva.
O (alferes miliciano) Machado lembra-se de «tudo ter corrido bem» e da presença do comandante Bundula, da FNLA. Disseram os oradores das suas ideias e o povo cantava «Lá-lá-lá-lá... / Efe... ene... éle... ààà!!!».
A 2ª. CCAV. 8423 era comandada pelo capitão miliciano Cruz e nesse dia lá esteve também José Paulo Fernandes, comandante da 3ª. CCAV.). O (furriel) João Dias, de Zalala, garante que, depois do comício, também lá  esteve Castro Dias, o capitão miliciano que comandava a 1ª. CCAV. 8423. Ao tempo, estava aquartelada em Vista Alegre, a bem poucos quilómetros, na estrada do café e na direcção de Luanda.  
De Luanda, justamente e via aerograma, chegavam notícias pelo SPM da tarde desse domingo: «Ontem, houve um motim na cadeia e a tropa teve de intervir», relatava o meu amigo Alberto Ferreira. Acrescentava a sua estranheza pelo facto de lá terem ido patrulhas do MPLA e da FNLA para ajudar a controlar a situação.
Os presos (civis) reclamavam uma amnistia, pela tomada de posse do Governo de Transição, e dois deles ficaram ligeiramente feridos. Alguns outros, conseguiram evadir-se durante a insurrecção. Ao reler este aerograma, não deixe de me lembrar do que pensei na altura, influenciado pelo relato do Alberto: «Isto, ainda vai dar para o torto!...».

sábado, 1 de fevereiro de 2014

1 926 - Os membros do Governo de Transição

O Governo de Transição de Angola, empossado a 31 de Janeiro de 1975. Em baixo, Lopo do Nascimento (de branco), Johnny Eduardo e José N´Dele, com Almeida Santos, à direita (de óculos). Foto do jornal A Província de Angola, de 1 de Fevereiro de 1975



Os meios de comunicação, há 39 anos, estavam longe da capacidade e velocidade de hoje, quando se carrega numa tecla e «estamos» instantaneamente em qualquer parte do mundo. Há 39 anos, só dias depois os Cavaleiros do Norte puderam conhecer as caras dos governantes da transição, em Angola. As que, na imagem, agora captámos na net.
A posse foi no Palácio do Governador, em cerimónia presidida por Almeida Santos, Ministro da Coordenação Inter-Territorial. «A máscara do colonialismo caiu", disse Manuel Rui Monteiro, ministro da Informação, na varanda exterior do palácio e falando para mais de 5000 pessoas.
Antes, e após o acto de posse, discursaram o Alto Comissário Silva Cardoso, Almeida Santos e Johnny Eduardo (FNLA).
Silva Cardoso, afirmando que MPLA, FNLA e UNITA eram «os únicos legítimos representantes do povo angolano». Almeida Santos sublinhando que «o acordo da Penina (do Alvor) será o que os angolanos quiserem ou a primeira Constituição de Angola, ou um simples papel toando letra morta». 
«Tudo deverá ser equilibrado por uma política justa», disse Johnny Eduardo.
Os Cavaleiros do Norte, dias antes, tinham recebido mais dois companheiros: o 1º. cabo radiotelegrafista Joaquim F. N. Pexim (na CCS) e o soldado atirador Fernando M. D.  Sousa (na 1ª. CCAV. 8423).


sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

1 925 - O dia da posse do Governo de Transição de Angola

Silva Cardoso, Alto Comissário e Presidente do Governo de Transição de Angola, no discurso da tomada de posse, a 31 de Janeiro de 1975. Lopo do Nascimento, à sua direita (de roupa clara), Johnny Eduardo e José Ndele (à sua esquerda). Imprensa do dia 31 de Janeiro de 1975 (em baixo)



Santa Margarida, 31 de Janeiro de 1974. O Batalhão de Cavalaria 8423 está em formação, no Destacamento do RC4, e é alvo de uma visita inspectiva do coronel Paixão, da Inspecção Geral de Educação Física do Exército.
Quitexe e Uíge, Angola, 31 de Janeiro de 1975! Um ano depois! Os Cavaleiros do Norte, à distância de 240 quilómetros, sabem da tomada de posse do Governo de Transição de Angola. E quem era quem?
O presidente era o brigadeiro Silva Cardoso, também Alto-Comissário. A parte portuguesa incluía os ministros Vasco Vieira de Almeida (Economia), Albino Antunes Cunha (Transportes e Comunicações) e Manuel Alfredo Resende Oliveira (Obras Públicas, Habitação e Urbanismo).
O Colégio Presidencial tinha representantes dos três movimentos: Lopo do Nascimento (MPLA), Johnny Eduardo (FNLA) e José Ndele (UNITA).
os ministros:

- MPLA: Manuel Rui (Informação), Saidy Mingas (Planeamento e Finanças) e Diógenes Boavida (Justiça). Os Secretários de Estado: Augusto Lopes Teixeira (Indústria e Energia), Cornélio Caley (Trabalho) e Henrique Santos (Interior).
- FNLA: Kabaneu Saúde (Interior), Samuel Abrigada (Assuntos Sociais) e Mateus Neto (Agricultura). Secretários de Estado: Graça Tavares (Comércio), Hendrick Vaal.Neto (informação) e Baptista Nguvulu (Trabalho). 
- UNITA: Eduardo Wange (Educação), António Dembo (Trabalho) e Jeremias Kalandula  Chitunda (Recursos Naturais). Secretários de Estado: Jaka Jamba (Informação), Manuel Teixeira Coelho (Pescas) e João Waiken (Interior).

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

1 924 - Os Cavaleiros nas vésperas do Governo de Transição

João Monteiro, o Gasolinas, à esquerda. O Zé Coelho, ao centro. 
E quem são os outros Cavaleiros do Norte?

A 30 de Janeiro de 1974, pelo Quitexe, por Aldeia Viçosa e Vista Alegre, mai-la Ponte do Dange, faziam--se serviços de rotina, com as actividades dos Cavaleiros do Norte «muito limitadas, por grande falta de meios humanos».
Era bom de ver: a tropa de mesclagem tinha sido desactivada e a guarnição ficou reduzida, daí resultando o natural «algum esforço para as tropas metropolitanas». Entraram, os mesclados, de «licença registada a partir de 1 de Dezembro» de 1974. O que, lê-se no Livro da Unidade, «rapidamente se realizou com o decorrer do mês».
Por lá se iam passando os dias, também com vastas idas aos restaurantes do Quitexe - como se vê na imagem, onde se reconhece o malogrado José Gomes Coelho, sapador, que faleceu a 13 de Maio de 2007, vítima de doença. 
A Cimeira do Alvor polarizou a atenção dos Cavaleiros do Norte, mas não sendo muitas as informações, militares, vali-me eu, muitas vezes, dos bons ofícios do meu saudoso amigo Alberto Ferreira, que era cabo especialista da Força Aérea. Foi por ele que, faz hoje 29 anos, soube de alguns nomes do Governo de Transição, que me foi enviada em letra de imprensa, ou no Província de Angola (o mais provável, por ser jornal matutino), ou o Diário de Luanda (vespertino). Ou o Comércio.
E quem era, então, os governantes da Transição? Pouco adiantava, para além de que Vasco Vieira de Almeida seria o Ministro da Economia e que os ministérios seria 12 - três portugueses, três o MPLA, três da FNLA e três da UNITA. E que teria um Colégio Presidencial, com os três movimentos representados: Lopo do Nascimento (MPLA), Johnny Eduardo (FNLA) e Joseph  Ndele (UNITA). 
- COELHO. José Gomes Coelho, soldado sapador. 
Morava em Oldrões da Calçada, em Penafiel, onde 
faleceu a 13 de Maio de 2007. Ver AQUI

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

1 923 - Murmúrios e agitadores nas vésperas do Governo de Transição

Vila do Quitexe, entrada do lado de Luanda. O Bar do Rocha, à direita (foto da net)


Aos idos dias 29 de Janeiro de 1975, pelo Uíge angolano, murmurava-se sobre o Governo de Transição, que iria tomar posse a 31, mas sem informação muito actual. Ou (até) credível. 
O comandante Almeida e Brito, na véspera, esteve no Comando de Sector, em Carmona, mas, do que lá foi feito, dito ou resolvido, pouco soubemos na guarnição. O alferes Garcia era quem, mais próximo de nós, por vezes nos dava dicas (captadas na messe de oficiais), mas necessariamente com muito recato, mesmo sigiloso.  
A imprensa angolana dava conta de iminência de incidentes a 31 de Janeiro, dia da tomada de posse do Governo de Transição. «Agitadores a soldo não se sabe de quem», referia um despacho da ANI, indicando que «andam pelos subúrbios a incitar a população a fazer distúrbios no dia 31».
O MPLA, sobre tal e em comunicado, convidada os seus militantes a denunciar os agitadores e «a não se deixarem arrastar por manobras» que «prejudicassem o movimento». 
Jonas Savimbi, em Nova Lisboa, dava conta desses mesmos (ou outros) agitadores e denunciava o perigo de um golpe de Estado em Portugal. Um golpe que, em caso de vitória, poderia levar à denúncia do Acordo do Alvor. «Há inimigos da nossa independência que trabalham dia e noite», disse Jonas Savimbi.
A FNLA fazia chegar a Luanda os militantes que iriam integrar o Governo de Transição, sem se conhecerem os nomes.
- ANI. Agência Nacional de Informação.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

1 922 - Os dias do pré-Governo de Transição.

Aquartelamento do Quitexe, visto do lado da capela. A primeira cobertura era a da caserna do PELREC, a segunda dos sapadores e outros. O edifício branco era o do comando do Batalhão. Em baixo, Rosa Coutinho e Silva Cardoso



Os Cavaleiros do Norte, senhores e seguros de si, foram acautelando, pelo chão uíjano, a paz suficiente para que os movimentos de libertação de instalassem e passassem as suas mensagens políticas. Não era fácil e acumulavam-se desconfianças entre eles e, nalguns casos, contra as Forças Armadas Portuguesas - que mantinham a soberania da terra angolana, enquanto se preparava a posse do Governo de Transição, por este dia de 1975 prevista para 31 de Janeiro seguinte.  
A 27, Daniel Chipenda acabou por dar uma conferência de imprensa no Luso e acusou as autoridades portuguesas de tentarem impedir a sua entrada no país. «Fui atacado como um autêntico agente do imperialismo e os meus detractores tentaram impedir que eu contactasse com o nosso povo, a fim de lhe explicar a situação», disse Chipenda, que liderava a Revolta do Leste, facção dissidente do MPLA, que o excluiu do movimento.
Luanda fervia.
Rosa Coutinho, que desempenhava as funções de Presidente da Junta Governativa e Alto-Comissário desde Novembro de 1974, regressou a Lisboa faz hoje 39 anos. Foi substituído pelo brigadeiro Silva Cardoso.
A Emissora Oficial de Angola (EOA) não quis divulgar um comunicado da FNLA e a FNLA assaltou a estação, a 25 de Janeiro de 1975. O comunicado fazia graves acusações ao Governo e à Junta Governativa e Hendrick Vaal Neto, à frente de uma força armada, irrompeu pela pela EOA, paralizando-a e destruindo algum material, para além de agredir o locutor de serviço.   
O comandante Correia Jesuíno, Secretário de Estado da Comunicação Social, fôra o autor do impedimento e a 27 foi dado como desaparecido António Cardoso, locutor e militante do MPLA - supostamente raptado pela FNLA. FNLA que não rejeitou responsabilidades e identificou Cardoso como «não mais que um nó da vasta rede anti-FNLA, à qual pertence, como ele próprio declara». A libertação foi exigida pelo MPLA.
O ambiente em Luanda, como se repara, era tenso mas admitia-se que a libertação de Cardoso «poderia restabelecer a confiança». A 28 de Janeiro de 1975!

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

1 921 - A morte do atirador João Messejana

PELREC do BCAV. 8423. O Messejana é o terceiro, de pé, a contar da esquerda. Também já faleceram, o Almeida (1º. à esquerda, de pé), o alferes Garcia (primeiro do lado direito, de pé), o Vicente (primeiro da esquerda, em baixo) e o Leal (o quarto)


Ao blogue chegaram notícias de luto: a morte do Messejana, que foi soldado atirador de cavalaria, do PELREC. A 27 de Novembro de 2009.
O Messejana era do litoral alentejano, rapaz de poucas falas, sempre muito introspecto, mas cumpridor e disciplinado. Dele não houve, alguma vez, alguma queixa, algum dedo apontado. Conheci-o bem, era do «meu» PELREC e, de Santa Margarida, no IAO, recordo uma hesitação dele, a galgar um arame de tropeçar imaginário. Que ele não via, ninguém via! E o descanso dele quando, depois de todo o pelotão passar, lhes foi dito que não existia. Irritou-se, protestou, mandou bocas, chamou nomes às mães de alguém? Não, aceitou a malandrice dos furriéis instrutores com um sorriso. Um sorriso quase cúmplice.
O Messejana voltou a Portugal e ingressou numa força policial. Em Lisboa. Dela saiu anos depois, por razões que não vem ao caso. Procurei-o, sabendo disso, com o Cruz, por sítios que eram as ruas dele. Não o encontrámos. Mais tarde me disse o Cruz que, achando-o na cidade, tinha amputado uma perna e vivia com dificuldades, ajudado pela mãe. Estávamos nos anos 90 e tal!
Nada mais soube dele! Nem o Cruz!
Hoje, soube que faleceu a 27 de Novembro de 2009. Tinha feito 57 anos a 13 de Setembro. Nascido de 1952. 
É um dos PELREC´s já falecidos: ele, o alferes Garcia, os 1ºs. cabos Almeida e Vicente e o soldado Leal. Aqui os evocamos com saudade.

sábado, 25 de janeiro de 2014

1 920 - Escaramuças em Aldeia Viçosa e Revolta de Chipenda

Movimentos no comício de Aldeia Viçosa, a 26 de Janeiro de 1975. Daniel Chipenda, líder 
da Revolta do Leste, facção dissidente do MPLA, que há 39 anos quis entrar na cidade do 
Luso (em baixo, o da esquerda). Foto de António Carlos Letras


Há 39 anos, em Aldeia Viçosa do Uíge angolano, houve abertura oficial de uma delegação da FNLA e, por acréscimo, este movimento e o MPLA quiseram fazer um comício conjunto. Mas a coisa deu para o torto. «Não conseguiram entendimento, o que deu origem a intervenção das NT, em situação apaziguadora, que se conseguiu», narra o Livro da Unidade.
Os movimentos emancipalistas, por este tempo, desenvolviam «actividades de politização» e, pelas áreas de Aldeia Viçosa e Vista Alegre (respectivamente, as da 2ª. CCAV. e 3ª. CCAV. 8423), a influência dividia-se, o que, sublinha o Livro da Unidade, «tem dado aso a situações da atrito».
Bem mais complicada era a situação no Luso, onde, na véspera, tinham tentado entrar forças (armadas) da Revolta do Leste, a facção liderada por Daniel Chipenda, que tinha sido expulso do MPLA. O jornal «O Comércio», de Luanda, dava conta que 100 homens quiseram entrar na cidade, idos do aquartelamento de Ninda - onde Chipenda preparava um congresso. Estava determinado, segundo «O Comércio», «a não provocar um conflito armado», mas preocupava-se com a integração dos seus homens no futuro Exército de Angola, nos termos da Cimeira do Alvor.
As FA portuguesas e o MPLA tomaram posição para evitar a entrada das forças de Chipenda no Luso, o major Soares parlamentou com os comandantes Kalimanjaro e Rosa e as forças estariam cercadas. Outro oficial português propôs que entrassem na cidade... desarmados, mas os comandantes da Facção Chipenda não aceitaram. Só se o MPLA também fosse desarmado.
Kalimanjaro acabou por retirar as suas forças, para três quilómetros fora da cidade, no sentido de evitar incidentes. Próximas, segundo «O Comércio», estavam duas companhias portuguesas de paraquedistas e a FNLA, noutro ponto, também se preparava para evitar a entrada da Facção Chipenda na cidade.
O jornal de Luanda noticiava ainda que Chipenda tinha forças estacionadas em Nom, Binda e Ibungo.
Ver AQUI

1 919 - Expectativas no Uíge e novo Alto-Comissário de Angola

Tenente Luz, alferes Ribeiro, Hermida, Cruz e Honório (médico), atrás; tenente Mora (de óculos) e capitães Oliveira e Leal (médico), oficiais do Quitexe. O general Silva Cardoso, Alto-Comissário anunciado há 39 anos (em baixo)





Os dias do Quitexe iam sendo riscados no calendário, sem novidades especiais, mas todos marcados pela expectativa que levedava quanto ao dia do regresso. Sabemos hoje que ainda estava longe.
A imagem ali de cima, de menos boa qualidade, vem ao blogue por ser invulgar: reúne quase todos os oficiais do Quitexe. Todos vivos, menos o tenente Mora (falecido a 21 de Abril de 1993, com 67 anos) e o capitão Oliveira. Apenas faltam o comandante, tenente-coronel Almeida e Brito (falecido a 20 de Junho de 2003), o capitão Falcão (residente em Coimbra, em debilitado estado de saúde) e o alferes Almeida, 67 anos, cônsul de Marrocos no Algarve e empresário e morador em Albufeira
A 25 de Janeiro de 1975, hoje se fazem 39 anos, soube-se que, definitivamente, o  almirante Rosa Coutinho deixava de ser o Alto-Comissário em Angola. Regressava a Lisboa no dia seguinte e era acompanhado do comandante Correia Jesuíno (Secretário de Estado da Comunicação Social de Angola), capitão Armando da Fonseca Almeida (SE do Trabalho), majores Pezarat Correia (da Comissão Coordenadora do MFA/Angola) e José Emílio da Silva (da Junta Governativa) e comandante Eugénio Carvalheiro.
O brigadeiro Silva Cardoso tomaria posse no dia 28 (a 3ª.-feira seguinte), em Lisboa, e no mesmo dia partiria para Luanda. Fazia parte da Junta Governativa e participara na Cimeira do Alvor. Seria Alto-Comissário entre 28 de Janeiro e 2 de Agosto de 1975.
- LUZ. Acácio Carreira da Luz, então tenente e agora capitão aposentado. Tem 85 anos (a 28 de Março) e mora na Marinha Grande.
- RIBEIRO. Jaime Rodrigues Picão Ribeiro, alferes miliciano sapador. Engenheiro e professor, aposentado, 63 anos, mora no Tramagal.
- HERMIDA. José Leonel Pinto de Aragão Hermida, alferes miliciano de transmissões. Professor aposentado, reside na Figueira da Foz.
- CRUZ. António Albano Araújo de Sousa Cruz, alferes miliciano mecânico. Engenheiro aposentado, 68 anos, mora em Santo Tirso.
- HONÓRIO. António Honório de Campos, alferes miliciano médico. Aposentado, faz 70 anos a 16 de Abril de 2014 e mora em Coimbra.
- LEAL. Manuel Soares Cipriano Leal, capitão miliciano médico. Aposentado e a caminho dos 86 anos, mora em Fafe.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

1 918 - Rotação dos Cavaleiros e carestia de vida...

Aquartelamentos de Vista Alegre (1ª. CCAV.) e Aldeia Viçosa (2ª. CCAV., em baixo)


Aos 20 e tantos dias do distante Janeiro de 1975, pelas bandas do Quiexe, de Aldeia Viçosa e Vista Alegre, era cada vez maior o murmúrio sobre a remodelação que levaria (e levou) os Cavaleiros do Norte para  Carmona.
O destino parecia traçado: o BC12, unidade que guarnecia a capital do distrito do Uíge desde 1961, ia ser extinto e poderia ser e foi) o nosso destino. No entanto, como leio no Livro da Unidade, «nada de positivo ainda se concretizou sobre tal movimento». Aguardava-se «sanção superior, resultante das alterações que a Cimeira do Alvor possa impor».
Os dias políticos de Angola, há 39 anos, andavam à volta de quem seria (ou não) membro do Governo de Transição. A memória do Acordo do Alvor estava fresca mas, na capital, os representantes dos três movimentos nada adiantavam.
Vaal Neto, da FNLA, dizia que «nada está definido». A UNITA, nada dizia. O MPLA nada de oficial dava a conhecer.
A imprensa de Luanda, entretanto, preocupava-se com isso e outras coisas. Por exemplo, com a Lei de Imprensa e o eventual (futuro) controlo partidário dos órgãos de comunicação social. O MPLA era acusado de manipular alguns deles.
A 24 de Janeiro de 1975, três notas da capital angolana, retiradas do Diário de Lisboa desse dia: «O êxodo dos colonos continua (embora a um ritmo menos acelerado), a par e passo com a falta de cerveja e refrigerantes e uma contínua alta de preços».
Eram os passos que se davam, no processo de descolonização e independência de Angola.
- BC12. Batalhão de Cavalaria nº. 12, na 
saída de Carmona, para o Songo.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

1 917 - Inspecção aos Cavaleiros do Norte, há 40 anos!

Porta d´armas do RC4 (em 2012) e um radiotelegrafista, alferes Santos e os 
furriéis milicianos Queirós e Rodrigues, em Santa Margarida (1974)




Os Cavaleiros do Norte foram inspeccionados a 23 de Janeiro de 1974. Há 40 anos, hoje se completam!!!. Decorria a Escola de Recrutas, no Destacamento do Regimento de Cavalaria 4, em Santa Margarida, e foi uma inspecção normal, ao tempo feita pelo coronel de cavalaria Magalhães Corrêa, do DAC.
Um ano depois, no mesmo dia de 1975 e com os Cavaleiros do Norte no Uíge angolano, o comandante Almeida e Bruto deslocou-se a Aldeia Viçosa, onde se aquartelava a 2ª. Companhia de Cavalaria 8423, comandada pelo capitão miliciano José Manuel Cruz. Visita de trabalho, por «necessidade de estabelecimento de contactos operacionais», e o mais certo é que fosse acompanhado pelo capitão José Paulo Falcão, o oficial adjunto - que exercia funções de 2º. comandante.
Agostinho Neto, na véspera e em Lisboa, de visita à Associação Portuguesa de Escritores, afirmou crer que «depois da independência, haverá mais negros em Portugal e mais brancos em Angola». Sobre a independência, precisamente, acrescentou que «um recuo em Portugal, será um recuo para Angola e um recuo para Angola, será um recuo para Portugal».