CAVALEIROS DO NORTE!! Batalhão de Cavalaria 8423, última guarnição militar portuguesa nas terras uíjanas de Quitexe, Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange, Songo e Carmona! Em Angola, anos de 1974 e 1975!

sábado, 16 de janeiro de 2016

3 277 - Acordo no Alvor e serenidade no Uíge angolano

Acordo do Alvor, assinado de 15 para 16 de Janeiro de 1975. À frente, Melo 
Antunes, Rosa Coutinho, Agostinho Neto (MPLA), Costa Gomes (PR), 
Holden Roberto (FNLA), Jonas Savimbi (UNITA), Mário Soares e Almeida Santos 


Cruz e Viegas, furriéis milicianos doa CCS
dos Cavaleiros do Norte, na placa separadora
ajardinada da Avenida do Quitexe (ou Rua de Baixo).
Atrás,  era o bar dos praças. O coberto era onde se davam
as aulas regimentais

A imprensa de 16 de Janeiro de 1975 dá enormíssima e normal importância à assinatura, na véspera, do acordo entre o Governo de Portugal e os três movimentos de libertação (MPLA, FNLA e UNITA), no sentido da independência de Angola. «Aqui, as pretensões dos colonialistas ficam enterradas para sempre», disse Agostinho, em nome dos três movimentos, sublinhando que «afastado o obstáculo do colonialismo, nem o povo português nem o povo angolano desejarão recuar na sua transformação progressiva para uma nova definição do homem na sociedade».
«A dinâmica da vida social só nos pode levar a um destino, o destino do progresso. Se recuarmos, o processo, em Portugal ou em Angola. este importante acordo hoje selado pelo estabelecimento das relações justas entre os nossos povos, romper-se-á inevitavelmente», acrescentou o presidente do MPLA, falando em nome dos três movimentos de libertação. 
A imprensa sublinhava a «importância histórica» do acordo, lido pelo major Melo Antunes, «em voz firme, sem uma hesitação», como destacava o Diário de Lisboa, na abertura da cerimónia - que, a 15 de Janeiro de  1975 foi sucessivamente adiada, para, finalmente, se realizar «pouco depois das 23 horas, devido a atrasos na passagem à máquina dos quatro textos, em português, do acordo»,  no Hotel Penina, lá no Alvor Algarvio. Um texto para cada delegação.
O Diário de Lisboa de 16 de
Janeiro de 1975 «dedicava» quase
toda a primeira página à
Cimeira do Alvor

O dia 16, no Quitexe, foi normal, sem grandes alteração aos costumes regimentais. Foi logo pela manhã que se soube, via rádio, da assinatura do acordo - notícia que, não sendo indiferente ao espírito comum dos Cavaleiros do Norte, também não suscitou grandes euforias. Ou pequenas. 
A acção psicológica fazia passar mais um filme, no Clube do Quitexe (para a guarnição da CCS e da 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel - respectivamente dos capitães SGE António Oliveira e miliciano José Paulo Fernandes) e com exibições nas subunidades de Aldeia Viçosa (a 2ª. CCAV. 8423, comandada pelo capitão miliciano José Manuel Cruz) e Vista Alegre (a 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala, do capitão miliciano Davide Castro Dias).
Um ano antes, em Santa Margarida, tomava posse o novo comandante do RC4 - a unidade mobilizadora do Batalhão de Cavalaria 8423 -que tomou parte da cerimónia. O Livro da Unidade regista que «pode(ndo) dizer-se ter sido nesta data a sua primeira aparição como unidade constituída»

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

3 276 - Reunião do CSU no Quitexe e acordo na Cimeira do Alvor

Cavaleiros do Norte do Quitexe (CCS). A equipa de futebol do Parque-Auto. Domingos Teixeira 
(estofador), NN, NN, Carpinteiro, NN, Gaiteiro e Agostinho Teixeira (pintor). Em baixo: Monteiro 
(Gasolinas), NN, NN, NN, NN e Miguel. Quem ajuda a identificar os NN´s?


Delegação Portuguesa na Cimeira do
Alvor. À frente, NN, NN, Almeida Santos,
Rosa Coutinho, Costa Gomes r Melo Antunes

A 15 de Janeiro de 1975, o tenente coronel Almeida e Brito, comandante do Batalhão de Cavalaria 8423, recebeu no Quitexe o comandante Comando do Sector do Uíge (CSU) - que se fez acompanhar de oficiais do seu Estado Maior.
A reunião envolveu os comandantes de todas as unidades do CSU, naturalmente para analisar e decidir questões operacionais, numa altura em que, no Alvor português do Algarve, se fechava a cimeira do Governo Português com os três movimentos de libertação. A assinatura do protocolo do acordo estava prevista para as 20 horas desse já distante dia 15 de Janeiro de 1975, uma terça-feira.
O Governo de Angola seria, segundo o Diário de Lisboa, «dirigido por um Conselho Presidencial, com três vice-primeiros ministros», um de cada movimento. E já se sugeriam três nomes: Jorge Valentim (pela UNITA), Johny Eduardo (da FNLA) e Lúcio Lara (MPLA).
A primeira página do Diário de Lisboa
de 15 de Janeiro de 1975 titulava o acordo
da Cimeira do Alvor
O Presidente da República, ainda segundo o mesmo acordo, seria eleito pela Assembleia Constituinte e tomaria posse no dia da independência - 11 de Novembro. As novas informações davam  conta que o Governo de Transição, para além dos três vice-primeiros ministros, teria 12 ministros: três de Portugal e três de cada um dos três movimentos de libertação. Portugal assumiria as pastas da Economia, Obras Públicas e Transportes e Comunicações. O Alto Comissário (que seria Silva Cardoso), entre outras tarefas, responsabilizar-se-ia pela Defesa e Segurança Pública. Os movimentos, entre outras, teriam as da Informação (MPLA), Administração Interna (FNLA) e Trabalho (UNITA). Cada um dos ministros dos movimentos teria dois Secretários de Estado - um da cada um dos outros dois movimentos.
Os Cavaleiros do Norte continuavam expectantes e a cumprir, escrupulosamente, as tarefas que a jornada angolana lhes exigiam. E, em tempos livres, faziam do pelado do Quitexe o campo das suas futeboladas. 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

3 275 - Alvor a anunciar Governo e Cavaleiros a expectar no Uíge

Farinhas, Neto e Viegas, três furriéis milicianos Cavaleiros do Norte do 
Quitexe, em 1974. O engraxador é (era) o inesquecível Papelino - Agostinho, de 
seu nome próprio


O furriel Américo Rodrigues no
«faz de conta» de estar a comunicar via
rádio - um Racal TR28

A 14 de Janeiro de 1975 foi anunciado que, no dia seguinte, seria assinado no Alvor o acordo para a formação do Governo de Transição de Angola, entre o Governo de Portugal, o MPLA, a FNLA e a UNITA. Teria um alto-comissário português e três vice-1º.s ministros, um de cada movimento.
Ao tempo, lá pelo Quitexe uíjano, ouvíamos muitas vezes a Emissora Nacional (actual RDP), através da onda média - principalmente os relatos de futebol, que eram quase todos aos domingos, às três horas da tarde, e avidamente escutados e comentados por lá . Mas por estes dias as nossas atenções estavam naturalmente concentradas no encontro do Algarve, dele obtendo notícias por vezes desmentidas em noticiários seguintes. Por outras palavras, nunca se sabia se era rigoroso o que ouvíamos a partir dos estúdios de Lisboa, ou dos enviados especiais ao Alvor.
A primeira página do Diário de Lisboa
de 14 de Janeiro de 1975, anunciado o
Governo de Transição de Angola
Quando aos vice-1º.s ministros, admitia-se, há 41 anos, que pudessem ser Lúcio Lara (pelo MPLA), Johny Eduardo, sobrinho de Holden Roberto (pela FNLA) e António Vakulukuta (da UNITA). Cada movimento assumiria 5 ministérios e Portugal teria três (Informação e Economia, entre eles). O exército teria 36 000 homens - 18 000 de Portugal e 6 000 de cada movimento. O alto-comissário seria o comandante-chefe das Forças Armadas e os soldados portugueses retirariam gradualmente, até à data da independência. Já não seria Rosa Coutinho (o almirante vermelho), sendo, neste dia de há 41 anos, «apontado o nome do brigadeiro Silva Cardoso», como reportava o Diário de Lisboa - já não falando de Pezarat Correia ou de Ferreira de Almeida.
A retirada a ra aí estava um ponto que nos interessava sobremaneira: o nosso regresso. Por esta altura, os Cavaleiros do Norte iam no 9º. mês de comissão e, com esta decisão, ficava certo que nunca faríamos os habituais 24 meses (ou mais). Viríamos a ter 15 longos meses de jornada africana, até Setembro desse mesmo ano de 1975.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

3 274 - Independência marcada e expectativa no Uíge

Cavaleiros do Norte do PELREC, em Setembro de 1974: Alberto Ferreira, 1º cabo Jorge Vicente 
(falecido 21/01/1997) e Victor Francisco (atrás), João Marcos (meio tapado), furriéis Francisco 
Neto e José Monteiro, 1º. cabo Joaquim Almeida (falecido a 28/02/2009) e Raúl Caixarias (meio tapado 
de garrafa na mão), Aurélio (Barbeiro, de garrafa na mão) e Manuel Leal (falecido a 18/06/2007, à 
frente de João Marcos) 


Furriéis milicianos Manuel Bento e
José Carlos Fonseca, ambos de bigode) e
Grenha Lopes (à frente)



A segunda-feira, 13 de Janeiro de 1975, foi de anúncio, na imprensa escrita, do dia 11 de Novembro desse como o dia da independência de Angola, acordado na Cimeira do Alvor. O comunicado oficial fora do final da noite anterior me sublinhava «os avanços substanciais» e admitia mesmo «uma solução mais rápida do que aquelas previstas ainda esta manhã», como noticiava o Diário de Lisboa.
Os Cavaleiros do Norte, lá pelo Uíge angolano, continuavam expectantes mas de alguma maneira também distantes. Os mais esclarecidos, politicamente falando, seriam o Manuel Machado e o Luís Mosteias - que coincidiam na área, mas não totalmente nas razões. Eram populares os bitaites do Cândido Pires e quer o Francisco Neto, quer eu (Viegas), gostávamos de apimentar as intermináveis discussões do bar e messe de sargentos - onde, por esse tempo, «faltavam» o José Augusto Monteiro e o José Carlos Fonseca, ambos de férias em Portugal. E, creio, também o Francisco Bento. O Fonseca, vem a talho de foice, não voltou. 
No Alvor era dada como certa a saída do almirante Rosa Coutinho (após a formação do Governo Provisório) e indicavam-se três nomes como possíveis futuros Alto-Comissários: o brigadeiro Silva Cardoso, o tenente-coronel Gonçalves Ribeiro e o major Pezarat Correia.
Mário Soares, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, fez declarações sobre os três movimentos, referindo que falavam agora (então) «a uma só voz». mas foi desmentido por Paulo Jorge, do MPLA: «Isso é o que diz o Ministro do Negócios Estrangeiros de Portugal e não o que diz o MPLA. Essa é a opinião do dr. Soares».
Saidy Mingas, também do MPLA e sobre o processo de descolonização, comentou no Alvor que «uma descolonização reaccionária levaria ao neocolonialismo». Acrescentou que «o neocolonialismo em Angola significará a guerra».

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

3 273 - Expectativa no Uíge sobre a Cimeira do Alvor


Grupo de Cavaleiros do Norte da 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel, em 
momento de ócio. O 1º. cabo apontador de morteiros Fernando Martins 
Simões (falecido a 17 de Agosto de 1998, por enforcamento, em Penacova) é 
o segundo, de pé. Quem ajuda a identificar os restantes?


Rodrigues e Pinto, dois Cavaleiros
do Norte de Zalala, em pose artística. Se
coisa houve que a jornada africana de Angola
promoveu foi a intensa e sã camaradagem


A 12 de Janeiro de 1975, um sábado, o comunicado oficial da Cimeira do Alvor dava conta dos «progressos substanciais, tendo-se atingido acordo em relação a vários pontos fundamentais, nomeadamente no que se refere ao estabelecimento das estruturas governamentais de Angola».
Costa Gomes, em declarações à imprensa, conformou que «a independência ocorrerá este ano», indicando mesmo uma data, ainda que sem confirmação: 11 de Novembro de 1975. Já o ministro Almeida Santos, a meio da tarde da véspera (dia 11) falara em «três ou quatro pontos quentes» da Cimeira, nomeadamente  os problemas da Constituição, chefia do Governo provisório e organização das Forças Armadas, com combatentes dos três movimentos de libertação - que, do ponto de vista português, teriam colaboração e comando... português. Um dos pontos que vinha a diferenciar as posições portuguesa e de MPLA, FNLA e UNITA era precisamente as permanência das forças armadas portuguesas em território angolano. Defendiam os movimentos que deveriam sair 4 meses antes da independência, contra a posição portuguesa: a de permanecerem ate ao dia da independência.
Outro ponto que afastava as posições era «o da formação do governo»: pretendiam os movimentos 5 pastas ministeriais para cada um e duas para Portugal. Queria a delegação portuguesa que os movimentos se ficassem por quatro, cada um. 
Lá pelo Uíge, nas guarnições portuguesas dos Cavaleiros do Norte, tudo continuava igual: serviços de ordem escoltas e patrulhamentos nas estradas de alcatrão. E muita expectativa sobre o desenvolvimento da cimeira. «O que é que irá dar?...», era a interrogação corrente. 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

3 272 - Cimeira no Alvor algarvia e Cavaleiros na expectativa

Cavaleiros o Norte do Quitexe: furriéis Monteiro, Machado (a fumar) e Costa e soldado Carlos Aguiar (à frente, 
da esquerda), De frente, Rocha (de bigode), Fonseca (de bigode e a fumar), Bento (de bigode), Viegas, belo (de 
óculos e bigode) e Ribeiro. Todos no refeitório e na noite de Natal de 1974

Furriéis milicianos Plácido Queirós e
Américo Rodrigues e 1º. sargentos Fialho Panasco,
Cavaleiros do Norte de Zalala, mas aqui já em Vista
Alegre, em 1975

A cimeira decorria no Alvor e, lá pelo Quitexe, aos 11 dias de Janeiro de 1975, nada mudou para os Cavaleiros do  Norte. Aliás. lá chegavam (quase sempre) tarde as notícias - que os meios de comunicação desse tempo nada tinham a ver com a velocidade (instantânea) dos dias de hoje.

Ainda assim, e releio do Livro da Unidade, «a cimeira que iria definir os termos da negociação da independência de Angola polarizou todas as atenções». Como era óbvio. No Alvor, entre outras diligências, a reunião plenária debateu «o documento conjunto do MPLA, da FNLA e da UNITA», baseado na plataforma acordada em Mombaça.
«Foi com uma intensa sessão de trabalhos, que durou das 22 horas de ontem até ao começa da madrugada de hoje, que a Cimeira angolana entrou na sua fase verdadeiramente delicada e complexa, não só pelas naturais divergências de ordem política entre os três movimentos, como ainda pela posição firme, embora conciliadora do Movimento das Forças Armadas, apostado em garantir, também para Angola, uma via descolonizadora verdadeiramente progressista», reportava o Diário de Lisboa de há precisamente 41 anos.
Título do Diário de Lisboa de 11 de
Janeiro de 1975, sobre a Cimeira
Angolana do Alvor
Os trabalhos do dia 11 de Janeiro de 1975, ainda segundo o jornal vespertino da capital portuguesa, «foram recomeçados às 10 horas da manhã e interrompidos à hora do almoço, reatando-se «a conferência geral sobre Angola» às 16 horas. «Os trabalhos decorreram optimamente, dentro do clima de compreensão que tem caracterizado a cimeira, desde o seu começo». acrescentava o Diário de Lisboa.
Jonas Savimbi, presidente da UNITA, era indicado como podendo assumir «importante papel moderador, juntamente com o MFA, face a possíveis divergências de fundo entre o MPLA e a FNLA».
As declarações de vários dirigentes era de «optimismo constante», assim como nos «documentos oficiais já tonados públicos» - e nomeadamente nas declarações de Costa Gomes, o Presidente da República, que na abertura da cimeira quer em breves declarações aos jornalistas. Por estes interrogado, foi peremptório sobre o seu optimismo, quanto ao desfecho da Cimeira: «Pois claro. Se não, não estaria aqui», disse o Chefe do Estado.

domingo, 10 de janeiro de 2016

3 271 - Cimeira no Alvor e 280 mil milhões do orçamento angolano

Furriéis dos Cavaleiros do Norte na parada do Quitexe, em 1974: António José Cruz (rádio-montador), 
Cândido Pires e Luís Mosteias, falecido a 5 de Fevereiro de 2013 (sapadores), Francisco Neto (Rangers), 
José Pires e Nelson Rocha (transmissões)

A Cimeira do Alvor começou há
precisamente 41 anos, no Algarve, como se
lê na 1ª. página do Diário de Lisboa de 10
de Janeiro de 1975

A Cimeira do Alvor começou há precisamente 41 anos, uma sexta-feira - dia 10 de Janeiro de 1975. As delegações angolanas eram lideradas por Agostinho Neto (presidente do MPLA), Holden Roberto (da FNLA) e Jonas Savimbi (da UNITA). A portuguesa, pelos ministros Melo Antunes, Mário Soares e Almeida Santos e dois membros do Governo Provisório de Angola: o brigadeiro Silva Cardoso e o tenente-coronel Gonçalves Ribeiro. A abertura dos trabalhos presidia por Gosta Gomes, o Presidente da República, e foram participados igualmente por três elementos da Comissão Nacional de Descolonização: Fernando Reino (diplomata), tenente-coronel Passos Ramos e major Metelo.
O segundo ano do IV Plano de Fomento de Angola era
de 6,5 milhões de contos, em Janeiro de 1975 - ou seja,
179.145.037.200,16 euros, a valores de 2014 (tabela da Portdata).
Angola, como se vê na notícia do Diário de Lisboa de
10 de Janeiro de 1975, tinha «desafogo financeiro»
O segundo ano (1975) do IV Plano de Fomento Angola, foi anunciado nesse mesmo dia e no valor de 6,5 milhões de contos - segundo a Pordata, 179 145 037 200,16 euros, a valores de 2014
Diário de Lisboa noticiava que dava «prioridade ao investimento do sector dos transportes e comunicações». Seguiam-se a agricultura (19%) e a habitação (11,8%) - neste caso dando «relevo especial ao lançamento de infra-estruturas nos musseques de Luanda», para os quais «foi  destinada  verba de meio milhão contos»  - 137 803 874,77 euros,  a valores de 2014, segundo a tabela da Pordata. 
A «quase totalidade dos investimentos do plano», segundo Alberto Ramalheira (o Secretário de Estado do Planeamento Económico de Angola), seriam feitos «com receitas ordinárias do Estado» e para este desafogo financeiro «contribuiu decisivamente o alto rendimento do petróleo».
Estes números chegavam ao Quitexe pela imprensa de Luanda, ou através dos aerogramas e cartas do Alberto Ferreira - o meu amigo cabo especialista da Força Aérea que estava colocada no Base Aérea de Luanda e de lá me mandava recortes.
Pelas bandas do Uíge - lá pelo Quitexe, por Aldeia Viçosa e Vista Alegre/Ponte do Dange - os Cavaleiros do Norte continuavam tranquilamente (e expectantes) na espera de notícias. Segundo releio num «bate-estradas» do Alberto Ferreira, ele esperava-me em Luanda nesse fim de semana - pelo que o mais provável (a memória não me ajuda a ter certeza...) é que me tenha desenfiado para a capital, onde ao tempo ambos andávamos a «chocar» relações próximas com duas teen agers, por quem se agradaram os nossos olhos. «Ó pá, estão uns borrachos...», desconsolava-me o Ferreira, querendo «atrair-me» a Luanda. Outros tempos!!  

sábado, 9 de janeiro de 2016

3 270 - Comissão do MFA/BCAV. 8423 e Cimeira do Alvor

Grupo de furriéis milicianos à porta da (sua) casa, no Quitexe, em 1975: Aldeagas, Cruz (de óculos), 
Graciano, Rocha (boina na mão), Letras (?), Monteiro e Carvalho. De lado e à frente, o José Pires, de Bragança

Capa do Diário de Lisboa de 9 de Janeiro
de 1975, há 41 anos, sobre a cimeira do Governo
Português com o MPLA, a FNLA e a UNITA

A grande notícia de há 41 anos, no Portugal que (ainda) ia do Minho a Timor, era ser o dia da chegada das delegações do MPLA (liderada por Agostinho Neto), da FNLA (por Holden Roberto) e da UNITA (por Jonas Savimbi) para a Cimeira do Alvor.
«(...) é a consagração de 13 anos de luta armada dos movimentos de libertação de Angola», escrevia o Diário de Lisboa de 9 de Janeiro de 1975 - numa edição que dedicou toda a sua primeira página ( e parte da 19) ao acontecimento, acrescentando, nomeadamente, que (a cimeira) «não resolverá todos os problemas relacionados com a independência de Angola».
O dia já era o de véspera mas ainda nenhuma das três delegações angolanas tinha chegado ao Algarve. O avião da Air Zaire, que transportava a comitiva da FNLA, desde Tunes, tinha sofrido uma avaria (presumia-se) e a chegada das do MPLA e da UNITA estava previstas para a manhã, ou princípio da tarde, ao aeroporto de Faro, mas «a hora incerta». 
O Uíge, por onde jornadeava o Batalhão de Cavalaria 8423, só ao outro dia (ou mais) saberia destas diligências e os Cavaleiros do Norte expectavam sobre os efeitos da cimeira: anteciparia o nosso regresso a Portugal?  Mal sabíamos que tal apenas aconteceria em Setembro, daí a 8 longos meses. Por lá, continuavam os patrulhamentos, apeados ou auto e por  norma ao longo do alcatrão  - o mesmo quer dizer, ao longo da estrada do café.  Já não se realizavam operações militares nas matas.
O Diário de Lisboa de 9 de Janeiro de
1976, há 40 anos, admitia que Portugal poderia
reconhecer o Governo de Luanda - do MPLA
O comandante Almeida e Brito, nesse mesmo dia de há precisamente 41 anos, reuniu, no Quitexe, com a comissão do MFA/BCAV. 8423, com o fim de «obter da sua actividade o melhor rendimento».
Um ano depois (há 40!), já na Angola independente, admitia-se que Portugal reconhecesse o Governo de Luanda, liderado (até hoje) pelo MPLA. Portugal, recordemos, não tinha reconhecido a independência de Angola - devido ao contencioso militar entre os três movimentos, que os  levou, de resto, a cada qual declarar a independência: o MPLA em Luanda (a República Popular de Angola, a designação que continuou até hoje), a FNLA no Ambriz ( a República Popular e Democrática de Angola), acordada com a UNITA em Nova Lisboa (também República Popular e  Democrática de Angola).

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

3 269 - Apresentação dos Cavaleiros e Cimeira do Alvor

Cavaleiros do Norte do Quitexe: Jorge Vicente (de bigode, falecido a 21 de Janeiro de 1997), Victor Francisco,  
Joaquim Almeida (falecido a 28 de Fevereiro de 2009, Augusto Florêncio, Alberto Ferreira, João Pinto (à esquerda, 
seguidos de outros). Ao fundo, o alferes Jaime Ribeiro, NN, Fernando Soares, NN, Augusto 
Hipólito, João Messejana, Manuel Leal e alferes António Garcia

Alferes José Alberto Almeida, oficial
de reabastecimentos e justiça dos Cavaleiros do Norte,
aqui numa fazenda do Quitexe

A apresentação informal do pessoal do Batalhão de Cavalaria 8423 foi a 7 de Janeiro de 1974, mas no dia seguinte, «os contactos mais formais» decorreram com comandante Almeida e Brito, numa «reunião de trabalho a que estiveram presentes os quadros», às 9 horas e no Destacamento do RC4, em Santa Margarida. Era terça-feira e hoje se passam 42 anos!
O encontro foi precedido de  «uma palestra a todo o pessoal, na qual foram expressos os princípios e hábitos de vida que teriam de nortear os princípios e hábitos que teriam de nortear a vida do BCAV. durante o tempo em que, como unidade constituída, vivesse no C4 e na RMA» - a Região Militar de Angola.
Já em Angola e no Uíge, um ano depois, os Cavaleiros do Norte prosseguiam a sua jornada africana na maior das descontracções (salvaguardando sempre as suas responsabilidades operacionais), mas atentos ao processo de descolonização em curso. E este, do que sabíamos, tinha como grande notícia a realização da cimeira dos movimentos, com o Governo de Portugal, no Alvor - no Hotel Penina. 
Notícia do Diário de Lisboa de há 41 anos
sobre a Cimeira Angola da Penina, no Alvor algarvio
As delegações seriam formadas por 7 elementos, cada - do Governo Português, do MPLA, da FNLA e da UNITA, assistidos por juristas e técnicos. E o objectivo era «a constituição de um Governo de Transição, com  ministros portugueses e dos movimentos».
Já em 1976 e nesse dia 8 de Janeiro, «a situação no campo de batalha», segundo o Diário de Lisboa e reportando-se ao norte e como a sul do território angolano, dava a perceber que seria «muito pouco provável, se  não de todo impossível, que qualquer acção das forças invasoras possa ofuscar as vitórias obtidas pelas FAPLA nos últimos dias».
A FNLA, ainda segundo o DL, «encontra-se derrotada no seu próprio reduto - o norte - e a UNITA, forçada a uma dispersão de forças, a leste, não parece estar em condições de resistir muito tempo». Ia assim, há 40 anos, a Angola independente,

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

3 268 - O primeiro dia, há 42 anos, dos Cavaleiros do Norte

Oficiais dos Cavaleiros do Norte, na avenida do Quitexe e em frente ao edifício do comando: alferes 
milicianos Jaime Ribeiro e António Garcia (falecido, de acidente,a  2 de Novembro de 1979) e tenentes 
Acácio Luz e João Elóy Mora (falecido a 21 de Abril de 1993, de doença) 


Três furriéis milicianos da 3ª. CAV. 8423,
Cavaleiros do Norte da Fazenda Santa Isabel: Grenha
Lopes e Agostinho Belo (atrás) e Graciano Silva 

A 7 de Janeiro de 1974, uma segunda-feira e oriundos de um pouco de todo o país, a maior parte dos futuros Cavaleiros do Norte apresentou-se no Regimento de Cavalaria 4 (o RC4), em Santa Margarida, a unidade mobilizadora do nosso Batalhão de Cavalaria 8423 - a que, já desde os últimos dias de Dezembro de 1973, estavam a chegar alguns dos futuros quadros (oficiais e sargentos). 
Furriéis de Aldeia Viçosa: Jesuíno
Pinto, José Gomes. António carlos Letras
e Amorim Martins 
Os futuros praças (soldados e 1ºs. cabos) que há 42 anos se apresentaram no Destacamento do RC4 deveriam ter participado no quarto turno de instrução especial de 1973, mas este não se realizou «por condicionalismos diversos», como assinala o Livro de Unidade. Nesse dia de há 42 anos, conheceram o tenente-coronel Almeida e Brito (comandante do BCAV. 8423) e parte dos oficiais - nomeadamente os milicianos e os comandantes de companhia: os capitães António Oliveira (da CCS), Castro Dias (1ª. CCAV.), José Manuel Cruz (2ª. CCAV.) e José Paulo Fernandes (3ª. CCAV.). 
Um ano depois, em vésperas do início (dia 10) da cimeira inter-movimentos, não se confirmava a chegada de Agostinho Neto a Lisboa, «ou de qualquer outro destacado dirigente» do MPLA. Viana do Castelo, à data, era o local indicado para local da cimeira. Ofir, era outra probabilidade mas, como se sabe, viria a ser no Alvor (Algarve).
Furriéis de Zalala, da 1ª. CCAV. 8423: Américo
Rodrigues, Eusébio Martins, Jorge Barata (falecido a
10 de Outubro de 1997) e Plácido Queirós
O dia 7 foi também tempo para se saber que Jonas Savimbi, presidente da UNITA e na véspera, se encontrou com Leopold Senghor. líder do Senegal. E que, noticiava o Diário de Lisboa, «começou a desmembrar-se a Facção Chipenda» e que, em Serpa Pinto, «60 elementos aderiram ao MPLA». Em Nova Lisboa, «milhares de pessoas participaram no comício da FNLA», presidido por Hendrik Vaal Neto, com «uma mensagem de paz do presidente Holden Roberto». A FLEC insistia na independência do Enclave de Cabinda e, em Kinshasa, um seu comunicado referia que «o acordo de Mombaça (...) só diz respeito ao território de Angola».
Um ano depois,  a imprensa dava conta que «a FNLA encontra-se derrotada no seu próprio campo - o norte». E que a UNITA «forçada a uma dispersão de forças a leste, centro e sudoeste não parece  estar em condições de resistir muito tempo, sobretudo se se vir privada do auxílio do seu principal aliado, a África do Sul»

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

3 267 - Evacuação de Carmona e queda de Vista Alegre

Furriéis de Zalala, em momento descontraído: Américo Rodrigues,  Jorge Barata, José Louro, José 
Nascimento, Eusébio Martins (falecido a 16 de Abril de 2014, em Belmonte), Manuel Dias (falecido a
20 de Outubro de 2011, em Lisboa), Victor Velez e Victor Costa (à civil)

João Fernando Monteiro (Gasolinas) e Manuel
Augusto Marques (Carpinteiro), dois 1ºs. cabos da
CCS dos Cavaleiros do Norte na parada do BC12,
em Carmona (1975)


O Dia de Reis de 1975, no Quitexe, Aldeia Viçosa, Vista Alegre e Ponte do Dange, terras da jornada angolana do Cavaleiros do Norte, passou-se na tranquilidade dos deuses. 
Os três movimentos de libertação, reunidos em Mombaça, no Quénia, chegaram a acordo nesse mesmo dia, e consideravam  «inequivocamente o enclave de Cabinda como parte inalienável do território».
As conversações, segundo o Diário de Lisboa desse dia, «o acordo agora atingido representa um passo decisivo para o processo de descolonização de Angola» e a Presidência da República, em comunicado, «congratula(va)-se cm os resultados obtidos entre as delegações dos três movimentos emancipalistas».
O Diário de Lisboa de 6 de Janeiro de
1975 noticiou o acordo de Mombaça, entre o MPLA,
a FNLA e a UNITA
Um ano depois, já na Angola independente, a queda do Negage e de Carmona era considerada pelos jornalistas da imprensa estrangeira, em Luanda, como «uma perda irreparável para a FNLA», que a partir daí viu «a sua área de influência no Uíge reduzida a dois ou três pontos estratégicos de menor importância e mesmos estes seriamente contestados 
A FNLA está no fim», interrogava o
Diário de Lisboa de 6 de Janeiro de 1976, na
Angola já independente
pela pressão exercida pelo MPLA».
Soube-se também que a evacuação de começara no segundo dia do ano - 2 de Janeiro de 1976.
A 5, uma nota das Forças Armadas de Angola, anunciava a tomada de Vista Alegre (onde jornadeou a 1ª. CCAV. 8423, a do capitão miliciano Davide Castro Dias) e General Freire (Maxaluando) e, sobre Carmona, o comandante Júlio Almeida (Juju) comentou que «a quantidade de material de guerra apreendido, assim como outro material de abastecimento, é indiscritível, não se tendo feito ainda o balanço de tudo aquilo que os fantoches e invasores deixaram atrás de si, na sua fuga precipitada».
«Para além do material de guerra, foram aprisionados várias dezenas de soldados dos grupos anti-nacionais e entre os quais se encontravam numerosos soldados zairenses», disse o militar do MPLA, acrescentando que «uma parte considerável da população de Carmona não abandonou a cidade, tendo vitoriada a sua libertação pelas FAPLA, enquanto alguma população que se havia refugiado nas matas, começa a apresentar-se na cidade, onde é recebida como filha do povo».
Nessa manhã de Dia de Reis de 1976, o MPLA disponibilizou «transporte oficial para jornalistas angolanos e estrangeiros» visitarem a capital do Uíge - a mesma Carmona onde os Cavaleiros do Norte se aquartelaram até 4 de Agosto de 1975.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

3 266 - Comandante em Vista Alegre e queda de Carmona e Negage

O PELREC à saída para uma operação: Almeida (1º. cabo), Messejana, Neves, Soares (1º. cabo), Florêncio, 
Silvestre, Marcos, Pinto (1º. cabo), Caixarias e Florndo (1º. cabo enfermeiro). Em baixo, Vicente (1º. cabo), Viegas 
(furriel miliciano), Francisco, Leal, Oliveira (1º. cabo TRMS), Hipólito (1º. cabo), Aurélio (Barbeiro), Madaleno 
e Neto (furriel miliciano)

O furriel Américo Rodrigues, da 1ª. CCAV.
8423, a de Zalala, há 41 anos, com quatro
combatentes da FNLA, em Vista Alegre

O comandante Almeida e Brito, a 5 de Janeiro de 1975, deslocou-se a Vista Alegre pela «necessidade de estabelecer contactos operacionais», certamente acompanhado pelo capitão José Paulo Falcão, o oficial adjunto e de operações do (nosso) Batalhão de Cavalaria 8423.
Vista Alegre era o novo aquartelamento da 1ª. CCAV. 8423, comandada pelo capitão miliciano Davide Castro Dias - que também ocupava o Destacamento da Ponte do Dange. Ambas as localidades fica(va)m na Estrada do Café, que liga(va) as cidades de Luanda (a capital de Angola) a Carmona, denominada Uíge após a independência e capital da província do mesmo nome.
Ao tempo, a estrada era, recordemos, alvo de constantes patrulhamentos das NT, no sentido de «assegurar a liberdade de itinerários».
Notícia do Diário de Lisboa de 5 de Janeiro
de 1976 sobre a queda das cidades de Carmona
e do Negage, há precisamente 40 anos! 
Um ano depois e já na Angola independente, Carmona e Negage foram reocupados pelas FAPLA, o exército do MPLA. As duas localidades, reporta o Diário de Lisboa de 5 de Janeiro de 1976, «tinham grande importância política e militar para o movimento fantoche de Holden Roberto» - a FNLA.
Carmona era considerada como «a capital política da FNLA» e foi «libertada pelas FAPLA» na manhã do dia 5 de Janeiro desse ano, uma 2ª.-feira. 
O Negage e a sua base aérea eram «o mais importante ponto logístico do ELNA (o exército da FNLA) e do exército mercenário zairense, dado que através dela se canalizava todo o envio de material de guerra americano e de outros países ocidentais, em grandes aviões de carga C130 e C140». A sua queda ocorrera já no dia 3, o sábado anterior.
O Diário de Lisboa de 5 de Janeiro de 1976, há precisamente 40 anos, noticiava que «a libertação destes dois importantes redutos inimigos, segue-se a vitórias consecutivas das FAPLA, iniciadas com a tomada do Caxito, a 6 de Dezembro» de 1975, à qual se seguiram «as de Catete/Cangola, Tango, Luinga, Pambossonge, Camabatela, Quicabo, Balassende, Beira Baixa, Cabacassala, Águas Belas, Onzo e Nambuangongo». Com a queda do Negage, sublinhava o Diário de Lisboa de há 40 anos, «a FNLA iniciou a evacuação de Carmona, que hoje regressou ao controlo do povo angolano, liderado pelo MPLA». Hoje, dia 5 de Janeiro de 1976.
A libertação de Carmona e Negage foi considerada, ao tempo, «uma das maiores e mais importantes vitórias militares obtidas pelas forças populares angolanas na luta que vem travando contra a agressão estrangeira».
«As FAPLA marcham agora vitoriosamente sobre o Ambrizete, preparando-se para expulsar os invasores do seu derradeiro reduto na frente norte do país», reportava o Diário de Lisboa.
A 40 anos de distância, nem imaginamos como terão ficado as duas localidades e, em particular, a «nossa» Carmona! Resultados de uma guerra que derramava sangue de irmãos.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

3 265 - Morteiros em Carmona e acordo em Mombaça

Grupo de militares do Pelotão de Morteiros 4281. No destaque amarelo, está 
o alferes miliciano João Leite. A roxo, o 1º. cabo enfermeiro Esmoriz. Quem ajuda 
a identificar os restantes combatentes?


Os «morteiros» Valdemar e Pagaimo, num
momento de descontração no Quitexe. Em baixo, 

o crachá do Pelotão de Morteiros 4281


A 4 de Janeiro de 1975, completou-se a rotação do Pelotão Morteiros 4281, do Quitexe para Carmona, aquartelando-se no BC12. Era comandado pelo alferes miliciano João Leite e já estava na vila quitexana, quando lá chegámos a 6 de Junho de 1974. 
A rotação começara a 20 de Dezembro (de 74) e integrava-se no plano de reorganização operacional da zona de acção do Batalhão de Cavalaria 8423, os Cavaleiros do Norte, e, obviamente, do Comando do Sector do Uíge (CSU) e da Zona Militar Morte (ZMN). Era a chamada «mutação do dispositivo militar», que incluíra o abandono definitivo das fazendas Zalala (pela 1ª. CCAV., concluída a 25 de Novembro), Santa Isabel (3ª. CCAV., a 10 de Dezembro) e Luísa Maia (um pelotão, a 14 de Dezembro).
A rotação começara a 20 de Dezembro (de 74) e integrava-se no plano de reorganização operacional da zona de acção do Batalhão de Cavalaria 8423, os Cavaleiros do Norte, e, obviamente, do Comando do Sector do Uíge (CSU) e da Zona Militar Morte (ZMN). Era a chamada «mutação do dispositivo militar», que incluíra o abandono definitivo das fazendas Zalala (pela 1ª. CCAV., concluída a 25 de Novembro), Santa Isabel (3ª. CCAV., a 10 de Dezembro) e Luísa Maia (um pelotão, a 14 de Dezembro).
Notícia do Diário de Lisboa de 4 de Janeiro de
1975, sobre o acordo de Mombaça, entre
MPLA, FNLA e UNITA
O dia foi assinalado pelo histórico acordo de Mombaça, entre MPLA, FNLA e UNITA, «quanto à plataforma comum, antes das conversações institucionais em Portugal», como noticiava o Diário de Lisboa, acrescentando que também a distribuição das pastas ministeriais do Governo de Transição estava resolvida. O 1º. ministro seria da FNLA - que também pretendia a da Informação e a da Defesa, que, porém, competiria a Portugal. Os presidentes Agostinho Neto (do MPLA), Holden Roberto (FNLA) e Jonas Savimbi (UNITA) concordaram que cada movimento assumiria três pastas ministeriais, tantas quantas Portugal.
Savimbi, no final de uma reunião «rodeada de extremo sigilo e segurança» com Neto e Holden e muito optimista, afirmou em Mombaça que «as conversações estão a decorrer dentro de um clima de cordialidade».
O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, entretanto e a propósito de uma notícia divulgada pela Agência Reuters, negou ter «declarado que a missão oficial portuguesa no Zaire manifestou com firmeza às autoridades de Kinshasa que Portugal não tolerará quaisquer pressões ou interferências externas nos correntes esforços para transformar Angola num Estado independente».
«Nenhuma  declaração daquele tipo foi feita durante as conversações de Kinshasa, nem tão pouco na conferência de imprensa, como se poderá verificar pela gravação que naquela ocasião foi feita», acrescentava a nota oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

domingo, 3 de janeiro de 2016

3 264 - Patrulhamentos no asfalto e cimeira no Algarve

Alberto Ferreira, João Pinto (1º. cabo), Francisco Madaleno e João Marcos, 
atiradores do PELREC da CCS dos Cavaleiros do Norte, num momento de ócio


Os alferes Sampaio (de oficial de dia) e
António Garcia, com o furriel Viegas - momentos
antes da partida para mais um patrulhamento, com
o grupo que parcialmente se vê na Berliet


Aos três dias de 1975, no quente e sossegado Quitexe uíjano da saudosa terra de Angola, os Cavaleiros do Norte tinham a sua «actividade muito limitada, por grande falta de meios humanos», nomeadamente depois de, no mês anterior (Dezembro de 1974), ter sido dispensada «a prestação do serviço militar dos grupos de mesclagem».
O BCAV. 8423 tinha três, um em cada companhia operacional (Zalala, Aldeia Viçosa e Santa Isabel), cada qual com 36 homens, todos oriundos do Regimento de Infantaria 20 (RI 2), aquartelado em Luanda, e todos eles de etnia africana (negros). Como curiosidade, os mais velhos eram Sebastião M. Pedro, de Santa Isabel, e Mateus D. Manhanga, de Aldeia Viçosa, que seriam da incorporação de 1966 (nascidos em 1945) - sendo a generalidade de 1972 e 1973, alguns de 1971 e outros de 1972.
Por companhia e ano de incorporação, os mais velhos (em idade civil) eram:
- 1ª. CCAV. 8423, a de Zalala: Augusto D. Dala (de 1967) e Manuel Garcia (de 1968).
- 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa: Mateus D. Manhanga (de 1966) e Cipriano A. M. Costa (de 1969).
- 3ª. CCAV. 8423, a de Santa Isabel: Sebastião M. Pedro (de 1966), Francisco Caianga e Correia Gonga (ambos de 1967).
A redução de meios humanos obrigou, pois, a redobrado esforço da guarnição europeia. Historia o Livro da Unidade que «com algum esforço das tropas metropolitanas». Certo é que a actividade das NT, há precisamente 41 anos, passou a «quase somente ser conduzida ao longo do «alcatrão», em constantes patrulhamentos, apeados e auto, através dos quais se garante(ia) a nossa presença e a liberdade de itinerários».
Notícia do Diário de Lisboa de 3 de
Janeiro de 1975, há 41 anos, sobre
a cimeira angolana no Algarve
O dia, em Lisboa, foi assinalado pelo anúncio da realização, no Algarve, da Cimeira dos três movimentos com o Governo Português. Sagres e Monte Gordo eram os locais sugeridos. Viria a ser o Hotel Penina, no Alvor. Mas, a esse dia e segundo Almeida Santos (o Ministro da Coordenação Inter-Territorial), «a realização da Cimeira no nosso país depende, em última análise, do possível acordo entre os três movimentos de libertação, agora reunidos em Mombaça, no Quénia» - e que há precisamente 41 anos eram recebidos pelo Presidente Keniatta, «antes de iniciarem a cimeira preparatória das negociações com o Governo Português».

sábado, 2 de janeiro de 2016

3 363 - A pré-cimeira de Mombaça e os 23 anos do Mosteias

Cavaleiros do Norte no dia de Ano Novo de 1975: os furriéis milicianos Delmiro 
Ribeiro e António Fernandes (de mãos dadas e ao alto), Viegas, Agostinho Belo, 
Francisco Bento, Luís Filipe Costa (Morteiros) e António Flora. À frente, Ângelo 
Rabiço (de bigode e mão direita na perna), Graciano Silva e Joaquim Abrantes 
(de cachimbo), à porta da messe de sargentos do Quitexe


Os furriéis milicianos Viegas e Mosteias no
varandim da Casa dos Furriéis, no Quitexe,
em 1974, há mais de 41 anos!

O da 2 de Janeiro de 1975 foi de anos: os 23 do inesquecível (furriel) Mosteias. Anos vividos com intensidade e alegria, próprias da razão e pelo gosto imenso de se ter um amigo e companheiro como ele. Foram umas Cucas, ou Ekas, ou Nocais (vá lá a memória lembrar-se das cervejas que ao longo do dia nos refrescaram as gargantas) e, após a janta, um bons cálices de brandy Vital, ou Constantino, ou uns bons copos de gelo, aquecido com Monks, ou Old Parr, ou Chivas, até um Dimple, ou um mais modesto Johnnie Walker de malte legitimamente escocês. Era chic, «malhar» uns whiskys da garrafeira do bar de sargentos e que o Carlos Lages, sempre contra a vontade e com cara de poucos amigos, nos servia sempre em copos desaqueduados - o que para nós o mesmo valia.
Um sublinhado: o Mosteias, então pai há mais de 3 meses, caprichava a função de chefe de família e não nos dispensou de uns bons bifes com ovo a cavalo, nas mesas sempre apinhadas do Topete.  Faleceu Luís João Ramalho Mosteias a 5 de Fevereiro de 2013, vítima de doença. Aqui o evocamos com saudade!
Notícia do Diário de Lisboa de 2 de Janeiro
de 1975, sobre a pré-cimeira de Mombaça, entre
MPLA, a FNLA e a UNITA
O dia 2 de Janeiro de 1975, em Nairobi, no Quénia, foi tempo para a chegada dos presidentes dos três movimentos de libertação: Agostinho Neto (MPLA), Holden Roberto (FNLA) e Jonas Savimbi (UNITA). Ao que iam? O Diário de Lisboa, a ANI e a Reuters davam conta que ali iam «para uma conferência cimeira preparatória, durante a qual procurarão chegar a acordo entre si, com vista à próxima abertura de negociações com o Governo Português, sobre a independência de Angola».
A conferência estava marcada para Mombaça, também no Quénia, e os três dirigentes angolanos seriam recebidos pelo Presidente Kenyatta. Pretendia alcançar uma plataforma comum, para negociar a independência com Portugal - na cimeira anunciada para 10 de Janeiro desse ano de 1975, no Alvor.  

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

3 262 - Ano Novo de 1975 e 3 Cavaleiros em festa d´anos!

Ano novo (de 1975) no Quitexe. Grupo de furriéis à porta da messe: Bento, 
Rocha, Viegas, Flora, António Lopes (enfermeiro), Luís Capitão e Ribeiro 
(atrás). À frente, Carvalho, Belo, Grenha Lopes e Armindo  Reino - que festejava 23 anos

O Madaleno, atirador do PELREC (em destaque) fez
23 anos no dia de ano novo de 1975, no Quitexe. E a 3 de
Fevereiro seguinte, em duas datas. Na foto, reconhecem-se
o furriel Viegas, Marcos, Pinto, Caixarias e alferes Garcia (de
pé), 1º´s. cabo Oliveira (TRMS) e Hipólito, Madaleno
e furriel Neto



O dia de ano novo de 1975, há precisamente 41 anos, nasceu banhado de sol, depois de chuvadas nocturnas fortes, africanas, numa noite de corrida de S. Silvestre a algunsexcessos - próprios se rapazes que, aos 22 anos, estavam num ambiente de guerra, que é sempre hostil, por serenos que sejam (fossem) os dias que se passavam. Os jovens Cavaleiros do Norte não o desaproveitaram e. cada qual, viveu a passagem de ano à sua maneira e felizes -mais uns que outros.
Os furriéis milicianos António Carlos Letras (que
hoje faz 64 anos) e José Fernando Melo, ladeando
 o alferes João Machado. Todos da 2ª. CCAV . 8423,  a de Aldeia
Viçosa, mas aqui já em Carmona
A formatura geral das 8 da manhã, no meu caso, «despediu-me» do serviço de sargento de dia e, depois de um banho e sono apressado, «plantei-me» no bar e messe de sargentos, para a hora do almoço. Lá iam chegando, ensonados e pesados, os companheiros que haviam festejado pela noite dentro, bem comidos e melhor bebidos.
O dia foi tranquilo, lá pelo Quitexe. Assim como a véspera e noite de ano novo. «Procurou-se marcar a passagem do ano da 1974/75 em convívio fraterno e de paz, tal como as famílias civis do Quitexe o fizeram, tendo no seu seio as famílias dos militares aqui presentes, por impossibilidade de juntar todo o BCAV.», lê-se no Livro da Unidade.
O Ano Novo de 1974 foi também dia de 23 anos de pelo menos três Cavaleiros do Norte: os furriéis milicianos António Carlos Letras (da 2ª. CCAV. 8423, a de Aldeia Viçosa) e Armindo Reino (da 3ª. CCAV., mas ao tempo já no Quitexe). Este, com a curiosidade de fazer anos em dois dias; o do nascimento, a 28 de Dezembro de 1951 (e neste dia teria, então, feito os 23) e 1 de Janeiro de 1952 (quando foi registado). Outro aniversário curioso e duplo foi (e é) o do Francisco Madaleno, soldado atirador do PELREC. Nasceu a de Janeiro de 1952, mas só foi registado a 3 de Fevereiro seguinte. Assim era, naquele tempo.