CAVALEIROS DO NORTE!! Batalhão de Cavalaria 8423, última guarnição militar portuguesa nas terras uíjanas de Quitexe, Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange, Songo e Carmona! Em Angola, anos de 1974 e 1975!

quinta-feira, 7 de junho de 2012

1 309 - As Amazonas do Norte, do Quitexe a 2012!!!

As Amazonas do Norte, no Encontro de Paredes (2012)


A equipa do blogue jura não saber quantas mentiras foram pregadas a algumas destas amazonas da foto, que há 38 anos se despediram em mar d´abraços e beijos tímidos e viram partir os seus amores para a guerra! Mas algumas destas, Deus as abençõe, foram bem enganadinhas nas juras d´amor fiel que alguns Cavaleiros do Norte lhe deixaram a derreter no coração.
Duas delas (e não falo por mim!) sei eu bem quantas saudades derreteram em quilómetros de areogramas, com falinhas bonitas, saudosas, ternurentas e doces, regadas de emoção, a suspirarem saudades e com mil orações erguidas ao céu, para o regresso são e salvo dos seus amores. Fui cúmplice nalgumas estórias que os multiplicaram, os sedimentaram e os ampliaram!!! E tais amores eram, que ainda hoje se namoram: casadinhos se fizeram a seguir de chegados d´Angola e bem casadinhos continuam! Pois não!!!
Cúmplice porque, no distante quarto do Quietexe, e depois em Carmona, entre palavras embebecidas e música de época, «pus» os jovens cavaleiros do Norte a debitarem promessas e repromessas d´amor para sempre, em cassetes que, chegadas a Portugal, faziam as jovens namoradas lamber o beiço de paixão e derreterem-se de saudades.
As amazonas da foto são mulheres (e até uma filha e uma neta) de alguns dos Cavaleiros do Norte que, a 2 de Junho de 2012, em Paredes, mataram saudades da partida para Angola. A primeira dama, ali do lado esquerdo, de fato azul e mala no braço, é a amazona Luz, esposa do nosso tenente (agora capitão). As outras, andam pela casas do 50, 50 e tal, pois então. Mas todas muito bem conservadas, ou não andassem nos brincos e cheias de miminhos dos Cavaleiros do Norte. Que foram garbosos e destemidos na guerra, mas em casa são dóceis maridos e melhores pais. Pois, pudera!!!... Quem é que manda lá em casa, quem é?
Abraço para todas!


quarta-feira, 6 de junho de 2012

1 308 - Os Cavaleiros do Norte de Zalala em Paredes

Pinto, Barreto, Queirós, Mota Viana e 
Rodrigues, antigos furriéis milicianos e Cavaleiros de Zalala (2012)

O encontro da CCS do BCAV. 8423 foi enriquecido com a presença de cinco Cavaleiros do Norte de Zalala: o «ranger» Pinto, o enfermeiro Barreto e os atiradores Queirós, Mota Viana e Rodrigues. Tudo gente boa!!
O Pinto é meu velho conhecido, já desde a jornada formativa de Lamego, onde fomos instruendos do 2º. curso de Operações Especiais de 1973. Voltámos acompanheirar em Santa Margarida, onde se formou o batalhão e, em 1974, conhecemos os atiradores Queirós, Mota Viana e Rodrigues, mais tarde o enfermeiro Barreto. Conversa  traz conversa e veio a saber-se - neste encontro de Paredes! -, que, quanto aos  atiradores, tínhamos sido contemporâneos de recruta, no 2º. turno da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém. Ficaram eles por lá, na especialidade, e viajei eu para Lamego, para as Operações Especiais - onde «achei» o Pinto. O mesmo Pinto que foi do meu grupo de combate (com o Neto) e da minha equipa. Eu, ele, o Couto, o Gonçalves e o Serôdio.
Todos sexagenários (o Barreto já vai nos 61 anos!!!) pareciam meninos de escola e nem as respeitáveis barbas do antigo enfermeiro o fizeram mais maduro nas brincadeiras do encontro de Paredes. Se repararem bem nos olhares dos mancebos, notar-lhe-ão os olhares de malandrice de quem anda nesta vida de mão dada com o prazer e o gozo, o gosto de ser feliz.
Até por isso, mas não só!!!!...., valeu esta jornada de convívio paredense!
Às falas é que não foram longos. O Queirós disse do seu «querer dizer muita coisa» e «disparou» para o Mota Viana. Este, descontraiu-se com o sorriso largo de quem se sente feliz e não teve palavras para tal dizer!!! Grande abraço, amigos!

terça-feira, 5 de junho de 2012

1 307 - O gostar de... gostar do capitão Luz...

O capitão Luz, o (ex-furriel) Monteiro e a «amazona» Luz

O tenente Luz secretariou o comando do BCAV. 8423 e todos nos lembramos dele e do porte garboso como, avenida do Quietexe fora, ia ele entre a messe e o edifício do comando. Não há memória de um ressentimento de alguém, deste homem bom, que nos habituámos a ver com respeito, sem medo a tolher a palada ou o bom dia de todos os dias. 
Tenente foi e capitão se fez, com história de louvores que por aqui já falámos.
É o nosso «mais velho», o sempre gentil e disponível Acácio Carreira da Luz que, aos 83 anos e em Paredes,  falou da sua «alegria de estar convosco» - connosco, os meninos do Quitexe de 1974/75... - e deu enfâse aos anos que vão passando «com as alegrias e fragilidades da vida, as maleitas e até desgostos» que fazem as  histórias dos nossos dias.
O agora capitão Luz é homem de verbo fácil e expressivo, não debita excessos, mas fala com a alma. «Sei que gostam de mim e eu gosto de estar convosco!...», disse ele, em Paredes, com a serenidade dos sábios e babando de vaidade e emoção os meninos que, no Quitexe e em Carmona, foram como seus filhos.
«Foi uma fase importante das nossas vidas e estes encontros rejuvenescem-nos, dão-nos alegria que se estende às nossas famílias, o que é muito bom...», disse o capitão Luz, dando cor e pão às palavras com a experiência da sua vida: «Se quisermos ser felizes, temos de dar as mãos uns aos outros e não viver só para nós».
As palmas dos Cavaleiros do Norte foram a melhor continência que se podia prestar ao capitão Luz, pelo que nos disse e nos ensinou. Dê-me licença, meu capitão, para lhe exigir que para o ano o ouçamos outra vez!
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segunda-feira, 4 de junho de 2012

1 306 - Isto faz-nos voltar aos 20 e tal anos...

O engº. (alferes) António Albano Cruz vai ser 
o mordomo de 2013. À esquerda, o tenente (capitão) Luz e esposa


O engº. Cruz foi o oficial mecânico-auto dos Cavaleiros do Norte. Não havia viatura que escapasse ao seu olho clínico. E ao dos seus homens, os bravos rapazes do pelotão-auto.  
Sábado, aos dois dias de Junho de 2012, em Paredes, foi eleito mordomo do encontro de 2013. «Aqui, esteve tudo muito bem», disse ele, falando do «carimbo» organizador do Monteiro, para quem pediu uma salva de palmas.
Oficial do parque-auto, o alferes Cruz jornadeou por todas as companhias, onde conheceu de perto muitos companheiros das outras companhias. Tem, por isso, um secreto desejo: transformar o encontro em encontro de... batalhão. 
«Conheci os oficiais, sargentos e pessoal das mecânicas e transmissões, pelo lugar que ocupava e talvez fosse interessante juntar a malta», disse ele, em Paredes - onde, no sábado, se juntaram os «ccs´s».
A ideia foi bem acolhida, teve palmas, e mais palavras do alferes Cruz, estas para sublinhar a presença do tenente (agora capitão) Luz, um companheiro de primeira água, a quem fez votos de «nos acompanhe muitos mais anos». Tem 83 anos, o nosso «mais velho» Cavaleiro do Norte, fresquinhos como alface a sair da horta, sempre presente nestas horas de convívio, de braço dado com a senhora sua «mais que tudo».
Disse mais, o alferes Cruz, agora a falar deste blogue:  «Leva-nos aos nossos 20 e poucos anos, quando em Angola representávamos Portugal».
E sobre o seu pelotão, «um pelotão muito especial, o melhor de todos». Pudera, alferes Cruz!! Fica muito bem neste retrato do encontro de Paredes 2012.

domingo, 3 de junho de 2012

1 305 - Isto, ouçam lá, isto não pode parar...

Monteiro, Gomes, Buraquinho, Celestino, Zambujo, Pires, Aurélio (Barbeiro), Serra e Valdemar (atrás), Gomes, Viegas, Caetano, Pagaimo, Miguel, Rodrigues (óculos), Monteiro (gasolinas, de bigode), Neto, Gaiteiro, Teixeira e Esgueira (no meio), Cruz (alferes), Luz (tenente) e esposa, Lopes, Moreira, Eiras, Morais, Vicente, Queirós e Duarte (de barbas); em baixo: Mota Viana, Pinto e Barreto

O grupo de bombos que recebeu os Cavaleiros do Norte, em Paredes (em cima), e o Monteiro, no uso da palavra (em baixo)

O Monteiro foi anfitrião e disse de sua «alegria por estarmos aqui» no encontro da CCS dos Cavaleiros do Norte, que ele mesmo organizou, em Paredes. A 2 de Junho de 2012. 
«Desde Ferreira do Zêzere que a saudade cresceu, cresceu sempre...», afirmou ele, em hora de botar a palavra, a puxar para o emocionado mas de voz firme e também lembrando que «os 15 meses que passámos em Angola fizeram de nós uma família».
A «família» foi chegando ao parque da cidade de Paredes, aos poucos, regando-se de abraços e surpresas, num «olha este e olha aquele...» que fez soltar muitos sorrisos e fartas gargalhadas de prazer, abraços até aos ossos e saltos de alegria e de rejuvenescimento emocional. 
Lá fomos, depois, em caravana, para a Casa da Vessada, para os preliminares do almoço e mais trocas de imagens - as das fotografias arrancadas do bornal da recordações, e as da alma, que se foi fazendo mais forte de cada vez que, cada um de nós, recordou um qualquer momento da nossa vida do Quitexe e de Carmona.
Chegou o grupo de bombos e a festa ganhou outro efeito sonoro, entre as muitas gargalhadas felizes dos agora sexagenários que, em Angola, cumpriram uma missão de honra e de orgulho. E ali, naquele dia de ontem, evocavam memórias desse tempo.
«Isto não pode parar, temos de continuar...», foi o desafio lançado pelo Monteiro - que não esqueceu «os que, de nós, já partiram» e tinham sido evocados no power-point de meio milhar de fotos, nas quais revimos as nossas juvenis caras de há 37 e 38 anos. 
Aquilo é que era tempo!!! E, então, ouçam lá o Monteiro: «Isto não pode parar!...».

sábado, 2 de junho de 2012

1 304 - Os Cavaleiros do Norte da CCS em Paredes

Os Cavaleiros do Norte reunidos em Paredes, hoje (dia 2
de Junho de 2012). Capitão Luz e esposa, a cortar o bolo do encontro (em baixo)
Hoje, foi dia de os Cavaleiros do Norte da CCS se juntarem, para recordar os 38 anos da partida para Angola.
«Se quisermos ser felizes, temos de dar as mãos uns aos outros e não viver só para nós», foram as sábias palavras do tenente (agora capitão) Luz, felicitando o Monteiro pela organização e sublinhando «o período importante das nossas vidas» que foi o tempo que nos levou a Angola, em missão que nos orgulha e honra.
A festa esteve bonita, pá!!! E dela aqui iremos fazer memórias nos próximos dias. Hoje, ainda é tempo para saborear o dia de Paredes!

sexta-feira, 1 de junho de 2012

1 303 - A descoberta das noites e prazeres de Luanda...

Luanda à noite, com a baía em primeiro plano. E  a marginal (anos 70 do século XX)


A 2 de Junho de 1974, chegaram os zalalianos a Luanda e os «ccs´s» já por lá eram «veteranos» (desde 30 de Maio). Eram vistos em busca da cidade e dos prazeres que se descobriam, novos para muitos de nós e apetitosos para todos. Prazeres e ócios que saciavam a gulodice dos 21 para 22 anos e era vê-los, aos fim de tarde, a galgar a metrópole luandina, em busca dos luxúrias da vida e à descoberta da surpreendente sensualidade que por lá se via - não só nos calores das praias e das esplanadas, também nas saias que, de tão curtas, desnudavam corpos e sugeriam apetites.
Ia eu «carregado» de pequenas encomendas para entregar a amigos e foi mister entregá-os. Primeiro a obrigação. A devoção, depois! E lá fui eu, devoto e com os favores dos Resendes, em busca e abraço do Mário e da Benedita, do Custódio, do Zé Martinho, da minha prima Angelina, do Neca e da Fernanda, do irmãos José Bernardino, Manuel e Albano, do Alberto, do Carlos Sucena! 
Relendo o Livro da Unidade, a memória refresca-se para «o conhecimento do local de destino» - o Quitexe, nele identificada como «terra promissora de Angola, capital do café e vila-mártir de 1961». E já tanto aqui falámos do Quitexe, neste blogue de histórias e pessoas. 
Mais: «Seria o primeiro local onde o BCAV. 8423 iria estabelecer-se em Sector, com vista a dar consecução ao problema de paz que o MFA pretende obter».
Estou aqui a historiar e ficou para trás o essencial de hoje, que é amanhã: o dia do Encontro dos Cavaleiros do Norte do Quitexe, a CCS. Em Paredes, com a chancela do «mordomo» Monteiro.
Até amanhã, ó malta!!!

quinta-feira, 31 de maio de 2012

1 302 - Os dias 31 de Maio na vida dos Cavaleiros do Norte

Alferes Machado(2ª. CCAV.) e capitão Castro Dias, em Carmona (1975), furriéis 
Queirós, Mota Viana, Rodrigues e Pinto (2012) e alferes Sousa (em baixo)

O dia de hoje, 31 de Maio, pode associar-se a várias efemérides dos Cavaleiros do Norte: a CCS, em 1974, fazia o segundo dia de Angola, a 1ª. CCAV. aviava malas de Lisboa para Luanda e em Carmona (em 1975) faziam-se horas de aperto para os dramáticos incidentes que por aqui já foram memoriados.
Nem de propósito, quando hoje ao almoço fazia preparativos para sábado, a almoça(ra)r com o Francisco Neto, precisei de dar um pé de orelha ao Monteiro (por causa do power-point) e calhou-me ligar a Castro Dias, o inesquecível comandante da 1ª. CCAV., a da mítica Zalala. E qual é a coincidência Pois justamente a que acima sublinha: faz hoje 38 anos que os zalalianos voaram de Lisboa para Luanda.
Tenho memórias boas da malta de Zalala, logo do alferes Sousa de Sousa (é assim mesmo). Foi companheiro de Lamego, na formação das Operações Especiais (Rangers) e era fidalgo de bom trato e de quem perdi o rasto. Depois, o imemorável Pinto, também companheiro da jornada lamecense. E a eles se juntaram  mais próximos o Mota Viana (que também foi companheiro de Lamego), o Queiroz e o Rodrigues, o Dias e o Aldeagas, o Barata (que a morte já levou) e o Vitor Costa (que em Santarém fora, como eu, militar da recruta de cavalaria). Se esqueço alguém, que me perdõe.
A 22 de Maio, já tinham chegado a Luanda o comandante Almeida e Brito, o capitão Falcão (oficial adjunto) e o alferes Hermida (oficial de transmissões). Foram eles quem nos deu a notícia do nosso destino: o Quitexe.
O dia 31 de Maio era um sábado e nesse dia, no bairro da Cuca, localizei o conterrâneo Custódio Ferreira (agora nos Estados Unidos), ao tempo soldado sapador aquartelado no Grafanil e para quem da mãe, levava chouriços e rojões.. Já lá vão 38 anos!!!

quarta-feira, 30 de maio de 2012

1 301 - A chegada a Luanda, há 38 anos!!!

A baía de Luanda nos anos 70 do século XX (foto da net)

O voo foi nocturno, a partir da meia noite de Lisboa, e pousámos em Luanda no alvor de 30 de Maio de 1974. Vagamente, lembro-me de o piloto ter dado conta, na viagem, de termos sobrevoado os céus de Bissau, de que se via a iluminação! Seria! 
Ainda dormitei e não tardou a que o avião dos TAM nos deixasse ver o esplendor da baía luandina e a cor vermelha do chão de Angola, nos mostrasse os mussseques e a cidade enorme, a espreguiçar-se e abrindo os olhos para um novo dia de trabalho.
Aquela metrópole enorme e moderna, de edifícios gigantescos e enormes avenidas a rasgar-lhe o ventre, a beleza deslumbrante da baía, a ilha que víamos encostada à cidade, todo aquele ar cosmopolita não nos parecia ser uma terra de guerra. O avião arredondou-se nos azulíssimos céus de Luanda, como quem batia a porta para dizer os bons dias, e os nossos olhos arregalavam-se de espanto. Nunca tínhamos visto mancha urbana tão grande, a  não ser oito horas antes, quando levantámos voo de Lisboa e mal espreitámos a luz da noite da capital do império que se começava a desfazer.
Blusões fora e arrumado o meu no saco TAP vermelho, lá fomos para o Grafanil - onde ficámos até 5 de Junho. Era tudo novo para nós: o chão e os cheiros, a paisagem, as gentes que nos falavam, os sotaques, até a cerveja - que comprei com angolares que já levava e senti pouco forte.  As cucas que bebemos eram leves a mais para os hábitos e paladares cervejeiros da então metrópole. 
Um sargento nos apareceu, no aquartelamento do BCAV. 8423, de pasta debaixo do braço e ar de negócio fácil: queria fazer câmbio. Trocar, com farto lucro, escudos de Portugal pelos de Angola, os angolares. Espantei-me quando, após três dedos de conversa, vim a saber, da boca dele, que teria estado na Escola Central de Sargentos, aqui em Águeda. E que, eventualmente, nos teríamos cruzado algumas vezes, no bar do café Santos - onde se comiam excelentes bolos de bacalhau e bebiam taças de vinho branco. Não foi tal coisa suficiente, porém, para que fizéssemos negócio. Mas houve quem fizesse e com o 1º. sargento a ganhar o lucro dele.
Por nós, íamos descobrir Luanda. E visitar amigos que por lá faziam pela vida, sem sofrer os medos da guerra que lá nos levava! Era uma vida nova que se abria nos nossos dias.
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terça-feira, 29 de maio de 2012

1 300 - O dia da partida para Angola, há 38 anos...

Cavaleiros do Norte da CCS, reunidos a 29 de Maio 
de 2010, em Ferreira do Zêzere


A 29 de Maio de 1974, hoje se completam 38 anos, saíram os futuros Cavaleiros do Norte (da CCS) de Santa Margarida, rumo a Lisboa e ao aeroporto, de onde voaríamos para Luanda. Foi a primeira fez que andei numa auto-estrada, entrei num aeroporto e viajei de avião. A minha e a de muitos de nós.
Chovia torrencialmente, fizemos o compasso de espera habitual dos aeroportos e lá nos acomodámos no avião dos TAM, como pudemos e com o que nos deram para comer, nas 8 horas que nos separavam do aeroporto internacional de Luanda - depois de voarmos ao largo da costa africana, já que as aeronaves portuguesas estavam impedidas de passar pelo espaço aéreo de alguns países.
Há dois anos, precisamente a 29 de Maio de 2010, fizemos a festa do dia em Ferreira do Zêzere - onde nos mostrámos para o futuro, com a imagem que aqui reproduzo. 
Hoje, ligou-me o Monteiro, que é o mordomo do encontro deste ano (marcado para sábado), dando conta das suas preocupações e entusiasmo para, em Paredes (Porto), nos fazermos rapazinhos de 21 para 22 anos e lembrarmos as travessuras e heroísmos da nossa passagem pela terra uíjana da Angola.
Já se sabe de alguns que não vão, porque não podem, e de outros que não faltam, porque não querem faltar, dê lá pelo que der. É sempre assim. De então (2010) para cá, um de nós partiu: o Carpinteiro, um dos nossos melhores! Faleceu a 1 de Novembro de 2011, subitamente.
A vida é assim e sábado a recordaremos com o melhor das nossas memórias.
Inté!
- CARPINTEIRO. Manuel Augusto da Silva Marques, 1º. cabo 
carpinteiro. Natural de Esmoriz (Ovar), onde faleceu 
a 1 de Novembro de 2011, vítima de doença súbita.
- TAM. Transportes Aéreos Militares.


segunda-feira, 28 de maio de 2012

1 299 - Os dias de intervalo na partida para Angola

A 27 de Maio de 1974, a nossa partida para Angola foi adiada por dois dias. Era uma segunda-feira e alguns de nós voltaram a casa. Eu fiquei por lá (Santa Margarida) e por lá andei a dar umas voltas, nos dois dias do intervalo.
E, quanto a voltas, por muito lado as podia dar - mesmo sem sair do campo militar - que ainda é uma das maiores instalações militares da Europa e, seguramente, a maior instalação de Portugal, em termos de guarnição e a segunda maior em termos de área ocupada. A primeira é o Campo de Tiro de Alcochete. 
Os seus 6 400 hectares correspondem a uma área total superior ao Estado de San Marino.
- 6 400 hectares de área total ocupada
- 3 500 hectares de área de aquartelamento
- 1 avenida principal com 2,7 kms. de comprimento
- 330 edifícios
- 5 000 militares de guarnição. Ao tempo, dizia-se que poderia aquartelar 30 000
- 1 pista de aviação
- 2 heliportos
- 1 estação ferroviária
- 4 carreiras de tiro de armas ligeiras
- 1 carreira de tiro de carros de combate
- 1 carreira de lançamento de granada
- 1 pista de combate.
Recordo, no entanto, que num jipe ao serviço do BCAV. 8423 (a maioria do pessoal por lá ficou, pelo que a unidade ficou a «funcionar»), me «desenfiei» com o Rocha e o Pires (??), indo almoçar a S. Miguel de Rio Torto - onde o oficial de dia nos deixou e mandou buscar a meio da tarde de faz hoje 38 anos. 
A noite foi passada com jogo de cartas e muita conversa, no bar de sargentos do RC4  - a nossa unidade mobilizadora. Foi mais um dia/noite de vésperas de partida, sentidas com repetida ansiedade, alguma  nostalgia e seguramente muita expectativa. Onde estaríamos menos de 48 horas depois? Como seria Luanda? Como seria Angola, depois do 25 de Abril?

domingo, 27 de maio de 2012

1 298 - Os Cavaleiros do 1917 reuniram em Alenquer



O Batalhão de Cavalaria 1917 antecedeu-nos no Quitexe e reuniu-se ontem em Alenquer, como nos deu nota o Luís Patriarca, acrescentando que «uma vez mais correu bastante bem».
Pena foi (é) que, como frisou, «o número vá sendo cada vez menor», até porque «ainda por cima, há duas companhias do batalhão que organizam convívios independentemente» e noutras datas.
 Mesmo assim, «alguns voltam a este convívio» e é deste, de ontem, que damos registo fotográfico, por gentileza de Luís Patriarca.

sábado, 26 de maio de 2012

1 297 - Ai Flora, António Flora, meu velho amigo...

Viegas e Flora, a 26 de Maio de 2012, em Lisboa (em 
cima) e na passagem de ano de 1974 para 1975, no Quitexe


A vida levou-me hoje a Lisboa, a capital do acabado império, por razões que aqui não vem ao caso e me fizeram pousar no Altis. Lá me achei com o Flora, amigo nascido das«berças» do BCAV. 8423, em Santa Margarida, e de já, bem antes, da recruta da Escola Prática de Cavalaria - que em Santarém fizemos, agora se fazem 39 anos, de Abril a Junho de 1973.
O Flora foi Cavaleiro do Norte de Santa Isabel! E depois do Quitexe e de Carmona, antes do adeus a Luanda, de Agosto para Setembro de 1975. Pelo chão do Uíge, fez comissão que lhe valeu louvor, exaltando-lhe «o método de trabalho, eficácia e prontidão». Mais: «Auxiliar inestimável em qualquer circunstância, mesmo sob condições bastante desfavoráveis ou delicadas», que o tornaram «exemplo digno de seguir e, consequentemente merecedor de público louvor» - assim se lê na Ordem de Serviço nº. 174.
O Flora, o Flora que eu conheci de 1974 a 1975, era rapaz de trato simples, de sorriso de menino e quase envergonhado, diria dono de uma timidez que lhe dava nobreza ao rosto e à alma. Lembrou-me ele, hoje, uma noite de excessos  quitexanos, que o levaram, até, a consumos de coisas que não lembram ao diabo, mas se sugeriam à verdura da nossa juventude de então. 

«Nunca mais, ó Viegas?», disse-me ele hoje, no hall do Hotel Altis, com o seu mesmo sorriso de eterno menino, como que a pedir desculpa das festanças que nossa irreverência de então nos levou a fazer, numa terra que se fazia em guerra e (des)fazia em sonhos, alguns exageros e muita, muita vida.
O Flora ganhou recente batalha de saúde e dela me falou descomplexado e tranquilo. E vencedor, digo eu. E com ele falei de muitas das emoções que nos varreram a alma, na missão que nos fez servidores da Pátria. Também sem complexos. E sem nos queixarmos de dores com que outros se fizeram falsos heróis e cobardes. Não foi, meu amigo Flora?!
- FLORA. António Pires Flora, furriel miliciano atirador 
de cavalaria, da 3ª. CCAC. 8423, a de Santa Isabel. Lá 
serviu também na secretaria. É aposentado da Caixa Geral 
de Depósitos, natural de Tinalhas (Alcains) e 
morador em Famões (Odivelas).

sexta-feira, 25 de maio de 2012

1 296 - Um plenário de agricultores na sementeira de Abril

A 25 de Maio de 1974, antevéspera da minha saída de casa para Angola, fui de comboio até Águeda, fazer despedidas. Havia um grupo da escola e do trabalho que se juntava por lá, nas raias da feira/mercado, e se atirava ao fim da manhã a umas valentes feijoadas, e dobradas, e era mor meu dizer adeus ao grupo. Afinal, ia para a guerra...
Por lá andei, no fala com este e aquele, até que passei no (extinto) Grémio da Lavoura, onde, acaloradamente, decorria uma reunião da agricultores, com o objectivo (para mim evidente) de o extinguir. 
O 25 de Abril vinha de vésperas, a febre revolucionária levedava fartamente e demitir dirigentes de qualquer instituição ligada ao Estado Novo era «pão nosso de todos os dia». Por coincidência, três dos oradores eram conhecidos próximos (um deles, era até meu  familiar, e outro um ex-professor...) e de tal foram exaltavam argumentos, que fiquei estupefacto. Demitir a direcção e eleger outra, era objectivo primário!
Bom, deixei-me da reunião (ou plenário) e fui de passo apressado para a tasca onde fervia a dobrada, na cova funda do Café Moderno.
Já no Quitexe, fiquei a saber, por jornal de 22 de Junho, que, feitas as eleições, a direcção do Grémio continuou direcção, que, afinal e já desde 1961, havia já uma cooperativa - dona do edifício e de todas as instalações, de resto «adquiridas a expensas exclusivas dos seus sócios e os da Cooperativa, sem qualquer subsídio do Estado, não obstante ter sido solicitado». Tinha a Cooperativa «cerca de 5000 sócios» e cerca de 7000 contos de transacções anuais, dando «sempre contas dos seus actos, aos sócios, perante o conselho geral, e aos sócios da cooperativa».
E o que é que isto tem a ver com os Cavaleiros do Norte?, perguntarão. Nada. Ou tudo. Por mim, foi a forma de começar a conhecer (no plenário de mais de duas centenas de pessoas e, entre elas, muitos não agricultores infiltrados) como a democracia dava os primeiros passos. Por alguma razão nunca quis andar por essas paradas!
Foto da net.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

1 295 - O comandante Almeida e Brito...



O comandante do BCAV. 8423, tenente coronel Almeida e Brito, não era «maçarico» no Quitexe, quando por lá foi Cavaleiro do Norte, entre 6 de Junho de 1974 e 2 de Março de 1975, e então rodámos para Carmona, para o BC12, e lá ficou a 3ª. CCAV., a de Santa Isabel. Já por lá fôra major de operações  - o que sabíamos, ao tempo, mas sem conhecer pormenores.
A foto, tirada do blogue de José César, mostra-o nas funções de 1968. Chegou ao Quitexe, em rendição individual, a 24 de Janeiro e de lá saiu a 17 de Dezembro, integrando o Batalhão de Cavalaria 1917. É o oficial da esquerda e note-se o imprescindível pingalim de cavalaria, como tantas vezes o vimos no Quitexe e Carmona, como antes em Santa Margarida. Ao centro, está o tenente coronel António Amaral, comandante do BCAV.1917; e, à direita, o comandante da CCAÇ. 1306. Quero acreditar que a imagem é da fazendo do Liberato, guarnição que integrava a zona de acção militar do Quitexe.
Almeida e Brito não era oficial de meias palavras, ou indecisões. Por vezes, até era excessivamente imperativo no agir, seja isso virtude ou defeito. Dúvidas, não há: era respeitado e admirado. E era justo! Dele se contavam lendas da anterior passagem pelo chão quitexano! E dele nos falavam civis locais e combatentes da FNLA, citando-o com o militar de coragem, sem tibiezas, decidido, audaz e descomprometido.
Partilhei muitos momentos com ele, depois de 1975 - quando foi 2º. comandante da Região Militar Centro, em Coimbra, onde foi adjunto do general Pires Tavares, que é de Águeda (minha terra); quando comandou a Região Militar Sul, em Évora; quando foi 2º. comandante geral da GNR e a ele recorri por uma hora menos boa de companheiro que seguiu carreira profissional nas Brigadas de Trânsito. 
Participou nos encontros da CCS e do batalhão, quando melhor conhecemos a face mais humana do militar que não teve hesitações nos duros dias dos meses finais de Carmona. Quantos de nós deveremos a vida à sua competência e capacidade de decisão?! Nunca saberemos! Mas é seguro que, nos momentos mais dramáticos e trágicos, tivemos à altura quem nos comandasse.
- ALMEIDA E BRITO. Carlos José Saraiva de Lima 
Almeida e Brito, tenente coronel e comandante 
do BCAV. 8423. Atingiu a patente de general e 
faleceu a 20 de Junho de 2003, de morte súbita.


quarta-feira, 23 de maio de 2012

1 294 - O Machado foi louvado...

Machado, Cruz e Rocha, furriéis da CCS do BCAV. 8423, em Carmona (1975)

O Machado era a irrequietude em pessoa. Não tanto pelo tamanho, mas pela alma!!! Pisassem-lhe os calos, denunciassem-lhe injustiças e tínhamos «beduíno» para agitar as massas, discutir, intervir, alegar, assumir (sem procuração, desnecessária) a defesa dos mais fracos.
O Machado era (é) rapaz de farta cultura, inteligente, vivo, perspicaz, grande amigo do seu amigo. Por alguma razão, 37 anos depois da desmobilização, mantemos afectos que se alargaram às famílias e não há Natal e dia de anos que não tenha telefones com palavra de carinho e lembrança. «Está mais velho, pá!!!...».
As berças do Machado ficam no Covelo do Gerez e por lá girandei várias vezes, até em férias, conheci-lhe avó, pais, irmãos, vizinhos, amigos, segredos. Somos amigos, pronto!
O Machado não vem aqui hoje, porém, por coisas da «lemechice» humana, do gostar ou (não) ser amigo! Vem porque foi louvado na sua comissão angolana, cuidando o capitão Oliveira de lhe sublinhar«zelo e aptidão» para as funções que por lá exerceu, «nunca se poupando a esforços para que o material da Companhia se mantivesse sempre num impecável estado de conservação e limpeza», quer na CCS que nas outras unidades. Por isso e por ter sido «militar correcto, disciplinado e disciplinador, colaborando em todos os serviços que lhe foram pedidos, granjeou a estima dos seus superiores, pelo que se torna merecedor do presente louvor», como de lê no documento.
Tudo bem!! Está louvado, está louvado!
Mas eu louvaria o Machado por outras razões: por ser um combatente da verdade e da liberdade; um soldado valente, mas da solidariedade e do querer bem! Porque era assim o Machadinho: um apóstolo do bem, um actor das coisas simples, um homem de franqueza aberta e de lealdade total.
- OLIVEIRA. António Martins de Oliveira, capitão do 
SGE e comandante da CCS do BCAV. 8423. Atingiu 
a patente de major e dirigiu o DRM de Aveiro. Morou em Ovar.
- MACHADO. Manuel Afonso Machado, furriel miliciano  
mecânico de armamento. Natural de Covelo do Gerez 
(Montalegre) e residente em Braga, onde é quadro da EDP.
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A história dos beduínos, AQUI

terça-feira, 22 de maio de 2012

1 293 - Artilheiros do Quitexe vão encontrar-se na Penha de Guimarães

José Lapa, furriel miliciano da CCS do BART. 786, 
na rua principal do Quitexe (Natal de 1965)



Os artilheiros do Quitexe vão reunir a 9 de Junho, na Penha de Guimarães. Foram nossos antecessores nos anos de 1965 a 1967, certamente em tempos bem mais conturbados e difíceis que os da comissão dos Cavaleiros do Norte - embora cada qual sinta e sofra as suas. Lá chegaram a 11 de Junho de 1965.
Por artilheiros, entendam os «bravos e sempre leais» rapazes-se do Batalhão de Artilharia 786, que jornadeou pelo Uíge e lá deixou cadastro de honra e de coragem. A CCS, e é esta que vai conviver na Penha de Guimarães, estava sedeada no Quitexe e dela era (é) José Lapa (foto), que por lá foi furriel miliciano e é, aliás, leitor deste blogue - no qual, de resto, também de quando em vez colabora.
Deu-me o gosto de me visitar, em Fevereiro deste ano, e o Quitexe foi tema de fartas horas de conversa, cheia de saudades e de emoções. Falou-me de correio entre nativos, um deles (um soba) dando conta de que «a tropa trata bem de nós» (deles) e sugerindo a alguém das suas relações que seria bom apresentaram-se, havendo até a garantia de que «o comandante deixa sair quem quizer vir aprezentar» e até que «todo que esta prezentado vive bem». 
A carta, curiosamente, é datada do dia dos meus 13 anos (21 de Novembro de 1965) e assegurava que «todo que vinha com doente foi tratado no espital».
A organização do encontro da Penha é de João Lopes e os artilheiros que quiserem podem contactá-lo pelo telefone 917512475
Ver texto de 
José Lapa AQUI

segunda-feira, 21 de maio de 2012

1 292 - O galopar desenfreado dos acontecimentos no Uíge...


Uíge (antiga cidade Carmona, a amarelo), o Songo 
(a vermelho) e Dange (o Quitexe, a rôxo)

O Songo era (é) a uns 40 quilómetros de Carmona (agora Uige) e era lá que estava, há 37 anos, a 1ª. CCAV. 8423, a do capitão Castro Dias - ida de Zalala, depois de Vista Alegre e Ponte do Dange.
Os crescentes e multiplicados incidentes de Carmona, por Maio fora, levaram os responsáveis militares a preparar uma nova remodelação no dispositivo militar. «O galopar desenfreado dos acontecimentos leva a admitir a necessidade de, pelo menos, fazer vir a 1ª. CCAV. para Carmona, abandonando Songo e Cachalonde, porquanto se interpretam como desnecessárias, senão inconvenientes, tais guarnições militares», lê-se no Livro da Unidade.
A rotação só viria a acontecer entre 6 e 12 de Junho, já depois dos dramáticos incidentes dos primeiros dias do mês, em, Carmona - que sucederam aos que desde há meses se multiplicavam em Luanda e outras cidades de Angola, entre as forças da FNLA e do MPLA.
Carmona respirava aparente serenidade, que as NT iam assegurando como gestores das cada vez mais visíveis diferenças entre os militantes e militares locais daqueles dois movimentos. A situação, vista 37 anos depois, ainda nos parece uma ilusão: como era possível, a tão reduzida guarnição, manter a segurança na cidade e nos itinerários de acesso? Sem dúvida, com multiplicados esforços e sacrifícios do pessoal - normalmente dia-sim-dia-não de serviço, ora interno (no BC12), ora no exterior, neste caso «mantendo permanentemente o patrulhamento nos centros urbanos e nos itinerários, especialmente em Carmona», considerada, sendo o LU, como «a área amais fulcral do distrito».
Não faltou determinação e coragem aos Cavaleiros do Norte!

domingo, 20 de maio de 2012

1 291 - A primeira operação militar em Angola, há 38 anos!

Parada do Quitexe, com a porta d´armas e o edifício do comando dentro 
do amarelo. Em primeiro plano, `esquerda, a caserna do PELREC. 
Daqui partiam os grupos de combate, para as operações militares



A 20 de Maio de 1974, o Batalhão de Cavalaria 8423 iniciou a sua primeira operação militar em terras do Uíge - a Castiço DIH, na qual participaram todas as subunidades. Hoje se completam 38 anos! «Não se viu grande compensação do esforço desenvolvido pelas NT, pois que, salvo uma emboscada sem consequências, no Tabi, só teve por reacção IN a materialização de tiros de aviso», relata o livro da Unidade.
Menos sorte teve a 41ª. Companhia de Comandos, também envolvida na operação, já que um seu soldado accionou uma mina anti-pessoal e viria a perder um pé. Tal facto, de resto, levou-a a retirar «após escassas horas de operação», quando, para ela, «envolveria 8 dias de actividade operacional».

A operação foi sentida de forma intensa e cautelosa, da nossa parte. Era a primeira vez que, em situação real, íamos exercer o que aprenderamos na instrução normal e, mais tarde, no IAO. Recordo, da parte do alferes Garcia, palavras ponderadas e incentivadoras: «Não há melhores soldados que nós e chegou a  hora de mostrarmos, na prática, as virtudes que nos pediram e que saberemos cultivar, aqui no quartel ou nos trilhos e picadas das matas que vamos conhecer». Palavras parecidas com estas, que o Garcia terminou com o grito dos «ranger´s": Yáááááááá!!!!
O Soares (na foto, comigo, em baixo), que era de nós todos provavelmente, o mais «refilão» e incontido, deixou escapar um surdo «filhos da p...., fod...-se, pretos dum car..., fod... os todos!!!», que eu mesmo lhe desvalorizei com um ríspido «esteja calado, », que o deixou fulo comigo.
«Ó furriel, pá.... o que é que nos vai acontecer?», perguntou-me, com alguma angústia. «Vamos embora», disse-lhe eu. E fomos. E voltámos! Sem problemas!
- SOARES. Fernando Manuel Soares, 1º. cabo de Reconhecimento e Informação, servindo como atirador do PELREC. Natural de Lisboa. Ver AQUI.
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sábado, 19 de maio de 2012

1 290 - O livro «Quitexe - uma tragédia anunciada»

Capa do livro de João Nogueira Garcia (em cima) 
e artigo de Fernando Pereira, do Novo Jornal (em baixo)

Já por aqui falámos do livro de João Nogueira Garcia  - «Quitexe, uma tragédia anunciada» - com a narrativa dos trágicos acontecimentos de 1961, que ele viveu em na primeira pessoa. Foi-me oferecido pelo filho, que não conheço mas sei residir em Coimbra e ser autor de vários blogues sobre o Quitexe.
O livro mereceu ontem oportuna e justa referência no «Novo Jornal», que se publica em Luanda, na página 9 do suplemento «Mutamba» , que reproduzimos ao lado - bastando clicar sobre a imagem, para a ampliar e poder ler.
Hoje, reli parte do livro de João Nogueira Garcia e dele tiro uma nota (quase)  final, sobre  a sua saída da vila, a 5 de Julho de 1961, onde só voltou em 1973: «Salazar e Caetano tiveram 13 anos para resolver o problema político de Angola. A guerra esta controlada, o exército era disciplinado e havia uma retaguarda de centenas de milhares de portugueses. Mas, em vez disso,  acumularam tensões políticas e sociais, que acabaram por explodir em 74/75, com a conivência e empenho das grandes potências».
Não tenho noção da presença de João Nogueira Garcia no Quitexe, aquando da passagem dos Cavaleiros do Norte por lá, onde a CCS esteve de 6 de Junho de 1974 a 2 de Março de 1975. Mas é sabido que era dele a casa ao lado esquerdo da secretaria e comando da companhia. Uma das primeiras a ser construída no Quitexe, tanto quanto julgo saber.
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sexta-feira, 18 de maio de 2012

1 289 - O «soba» da sanzala de Vista Alegre

O Rodrigues na sanzala de Vista Alegre (1975)

A 1ª. CCAV. 8423 chegou a Zalala no dia 7 de Junho de 1974 e de lá saiu a 25 de Novembro, para Vista Alegre e Ponte do Dange. A 24 de Abril de 1975, foi para o Songo e Cachalonde, de onde saiu para Carmona a 6 de Junho seguinte, instalando-se na ZMN.
O Rodrigues, que era atirador e foi feito vagomestre, chegou a Vista Alegre e por lá todos os dias pedia aos cozinheiros para fazerem uma panela com mais sopa, de modo a que sobrasse. E para quê? Para ser distribuída junto ao arame farpado, às crianças da sanzala que envolvia o quartel .
«Eles já sabiam a hora, sempre ao fim do dia, e esperavam ansiosamente com as maior variedades tipos de latas que arranjavam, para levar a sopa e aconchegar o estômago a dar horas», recorda o Rodrigues.
As crianças cumpriam, digamos, uma espécie de regime militar: quietas, caladas e em fila, até que a distribuição da sopa fosse feita, com os canecos da cozinha e através das aberturas do arame farpado, pelos cozinheiros. Distribuída a sopa, ninguém mais os via, até à hora sempre marcada do dia seguinte, para o «reabastecimento». 
Tal bondade, deu popularidade ao Rodrigues, que passou a ser visita frequente da sanzala, onde ia sozinho e sempre desarmado, pois, ele o regista, «gostava de conviver com aquela gente, para conhecer os seus costumes, condições de vida e tradições». Chegava a partilhar refeições, quando faziam grelhados, e por vezes levava-lhes uns sabonetes e perfumes, que oferecia a algumas famílias.
Tal afinidade valeu-lhe alcunha: o Soba!
Muitas vezes ia da sanzala, já de noite, sempre sem qualquer tipo de problemas, mas no quartel os companheiros sempre o aconselhavam a não ir, que um dia ainda lá iria ficar sem a cabeça. 
«Olha que o “soba” da sanzala não quer ser substituído», avisavam-me, recorda ele, à conversa com o blogue e recordando que «durante a permanência em Vista Alegre, sempre tive contactos cordiais com o a população e soba da sanzala, onde sempre circulei sozinho e plenamente à vontad.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

1 288 - Os amigos para sempre que se fizeram no Quitexe...


Casal da Fonseca, da CCS do BCAç. 3879, no jardim do Quitexe
___________
A. CASAL FONSECA
Texto

A foto acima foi tirada no jardim do Quitexe, dois dias antes de me despedir da vila. Despedida com forte nostalgia, mas também confiante de que ainda lá voltaria, quanto mais não fosse para rever bons amigos. Assim ficou conversado, mas por razões várias nunca consegui dar esse passo. Só o poderia fazer desenfiado, mas a lembrança de uma má experiência que me fez voar até Luanda, por três dias, desencorajou-me.
Fiquei-me pela correspondência, que me iam dando noticias da vila e do que mais importante se passava por lá.
Então, e não é que com esta coisa de andar aqui a escrever umas linhas no blogue, já acabei por “ir” ao Quitexe para aí meia dúzia de vezes?! A sonhar, claro está, e sempre como civil, porque os tempos em que era mobilizado quase todas as semanas, já lá vão!
Agora é diferente! Entre outros negócios, já comprei a vivenda das transmissões, onde me instalei, e, muito recentemente, comprei um café/restaurante na rua de cima, que era propriedade do meu amigo Evaristo, que hoje faz pela vida no Brasil! Ah…, e comprei também o restaurante do Rocha, que iria abrir com um amigo!
Está aqui uma coisa esperta…, logo eu que não sou nada de sociedades e muito menos de exploração de restaurantes!...
O que é mais espantoso, é que comprei tudo sem dinheiro! Cheguei ali e já está, assim sem mais nem menos e com pouca conversa!
Se não acordasse do sono dos justos, ficava com a vila toda!
Vem isto a propósito da nostalgia com que saí e recordo a vila e onde até bem há relativamente pouco tempo tive intenção de voltar, em visita!
Agora, adeus ó vindima! Ficas-te pelos sonhos, o que já não é mau, se comparado com os 16 anos em que, igualmente a sonhar, fui inúmeras vezes mobilizado e descarregado no Quitexe com mochila às costas! E sempre com os mesmos: o Aguiar e o Alvarito!
«Porra…, outras vez mobilizados para a guerra, quando há gajos que nunca cá puseram os pés!....«, resmungava eu,  sempre ali na rua de cima ao saltar da viatura!
Por coincidência, ou talvez não, deixei de ser mobilizado a partir do dia em que, em 1990, arregacei as mangas e organizei o 1º. encontro da malta!
Afinal, digo eu, tinha era saudades do pessoal, e não sabia! Melhor, saber…, sabia, mas o que eu não sabia era dos paradeiros!
E foi um grande desperdício o desencontro de grandes amigos, dos melhores amigos até aos dias de hoje, durante 16 anos! Daqueles que regularmente nos ligam para saber se tudo está a correr bem!
Amigos “nascidos” nos tempos difíceis da guerra!!
Amigos especiais, que só quem por lá andou, entende!
 ANTÓNIO CASAL DA FONSECA
CCS do BCCAÇ. 3879

quarta-feira, 16 de maio de 2012

1 287 - Cavaleiros e caçadores da terra uíjana de Angola


Capitão Meneses e furriel Rodrigues, no encontro de Vila Nova de Famalicão (2012)   

A 24 de Abril de 1975 desactivou-se Vista Alegre e Ponte do Dange, onde se guarnecia a 1ª. Companhia, a de Zalala. Foi para o Songo, com um destacamento temporário em Cachalonde. 
A 12 de Maio de 2012, o furriel Rodrigues encontrou-se com o comandante da 1ª. CCAÇ. 5015, que nessa altura abandonou o Songo.
A companhia era comandada pelo capitão Meneses e esteve em Chimango, Lucunga e Songo, antes de, no regresso a Luanda, ter passado alguns (poucos) dias por Carmona - onde contemporizou com os Cavaleiros do Norte. Regressou a Portugal no dia 13 de Maio de 1975.
A 12 de Maio, realizou o seu convívio em Vila de Famalicão, terra do Rodrigues, e lá se juntaram - como se vê na foto. O capitão Meneses está a consultar o Livro da Unidade (do BCAÇ. 5015) e o Rodrigues a fazer perguntas sobre datas e acontecimentos passados por aquelas paragens da terra uíjana de Angola.
»De algumas, recordava-me eu e outras relatava-me ele», contou o furriel de Zalala.
O mais curioso - «isto nem lembraria ao diabo», sublinhou o Rodriges - é que foi agora e passados 37 anos que, em conversa com um primo, descobriu que este familiar fez parte desta Companhia de Caçadores - a que os Cavaleiros do Norte foram substituir ao Songo. 
«Nunca nos encontramos por lá! A vida tem destas coisas e, felizmente, encontrámo-nos por cá e na nossa terra, de onde somos ambos naturais», contou o Rodrigues.
- MENESES. Manuel Diamantino Tojal de Meneses, capitão 
miliciano e comandante da 1ª. CCAÇ. do BCAÇ. 5015. 
Professor doutor e investigador do Centro de Estudos 
de Língua, Comunicação e Cultura do Instituto 
Superior da Maia (ISMAI).
- RODRIGUES. Américo Joaquim da Silva Rodrigues, 
furriel miliciano atirador de cavalaria, da 1ª. CCAV. do 
BCAV. 8423. Aposentado e residente em Vila Nova de Famalicão.

terça-feira, 15 de maio de 2012

1 286 - Viver numa ilha do mar da FNLA



Avenida de Portugal, em Carmona, no tempo dos Cavaleiros do Norte (1974)

Os dias de Maio de 1975 foram tensos, em Carmona! O Livro da Unidade, referindo-se a este tempo, dá conta de  «o Uíge, a bem ou a mal, terá que ser terra do FNLA e, consequentemente, não será bem aceite no seu solo qualquer outra opção política, donde resultam permanente quezílias entre movimentos, as quais dia a dia vão tendendo a aumentar».
O papel de arbitragem atribuído à Forças Armadas Portuguesas era regularmente posto em causa, como ppor aqui já foi dito, e muitas vezes (ou todas) sem se entender muito bem porquê. O que pareceria ser de entendimento simples, transformava-se facilmente em «enorme dificuldade». «A actuação das tropas (...) viu sempre escolhos diversos a vencer, viu e sentiu ameaças, foi alvo de vexames, mas sobretudo foi sempre apelidada de partidária e, consequentemente, viu as suas actividades mal aceites. ainda que não suscitem quaisquer dúvidas quanto à sua isenção», sublinha-se mo Livro da Unidade.
Os jovens militares do BCAV. 8423 sentiram isso bem, no corpo (por causa das permanentes missões que tínhamos de executar) e na alma - pois não era fácil circular na malha urbana de Carmona e acessos e, permanentemente, ouvir ataques verbais que nos fragilizavam emocionalmente, nos faziam o dia-a-dia tenso. Tudo, e recapitulo do Livro da Unidade, levou a publicamente afirmar-se que os Cavaleiros do Norte estão «a viver uma ilha do mar da FNLA, com todas as inconveniências que daí advém».
Os movimentos não se entendiam e eram os Cavaleiros do Norte a «pagar as favas», nos dias tensos e agitados de Maio de 1975.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

1 285 - Encontro dos Caçadores (3879) do Quitexe

Os Caçadores da CCS do BCAç. 3879 vão encontrar-se a 19 de Maio, em Mangualde. É já sábado.
A rapaziada andou pelo Quitexe antes dos Cavaleiros do Norte, em 1972 e 1973. De lá partiu para Ambrizete, onde acabou a comissão e de onde regressou a Portugal. No Quitexe e sua zona de acção, foi substituída pelo BCAÇ. 4211, que o BCAV. 8423 rendeu a 6 de Junho de 1974. 
O batalhão foi formado no Campo Militar de Santa Margarida e mobilizado para Angola - para onde partiu de  de avião em 1972, seguindo rumo ao norte  e aquartelando no Quitexe, onde permaneceu o primeiro ano da passagem angolana. No segundo, o Batalhão mudou-se para Ambrizete, onde foi rendido pelo BCAÇ. 4913, terminou a comissão e de lá seguiu ara Luanda, de onde regressou a Lisboa em Junho de 1974.
A foto e do encontro de 2011, na Lourinhã.